GREGÓRIO DUVIVIER E CÉSAR MOURÃO - Não Mandas em Mim #25
Um faz colecção de processos, o outro faz colecção de lupas: Gregório Duvivier e César Mourão a mostrar porque é que os opostos se atraem.
Não Mandas em Mim é um podcast onde Inês Lopes Gonçalves conversa com os seus convidados sobre aquilo que os aperta e o que os liberta, o que querem fazer mas não podem, o que fazem mas não querem e o que fazem porque podem.
Ideia original e apresentação: Inês Lopes GonçalvesCharged by DACIAIdeia original e apresentação: Inês Lopes GonçalvesRealização: Adriana RomeroProdutor executivo: Miguel IsaacProdução: Marília Santos e Madalena FrischknechtImagem: Adriana Romero, Maria Santiago e Tomás CazauxSom: Catarina P. SilvaLuz: Maria SantiagoEdição: Adriana Romero e Tomé AzevedoMaquilhagem: Lara NetoCabelo: Catarina Soares Styling - apresentadora: Vanessa MarquesMúsica: Estúdio Barulho Imagem e genérico: António SeguradoPatrocinador: DACIA
- Limites e regrasGregório Duvivier e a aversão à autoridade · César Mourão e a argumentação · O 'jeitinho' brasileiro · Processos judiciais de Gregório Duvivier · Abuso de autoridade policial
- Gregório DuvivierConheceram-se no Rio · Peça Zenas Improvisadas · Participação no Comédia La Carte · Peça Portátil
- Motivação e Força de VontadeProcrastinação e o processo criativo · A necessidade de prazos para escrever · O Doberman de Dostoievski · Improvisação como urgência
- Liberdade pessoal e convivênciaImprovisação como escolha libertadora · A peça 'O Céu da Língua' como táxi · Fotografia como paixão de César Mourão · Família e filhas como fonte de liberdade para Gregório
- Realidade da paternidade e pressão masculinaMudança de paradigma na masculinidade · Paternidade e a culpa do pai ausente · A relação com os filhos e a restrição
- Importância de Dizer NãoGregório Duvivier e a turnê louca · César Mourão e o cuidado com o futuro · Projetos e prazos
- Ouvinte relata situação pessoalFilhos como força motriz · A coleção de lupas de César Mourão
- Responsabilidade CriminalRedes sociais · Uso de camisola de clube fora de dia de jogo · Vazamento de conversas privadas
- Experiências de vida e superaçãoCarnaval no Rio de Janeiro · LSD e a anulação do ego · Ter filhos
- Estilo de VidaFocar em um instrumento musical
Olá, eu sou a Inês Lopes Gonçalves e este é o Não Mandas em Mim, um podcast onde os meus convidados falam sobre liberdades, escolhas, rebeldias e desobediências de uma forma geral. Bem-vindos, Gregório do Vivier e César Mourão.
Muito obrigado, Inês, pelo convite. Como é que se conheceram? No palco, eu acho. Ah não, no Rio. Não foi? Foi no Rio. Você foi ver a minha peça, o Zé, não foi? Fui ver o Zé, Zenas Improvisadas. Espera, o Zé não é uma pessoa? O Zé não é uma pessoa. É um espetáculo de improviso. Há muitos anos já no Rio. 20 anos. Quando se fala 20, já dá um susto falar. E eu fui assistir lá no Rio.
Não era ali perto de... No shopping da Gávea, não sei. No shopping da Gávea, não é? Acho que era. Acho que era. E conhecemos-nos ali, mas já havia meio que uma promessa de o Gregório vir com o Fábio, na altura, e com o Porta dos Fundos, aqui a Portugal, tipo, a primeira vez que vocês vieram cá. Foi. E já houve assim uma conversa, ah, nós estamos a tentar levar a Portugal. Ah, claro, Gregório, ah, vamos, vamos, estou doido para aí.
Nessa altura eu acreditava ainda no Gregório. Ainda acreditava que as coisas iam acontecer.
Mas depois aconteceram algumas vezes. Aconteceram todas. É verdade, o mais engraçado é isso. O mais engraçado é que foram acontecendo todas e depois eu acabei por ir ao Brasil gravar sketches com eles. Ele gravou o Porta dos Fundos e eu participei do Comédia La Carte. Fizemos juntos a peça portátil durante algumas temporadas.
