Episódios de Modus Operandi

#316 - Família Bennett: um crime entre crianças

07 de maio de 202647min
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A família Bennett carregava um assassinato não resolvido desde os anos 1960, quando Charity Lee perdeu seu pai. E o peso desse passado voltou a assombrar sua vida anos depois, em 2007, quando uma tragédia aconteceu entre seus filhos, Ella e Paris.

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Assuntos8
  • O assassinato de Ella Bennett por Paris BennettParis Bennett · Ella Bennett · Charity Lee · Super Bowl de 2007 · Alucinações com demônio · Filmes snuff · Motivo: fazer a mãe sofrer
  • O nascimento e infância de Paris BennettParis Bennett · Charity Lee · Universidade do Tennessee · Ecologia Humana · QI acima de 140 · Comportamento antissocial
  • O assassinato de James Robert BennettJames Robert Bennett · Kyla Clara Lee · Bennett Trucking Co. · Clarence Jerome Phillips · Tom Cheron · Seguro de vida
  • O julgamento e sentença de Paris BennettParis Bennett · Tribunal Juvenil do Texas · Transtorno de personalidade sociopata · Psicopatia · Transtorno de personalidade antissocial · O.L. Lutter Unit
  • A vida de Charity Lee após a tragédiaCharity Lee · Kyla Clara Lee · Paris Bennett · Phoenix Bennett · Ella Foundation · Síndrome do estresse pós-traumático · Posse de armas no Texas
  • O nascimento e infância de Ella BennettElla Bennett · Paris Bennett · Charity Lee · Abilene, Texas · Recaída no uso de drogas · Problemas de saúde mental
  • A infância e adolescência de Charity LeeCharity Lee · Kyla Clara Lee · Carolina do Norte · Abuso doméstico · Vício em heroína · Reabilitação
  • O documentário e livro de Charity LeeA Família Que Eu Tive · How Now Butterfly · Charity Lee
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O programa a seguir pode conter inscrições de extrema violência e não é recomendado para pessoas sensíveis.

Eu sou a Carol Moreira. E eu sou a Mabê. O que leva uma criança a cometer um crime? Sentimento de negligência, desejo de punição, transtornos de personalidade? Existem muitas hipóteses e poucas respostas. E essa é a história de uma família que foi atravessada por crimes durante três gerações.

A história de hoje se passa no estado da Geórgia, que fica no sul dos Estados Unidos. E a gente começa ali no fim dos anos 60. Nessa época, o James Robert Bennett tinha 20 anos. Ele tinha se separado da sua esposa e tinha casado com a sua cunhada de 16 anos, a Kyla Clara Lee. O Robert, o Bobby, trabalhava com o pai num ferro velho.

E eles se envolviam em algumas atividades ilegais. A gente não sabe muito bem no quê. O que importa é que a Kyla teve a ideia de abrir uma empresa de transportes. E o marido se uniu a ela e juntos eles fundaram a Bennett Trucking Co. Então, lá para os anos 70, essa empresa já estava bombando. Ela era uma das maiores no ramo de transporte de correspondência.

E a Kyla vinha de uma família abastada. E mesmo sendo o Bob que ajudou a fundar a empresa, era ela que tocava mais a empresa falando de finanças e tal. Então, eles tinham uma vida ali de alto padrão. Aos 22 anos, a Kyla teve uma bebezinha, a sua filha, Charity Lee. Só que conforme o tempo foi passando, o casamento dela com o Bob foi indo de mal a pior. Até que antes da filha fazer seis anos, eles se separaram e a Kyla ficou com a guarda dela.

E aí, lá por volta de 79, mãe e filha estavam morando em Marieta, uma cidade subúrbio que faz parte da área metropolitana de Atlanta, a capital da Georgia. Uma coisa curiosa sobre Marieta, a cidade tem um frango gigante. Num cruzamento bem famoso, que é na Cobb Parkway com a Roswell Road, existe um marco que praticamente todo morador conhece, o Big Chicken.

É uma estátua enorme de aço com cerca de 17 metros de altura instalado num restaurante do KFC desde 1974. Os moradores costumam dar direções, sabe? Usando tipo frangão. Ah, se perdeu, procura o frangão gigante e vira à esquerda. E a gente achou interessante trazer isso aqui porque é bem peculiar, né?

E Marieta sempre foi vista como uma cidadezinha tranquila, lá com seu frango gigante, tudo de boa. E o Bob nunca foi muito bom pai, não. E depois da separação, então, é aí que ele sumiu de vez. Ele vivia viajando, se enrolando com outras mulheres, passava semanas sem ver a filha. E aí, em março de 1980, a gente não sabe muito bem como, o Bob reatou o romance com a Kyla. Eles chegaram a viajar para Las Vegas e se casaram lá de novo. Eles renovaram os votos no dia 9 de maio.

março. Mas algo terrível aconteceu em seguida. 57 horas depois da renovação dos votos, o Bob foi encontrado morto.

O Bob, ele vivia num bairro de alto padrão, lá em Marieta. E aí o corpo dele estava no saguão da mansão onde ele morava. Ele foi baleado várias vezes na nuca. E o caso foi bem polêmico. Nos jornais, a morte foi noticiada como um apagamento envolvendo o crime organizado da Georgia. E fazia sentido pensar nisso, né, dele estar envolvido com o crime organizado, porque ele realmente estava cometendo crimes.

Ele tinha algumas peças de carro roubadas, contrabando de drogas. E ele administrava uma empresa de transporte de correspondência, né? Só que a polícia não foi por esse caminho. Desde o início, a principal suspeita era a Kyla. E aí, no fim, ela foi indiciada por assassinato junto com Clarence Jerome Phillips, que era um ex-funcionário ali da empresa deles. O promotor do caso, Tom Cheron, disse na época que as autoridades ainda não estavam prontas para dizer quem realmente tinha atirado no Bob.

