Alemanha rearma-se e “vai ser a principal potência europeia no domínio estratégico e militar”
Um ano depois de Friedrich Merz ter assumido o cargo de chanceler na Alemanha, o episódio desta semana do podcast Diplomatas tem como tema principal os planos e a estratégia de rearmamento da principal potência económica da União Europeia.
Carlos Gaspar e Alberto Cunha analisaram o contexto político, económico e geopolítico que sustenta o objectivo alemão de ter o “maior Exército convencional” até 2030, numa era de retraimento militar dos Estados Unidos na Europa e de alteração das relações da Alemanha com a Rússia e com a China.
Convidado desta semana no Diplomatas, o professor auxiliar do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa avaliou ainda as dificuldades e desafios internos do Governo CDU-SPD, num cenário de consolidação do apoio popular à AfD, de extrema-direita.
Carlos Gaspar reflectiu ainda sobre os problemas da Rússia e de Vladimir Putin na guerra da Ucrânia, em vésperas das comemorações russas, em Moscovo, do Dia da Vitória da União Soviética sobre a Alemanha Nazi, no final da II Guerra Mundial.
Por fim, os investigadores do IPRI comentaram os últimos capítulos do conflito no Médio Oriente, nomeadamente a decisão da Administração Trump de suspender a missão naval de escolta de navios mercantes no estreito de Ormuz, ao fim de menos de dois dias de tensões na via marítima com o Irão.
Se tiver alguma pergunta para Teresa de Sousa e Carlos Gaspar ou sugestão de tema para debate no Diplomatas, envie um email para antonio.lima@publico.pt ou podcasts@publico.pt.
Texto de António Saraiva Lima
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António Sareva Lima
Carlos Gaspar
Alberto Cunha
- Rearmamento AlemãoFriedrich Merz · Política de defesa da Alemanha · Retirada militar dos EUA da Europa · Relações Alemanha-Rússia · Relações Alemanha-China · Governo CDU-SPD · AfD · NATO 3.0 · Fundo de 100 mil milhões de euros para defesa · Fundo de 500 mil milhões de euros para infraestruturas críticas e defesa · União da Defesa Europeia · Dimensão nuclear
- Guerra na UcrâniaVladimir Putin · Dia da Vitória · Impasse na guerra · Ataques da Ucrânia contra território russo
- Conflito no Oriente MédioDonald Trump e a NASA · Estreito de Ormuz · Irão · Missão naval de escolta de navios mercantes · Acordo de 2015 · Enriquecimento de urânio · Agência Internacional Atómica · Israel · Hezbollah · Síria · Arábia Saudita · Emirados Árabes Unidos · Paquistão
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Não estamos mais isolados. A solidariedade europeia não nos faltará. Diplomatas, um podcast de análise da atualidade internacional com Teresa de Sousa e Carlos Gaspar.
Sejam muito bem-vindos a mais um episódio do podcast Diplomatas, uma parceria entre o Jornal Público e o IPRI. Estamos a gravar este episódio ao início da tarde de quarta-feira, dia 6 de maio. Eu sou o António Sareva Lima. Neste programa, para além de contarmos como habitualmente com o investigador Carlos Gaspar, recebemos com todo o gosto o Alberto Cunha.
professor auxiliar no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, investigador do IPRI e do IDN e comentador da CNN. Alberto, muito obrigado por ter aceitado o nosso convite de vir aqui ao Diplomatas. Eu tenho visto alguns comentários no nosso site sobre o porquê da ausência da jornalista Teresa de Sousa. Ela continua a gozar de umas férias bem merecidas. Regressa ao podcast no final deste mês.
Aproveitando a participação do Alberto e as suas áreas de interesse e de investigação, neste episódio vamos dar especial atenção a um tema sobre o qual já queríamos falar há algum tempo aqui no Diplomatas, o rearmamento da Alemanha, no dia em que Friedrich Mestre se cumpre um ano à frente do governo alemão. Vamos falar sobre a política de defesa do país e não só.
Também no contexto das decisões do Presidente dos Estados Unidos de retirar soldados e de suspender o envio de armamento para a Alemanha e olhar para os últimos desenvolvimentos da guerra na Ucrânia, em vésperas da realização das cerimónias do Dia da Vitória em Moscovo. No final do programa, refletiremos sobre a situação no Médio Oriente, depois de Donald Trump ter suspendido, ao fim de apenas dois dias, a missão naval de escolta de navios no Estreito de Hormuz.
Deixem-me só, antes de me dar aqui a nossa conversa, reforçar o apelo e o convite aos nossos ouvintes para enviarem perguntas e propostas de temas para discutirmos aqui no Diplomatas. Podem fazê-lo enviando um e-mail para antonio.lima.publico.pt ou para podcast.publico.pt. Começando então a nossa conversa pela Alemanha, a maior potência económica da União Europeia está a rearmar-se e a querer reinventar a sua política industrial de defesa.