César é o maior... Não estou falando porque ele está ao meu lado, não. Mas é o maior improvisador que tem, assim, nesse... E o César é um mestre. Então foi incrível fazer com ele. Nunca achamos um convidado à altura, assim, da nossa peça, do César. Mas é muito fácil trabalhar com eles também.
o Gregório estava a dizer, eu adoro improviso no palco, não só, o Gregório vai improvisando na vida quando tu ainda há pouco disseste quando eu cheguei a Inês disse, ah pá, o Gregório ainda hoje ainda vai ter dois espetáculos, e eu disse, não, o bom é que ele não sabe ele vai se lembrando na hora eu acho que o segredo da vida é o esquecimento eu acho, sabe uma pessoa que lembra todas as coisas que ela tem que fazer deve ser infernal
Eu ia perguntar-te isso, porque tentando não situar muito esta gravação, mas tu estás numa turnê absolutamente louca de céu da língua, e eu queria perguntar-te se o que te move, no fundo o que manda em ti, é um imenso amor à arte ou uma incrível incapacidade de dizer que não?
Eu acho que tem um pouco dos dois, sabia? Eu tenho realmente uma incapacidade de dizer não, mas eu gosto muito de fazer isso. Agora, realmente, se eu parasse para pensar, era melhor eu não fazer tanta coisa. Por exemplo, a gente estava fazendo uma turnê que não tem um dia livre. E aí, todo dia, a gente acorda e vai para outra cidade.
É isso, é que não tem um dia livre, é tipo um dia em Dublin, um dia em não sei o quê. O certo era ter, tinham dias livres. E aí vinha, por exemplo, o Hugo, nosso produtor, falava, olha, a gente de 22 está em Dublin, 24 está em Barcelona. Surgiu aqui Madrid, dia 23. Pô, eu nunca fui a Madrid.
Pô, fazer peça em Madrid, dia 26. Por que não, entende? Assim, eu digo, tem uma coisa de dizer sim, que eu acho que é meio que um vício, uma coisa de... E também tem um problema que é o seguinte, eu não penso na minha pessoa do futuro. Eu não tenho o menor carinho pelo Gregório do futuro.
Ok, ou seja, não te ocorre que vou estar cansado, rabugento? Quanto mais tempo vai demorar então, menos pena eu tenho dessa pessoa, que não sou eu. Então se me propõe uma coisa insuportável para daqui a um ano e meio, eu não sei nem quem é essa pessoa que eu vou ser. Então eu aceito, porque esse dia não vai chegar nunca. Então até que ele chega. E depois chegas lá e odeias, claro. Claro. E não estás a ficar melhor com a idade? Não. Nesse aspecto? Não.
Já aqui temos o oposto. Eu acho que tu deste muita sorte, Inês, porque acabaste por chamar os dois que vivem nos antípodas um do outro. Não foi à toa, meu caro. Eu estou exatamente no lugar oposto que está o Gregório. Tu por defeito é não.
Não, não, não é por isso. Eu tenho muita prece pelo César do futuro. Muita prece. Cuido melhor do César do futuro do que do César atual, do presente. Mas não é há muito tempo que eu tenho isso. E agora eu consigo, muitas vezes quando dizem, olha, 13 de maio...
Disse, por acaso, logo o dia de Nossa Senhora de Fátima, mas não foi. 14, vá. 14 de Maio. Eu penso, epá, calma, 13 de Maio, vejam lá, é que eu estou a vir não sei de onde dia 12. Se eu aceito esse 14, entre viagem e não sei o que, dia 13, já não descanso. E 16, estou a ir não sei para onde. Vamos dizer não, epá, vamos dizer não. Agora era ótimo, é um projeto muito giro.
Não dá para aceitar. Não dá para aceitar. Às vezes as pessoas conseguem... Mas é muito recente isso. O meu sonho é chegar nesse nível de projeção, de calcular. Mas eu ia perguntar isso. Uma vez falava aqui, foi neste podcast, falava com o Ricardo Araújo Pereira sobre aquela coisa de...
muito típica das profissões mais criativas que é a ideia da procrastinação a ideia do adiar constantemente ou fazer as coisas sempre à última hora e uma espécie está aqui sempre um pensamentozinho de que quando eu for melhor isto não vai acontecer em vez de, não, isto não vai acontecer nunca porque isto é o meu processo sempre eu vou sempre fazer as coisas à última hora e isso faz parte da coisa agora, elaborei aqui num discurso muito interessante e o que é que eu ia perguntar?
ou seja, se isso é uma coisa que
à custa de quê que começaste a melhorar nesse aspecto? Eu acho que foi à custa inevitavelmente... Sinto que isto não fez sentido nenhum. Não, mas eu vou buscar, eu vou buscar. Inevitavelmente da família e dos filhos. Começou a ter uma importância na balança que naturalmente não tinha até porque não os tinha, não é? Portanto essa necessidade e essa compensação começou a ganhar espaço. E depois a partir daí vem...