E a acusação alegava que ambos participaram como mandantes do crime, que ajudaram, incentivaram e contrataram outra pessoa para executar o assassinato. O Chairman afirmou também que os investigadores não conseguiram encontrar um motivo único. O que eles descobriram foi uma pólice de seguro de vida de 100 mil dólares no nome do Bob. E que o casal, ele com a esposa, viviam em constante pé de guerra. E isso não ajudava nada o cenário para a Kyla.

Ela foi presa e passou seis semanas em prisão preventiva. E daí enfrentou mais seis semanas no julgamento. A gente não achou muitas informações sobre o tal do Clarence, né? Esse possível parceiro de crime da Kyla. Aparecem mais coisas sobre ela, né? Quando a gente vai pesquisar.

Mas, mesmo com esse cenário contra a Kyla, ela conseguiu convencer o júri e foi inocentada. Ela acreditava que rolou algum tipo de conspiração contra ela, justamente porque o marido tinha um pé ali na ilegalidade, né? Mesmo sendo declarada inocente, isso não a isentou de ser julgada pela sociedade. E a Kyla era abordada no supermercado. As pessoas paravam e perguntavam, foi você que matou seu marido?

E a Charity sofria na escola, né, com os comentários dos colegas, que diziam que a mãe dela tinha matado o próprio pai. Então, gente, assim, imagina, né, como é que é o bullying quando acontece esse tipo de coisa, que as crianças também sofrem muito, né.

E aí, nessa situação, a Carla resolveu se mudar pra Carolina do Norte, lá no sudeste dos Estados Unidos, que é um lugar bem famoso pelas montanhas. E ela tentou reorganizar a vida com a filha e tal, até se casou novamente, a gente não sabe exatamente o ano, mas foi antes da Charity fazer 11 anos. Só que o marido era uma pessoa muito desagradável. Ele era abusivo, ele era viciado em drogas. E nisso, a Charity começou a presenciar a mãe sendo agredida.

E a Kyla estava cada vez mais emocionalmente indisponível. Eles estavam vivendo uma situação muito difícil ali. Quando a Chayart completou 13 anos, ela ganhou um álbum cheio de recortes de jornal sobre o julgamento da mãe.

O presente veio da avó, que achava que a garota tinha que tirar as próprias conclusões sobre a morte do pai. Gente, imagina que confusão a cabeça de uma criança de 13 anos, que a avó vem falar, olha, sua mãe talvez matou seu pai, olha aqui esse álbum de coisas pra você ficar lendo aos 13 anos, assim. Que absurdo, né? Já é uma idade difícil, né, pra adolescência ali, então assim, a Charity já tinha esse peso do pai morrer, separou, aí casou de novo, não sei o quê.

Enfim, então, nesses recortes, a Charity descobriu que, no julgamento, a mãe confessou que tinha ido atrás de um possível contrato de assassinato, mas foi mais por curiosidade. Nunca foi comprovado o envolvimento dela no assassinato do Bob, então a Charity também leu isso, mas essa história aí de, tipo, foi atrás de um cara, né? E isso ligou um alerta ali pra Charity.

E ela foi percebendo que a mãe não falava muito sobre o pai. Quando ela perguntava alguma coisa, a Kayla falava só coisa ruim, né? Que ele atraía, que ele era alcoólatra, que ele era horrível, que ele não passava tempo com a filha. E essa relação entre mãe e filha foi desmoronando.

O que também é normal ali, né? Na fase da adolescência, né? Os pais viram os inimigos. Eu odeio você, né? Mas claro que, né, gente? Um divórcio, aí um assassinato, aí casou com outro cara. Tudo isso era muito pesado também ali pra Charity, né?

Sim, é muita coisa, muitos traumas para lidar. E a Cherty começou a achar que a mãe não gostava dela, que ela tinha herdado algo ruim do pai, e aí a mãe achava alguma coisa assim dela. E essa suspeita silenciosa foi crescendo junto com ela. Os efeitos desse passado complicado ainda ecoariam muitos anos depois, inclusive na forma como ela própria construiria sua família.

Brasil, vem série nova de True Crime aí e é o documentário sobre o Pico dos Marins. É um documentário baseado no podcast do Marcelo Mesquita, que inclusive veio aqui no Modos conversar com a gente sobre esse caso. E foi um negócio super esquisito que rolou em 1985. Um escoteiro chamado Marco Aurélio, de 15 anos, desapareceu numa expedição nessa montanha, no Pico dos Marins, que fica aqui em São Paulo, na região da Serra da Mantiqueira.

E faz 40 anos que a família está procurando por ele. Tem várias teorias. A gente fez um episódio aqui contando mais dessas teorias. É o episódio 151. O podcast do Marcelo é o original Globoplay. Fez um baita sucesso, passou de um milhão de downloads. E agora virou uma série documental também do Globoplay. E uma coisa legal é que agora a gente tem os elementos visuais dessa história toda. Então a gente vai poder ver como é esse morro, ver como é o Marco Aurélio, as buscas na região, as escavações. Então é muito legal assistir.

Esse Pico dos Marins é um dos pontos mais altos do Brasil, então acho que agora vai dar pra ter uma noção melhor da vastidão daquele lugar. E eles criaram algumas dramatizações também filmadas em Super 8 pra combinar com o formato utilizado na época, assim. E o Marcelo Mesquita continua super envolvido, tem novos desdobramentos na história, entrevistas com a família, informações inéditas da investigação.

Então, complementa muito para quem ouviu o podcast e para quem não ouviu nada, também vai ser super legal para conhecer essa história. O Marcelo faz um trabalho incrível, então a gente quis muito prestigiar ele aqui e dar essa dica para vocês. Não percam, Pico dos Marins, o caso do escoteiro Marco Aurélio, sai no Globoplay a partir do dia 12 de maio.

Enquanto Kylie enfrentava um casamento abusivo, a Charity começou a notar que o casal vivia no mundo próprio, que ela meio que não tinha acesso, assim. E ela foi se isolando da maneira dela, do jeito que dava. E aí, no final da década de 80, ela estava com o cabelo curtinho, escuro, tinha um olhar pesado, muita coisa ali para lidar. Ela estava com 15 anos e começou a experimentar algumas drogas.