Citando os desenvolvimentos ao longo do último ano, incluindo no Irão, e afirmando que a Rússia está a preparar o terreno para um ataque militar contra a NATO, estou a citar, o governo alemão prevê aumentar os seus gastos militares até 3,1% do PIB já em 2027, ou seja, um aumento superior a 105 mil milhões de euros.
A nova estratégia militar da Alemanha tem o objetivo declarado de transformar as forças armadas do país no exército convencional mais forte da Europa, com 260 mil soldados e 200 mil reservistas em 2030.
Há ainda planos para a indústria automóvel alemã, que tem sido massacrada pela concorrência chinesa, por exemplo, mas também pelas constantes tarifas, ameaças de tarifas do governo americano, de apostar na produção de armamento. Esta estratégia alemã é acelerada pela intenção do governo Trump de retirar 5 mil soldados norte-americanos destacados na Alemanha nos próximos 6 a 12 meses.
e de não instalar a multi-domain task force de mísseis de longo alcance no país, que tinha sido acordada entre Joe Biden e Olaf Scholz em 2024. Alberto, o que é que destaca destes planos da Alemanha para a sua defesa? Bom dia, é um prazer estar aqui com o professor Carlos Gaspar e consigo. António, é um excelente podcast que eu aliás já via em casa.
Bem, na verdade esta transição começou em 2022 e acelerou-se o ano passado com a subida ao poder do novo governo de coligação liderado por Friedrich Merz. Em primeiro lugar, esta é uma transição, e antes de irmos aos números, é uma transição normativa, ou seja, a Alemanha neste momento já mudou a forma como pensa sobre o mundo.
E existem alguns conceitos que eram referidos quando se falava da Alemanha antes, por exemplo, o conceito de potência civil de Hans Moll, mas eu aqui tenho que chamar a atenção que nós não podemos interpretar mal o que este conceito significava. A Alemanha não era necessariamente um país pacifista. O que a Alemanha acreditava era que a esmagadora, se não todos os seus problemas politico-económicos, tinham uma solução politico-económica.
E que se houvesse um problema militar, nomeadamente seria a NATO e a última nao dos Estados Unidos, que resolveriam esse problema. Ora, o que aconteceu e que levou a esta transição e que levou a todo este reanimamento é que a Alemanha hoje já não acredita nisso. A Alemanha hoje já não acredita que os meios político-económicos são suficientes para resolver os problemas político-económicos com que se depara e com que a Europa se depara. Portanto, essa transição é essencial para perceber.
E depois há uma segunda transição, e António referiste um pouco quando falaste da questão da concorrência chinesa no setor dos automóveis. Se nós pudermos simplificar e depois podemos explorar mais esta questão, desde a sua reunificação em 1990, e nomeadamente desde o longo reinado da senhora Merkel como chanceler, começou em novembro de 2005, a Alemanha tinha...
As seguintes relações com as três principais potências mundiais. Os Estados Unidos garantiam-lhes a defesa, a Rússia vendia-lhes energia barata e a China proporcionava um mercado que permitiu à Alemanha manter taxas de crescimento invejáveis mesmo durante o pior da crise euro. Ora, todos estes três fatores estão completamente destruídos. Ou seja, os Estados Unidos, neste momento, não aceitam.
de ser um poder hegemónico no sentido de providenciar bens públicos e aqui a hegemonia tem que ser entendida no sentido de um poder que proporciona esses tais bens públicos em troca de aliança e de projeção de poder não uma hegemonia, digamos, ao tempo nazi, não temos nada a ver. O conceito de hegemonia é muito incompreendido.
E passou dessa lógica para uma lógica, no mínimo, transacional e muito ideológica. E eu discordo, por exemplo, a ideia de que os Estados Unidos são realistas. Esta administração é uma administração altamente ideológica. E isso afeta essa previsão de defesa. No caso da Rússia, nós já sabemos porque é que a Rússia deixou de ser um fornecedor e o problema para a Alemanha e para a Europa, e a Alemanha depende mais de energia do que a maior parte dos países europeus, porque depende mais da indústria do que a maior parte das economias dos países europeus.
E, portanto, isso significa que eles são muito afetados. E o que a Europa pôde fazer até agora foi trocar a dependência da Rússia por outras dependências. Por exemplo, o Catar, e nós estamos a ver agora com a crise do Médio Oriente como essa dependência é aguda, ou os próprios Estados Unidos, ou países como a Noruega e a Argélia. Mas concorda que esta administração Trump, esta nova maneira dos Estados Unidos de orar para as relações internacionais é o acelerador desta transição, mais do que a Rússia ou do que a China?