quem tu reúnes para estar ao teu lado portanto eu abdico de ter uma vida mais sei lá de ter mais até para mim e criar uma estrutura que me impeça de eu me meter em caminhos onde eu não vou conseguir depois responder
Ok, é quase possível, tipo, pagaram a pessoa que te policie de alguma forma, que te organize? É um bocadinho isso. Esse trabalho diário que temos das pessoas que estão comigo nesta demanda serve um bocadinho também para isso. Olha, vamos aqui alertar que não vai dar lá na frente, não vai dar, portanto eu tenho essa gestão muito acompanhada, não é uma coisa solitária. Porque sozinho eu diria que sim, muitas vezes.
e continuo a dizer que sim até mais vezes do que aquilo que eu gostava de dizer que sim e depois meio que me embrulho já me lembro onde é que eu ia chegar com isto porque gostavas a dizer que gostavas de um dia ser mais assim a questão é, gostavas mesmo
Gostava, mas ao mesmo tempo o meu medo, eu acho que eu não sou assim um pouco, porque se eu não tiver a obrigação de fazer as coisas, eu não faço. Então eu arranjo prazos, porque se eu não tiver o prazo, eu não escrevo. Essa peça, O Céu da Língua, eu só fiz porque eu marquei a peça antes de escrevê-la. Isso é uma loucura. Tudo que eu escrevi na vida, eu já tinha um dado de estreia.
Ficas que é sofrer até lá, todos os dias com ataques de ansiedade. Não todo dia, porque eu esqueço frequentemente. Mas eu fico um tempo nervoso, mas eu só consigo trabalhar com esse revólver na cabeça. Então eu fico apontando revólveres para mim mesmo, porque...
É assim que eu funciono. Então, os livros que eu escrevi, eu não sentei e falei, vamos escrever um livro. Eu tinha que escrever uma crônica por semana pra Folha. Se eu não tivesse que escrever, eu nunca teria escrito, sabe, acho que 200, não sei quanto, 500 crônicas foram. Mas toda semana tinha esse revólver na cabeça. Então, só funciona com essa pressão, sabe? Tem aquela frase do Enfio, que é um cara que eu...
Adoro, é um desenhista brasileiro, cartunista, ele dizia que a criatividade precisa de um Doberman correndo atrás de você, que é o cachorro. Exato. Você precisa estar fugindo. Você pula muros imensos se você tem um cachorro correndo atrás de você. Exato. Então o prazo é esse cachorro. É a sobrevivência.
eu preciso dele mas sabes que isto se liga muito com o nosso trabalho quando fazemos improvisação ela acontece porque nós temos uma necessidade sempre no abismo sempre no abismo é porque nós temos necessidade para encher aquele espaço ou que nós propusemos-nos a fazer uma peça improvisada então ela vai ter que acontecer com esse tal revólver imaginário na nossa cabeça então a improvisação é muito mais fácil com muitas aspas do que do que aquela aquela aquela
do que muita gente julga que ela é porque, na verdade, ela é uma urgência em que tens de preencher o espaço e vais... E depois, aquilo que eu digo... E mais, tu não podes antecipar nada também te causa... Não te causa sofrimento o cegar nesse aspecto. Não, porque ela vai...
Quando fazemos improviso, eu sinto que é um bocadinho isto. Ou seja, a piada está no final e não em cada frase, não em cada punchline. Está na construção. Aquilo que tu vais construindo, mas com essa necessidade. Eu vou ter que preencher, vou ter que falar, eu vou ter que... Portanto, o improviso é um bocadinho esse lado também. Somos nós constantemente a dizer, ó, criatividade, criatividade. Agora vais ter que ser criativo. Agora vais ter que ser criativo.
Porque se não fosse isso, nós provavelmente... Não faríamos. Não faríamos. Não faríamos.
Qual é a vossa relação com as regras? E começando aqui pelo vosso dia-a-dia, no vosso trabalho, tu arranjaste uma coisa muito hábil que foi, tu agora estás com a regra de todos os dias, estás na rádio, mas não tens que escrever todos os dias porque aquilo é improviso, lá está, não é? Certo. Mas que disciplina é que vocês se autoimpõem todos os dias na vossa vida?