Ela chegou a sair de casa para morar com o namorado e ela mergulhou numa rotina bem pesada. Quando ela terminou a escola, ela já estava viciada em heroína e ela sabia disso. E depois de anos de uso, de quase ter uma overdose, uma infecção grave causada por agulhas sujas, a Charity chegou no seu limite. Ela sabia que se não parasse, ela ia morrer. Aos 17 anos, ela decidiu voltar para a casa da mãe e ela implorou que ela queria tratamento.

A Kayla, então, internou a filha, a Charity foi para a reabilitação, se desintoxicou, saiu da clínica sóbria e voltou para casa. Só que as coisas não melhoraram com a mãe, e muito menos com o marido abusivo dela, que ainda estava por ali. Ela voltou para o mesmo lugar que fez ela se viciar em drogas, né? Aquela família ali meio disfuncional.

E aí ela acabou caindo nisso de novo. Na véspera do Natal de 1990, a Kyla deu 100 dólares pra filha e disse que ela podia usar esse dinheiro pra buscar ajuda ou pra encontrar um canto qualquer e ter uma overdose. Olha que pesado pra falar isso pra filha, né? Sim.

Como se não bastasse se sentir rejeitada pela mãe, aos 17 anos ela percebeu que ia precisar tocar a vida sozinha muito cedo e ainda se recuperar de um vício terrível em drogas. Então, foi um período que parecia o fundo do poço. Ela gastou 50 dólares em cocaína e 50 dólares em gasolina e foi atrás de uma casa de recuperação. Ela não estava mais na Carolina do Norte. Ela estava agora em Knoxville, no sul dos Estados Unidos.

Ela conseguiu se internar numa clínica e ficar limpa de novo. Passou a frequentar reuniões de alcoólicos anônimos. Aos poucos, a Kyla foi reconstruindo a própria vida. Conseguiu entrar numa faculdade, na Universidade do Tennessee, e ela escolheu estudar Ecologia Humana, com foco familiar. E esse curso basicamente estuda como a família e o ambiente influenciam o desenvolvimento das crianças.

E essa formação faz todo sentido, né, pensando em como foi a infância dela. E nessa faculdade a Charity encontrou alguma estabilidade, mas ainda era muito difícil, ela tinha muitas questões de saúde mental e tinha essa abstinência de drogas, que deve ser algo muito pesado, né, difícil. Até que ela decidiu que ela iria colocar um limite ali, que se em três meses ela não se sentisse melhor...

ela acabaria tirando a própria vida. E foi nesse período que ela descobriu algo que a fez desistir desse plano. Ela estava grávida. O bebê fez com que ela desistisse do plano de suicídio. E pouco tempo depois de engravidar, o pai da criança foi embora. Não se sabe muito sobre esse cara, mas parecia que ele tinha bastante problemas psiquiátricos também, entre eles esquizofrenia e paranoia.

De qualquer forma, a Charity ficou sozinha ali e tentou dar um jeito seguindo com a gravidez. No dia 10 de outubro de 93, nasceu um menino, Paris Bennett. A Charity era bem jovem, né? Ela tinha cerca de 19 anos. E ela tinha muito medo de perder a guarda do filho, então ela não se envolveu mais com drogas, o filho acabou virando o centro do seu mundo, ele era muito amado.

Então, de alguma maneira, a maternidade realmente ajudou ela ali a organizar melhor a vida dela. Durante a infância, o Perry se mostrou uma criança muito excepcional ali. Ele era muito carismático, era a cara da mãe, ele tinha um cabelo castanho e um sorriso super largo. Ele ia muito bem na escola, era muito criativo, adorava desenhar, era calmo.

Tinha vários amiguinhos, era super querido e era muito inteligente. Ele tinha o QI acima de 140, o que é considerado altíssimo. Para se ter uma ideia, a classificação de uma inteligência média é entre 90 e 110. No entanto, pequenos sinais de alerta começaram a aparecer ainda na primeira infância.

Um dia, quando ele estava com três aninhos, a família estava no rancho lá na Carolina do Norte. Uma casa que ficava na encosta de uma colina, com uma varanda bem alta, com cerca de três metros. E aí, depois de tempestades, era muito comum aparecerem sapos ali no terreno. E a Charity encontrou o Paris com cerca de 15 sapos em um balde. Ele estava jogando os animais da varanda.

Dela perguntou o que ele estava fazendo e ele respondeu de forma fria que ele gostava do barulho que eles faziam ao bater no chão. E lá embaixo, alguns sapos estavam mortos, outros estavam feridos. E aí a Charity disse que eles deveriam acabar com o sofrimento dos animais, mas o filho não quis fazer isso. Então ela mesma acabou ali matando os sapos.

Na época, ela achou que isso era um teste de limites, enfim, algo que é também comum das crianças fazerem. Além disso, o Perz apresentava outros comportamentos que chamavam a atenção. Às vezes, ele batia com a própria cabeça contra a parede, quebrava copos de vidro com as próprias mãos.

Isso foi acontecer eventualmente, ela ficava de olho. Enquanto o Paris ia crescendo, a Charity conheceu um outro homem, que a gente não tem o nome dele. Eles se casaram e ficaram juntos por um tempo. E quando o Paris tinha entre 8 e 9 anos, ela engravidou novamente. Só que o Paris não ficou muito animado com a ideia de ter uma irmã.

Mas até aí, isso é muito comum, né? O filho até então é um filho único. Tem a mãe só pra ele por anos e anos. E de repente vai ter que dividir essa tensão. É muito importante que os pais tenham esse cuidado, né? De dar atenção ao filho mais velho quando tá grávido ali. Do bebezinho. Isso é muito normal. Às vezes ele se sente deixado de lado, né? São sentimentos normais aí. É, de quando você tem irmãozinhos, né?

E daí, quando o Perry estava com 9 anos, em 12 de abril de 2002, a Cherto deu à luz a Ela. Fica confuso, gente, às vezes falar Ela, porque o nome da criança é Ela, né? Parece uma grande repetição ali do pronome. Então, vamos lutar. Vamos lutar.