É, só que é tudo ao mesmo tempo. Ou seja, é tudo ao mesmo tempo. O Carlos diz que não. O rearmamento... O rearmamento... A gente não concorda quase sempre. Eu acho que são os três fatores. E acho que o rearmamento vem neste contexto. E, por exemplo, se nós vemos as declarações de Colby, que é um dos principais responsáveis da defesa dos Estados Unidos, ou a famosa estratégia de segurança nacional, nós vemos que os Estados Unidos preconizam uma NATO 3.0. Esta é a expressão de Colby no seu discurso.
de fevereiro, em que os aliados têm que garantir a sua própria segurança e nós lemos entre linhas em que os Estados Unidos só providenciarão de defesa se os aliados providenciarem a sua própria segurança e se se rearmarem, comprando profissionalmente.
material americano, é que isso é a segunda parte da moeda. E eu posso dizer aos telespectadores que a semana passada tive num evento aqui em Lisboa que teve o embaixador português Nanato e o embaixador dos Estados Unidos Nanato, e esta mensagem de que os europeus devem comprar armamento americano foi dita de forma direta pelo embaixador dos Estados Unidos Nanato, portanto isto não é algo que estamos a teorizar. É neste contexto que surge o rearmamento.
O rearmamento consiste em quê? Ou em o dinheiro que já foi feito. Qualquer pessoa que trabalha em procurement sabe que o procurement é, digamos, quando há toda uma contratualização, estudar quais são os materiais que são necessários, quais são as melhores opções no mercado.
Tudo isto demora muito tempo. Quando o chanceler Olavo Schultz fez o famoso discurso do Zeitung Vendt, ou seja, mudança dos tempos, uma semana, menos de uma semana depois da invasão da Ucrânia, a 22 de fevereiro, aquilo que aconteceu imediatamente em termos de dinheiro foi um fundo de 100 mil milhões de euros, que foi gasto exclusivamente na defesa. Até ao final do ano passado, 82% destes 100 mil milhões já tinham sido, digamos, contratualizados.
Ou seja, não quer dizer que o material já esteja, ainda não está, mas já foi contratualizado 82%.
E quando o Mertes chegou ao poder no ano passado, no início do ano passado, fevereiro, ele neste momento estava numa coligação com o SPD como parceiro minoritário, ambos já agora relativamente mal na sondagem, não sei se vamos falar disso. Eles fizeram um fundo, fizeram dois elementos, na verdade, um fundo de 500 mil milhões de euros para infraestruturas críticas e defesa, e já agora estes 500 mil milhões de euros enquadram-se um pouco naquilo que é a visão.
dos capability targets da NATO, que são os 5%, mas na verdade não são 5% para a defesa, são 3,5% para a defesa e depois 1,5% para as infraestruturas críticas. Portanto, estes 500 mil milhões serão gastos durante 12 anos dessa forma, mais uma viragem histórica no que são as regras fiscais da Alemanha. Ou seja, não é só dinheiro.
que vai ser gasto, é a possibilidade de governos futuros alemães poderem gastar dinheiro na defesa ou infraestruturas críticas consideradas importantes para a defesa, como, por exemplo, infraestruturas de transporte, tecnologia dual use, isto pode ser, depois, debatido, sem passarem as regras do déficit. Porque, além das regras do déficit europeus, a Alemanha tem regras do déficit muito apartadas, impostas para eles próprios e reforçadas em 2009. Pronto, e é neste contexto...
que surge o rearmamento. Último ponto que eu queria falar, antes de falar do que é o contexto interno da Alemanha. No que é o contexto externo, obviamente que há aqui, no mínimo, duas questões, eu prometo ser sintético, sobre o que é que este rearmamento vai causar. Em primeiro lugar, nem todos os vizinhos da Alemanha estão secretamente muito satisfeitos da Alemanha se poder vir a tornar a principal potência militar da Europa. Ainda está muito longe de o ser.
E em 2002 a Alemanha nem sequer tinha capacidade, estava completamente, nem estava desarmada, estava despreparada para fazer uma guerra. Um grau de despreparação absolutamente chocante. A França, por exemplo, se calhar não está, ou muitos dos que são os decisores franceses,
privadamente não estão se calhar tão satisfeitos de verem a Alemanha como principal potência militar europeia? Se calhar os polacos também não. E, portanto, saber de que forma este rearmamento alemão se enquadra numa política de defesa europeia é uma das grandes questões em aberto. E os sinais têm sido muito mistos por parte do governo Mertz, porque, por um lado, refere várias vezes que quer a defesa europeia, tal como a França diz, mas, tal como a França diz, nem sempre a prática...
remete para isso. E, por exemplo, algum do dinheiro que já foi contratualizado com o primeiro fundo foi gasto em material israelita e americano, ao contrário do que são as preferências do governo francês, que, aliás, introduziu no que são os programas do SAFE e outros programas, outros fundos que foram disponibilizados pela Comissão Europeia o ano passado e que Portugal também se candidatou.
A França queria impor uma preferência de comprar material europeu mais forte e a Alemanha não foi a favor disso. Essa é a primeira dimensão e nós não sabemos o que é que vai desembocar, se é uma, por exemplo, nós temos agora o Comissário da Defesa a propor um tratado de uma União da Defesa Europeia, isto tem duas semanas, ou seja, há uma confusão sobre exatamente de que forma é que isto vai tratar. E a segunda dimensão é a dimensão nuclear.