O Gregor só diz que não para a cabeça. O Gregor já... Ou seja, não tens dois dias iguais. Não tenho, nunca tive, eu acho. E não tens aquela coisa de... Também não. Ou aquelas coisas pessoais, tipo, todos os dias não sai de casa sem fazer a cama, ou tem que dormir oito horas, ou tem que ir ao ginásio. Não, não. Ou seja... Zero. Isso odeio, isso eu não tenho. A única regra, talvez, que eu tenho é de não... É de...
aproveitar muito o facto de estar a trabalhar. Imagina, eu vou para o Rio. Vou para o Rio gravar com um porta, imagina. E sei que tenho três dias de gravação. Até eu vou dois dias antes, porque os dois primeiros eu não quero fazer nada.
gravo os três dias, fico mais dois e só venho no fim do terceiro porque senão é uma correria porque senão vão arranjar coisas para eu fazer olha, vais três dias mas vimos logo no dia a seguir porque a seguir estavas no Tivoli e depois vens a um podcast e depois vais e isso não permite que aconteça já nos programas que eu gravo eu paro para almoçar a sério eu paro a horas de cento então meio que me policiei e policiei toda a equipa para que isso aconteça para não ser uma correria porque a televisão aquela aquela aquela aquela aquela
não só a televisão, a televisão, o teatro, o cinema dá-te essa correria se tu não forças a toda hora estás, oh temos que ir maquilhar olha agora não sei o que, já almoçaram, então temos que ir não, não, não, isso eu não agora é para parar, agora é para descansar isso eu ponho as regras, eu não quero como um rapo tem uma hora para jantar, não, não, não tem uma hora para almoçar, não, nem pensar vamos almoçar e quando terminarmos de almoçar
porque não sabemos quando é, é quando terminarmos, voltamos a gravar, voltamos a filmar. Mas isso é uma regra que eu impus. E tu, Gregório? Isso é meu sonho, mas eu nunca consegui. Nunca consegui, mas é meu sonho, de verdade, porque acho que tem uma correria, tem... Mas eu já consegui um pouco, porque eu trabalho, sobretudo, no Porta hoje. E no Porta nós somos os nossos próprios patrões. O que é meio infernal, porque eu tenho isso.
João Vicente é meu patrão e também o melhor amigo, assim, em algum lugar. Embora ele seja sócio.
É complicado, mas ao mesmo tempo é muito gostoso, porque tem certas coisas que são convenções do cinema, do audiovisual brasileiro, que a gente não precisa seguir. Então, por algum motivo, é sempre longe pra cacete, no Brasil que você filma. O Projac é a Globo, filma uma hora e meia do centro. O cinema de Mojão é longe, é cedo. Como é que é? Alguém falou uma vez que eu não era jovem, eu reclamei, alguma coisa está demorando. Cinema é longe, é cedo e demorado. Para falar essa regra para mim. Por que isso precisa ser uma regra, né? Porra.
Alguém que chega e acaba com essa regra. No Porta a gente grava, assim, dá cinco minutos da minha casa, em geral começa pelo menos às nove ou dez horas, e não é tão demorado também, porque isso é outra coisa. Fez um take, tá bom? Tá bom!
Você precisa de sete opções? Aquela ideia de se não repetirmos sete vezes, não está bom. Eu também não acredito nisso. Isso é uma insegurança do diretor, muitas vezes. E a gente tem diretores que são também seguros e a gente dá segurança para eles que, se você acha bom, não precisa repetir. Certo. Então, nossos sketchs do Porta, às vezes a gente grava... É aquela ideia do que é repetido, o que é longo, o que é não sei o que, é melhor.
É melhor. É uma coisa... As pessoas ainda têm no nosso meio uma coisa um pouco... Talvez seja católica, entranhada. Até um trabalho da escola, um trabalho da escola grande.
É melhor. É melhor do que uma... Isso, e uma peça muito longa, ela vai ser mais respeitada. Uau, uma peça de três horas, um livro, que é um calhamaço. Ele escreveu um catatal. Sei lá, a gente tem ideia de que o sofrimento torna a obra melhor. Certo. E aí os atores adoram também glamourizar a produção e falar assim, ah, no processo desse filme, eu emagreci 10 quilos e eu...
Fiquei, entrei em depressão. Quando, na verdade, os melhores processos que eu fiz foram os mais lúdicos, os mais gostosos, os mais divertidos. Porque eu acho que não precisa sofrer. Então isso daí eu consegui já no Porta. Eu consegui, não. Conseguimos todos, claro. Não é sofrido uma gravação. Porque é comédia. Porra, não precisa ser sofrido. E há sempre aquela ideia de que tudo é urgente. Ah, vamos, vamos, vamos. Estamos atrasados. Estamos, vamos, vamos, vamos.