Mas, enfim, o casamento do Chert com o pai da Ella não durou muito. Ele era alcoólatra e a Chert ficou bem preocupada com isso, então ela resolveu se separar até para proteger os filhos. E aí, mais uma vez, a gente tem um pai ausente, né? Ele não visitava nem nada, não se envolveu muito ali na criação da Ella.

E apesar de não ter gostado muito da ideia de ser irmão mais velho, o Paris acabou se apaixonando pela irmã. E aí, conforme ela foi crescendo, ela também, né, foi tendo carinho ali pelo irmão. Eles tinham uma relação muito próxima. O Paris cuidava dela, escolhia as roupas que ela usava. E a menininha até dizia que o Paris era tipo o stylist dela, sabe? Aquela pessoa que escolhe as roupas que usa e tal.

Ela era uma garotinha loira, de olhos azuis, tinha uma expressão bem forte. Como assim, se já tivesse opinião sobre tudo, sabe? Era extrovertida, era muito independente e autêntica desde muito cedo. Todo mundo que conhecia a família dizia que a Charity tinha sorte de ter um filho tão cuidadoso com a irmã.

Em vídeos caseiros e tal, os dois irmãos estão sempre juntos, brincando. Mas é claro que o Paris também fazia coisas de irmão mais velho, né? Roubava os brinquedos da ela, cutucava, provocava. Normal. Quando o Paris estava com 10 anos, a família já estava morando em outra cidade, na Abilene, no Texas, que fica a uns 250 quilômetros de Dallas ali. E nessa época, a Charity teve uma recaída e voltou a usar drogas, dessa vez cocaína.

Isso foi muito pesado para o Paris. Ele se sentiu negligenciado e meio que foi assumindo uma responsabilidade de cuidar da irmã. E nessa época, a Charity estava com muitos problemas de saúde mental. Ela sentia muita culpa materna também de estar com vergonha por não conseguir oferecer uma estabilidade para os filhos. Apesar das dificuldades, ela foi conseguindo ficar sóbria novamente, porque o maior medo dela era perder a guarda dos filhos.

Quando o Paris tinha 12 anos, ele estava provocando a ela e a mãe deu uma bronca nele. Ele acabou ficando muito nervoso, pegou uma faca e saiu correndo para fora. Então, conseguiram pegar ali a faca dele, ele largou e desabou no chão chorando. Depois disso, a Charity e a Kyla, a mãe dela, começaram a perceber que talvez o Paris estivesse passando ali por um momento mais delicado, talvez uma depressão.

E a Cherry estava bem preocupada que ele pudesse se machucar, tentar alguma coisa. Então, decidiu levar o filho para um hospital psiquiátrico. E aí, o Paris ficou internado por uma semana. Durante esses dias, ele foi excessivamente educado com a equipe de enfermagem.

Ele participou das atividades em grupo, ele conversava com os médicos de uma forma muito articulada. Até o vocabulário dele estava impressionando, assim, as pessoas. Ele não parecia uma criança perigosa, mas sim um menino sensível, incompreendido pela própria família. E como a situação estava ali boa, né, tranquila...

A Charity pediu então que ele tivesse alta e a equipe médica foi a favor. Ela queria muito que as coisas melhorassem, né? E esse ambiente hospitalar psiquiátrico deixava a Charity muito assustada. Ela ficava com uma sensação de culpa, como se ela não fosse uma mãe boa.

E aí ela pediu a alta, muito com a ideia de que o que aconteceu foi um episódio isolado, que não iria se repetir, os médicos não viram sinais de psicose ou algum perigo eminente, justamente porque o Paris se comportou muito bem para garantir a saída. Então, o Paris nunca recebeu um diagnóstico sobre o que aconteceu. Os médicos sugeriram terapia para ele lidar com essa dinâmica familiar e tal, que aparentemente foi isso que tirou o menino dos eixos naquele episódio da faca.

A situação pareceu resolvida, mas depois desse susto, a Chert passou a tomar muito cuidado com o que poderia deixar o Paris nervoso ou engatilhado. E a menininha, né, a ela, mesmo sendo pequenininha, teve que aprender ali a ser compreensiva com o irmão, né, quando ele tinha algum comportamento estranho. Então, em um domingo, no dia 4 de fevereiro de 2007, a Chert levou a família para um passeio antes de ir trabalhar.

Eles foram para o shopping e lá começou um mal estar, porque o Paris deu uma emocionada ali e gastou muito dinheiro. A gente não sabe exatamente se ele recebia uma mesada, se ele estava com dinheiro, mas enfim, ele meio que se mimou demais. E daí a Cherto deu umas broncas nele, né? Para tentar explicar para ele da importância de valorizar o dinheiro.

Os três voltaram para casa, então, e aí a mãe foi se arrumar para o trabalho. E ela chamou uma babá para tomar conta ali das crianças. O Paris continuava chateado por ter levado uma bronca. E aí, antes de ir para trabalhar, a mãe foi lá, deu um beijo nele, se despediu, normal. Então, a babá chegou. Nessa época, a Charity trabalhava num restaurante que transmitia alguns esportes, a Buffalo White Wings.

É uma rede bem conhecida nos Estados Unidos. Eles são expertos em asinhas de frango e tal, e tem vários telões espalhados ali nos restaurantes. A gente não sabe exatamente o que a Charity fazia lá, se ela era garçonete ou gerente ou alguma coisa, mas naquele dia aconteceu o Super Bowl de 2007, que é a final do campeonato de futebol americano.

Que acabou virando um acontecimento lá nos Estados Unidos. Gera muito movimento nos restaurantes, tem show. Então, como a Cherty trabalhava num bar de esportes, seria um expediente que iria até mais tarde, né? E, só por curiosidade, aquele Super Bowl em si foi icônico. Pela primeira vez, dois técnicos negros se enfrentaram na final. E ainda teve um show do Prince, que foi assim, né? Um bafo, ele cantou Purple Rain e tava chovendo. Tipo, gente... E é o Prince, né? Tipo assim...