E se eu aqui há 10 anos viesse a um podcast respeitável dizer que a Alemanha está a discutir a dimensão nuclear diziam que eu era louco, mas nós vemos quanto o mundo avançou em 10 anos o debate já existe e o debate também se inclui numa estratégia francesa de estender o seu deciso à azor mas só o facto de o debate se quer existir nós percebemos, e volto ao início da minha resposta que a mudança da mentalidade da Alemanha é que é decisiva e já não vai voltar para trás
Muito bem. Carlos, eu pegava aqui na primeira dimensão que o Alberto falou, porque no caso alemão há aqui obviamente uma, não sei se uma transformação, uma evolução psicológica do país, num país assombrado pelo seu passado nazi que agora quer se quer projetar como a maior força militar europeia.
Eu li aqui há uns dias um artigo de opinião do historiador Timothy Gartenach no Guardian e ele questionava-se, lembrando obviamente do papel da Alemanha na Segunda Guerra, como é que se pode garantir que desta vez que o crescimento do poder militar alemão constitui um desenvolvimento positivo para toda a Europa? Eu pergunto-lhe exatamente isto.
A Alemanha Federal é uma democracia, e isso faz toda a diferença. E sim, a Alemanha mudou. O Sigmar Gabriel, o antigo ministro de Escócio Estrangeiros, dizia que a Alemanha, os europeus de resto, eram vegetarianos no mundo de carnívoros. A Alemanha está a preparar-se para ser omnívora, mas está a caminho ainda não escolar. E, obviamente, vai ter uma transformação radical.
com o aumento dos gastos na defesa e arredores. A Alemanha vai cumprir o objetivo dos 5% em 2029 e, desde o próximo ano, em termos de volume bruto, o seu orçamento de defesa vai ser igual à soma dos orçamentos da França e da Grã-Bretanha. Aliás, a Alemanha já é o principal país europeu na tabela.
do CIPRI, que é uma referência internacional, é o quarto atrás dos Estados Unidos, da China e da Rússia, a gastar em defesa, ultrapassou, portanto, a Grã-Bretanha, entre outros, ultrapassou a Grã-Bretanha e a própria Ucrânia. A Alemanha vai ser a principal potência europeia no domínio estratégico e militar, exceto.
na dimensão nuclear, veremos qual é a evolução dessa dimensão, vai ter o maior exército convencional, já tinha em 1991, o principal exército convencional europeu existia em 1991, de resto, isso foi evocado pelo...
O subsecretário coube quando disse que a NATO 3.0 era mais parecida com a NATO 1.0, que terminou em 1991, do que com aquela coisa mista que existiu no intervalo entre 1991 e o pós-Guerra Fria.
A diferença fundamental é que a Alemanha vai ser a principal potência europeia num contexto em que os Estados Unidos desistiram de ser a principal potência europeia e em que quer a França, quer a Grã-Bretanha estão em relativo mau estado. Embora sejam as duas potências nucleares europeias, embora sejam ambas...
os membros europeus do Conselho de Segurança das Nações Unidas, estão em mau estado politicamente, economicamente e mesmo nos gastos de defesa. E isso dá uma projeção à Alemanha que ela não tinha.
antes de 1991. Portanto, nesse sentido, a Alemanha está a candidatar-se a ser, efetivamente, a principal potência europeia em todas as dimensões relevantes, exceto a dimensão nuclear e a sua nova estratégia militar. É a primeira vez, aliás, que...
a República Federal tem uma estratégia militar oficial publicada, chama-se responsabilidade europeia. É inseparável esta transformação da Alemanha e do seu lugar no centro da Europa das democracias. Não sabemos até que ponto é que a cultura estratégica da Alemanha
Boudoula não era apenas relativamente, para se vista, ou em todo caso vegetariana, mais civil do que normativa, mas continua a ser multilateral e legalista, que são duas coisas que não estão exatamente de acordo com o espírito do tempo.
Já agora deixa-me perguntar, porque há pouco eu perguntei ao Alberto se concordava ou se achava que esta mudança na posição dos Estados Unidos no plano internacional, se isso era o principal acelerador desta transição alemã, o Carlos abanou a cabeça. Eu suponho que esta transformação estava preparada. O Alberto referiu, e muito bem, que o célebre discurso do Zeitemvenda do chanceler Schultz estava pronto antes da invasão da Ucrânia pela...
Simplesmente foi adiantado. Estava pronto. Certo. Estava pronto. A viragem estava pronta. A rotura com a Rússia, que é uma viragem na política externa alemã, é o fim da USPolitik, que domina a política alemã desde...
1970, essa viragem é um momento crucial e aquilo que torna possível haver este consenso alargado entre os principais partidos e também um apoio muito substancial da opinião pública ao mar a esta viragem da Almanhal. Longamente preparada, mas não teria sido nunca possível sem a viragem da Rússia.
Muito bem, vamos aqui às questões mais internas da política alemã. Esta quarta-feira cumpre-se um ano de governo de Mertz, que resulta da coligação entre a CDU, CSU e SPD. Na frente interna, apenas 20% dos alemães fazem uma avaliação positiva do trabalho do chanceler, principalmente, ou nomeadamente, por causa das dificuldades do governo em recolocar a Alemanha a crescer economicamente ao ritmo de outros tempos. O partido de extrema direita, a FD, continua bem posicionado nas sondagens. Alberto, o que é que isto está a falhar internamente?