Eu um dia a fazer a Esperança, a série que eu fiz aí, e a Esperança, sem a dona Esperança, não filmávamos porque ela estava quase em todas as cenas. E há um dia que eu estou a conversar com uma atriz e o assistente de realização, que é tipo um craque, vem e diz, César, César, temos mesmo que ir. Só um segundinho, ela estava a perguntar-me uma coisa da cena e eu estava a conversar e estávamos a explicar e a falar. E ele disse, não, não, temos mesmo que ir, temos mesmo sem tempo, temos que ir, temos que ir.
Vou já, só um segundinho. É pá, mas temos mesmo, é pá, desculpem lá, temos mesmo que ir, temos mesmo que ir. Eu, tá, então vamos. E levanto-me, eu tinha saltos altos e faço de propósito. Ah! Ah! Ah! O que é que aconteceu? Pá, magoei, magoei, magoei, pá, mas quer gelo, quer gelo, quer gelo.
Foram buscar gelo, voltaram com o gelo e eu já estava em pé. Então, o que aconteceu? Nada. É para veres que dava realmente. Dá para parar. Dá porque não tens mais como. Dá mesmo para parar. Juro que dá para parar. A emoção de urgência às vezes é flexível. E deu, e deu. E aquilo foi e fizemos. Vocês são patrões de vocês próprios e de outras pessoas também, suponho eu. Como é que são vocês a mandar?
Como é que exercem? Eu acho que somos muito diferentes também. Eu acho que o César é mais brabo. Acho que aí somos iguais. Eu não faço ideia. Eu não sei. Tem jeito para? Não tenho jeito para. Não consigo.
Só mesmo num limite é que eu consigo dizer alguma coisa mais autoritária, porque de resto não consigo. E não sei sequer o que é que se passa na minha empresa. Imagina, não sei. Podem pegar fogo ou roubar-me todo o dinheiro. Eu não faço ideia do que é que... Não sei. Sou muito de confiar, confio muito. As pessoas que trabalham comigo trabalham há muitos anos e eu sou muito de confiar, mas não faço ideia de um horário. Não sei.
sei, acho que me podem roubar tudo e incendiar a própria empresa. Então somos iguais. Eu acho que aí somos iguais. Há sim uma meio uma... Eu terceirizo a parte da autoridade. Eu tento ficar só com a parte criativa. Porque não teria moral. E sem ser na parte mais de... Não teria moral, é ótimo.
Sem ser tanto nessa parte mais burocrática ou de empresa ou o que seja, no trabalho, ou seja, quando ter que dar uma indicação a alguém ou a alguma, também isso é mais fácil?
Mandarem alguém num espetáculo? Aí eu sou pior. Aí eu sou pior. Aí não sou tão... Com a empresa não, não faço ideia. Mas depois no espetáculo, no palco, nos dias que antecedem, nos ensaios, na parte criativa, aí eu sou mais de impor.
lamentavelmente, já fui bem pior hoje em dia não estou assim amaciaste com o tempo mas muito, amaciei muito há conta de dizerem isto também? do Númandas em Mim
Talvez, mas acho que eu próprio sei e sinto que não é dessa forma que colhes mais frutos. Certo. Percebes? Não é assim que levas as pessoas. Mas eu era muito de não limite do horário, ficar triste se alguém tem que ir fumar. Podemos parar para ir fumar?
Como eu nunca fumei, não sei o que é essa pausa de difumar. Calma, fumas depois os 18 cigarros, fumas todos no fim. Não funciona assim. Ah, não, não dá. Como não dá? Hoje em dia já não. Hoje em dia tenho outra passividade. Deve-se muito também à entrada do Gustavo Miranda, que é um doce que trabalha com ambos, no nosso contexto. Ensinou-me muita coisa. Eu aprendo muita coisa com o Gustavo.
e aprendo, cada vez aprendo mais do que eu achava, antigamente acho que não aprendia tanto e agora acho que cada vez aprendo mais não estava pré-disposto a aprender e hoje em dia cada vez mais estou e hoje em dia tenho outra calma e outra passividade que não tinha mas quando envolve a parte criativa eu sou mais chato como é que levas as pessoas, Gregório? qual é o truque para para
Mandar bem. Cara, eu tento não mandar, no sentido, eu acho que não tem nada pior do que as coisas quando elas vêm verticalmente. Exatamente, sabe? Tudo que é vertical as pessoas tendem a se sentir muito agredidas. Eu mesmo, eu odeio autoridade. Odeio, odeio todas. Toda forma de autoridade me dá.
asco, nojo, sabe? Eu acho que é algo que é muito diferente da legitimidade. Tem gente que tem legitimidade. Em geral, elas não têm autoridade, quem tem legitimidade. As coisas, elas vêm horizontalmente. O Gustavo, que ele deu um ótimo exemplo mesmo de uma liderança afetiva, porque o Gustavo Miranda que faz a peça dele, faz a minha também, o portátil, a gente divide ele.