E ainda choveu em Miami em fevereiro e ele ia cantar Purple Rain. E choveu na hora, uma tempestade. Gente, bafo, icônico. Absoluto cinema. É. E daí a Charity tava lá no seu turno trabalhando, até que por volta de meia-noite chegaram policiais lá onde ela trabalhava. Eles chamaram ela na sala do gerente e contaram que algo tinha acontecido com a filha dela.

Eles foram aos poucos explicando que a menina estava ferida. Só que conforme foram conversando, eles acabaram revelando que, na verdade, ela estava morta. E na mesma hora, a Charity perguntou do Paris, né? E foi aí que eles disseram que tinha sido ele que tinha matado a própria irmã.

Vamos voltar um pouquinho no tempo para tentar entender o que aconteceu na casa aquela noite. Enquanto a Chery estava no trabalho, o Paris convenceu a babá a ir embora. Não tem como a gente saber exatamente o que ele disse, como fez isso, mas em algum momento ali ele ficou sozinho com a irmã. Enquanto a ela estava dormindo, ele resolveu pegar uma faca e atacar a criança.

Depois do ataque, o Paris ligou para um amigo, um amiguinho. Os dois conversaram por uns seis minutos. Isso que você está ouvindo.

Como se nada tivesse acontecido, eles conversaram sobre o Super Bowl e só depois disso ele ligou para a emergência. E sabe o que ele disse? Ele contou que matou a irmã. Na ligação, ele parece estar chorando, meio desesperado. Disse que matou alguém sem querer. E ele fala que fez isso porque teve uma alucinação com um demônio. Ele explica que usou uma faca que estava ali do lado do corpo da irmã.

A atendente pediu pra ele fazer massagem cardíaca, mas o Parris disse que a irmã tava morta, que não tinha necessidade disso. Ainda assim, a atendente insiste, né, pede pra ele cooperar.

E aí ele disse que fez, só que os investigadores descobriram depois que ele nunca tentou reanimar ela. Para fazer a massagem, ele teria que mover o corpo dela. E ele não moveu. Depois que a polícia levou o Paris, ele não quis mais ver a mãe. Ela passou seis horas sentada no carro ali no estacionamento da delegacia e ela usava um moletom por cima da cabeça. Ela estava ali, enfim, né, gente, tentando processar o que estava acontecendo.

Pensa na cabeça dela, né? Não só a morte de uma filha, mas você saber ainda que o autor de uma coisa tão cruel era o irmão dela, né? Era o outro filho dela. Ela ficou completamente destruída. Mas, gente, ela é mãe, né? Ela ainda tinha ali o Paris pra lidar, pra criar, pra cuidar. Então, isso também, de certa forma...

fazia ela pensar que ela precisava passar por isso para conseguir lidar com ele. No dia seguinte, 5 de fevereiro, a Cherty foi visitar o filho no reformatório e ele aceitou ver a mãe. Ela chegou abraçando ele e o Paris não abraçou a mãe de volta e ainda soltou um tom meio desafiador.

E agora, o que você vai fazer? Por que isso? Porque a Charity já tinha dito, em outra ocasião, que se alguém machucasse seus filhos, ela seria capaz de matar. E naquele momento, o filho tinha matado a outra filha dela. Então, ela ficou meio chocada de ver o Paris falando aquilo para ela. Era como se algo nele tivesse mudado.

E os dias seguintes continuaram assim, ela visitando o filho, ele muito apático, até que no dia 27 de fevereiro, ele estava estranho, meio irritado, com tédio. A Charity achou que era alguma coisa a ver com o que aconteceu, né? Que ele estava arrependido, sei lá. Mas não, sabe o que estava rolando? Ele estava frustrado porque ele não poderia receber livros na detenção.

Era isso que estava se passando na cabeça dele, ele estava preocupado com ele. Enquanto ele sucumbia ao tédio lá dentro, a Charity estava no mundo aí, enfrentando a mídia, o conselho tutelar, uma pressão muito forte, e investigaram se tinha rolado algum abuso, tentando encontrar alguma explicação para o menino Matardman.

E aí, no fim, acabou caindo a culpa toda no colo da mãe, né? O que ela teria feito de errado? Como que ela transformou o filho num assassino? A Cher estava ali tentando processar todos os cenários possíveis e ainda tinha o fato de que se o Paris pudesse voltar para casa, ela mesma não se sentia segura. Ou seja, ela estava com medo do próprio filho. E, claro, mesmo com medo, ela continuava visitando ele.

E no dia seguinte, no dia 28 de fevereiro, ele resolveu falar da morte da irmã. Ele voltou a comentar a história do demônio. Disse que ele acordou que viu uma criatura com cabeça de abóbora em chamas e que tentou proteger a irmã. Parecia uma coisa meio de Halloween, sabe? Tipo aquelas lanternas de abóbora.

A Charity queria acreditar. Ela queria pensar que foi um surto psicótico, mas algo incomodava ela. Ela sentia que o filho não estava demonstrando arrependimento, que ele não derramou nenhuma lágrima. Enfim, eu não sei nem como é que deve ser isso, né, gente? Porque...

É tantas nuances pra pensar, tipo, ela tá passando por uma... Ela tem medo, ela tem uma dor terrível pelo que aconteceu com a filha. Ao mesmo tempo, é só uma criança, sabe? Ele é muito novo, ele não...

Não consegue elaborar as coisas direito. Então, assim, não dá pra saber o que tá acontecendo de fato com ele. E tem tudo aquilo que a gente fala, né, gente? Demonstrar, chorar e tal. A gente sempre espera isso. E acha que isso significa que a pessoa realmente sofreu. Só que a pessoa pode sentir culpa sem precisar chorar, né? As pessoas...

se comportam de maneiras diferentes. A questão é, era uma situação muito delicada, muito difícil, e ela tava sentindo o filho dela muito frio, né, em relação àquilo. Mãe é mãe, né? Ele continua sendo seu filho. Deve ser um sentimento muito conflitante. Exatamente. Ela não quer abandonar ele, mas ao mesmo tempo ela tá sentindo uma dor terrível, tá sentindo medo. Tá com medo, né? São muitas coisas ao mesmo tempo.