Em primeiro lugar, é a economia estúpida. A Alemanha vem de uma recessão, para quem não sabe lá em casa, a recessão são dois anos seguidos de crescimento negativo. É a primeira recessão da Alemanha desde 2002 e 2003, em que na altura até houve artigos em que a Alemanha era o homem doente da Europa e ele levou até a Alemanha, em conjunto com a França, a flexibilizar as leis do Pacto de Estabilidade de Crescimento que eles tinham feito mais restritas, mas isso é outra história.
E este ano as previsões foram revistas em baixa, era previsto cerca de 1% de crescimento, para o ano passado, peço desculpa, e vai ser 0,2%. Isto só para nós percebermos como a economia continua a ser muito importante para tudo e tudo hoje em dia está interligado. A Now, aquela que foi agora muito famosamente, digamos, o Mertz a falar sobre o Trump naquela escola, foi dois dias depois destas previsões terem saído.
E, portanto, algo que se passa domesticamente é uma crise económica, mas não só. Eu quero deixar a parte positiva, porque eu acho que o sistema, acho, não, tenho certeza que o sistema político alemão é mais resiliente do que muitos dizem, mas eu vou deixar isso para o final, se me permites. Há dois partidos que estão na coligação, porque a CSU é apenas uma, digamos, a parte baviera da CDU.
Para simplificar, é um pouco mais conservadora, mas é o mesmo partido essencialmente, designado Unión na Alemanha. O SPD não sabe para onde é que é a de ir. O SPD está perdido já há muitos anos entre uma base que é pouco pragmática e uma liderança muito pragmática. A esmagadora maioria das pessoas ligadas ao SPD, os opinion makers, como diríamos, queriam que o SPD fosse para a oposição após as últimas eleições em que teve um resultado historicamente mau. Provavelmente, do ponto de vista do que é...
política, só política, esquecendo o Estado do mundo, que não pode ser esquecido, o SPD devia ter ido para a oposição, só que não havia mais ninguém para fazer a coligação e o SPD lá foi para a oposição. E o SPD, que é um partido, é um paradoxo do sistema alemão, que é um sistema muito baseado em coligações, desde 1998, ou seja, já vão 28 anos, o SPD esteve no poder 24 desses 28 anos. Não teve sempre com o Schanzler, mas esteve no poder.
Um partido tem vindo sempre a perder popularidade. Obviamente que este é um partido que está aqui numa charneira muito complicada.
E é um partido que perdeu aquela que foi, durante muito tempo, a sua orientação distintiva a leste, mas não só, que é a Ostpolitik. A Ostpolitik foi uma criação de Egon Barr e de Willy Brandt, que foi o grande chanceler social-democrata de 69 e 64, depois foi continuado pelo Almut Schmidt. E, portanto, sempre houve, e nomeadamente nos últimos anos, houve um debate dentro do SPD sobre as virtudes do diálogo com a Rússia ou não, mas era o partido mais predisposto.
a fazer isso. E, portanto, nós vemos que agora, o que era uma das bases distintivas da política externa deles, acabou-se. Portanto, eles estão um pouco perdidos. Mas, ainda assim, quem é, neste momento, é muito impopular é o chanceler Mertz. Vamos ao chanceler Mertz. O chanceler Mertz tem um percurso muito interessante. O chanceler Mertz, em primeiro lugar, foi o rival da senhora Merkel pela liderança do partido, na herança, portanto, eu preciso um bocadinho de contexto histórico, espero que todas as pessoas se mantenham lá em casa e aguentem este minuto.
Em 98, Helmut Kohl perde as eleições, estava no poder há 16 anos. O Wolfgang Schäuble, que nós aqui em Portugal conhecemos, como aquele senhor mal na cadeira de rodas que nos dizia para fazer a austeridade, era, digamos, o Delphine de Helmut Kohl. Aliás, muitos diziam que ele devia ser candidatado em 98 contra a Guerra Schroeder.
torna-se solida e passado dois anos ele é forçado à demissão por um escândalo sobre financiamento partidário, que aliás Colt não pediu desculpa e estragou as relações entre os dois e depois ele sai da liderança e quem sobe à liderança é a Angela Merkel, que tinha sido ministra do Ambiente, mas ali era entre ela e o Mertz. E a Merkel sempre foi uma pessoa mais pragmática e com...
Digamos um pouco aquilo que eu chamaria o efeito Obama, que é um efeito folha em branco, toda a gente projeta ali o que é que quer, enquanto que o Mertes era de uma linha mais tradicional da CDU e era muito ligado àquilo que era uma visão do Volkan Schäuble, que aliás ainda influencia aquilo que é a sua visão sobre...
a União Europeia. E ele é líder parlamentar em 2002 e depois é um dos muitos homens que a Angela Merkel manda para o caixote do lixo da história para cimentar o seu poder, tem uma carreira privada, ganha muito dinheiro em várias consultoras americanas, é presidente de todas as associações transatlânticas que existem, nomeadamente a Atlantic Proc, e portanto num mundo mais normal, se é que isso existe, não gosto muito dessa expressão, o Merckx seria o chanceler mais transatlântico possível.