Tem a história partilhada do Gustavo. Exatamente, é. E ele é um cara que entrou na nossa peça para ser professor. Ele era nosso professor de improvisação. E aí a gente começou a improvisar com ele e ficou obcecado improvisar com ele, não sabia mais improvisar sem ele. E aí ele entrou para a peça. Mas ele segue num lugar de colega, mas também de professor, de mestre, porque...
É isso, imagina-se alguma vez ele falou isso que você fez está errado. Inclusive tem várias regras que eu acho boas dele, tipo assim, não falar nunca sobre o espetáculo que você acabou de fazer. Vai para casa, pensa, no dia seguinte você fala. Regressa que nós não a fazemos. Não, né? Vocês falam logo depois. Nós falamos logo a seguir ao espetáculo. Mas numa...
numa boa. Tem que tomar muito cuidado, né? Mas tem que tomar muito cuidado. Porque é muito comum você sair do improviso e falar assim Caralho, por que você não ouviu o que eu fiz? Sabe? E às vezes você, se você pensar melhor, você vai entender que você também não estava com muita escuta. Ou talvez, sabe? Isso é muito ruim, essa energia, quando você sai da peça. Então respirar, e aí o que você falou de hoje? Foi bom, respira, pensa. Se for sério, no dia seguinte, você ainda vai falar e vai falar de outro jeito.
Então, a gente tenta não falar... Você deve levar acima de dormir sobre o assunto. Isso. Não fala no calor, por exemplo. E outra coisa, tem quase um bordão que a gente virou uma piada nossa, que é todo é um presente. Como é que? Todo é um presente. Já percebi. Tudo é um presente. Todo é um presente. Porque, realmente, a pessoa falar uma coisa, em cena, improviso, tem muito isso. Se você encarar o outro com uma fonte, alguém que está atrapalhando as suas ideias...
E o Imprevisto passasse a ser quase um jogo de poder e não... Exatamente. É aquilo que deve ser, que é o quê? Eu acho que é uma troca de presentes. É. Ok. Se você entender o outro como alguém... É um amigo secreto. Exatamente, é um amigo secreto. Ele tem muito isso, o Gustavo me disse. Às vezes ele entra sem ideia nenhuma e ele sabe que se você entrar, ele vai usar qualquer coisa que você fizer. Então, se você fizer uma mímica ruim, eu sou péssimo de mímica,
Então vou fazer ali meu carro que não vai parecer um carro E ele imediatamente já vai ver esse presente Que é a mímica ruim que eu fiz E já vai fingir que é outra coisa que eu tô fazendo aqui com as mãos Certo Sabe, uma cerâmica E de repente o meu erro de fazer uma mímica péssima Vai ser um puta presente pra ele E vice-versa Então essa ideia de você trocar uma lógica da correção Pra uma lógica da dádiva Uma lógica de uau, que máximo isso Mímica péssima que você fez De repente é um bailado, né? Exatamente Sim Sim
Estavas a dizer que tens uma péssima relação com a ideia da autoridade. E a perguntar-vos isso, e começo por ti aqui César, já percebemos a ideia do Gregório, qual é a tua relação com o poder, com a ideia da regra? É para desviar sempre, na dúvida, sempre do contra? Não, eu não sou totalmente...
Não tenho essa anarquia. Eu gosto de regras. Eu lido bem com as regras. Nem sempre obedeço. E gosto dessa luta. Só que eu gosto muito de argumentar. Eu acho que esse meu lado de... Coisa que o Gregório também gosta. Já apanhei o Gregório.
aqui e ali a argumentar fortemente, não é uma discussão embora seja, estou a falar de uma discussão artística, criativa, mas o Gregório argumenta obviamente muito bem e eu gosto desse lado de argumentar e às vezes é muito mais para argumentar do que propriamente para impor ou para criar ou que me obedeçam, não tem a ver com isso. Eu chateia muito o não argumento, o ah não, porque não, ou porque aquela aquela aquela
Não argumentarem a mim causa-me algum desespero e aí leva-me a impor muito mais a minha ideia.