Quem investigou o caso descreveu o comportamento do Paris como muito frio e calculista. Para os policiais, ele repetiu a mesma história, de que viu um demônio, que ele achou que estava protegendo a irmã, e o laudo da autópsia mostrou que a ela tinha múltiplos ferimentos de faca e sinais de luta, que ela tentou se defender de alguma forma. Pela internet, aí circulam uns boatos sobre outros detalhes, tipo semei na cama, nos shorts que o Paris usava, mas isso nunca foi confirmado oficialmente.

Uns 45 dias depois do crime, isso já era 21 de março, os investigadores soltaram uma bomba para a Charity. Eles contaram que o Paris tinha visto pornografia e filmes violentos antes de matar a ela. Sim, gente, um menino de apenas 13 anos. E não era qualquer coisa, eram filmes do gênero snuff. São aqueles que simulam assassinatos reais de um jeito muito realista.

Tipo a Serbian Filme, Holocausto Canibal, títulos que por si só são bem pesados, que te faz ficar na dúvida se é verdade ou não. E a polícia também disse que ele golpeou a irmã com 17 facadas e que foi metódico, que foi calculado. Que os peritos repararam que os movimentos eram lentos e não rápidos, né, como deveria ser ali num episódio de surto.

E o Parris descreveu para a polícia que a sensação era desfaquear um colchão ou um marshmallow. E saber todos os detalhes do crime, a maneira como aconteceu e tal, tornou tudo muito mais difícil para a Charity. Ela ficou muito mal e aí, uns dias depois, ela resolveu confrontar o próprio filho. No dia 28 de março, o Parris confessou que matou a ela de propósito. E o motivo? Porque ele queria fazer a mãe sofrer.

Pela primeira vez em muito tempo, a Charity viu uma expressão autêntica no rosto do filho. E era meio prazer.

Quando ela foi embora, ele ainda deu um sorriso meio estranho, parecia uma coisa meio malvada, e ela ficou muito chocada, muito chateada. O Perry sabia que o avô tinha sido assassinado, que aquele crime tinha causado um grande trauma na família da mãe, na vida da mãe. Então, assim, que estranho tudo isso, essa atitude dele. E as revelações continuaram. Meses depois, em 22 de novembro de 2007, o Perry confessou mais coisas.

que tudo foi planejado. Ele decidiu matar a ela no ano anterior, no jantar de ação de graças. E a data dessa confissão não foi coincidência, era exatamente o dia de ação de graças, que é aquele feriado americano onde as famílias se reúnem para agradecer as bênçãos do ano e tudo mais. Ele tinha começado a arquitetar esse plano no dia de ação de graças, enquanto a babá dirigia de volta para casa depois do jantar.

E aí, no dia do crime em si, ele tinha acordado com vontade de machucar alguém. Então, a irmã não era o alvo principal ali, ele pensou na babá, pensou em sair, encontrar alguém na rua e tal, mas a ela estava ali, era um alvo fácil. A Chert buscava tentar entender o que é incompreensível. Ela perguntou, mas se você queria tanto matar, por que você não escolheu um dos gatos? Ele disse que ele amava os animais, que ele não conseguiria machucá-los.

As perguntas não tinham resposta. Foi influência, foi genética, ela falhou como mãe. Ela tentava lidar com a dor de saber que o Paris conhecia a história do avô, né? E que nunca foi totalmente esclarecido, mas que aquele padrão ali estava se repetindo. E foi aí que, em meio a esse turbilhão, uma outra relação começou a se transformar.

A com a própria mãe dela, a Kyla. A história entre as duas sempre foi conturbada. A Kyla reconheceu, né, com o tempo, que não deu a atenção que deveria, né, pra filha. Ela chegou a admitir que precisou escolher entre ser mãe presente e ter uma vida própria.

E que por muito tempo acabou priorizando a segunda opção. Só que depois do assassinato da Ella, alguma coisa mudou. A relação foi ficando mais tranquila. A Carla estava presente, ela deu apoio à filha. Não que fosse apagar o passado, sabe? Mas isso ajudou a Cher ali naquele momento. A acusação do Paris foi assassinato capital, que é o crime mais grave do sistema americano. É um homicídio com circunstâncias agravantes. E que em tese pode levar até a pena de morte. Música

No caso dele, um dos fatores agravantes era a idade da vítima, 4 anos. Só que o Paris tinha 13 na época do crime.

Dois anos antes da sentença dele, a Suprema Corte Americana tinha decidido uma coisa bem importante, que executar menores de idade é inconstitucional, ou seja, não pode jamais. E no Texas, a idade mínima para julgar um menor de idade como adulto era 14. Então ele foi processado no Tribunal Juvenil. E ali, diante do juiz, o Paris admitiu sua culpa. No dia 21 de outubro de 2007, nove meses depois do crime, saiu a sentença.

Ele pegou a pena máxima permitida no tribunal juvenil do Texas, 40 anos de prisão, com possibilidade de liberdade condicional depois de cumprir metade. E no sistema juvenil do Texas, a ideia é reabilitar o jovem. Então, eles passam por acompanhamento psicológico, programa de comportamento, e o Estado tem que fornecer educação também, né? Porque geralmente está ali em idade escolar obrigatória. Então, tinham essas questões.

E em 2009, eles classificaram com transtorno de personalidade sociopata. E depois foram descobrindo mais coisas. Que o Parrish tinha pensamentos homicidas desde os 8 anos de idade. E que isso era expressado através de desenhos violentos e perturbadores.

Mais tarde, passaram a classificar o Paris como psicopata. Nos Estados Unidos, essa classificação geralmente acontece depois da aplicação de um teste chamado PCL-R, que é The Psychopathy Checklist Revised. Em português, seria Lista de Verificação de Psicopatia Revisada.

Quem desenvolveu isso foi o Robert Hare, um psicólogo forense que é do Canadá. E o campo de pesquisa dele era psicologia criminal. Ele criou essa metodologia nos anos 70. É usada muito até hoje. Inclusive, ele está vivo. O Robert tem 92 anos hoje. Está aposentado, né? A gente falou muito do Robert Hare, das pesquisas dele, no nosso livro.