Só que é ele que agora tem que fazer esta transição e ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a ser a
num momento histórico. E até tem sido, comparando com posições de outros líderes políticos europeus, ele até tem sido mais coerente. É esse o seu background. Depois há outros lados do Mertz. Mertz é uma pessoa que não é muito diplomata, e eu não digo isto no sentido diplomata de carreira, ele não é muito diplomático a falar. Nós vimos nesta declaração sobre o tema, mas ele próprio, internamente, a forma como ele geriu, por exemplo, várias das medidas para controlar a imigração...
A forma como ele fala sobre a necessidade de competitividade na União Europeia e reformas internas sem grande diálogo com os sindicatos, ou seja, ele é uma pessoa polarizante, basicamente. Ou seja, o paradoxo aqui é que nós temos um político que está a fazer uma transição...
que no coração dele ele provavelmente não quer fazer, ou seja, é com a reluctância que ele está a fazer esta transição porque os Estados Unidos, como o professor Carlos Caspar disse, não quer fazer o papel que eu chamaria de esmeniliberal e que hoje está no outro lado. Portanto, é com a reluctância que ele faz isso. No momento em que precisamos de uma personagem, digamos, agregadora, ele tem um feitiço polarizante, é dele.
E com uma coligação muito complicada, em que tem um partido, o SPD, muito inseguro, que tem sempre que mostrar que está vivo, enquanto continua a afundar-se nas sondagens um partido que não sai do poder. Uma AFD que, de fora, já não tem uma posição pró-Rússia nem pró-Trump, porque tanto a Rússia como o Trump são altamente impopulares.
na Alemanha, mas pode atacar nomeadamente o que é a economia e a questão da imigração, e aí na imigração o Mertz tem uma retórica mais anti-imigração, mas com o terceiro coligação e com o Parlamento que tem não pode fazer muito mais, e portanto estamos nisto. E é isto também que explica a impopularidade do Mertz e a impopularidade desta coligação em geral.
Porquê que eu acho que o sistema alemão, e aí é uma diferença muito importante em relação ao sistema francês, é por causa do sistema federal. Não é só o facto de haver, como diriam os franceses nos anos 30, o cordão sanitário à AFD que faz com que a maior parte dos países não se queiram coligar.
com eles. E a AFD já agora não é um partido com o Ração Humana Nacional em França, porque a AFD tem dentro, não são todos, naturalmente tem elementos que são neonazis na Alemanha. É diferente de tudo que França. Sim, ficou com a extrema pela secreta alemã depois houve aqui uma decisão de suspensão. É uma parte do partido, nomeadamente no leste da Turinja, que é onde nós somos mais populares.
Mas, por exemplo, a leste da Alemanha, eles ganharam as eleições legislativas e eles vão ganhar a maior parte das eleições regionais, mas não vão sequer formar governos regionais, porque, em princípio, haverá coligações suficientes para que eles não cheguem ao poder. Mas, se temos um sistema resiliente, temos o descontentamento do povo com um governo que tem uma posição muito complicada e esta transição, já agora, que nós estamos aqui a falar do rearmamento, é tudo muito gira, mas isto custa muito dinheiro, que tem de vir de algum lado numa altura em que a Alemanha não está a crescer economicamente.
Isto tem que vir de algum lado. Se nós temos uma combinação de um chanceler que tem já uma certa sensibilidade à competitividade e a modernizar o Estado Social com uma transição que custa muito dinheiro e que vai demorar muito tempo, é muito complicado gerir esta situação. Portanto...
Para se sintetizar, temos um sistema político resiliente, mas a AFD provavelmente vai continuar a crescer em popularidade. Eu não acho que a AFD vai subir ao poder, acho que há, ao contrário do Rassamon Nacional em França, eu acho que há um teto de popularidade da AFD, mas vai, por dentro, minar o que é o consenso do sistema alemão. E depois há uma personalidade, o chanceler Mertz, que, em muitos aspectos, ele é um chanceler óbvio num momento errado.
Muito bem, vamos manter-nos aqui pela Europa, vamos falar um pouco sobre a guerra na Ucrânia, tendo estado um pouco mais esquecida com o que tem acontecido no Médio Oriente. Multiplicaram-se nos últimos dias os ataques da Ucrânia contra alvos em território russo, incluindo em Moscovo. Moscovo recebe mais uma parada militar de comemoração do Dia da Vitória da União Soviética sobre a Alemanha Nazi no final da Segunda Guerra Mundial.