Quando argumentam, por mais que eu acho que a minha ideia até poderá ser, não há ideias melhores, mas até poderá naquela altura servir mais ao espetáculo ou ao que se quer, eu tenho tendência a deixar-me levar pelo argumento, a ficar admirado com o argumento e a dizer opa, eu não acho nada assim, mas adoro este argumento, então o argumento seduz-me muito, a argumentação seduz-me muito. Eu sou de storytelling, para mim tudo é storytelling.
Então esse argumento, por mais que ele seja inválido para o que estamos a definir, eu deixo-me ir mais pelo argumento. Portanto, qualquer coisa bem argumentada, para mim é uma vitória logo do outro lado. E o seu contrário. Para mim, quando até pode ter razão, mas é muito mal argumentado, eu aí tenho tendência a dizer, não, mas repara, se pá pá pá, e então é impor, é impor, é impor, porque eu sinto do outro lado ali uma má argumentação. Portanto, eu seduz muito o argumento.
Portanto, eu prefiro ceder logo na discussão porque foi muitíssimo bem argumentado. Ou aquela mentira genial, sabes? Eu gosto de um bom mentiroso. Funciona com os teus filhos também? Também funciona com os teus filhos. Perdoa-se se a história for muito boa? Mas imediatamente. Imediatamente. Acho que o argumento é mesmo verdade.
de inventar uma história... Acho genial o argumento. A Mariana já tem 17 anos. Já não precisa muito de... Já vai ao outro lado. Mas argumentar com 5 anos, com 7 anos, aquela argumentação do não, não, pai, mas... Esse argumento ganha-me. Apesar de eu ter partido um espelho. Para mim é logo... Mas só por causa disso? Sim, senhora. Adorei o argumento. Então essa argumentação para mim ganha-me logo, imediatamente, independentemente do que está em causa.
Certo. Gregório, já percebemos que a autoridade é uma coisa que tu à partida rejeitas, não é? Essa ideia de... Mas ainda assim, és uma pessoa desobediante? Ou seja, quais são as tuas maiores histórias de desobediência? Ah, sim, eu sou. Porque nisso eu estou me achando muito parecido com César. Porque eu tenho a impressão de que eu odeio a estupidez, não é tanto a autoridade. Me irrita muito a regra ser mais importante do que a pessoa.
Eu acho que as pessoas são mais importantes que as regras. Então às vezes, ah, essa regra faz sentido. Tá, mas não faz...
pra essa pessoa. Então, ah, não pode atravessar fora da faixa de pedestre. Sim, mas é uma senhora e a rua está vazia num domingo, entendeu? Sim, tem mil situações em que a pessoa, ela precisa, sim, prevalecer a regra. E essa coisa nórdica, alemã, de orgulho, não as regras foi isso que deu no nazismo, matou 6 milhões de pessoas eu acho que é a mesma estrutura desculpa fazer apelar pro nazismo na minha argumentação
É, que eu sei que é uma apelação, mas assim, eu acho que... Por favor. Eu acho que tem algo, né? Claro. Tem algo numa lógica, sabe? Em que a lei... Cara, que acaba não ligando para as vidas das pessoas. E eu gosto que Portugal, nisso, parece um pouco com o Brasil. Certo, quem sabe.
O brasileiro adora falar mal do jeitinho, porque tudo tem um jeitinho. Eu acho o jeitinho maravilhoso. Desde que não seja claro, não é a corrupção, não é comprar. Mas a ideia de, tá bom, não pode, mas por que você está parado aqui? E claro, o seu filho foi comprar um remédio na farmácia porque o seu filho está doente, deixa eu ver ele. Você não vai multar o cara que parou para comprar um remédio no filho que está doente, sabe?
Você entender as exceções e cuidar e ter um afeto no olhar, na escuta, antes de aplicar a regra é muito importante. E, no entanto, um homem tão humano...
tão preocupado com as pessoas e tão processado, não é? Porra, toda hora. Toda hora. Porquê? Dá-te gozo ou é só chato? Cara, me dá gozo porque eu não tenho que pagar pelos processos. Tem um advogado... Do pote dos fundos. Que vai, gente.
Aliás, os fundos já sabem para que servem Na porta dos fundos É para pagar as coisas que estão gostando Cara, eu falo Mas eu juro que não é de propósito Eu acho que está meio na moda olhar Ver para processar Mas na verdade eu gosto um pouco de coisas que
de empurrar um pouco os limites. Mas nesse caso do processo, nem é. Na maioria das vezes, tem sido coisas muito estúpidas. Tu percebes-te... Ok, tu a dizer isto... Está aqui uma voz na tua cabeça a dizer processo, processo. Ou é tipo... Ah, olha... É surpresa, realmente. É surpresa, é surpresa. Eu realmente não entendo o que faz uma coisa ser processável ou não. Sabe? Eu falei que a Heineken tinha gosto de MDMA.