Modus operandi, guia de true crime. Eu sei tudo da vida do Robert Hare e tudo que ele estudou. A gente leu muito essas coisas, né? De psicopatia, sociopatia e tal. Então, assim, esse teste é considerado o principal para avaliar a psicopatia. Ele ajuda a prever se alguém pode voltar a matar no futuro e tal.

Só que tem um problema que os estudos chamam de lealdade adversária. Na prática, a nota do teste pode mudar completamente dependendo de quem contratou o perito. Se foi a acusação que pagou, a pessoa sai lá como psicopata, a pontuação máxima. E se foi a defesa, ele sai, ah, não é tão assim, veja bem, né? Então, é meio complicado isso, até porque... É enviesado, né? É enviesado, até porque os psicopatas, como a gente já falou no livro, em diversas vezes, eles são muito...

ardilosos, eles conseguem enganar as pessoas muito bem. Então, se ele quer sair bem no teste, ele consegue também, né? E no caso do Paris, rotular ele como psicopata ainda na adolescência era meio polêmico. Muitos especialistas falam que nessa idade o caráter ainda está se formando, que esses traços podem ser parte do desenvolvimento, enfim.

O que acontece é que nos anos 80 se falava muito nisso, mas também a gente sabe que hoje esse termo hoje em dia nem é mais usado. Ele é substituído por transtorno de personalidade antissocial, o famoso TPAS. Só que esse é um diagnóstico muito amplo. Ele pega muita gente que tem comportamentos antissociais e em níveis bem diferentes.

Agora, quando a gente olha para o psicopata, como é falado, é uma outra história. Esse termo ainda é usado na literatura científica, só que não é um diagnóstico sozinho. Ele aponta para um grupo mais específico e mais grave dentro desse transtorno de personalidade antissocial. São pessoas que têm aquele perfil de frieza emocional, falta de empatia, um charme meio superficial. E alguns estudos mostram que tem uma base genética forte por trás.

Em 2012, o Paris foi transferido para a O.L. Lutter Unit, uma prisão de segurança média e máxima lá no Texas. Ele tinha 19 anos e estava deixando o sistema juvenil para entrar no adulto. Em 2027, ele vai poder pedir a sua liberdade condicional, porque ele vai ter cumprido 20 anos da sentença. E, se ele for cumprir a pena toda, ele pode sair em 2047 aos 53 anos de idade.

Agora, se ele pedir a liberdade condicional, que eu acho que vai rolar, a nota dele no teste PCLR pode ser um problema, porque no Texas esse resultado tem um peso muito maior. O Estado usa esse teste em audiências de custódia, de liberdade condicional, para determinar se o detento ainda é perigoso.

Depois do assassinato, a vida da Charity nunca mais foi a mesma. Ela passou por um choque muito grande, né? Tarefas simples como levantar da cama, comer, responder perguntas, exigir um esforço absurdo. Ela ficava revisando tudo na cabeça, conversas, rotinas, detalhes do dia a dia.

Ficava tentando encontrar sinais que ela poderia ter percebido, tentando entender se ela poderia ter evitado. E aí veio o dilema. Como continuar sendo mãe da pessoa que matou o seu outro filho? O homem materno não desaparece, mas o relacionamento deles mudou completamente. Conversar com ele era difícil, mas não falar com ele, ela ia se sentir pior ainda.

O mais difícil pra Cher, tu não foi escolher entre amar ou não amar. Mas foi tentar entender que o amor e o medo estavam coexistindo ali. Cara, é muito difícil, assim. Eu não consigo imaginar. É uma dor muito grande. A pessoa que mais te fez mal é a sua filha. Também é seu filho. Mas ele tá vivo, o outro não tá mais vivo. E aí você corta totalmente, né? Eu acho que…

Sei lá, não sei nem como é possível lidar com isso, falando sério, assim. Muito difícil. E ainda pra piorar, depois do que aconteceu, a Charity virou uma figura pública, né? O caso repercutiu na mídia, na cidade em que ela morava. E as pessoas comentavam, né? Sobre a maternidade dela, aquelas coisas, né? Por que seu filho fez isso? Então era culpa dela.

Ou você ensinou tal coisa. É, ou até falando do Paris em si, né? Que ele era visto como um monstro, não sei o quê. Só que a Charity, mesmo tendo esses sentimentos conflitantes, ela não gostava de ver o filho dela retratado dessa forma, né? E, realmente, ela nunca tinha visto sinais claros de violência nele, direcionado a pessoas, assim.

E ela já até tinha chegado a pensar que ele ia machucar a si mesmo, mas ele nunca imaginou que ele ia fazer algo com outra pessoa, muito menos com a irmã dele. Mas foi isso, com o tempo ela foi seguindo, ela fez terapia, deu algumas entrevistas e até escreveu sobre a sua experiência.

Ela também criou projetos para ajudar outras vítimas de violência. Em 2011, nasceu a Ella Foundation. E o nome não é só uma homenagem, porque em inglês as letras significam empatia, amor, lições e ação. Ela criou a fundação para ajudar vítimas de crimes violentos e pessoas afetadas por doenças mentais. Ela sabia que ela não ia ter a filha de volta, mas talvez tudo isso que aconteceu pudesse ajudar outras mães a não perderem seus filhos.

Ela também voltou a se relacionar, conheceu uma pessoa e engravidou novamente. Mas a relação com esse homem não foi pra frente. Em junho de 2013, a Charity deu à luz a um menino. E ela chamou ele de Phoenix.

que é o Fênix, né? O pássaro que nasce das cinzas. E não foi uma escolha aleatória. Ela sentiu que depois de tudo que ela viveu, esse era uma pessoa, um nome que representava aquele momento, que era o renascimento dela. Infelizmente, com apenas seis dias de vida, o Fênix passou por uma cirurgia no coração. Foi uma recuperação difícil, mas deu tudo certo.