Mas pela primeira vez em quase duas décadas não haverá exibição de veículos pesados ou de armamento militar sofisticado como mísseis intercontinentais. O Financial Times citava recentemente várias fontes próximas do Kremlin que descrevem um ambiente de crescente temor e o aumento das medidas de segurança em torno do presidente Putin. Entre acusações e desafios, Ucrânia e Rússia anunciaram tréguas por estes dias.
Carlos, o ambiente em Moscou será muito diferente daquele 9 de maio que vimos no ano passado com o Xi Jinping e outros aliados da Rússia num grande evento militar. 28 chefes de Estado e de Governo. Há pelo menos um que não vai poder estar, que é o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro. Se calhar nem sequer foi convidado. Não se sabe, mas é improvável que o Xi Jinping vá a Moscou. Lula da Silva, que esteve presente no ano passado.
não vai, certamente. Portanto, além de não terem material pesado, também não vão ter grande companhia. Parece que resta o primeiro-ministro da Eslováquia. Ninguém sabe quem ele é, exceto em Moscovo, naturalmente. Roberto Fixo. Um social-democrata. Exatamente. Putin está isolado num momento difícil, não só por causa do impasse persistente na guerra contra a...
mas porque tem somado rotas sucessivas. Perdeu na Venezuela, perdeu aparentemente no Irão. Tem tido um papel muito discreto nesta guerra. E o Irão é um parceiro estratégico crucial para a Rússia muito mais do que para...
A China, o Irã é um aliado crucial, mais do que a Síria era, e um apoio permanente à Rússia desde a primeira hora na guerra contra a Ucrânia. O regime iraniano está de rastros, embora pense o contrário, talvez em Boscouvo também.
tenham ilusões sobre isso, perdeu no Mali. É uma derrota muito importante, a expulsão do Africa Corps de várias posições críticas e, sobretudo, a perda reputacional daquilo que já era uma iniciativa frágil, sem a retaguarda russa operacional, desde que as bases na Síria foram fechadas, perdeu na Hungria, perdeu na Hungria o seu principal aliado.
O europeu não é evidente que o consiga substituir rapidamente e, efetivamente, existem relatórios, desigualdamente das notícias do Financial Times, que descrevem um presidente que evita sequer estar em Moscovo e que dispensa a presença da sua corte mais direta num momento em que...
Apesar de tudo, ele teria que estar mais presente para negar, para contradizer a impressão, que é geral, do ponto de vista das elites russas, de recursos sucessivos e de um isolamento internacional mais forte do que existia no passado.
Muito bem, vamos olhar agora para o Médio Oriente, muito rapidamente. A operação Projeto de Liberdade, anunciada no domingo por Donald Trump e criada para guiar a passagem segura dos navios mercantes pelo Estreito de Hormuz, provocou uma série de acusações entre Washington e Teherão sobre regresso de ataques militares naquela via marítima. Os Emirados Árabes Unidos, por exemplo, dizem ter sido novamente atacados pelo Irão. Entretanto, na terça-feira à noite, Trump anunciou a suspensão desta missão. Diz que há grandes progressos nas negociações.
com o Irão. Na China, nesta quarta-feira, o chefe da diplomacia iraniana exigiu um acordo justo e abrangente para o seu país. O cessar-fogo em vigor há cerca de um mês permanece frágil. A Casa Branca até notificou o Congresso que a guerra acabou. Entre ameaças do presidente americano de varrer o Irão da face da terra, estou a citar,
Pide, ex-secretário da Defesa, assegurou que a trégua ainda está em vigor. Marco Rubio, secretário de Estado, descreveu as ações dos Estados Unidos no estreito como sendo de natureza defensiva. Eu pedia-vos um comentário a cada um o que é que está aqui em jogo no Médio Oriente. Alberto.
Bem, a estratégia de Donald Trump para o Irã falhou. E falhou as várias estratégias para o Irã, ou seja, a estratégia de 2018 sair da lógica do Acordo de 2015, que não era um acordo perfeito, não há acordos perfeitos em diplomacia, mas os dois principais problemas do Acordo de 2018 para a administração de Trump era o facto do Irã não se comprometer com o cancelamento ou acabar com o enriquecimento do Irã e que leva... Então...
fabrico, potencial fabrico de armas nucleares, mas apenas uma suspensão temporária, que na altura as últimas clausas eram 2030, e o segundo ponto era não confiar na Agência Internacional Atómica, que fazia a verificação dessas, e quase certeza qualquer negociação neste momento vai voltar à lógica desses dois pontos, que eram tão inaceitáveis há oito anos. Mas, se é verdade que, por exemplo, Israel, porque neste momento é um conflito regional.
E eu acho que aqui temos que separar Israel dos Estados Unidos. Israel, por exemplo, tem sido bem-sucedido naquilo que têm sido os seus... Quem é que fala da Cisjordânia e da Gaza nas últimas semanas? Só isso é uma vitória para Israel. Neste momento, Israel está a atacar posições do Hezbollah no sul do Líbano, com, digamos, não sei se a concordância, mas a coesciência da maior parte do que são as elites governamentais do Líbano, que é sempre ali uma relação triangular muito complicada. Além de, neste momento, temos na Síria...