A Cherry construiu uma nova vida com esse filho mais novo e voltou a amar a vida. O Phoenix sabia da história dela e do seu outro irmão, o Paris, que estava preso. O que ele não sabia era o motivo dele estar na prisão. E o Paris, ele tinha uma certa relação ali com o irmão. Eles mantiveram uma relação por meio de cartas e ligações. Ele dizia que ele amava muito o irmão, do mesmo jeito que ele amava ela.

A Charity sempre esperou que o Paris pudesse ter com o Phoenix uma relação amorosa. Então, quando ela viu que eles estavam se dando bem e tal, ela ficou muito feliz. Alguns anos depois, em 2017, a Charity, a Kyla e o Paris participaram do documentário A Família Que Eu Tive, que reconstrói tudo o que aconteceu em 2007. O documentário mostra como ficou tudo entre eles e que, apesar de todas as questões, eles tentavam manter uma relação minimamente ali, uma família.

Dois anos depois, em 2019, a Charity escreveu um livro, How Now Butterfly, que é uma memória de assassinato, sobrevivência e transformação. A gente vai deixar os nomes em inglês certinho, que sempre tem uns nomes enormes, né? Uns subtítulos. A gente vai deixar tudo no nosso site, modosoperandipodcast.com, assim como a gente sempre coloca fotos, links, referências, enfim, várias coisas lá.

Esse título é uma referência de um livro infantil que ela lia pra ela, que é o How Now Brown Cow, que seria E aí, Vaca Marrom? Alguma coisa assim. E aí ela amava essa historinha e tal. E esse livro da Charity é como se fosse um diário, assim. Não tem muita ordem cronológica, ela vai contando. É um trabalho bem emotivo. Ela revisita as memórias, analisa os pensamentos dela, tentando dar sentido a tudo que aconteceu. Em 2019, aos 26 anos, o próprio Paris reconheceu que destruiu a família.

E que perdeu a chance de crescer de uma forma convencional. Mas tem uma coisa que ele nunca expressou. Arrependimento. Ele assumiu as consequências do que fez, sabe, né? Do que aconteceu. E que a vida tomou um rumo completamente diferente depois daquela noite.

No início da pandemia, em 2020, a Charity descobriu que o Perry estava namorando uma mulher. Ele atraiu a atenção de muitas dessas mulheres, sabe? Que mandam cartas para pessoas na prisão, mulheres que querem namorar presidiárias. E essa mulher, ela estava em liberdade condicional. O crime dela era relacionado a um planejamento de tiroteio em massa.

E a Charity ainda descobriu que a namorada do Paris era amiga, por correspondência, do Dylan Roof e de outros assassinatos super controversos. O Dylan, especificamente, é um supremacista branco, neonazista, que matou nove pessoas negras numa igreja em Charleston, na Carolina do Sul, em 2015.

Não sabemos como a Charity recebeu essas informações, mas isso deu muito estresse pra ela, muito trauma, né? E atacou um pouco o transtorno de estresse pós-traumático, enfim. Tudo que ela tava lidando nos tempos anteriores, terapia e tal, ela bugou, assim. Ela começou a ficar super noiada, achando que essa mulher ia aparecer na casa dela, que ia tentar matá-la. E ela decidiu que ela ia se proteger de alguma forma.

E vocês sabem que na cultura dos Estados Unidos, eles associam isso muito com armas. No Texas, principalmente, a posse de armas de fogo lá é um direito do cidadão, de acordo com a segunda emenda, e é uma coisa da tradição local, da caça, enfim.

Inclusive o Texas é um dos estados com o maior número de cidadãos armados. E a Charity entrou nessa estatística, ela comprou uma arma e aprendeu a usar. Ela não estava apenas com medo de morrer, mas de que algo pudesse acontecer com o Phoenix. E aí ela tomou uma decisão e foi até a prisão falar com o Paris. Ela sentou com ele e falou todos os motivos que levaram ela a tomar essa decisão. Que ela não conseguia mais, que ela amava muito ele, que ela fez tudo o que poderia fazer por ele, mas que ela ia se afastar.

E o Paris apenas olhou pra ela e perguntou se ela tinha mais alguma coisa pra dizer. Ela disse que não podia mais viver daquele jeito. Então ele concordou, levantou e saiu. E desde então, a Chert não teve mais notícias do filho.

Em outubro de 2025, a Charity anunciou o fechamento permanente da Ella Foundation, depois de 13 anos processando seu trauma e ajudando outras pessoas. Ao longo desses anos todos, esse caso resultou em documentários, entrevistas, livro, palestras. Nas redes sociais, a Charity disse que sentiu que tinha cumprido a promessa feita à filha, fazer algo significativo surgir da perda dela.

A fundação acabou, mas ela já tinha em mente outros planos. Ela ficou um período longe, assim, das redes e agora começou a voltar, aos poucos. Hoje, aos 52 anos, ela está escrevendo um novo livro. O foco vai ser diferente do anterior. Vai ser sobre as suas memórias, pensando num lado positivo dessa vez.

A vida com o Phoenix continua feliz e recheada de gatos. Ela tem cerca de seis gatos. Em outubro de 2025, ele pediu à mãe que parasse de publicar coisas sobre ele e desde então ela parou de mostrar o rosto do filho. Hoje o Phoenix deve ter uns 12, 13 anos. Ele tem transtorno de déficit de atenção com hiperatividade, que é o TDAH.

Ele estuda em casa com a mãe e ele já teve, inclusive, o QI testado, que é 132, também super inteligente, como seu irmão, o Paris. Nos Estados Unidos é muito comum esse negócio de ficar testando o QI, né? Enfim. E quanto ao Paris, desde que aconteceu o afastamento da Charity, a gente não tem muitas informações sobre ele.

A vida dele continua sendo uma grande espera, seja pelo momento em que ele possa pedir liberdade condicional ou pelo fim da sua pena. A história da família Bennett é um daqueles casos que desafiam qualquer explicação simples. Como uma criança é capaz de matar outra?

O áudio no início do episódio é da Ináia Morim. Obrigada por apoiar a gente.