E essa foi uma grande derrota para a Rússia, como foi referido pelo professor Carlos Gaspar, e para o Irão. Temos neste momento um ex-jihadista, que é o líder de um, aparentemente, pró-ocidental, um dos paradoxos da política internacional. Mas nada disto foi causado pela estratégia direta dos Estados Unidos. E aquilo que tem sido feito, a operação inicial dos dois meses, tinha três objetivos que eram declarados, ou seja, um controle, uma mudança daquilo que é o regime iraniano, que não aconteceu.
Um controle do programa do enriquecimento do urânio ou dos mísseis balísticos não aconteceu e, digamos, acabar das ambições de projeção de poder do Irão fora das suas fronteiras. Nenhum destes pontos foi bem sucedido. Esta é a verdade. Falavas de Peter Exet, que não é propriamente a pessoa mais diplomática do mundo.
Vi com atenção o discurso dele a anunciar esta segunda operação e ele disse várias vezes, disse coisas muito interessantes, disse várias vezes que esta era uma operação pacífica e que só iriam atacar se o Irão voltasse a atacar e que isto era defensivo e que isto era para ajudar todos os Estados Unidos. Os Estados Unidos quase pedirem desculpa ao Irão para fazerem esta operação para garantir o direito de navegação, que é um dos principais princípios do direito internacional, admitindo, portanto, o falhanço da anterior estratégia, porque já não estamos a falar.
nem da mudança de regime, nem, digamos, do acabar do programa nuclear. Continuamos nesta lógica, se vamos depender 15 anos ou 20 anos, esta era a mesma lógica do anterior acordo. Nós podemos estar aqui a dourar a pílula, mas penso que é isso. E o segundo ponto, penso que os Estados Unidos estão a perder o controle de um conflito que, ou seja, havia vários países que estavam sobre a esfera americana na região.
e neste momento estão a separar as suas estratégias. O caso do Emirado dos Árabes Unidos é esclarecedor. A saída da OPEC é um... Isto é o início de uma revolução do que é a estrutura do Médio Oriente com consequências que nós temos. E eu não quero alongar muito neste ponto, mas há já vários sinais de que existe uma mudança clara entre aquilo que é a estratégia saudita, que é tipicamente mais alinhada com o que é os Estados Unidos, e a estratégia dos Emirados dos Árabes Unidos.
Por exemplo, a Arábia Saudita fez um acordo de defesa com o Paquistão o ano passado.
Há um mês, os Emirados dos Estados Unidos exigiram ao Paquistão que repagasse mais cedo um empréstimo que lhe tinham feito com outros países, incluindo a Arábia Solita, em 2019. Ou seja, nós vemos que há aqui fissuras naquilo que deveriam ser países sobre a tutela, se não quiser exagerar, dos Estados Unidos. E o problema é que estes países já perceberam que não podem contar com os Estados Unidos para uma estratégia sólida de controle do Irão, que é algo que interessa a toda a gente e também interessa aos europeus já agora. Portanto, é um falhanço político dos Estados Unidos e com isto concluo.
Muitas vezes, nos nossos mídias e noutras análises, nós comparamos o que são os meios militares dos Estados Unidos com o Irã, mas isso é uma comparação que não faz sentido. O que interessa é resolver o problema político. No Vietnã, nos anos 60 e 70, no Afeganistão durante 20 anos, até no Iraque entre 2003 e 2011, os Estados Unidos tinham uma enorme superioridade militar e até tinham mais aliados do que têm agora, só que não conseguiram resolver os problemas políticos com que se propuseram. E, mais uma vez, é isso que está a acontecer.
Carlos, como é que se explica que uma missão naval que é anunciada no domingo, é iniciada na segunda-feira, é depois cancelada na terça-feira à noite? Não foi só isso que mudou. Nós ficámos a saber ontem que a guerra contra o Irão efetivamente tinha acabado, que estávamos numa fase completamente diferente, que os Estados Unidos estavam muito empenhados em fazer aprovar pelas Nações Unidas.
Uma resolução que obrigasse o Irão a cumprir o direito internacional e a abrir os estretos de Hormuz. A China, aliás, concorre com a posição dos Estados Unidos. A questão agora é o cumprimento do direito internacional e a liberdade de navegação. E, portanto, de certa maneira, a ordem internacional voltou a existir e passámos de 2026 para...
1991. Não é nada mau. Muito bem, vamos ver se para a semana temos uma nova ordem internacional ou se nos mantemos na mesma. Meus caros, chegámos ao fim do nosso tempo. Muito obrigado pela vossa análise. Um agradecimento especial ao Alberto Cunha. Espero que tenha gostado de vir aqui ao Diplomatas. A porta fica aberta para um futuro próximo. Obrigado também e sempre aos nossos ouvintes. Se ainda não subscreveram ou avaliaram o podcast, por favor, façam-no.
Nós regressamos para a próxima semana com mais episódio e mais um convidado. Um abraço.
O podcast Diplomatas é uma parceria público IPRI, Instituto Português de Relações Internacionais.
Almudina
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