E aí eu não achei que isso fosse uma questão... Achei que só queria uma opinião. É uma opinião, não é? É uma coisa assim, uma opinião de gosto de sommelier. Realmente tem um pouco, tem um retrogosto. E eles não custaram? Não, um processo violentíssimo. Aí falei com o outro...
Cara, e o outro só com tempo... Cara, o Zé foi o mais louco. Tem um restaurante no Brasil que processou... Tu não disseste o nome. Eu não falei o nome. Eu falei... Esse é aquele agora, o Coco Bambu. Claro, o Coco Bambu. Eu não consegui perceber essa história. E olha que eu ouço o meu só. Eu achei isso genial. O menor sentido essa história. Mas explica-me isso. É por causa do Camarões.
Tem um restaurante chamado Camarões, que foi supostamente, agora vão ser processados também em Portugal. Vamos usar alegadamente para tudo. Alegadamente. Vamos por aqui esta palavra em baixo. Alegadamente, o restaurante Coco Bambu copiou tudo do Camarões.
Se você não pisa na cidade de Natal sem te contarem essa história. Porque eles são muito orgulhosos desse restaurante Camarões. Certo. Que justamente não queria sair de Natal pra não perder a qualidade. Então foi lá um cara que olhou todo mundo, roubou os garções, inclusive roubou o cardápio, inclusive chamou de Camarões.
A princípio, a chamou, aí o cocobambu processou, ele perdeu, ele trocou o nome para cocobambu. Entendeu? Aí eu falei a história sem contar o nome. Tem um restaurante que plagiou porque roubou, só botou até o mesmo nome e tal. E antes que plagiaram, processaram-te? Eles me processaram e falaram assim, quando você conta a história, só pode ser a gente. E os próprios que iram no mar, mas... Caralho, servem-se a carapuça, né? Entendeu?
Como é que eu sabia que eu ia ser processado? Eu tomei o cuidado de não falar o nome.
Mas a sorte é que vão perder. O nosso advogado já falou assim, não tem a menor chance deles ganharem esse processo. Eles só querem encher o seu saco. Então esse que é o problema também. E aproveitarem a boleia pra... Pra falarem o nome dele. Escroto, olha-se pra caralho. Que nome merda. Eu por acaso não acho. Acho lindo. Tu já foste processado?
Nunca fui processado. Andas a fazer qualquer coisa mal. É justamente isso. Mas eu sinto-me assim. Há pouco tempo tivemos essa conversa num camarim. Eu ando a fazer muito mal. Agora a ambição do humorista tem que ser o processo. Não é que seja a ambição. Estou a usar. Mas eu sinto-me diariamente cobarde.
Nesse aspecto, sim, sim, sim. Porque eu não consigo lidar com esse ataque de internet torto e a direito, seja por que tema for. E portanto... Eu tenho um covarde muito em alguns temas. Não à mesa de jantar com amigos, isso tenho discussões muitas e saudáveis sobre variedíssimos temas, mas acobarde-me muito, eu não sei se o papel...
de um ator, um artista, um comediante, está nesse... Mas isso é por o ónus no comediante. Não, mas muitas vezes diz isso. Muitas vezes, muitas pessoas no meu Instagram dizem com a quantidade de seguidores que tens, devias dizer que não sei quem devia ser preço. Isso é outra coisa, sim. Ou que não sei quê. Certo. Eu não tenho esse poder de fala, não tenho esse poder todo.
Teria que estudar a séria matéria, aprofundar naquele tema para falar sobre ele e não muito, de uma forma epidérmica, dizer que há... Mas também é muito porque as coisas hoje estão tão...
polarizadas, não é? E as pessoas estão tão sedentas de qualquer coisa que acompanham alguém que tem que chega a muita gente porque é que tu não estás a falar sobre aquilo que eu acho importante Mas eu aí, olha, o Gregório já disse duas ou três vezes aqui que procura ser como eu eu aqui procuro muito ser o Gregório porque talvez na quantidade de guerras que ele compra e muitíssimas e muitas e
E todas elas muito bem. Corajoso e até nos defende, de certa maneira. Eu sinto-me muitas vezes defendido por palavras do Gregório, do Ricardo. É muito prazeroso para nós dizer, ah, sim, alguém falou, mas talvez o Gregório não lide tão mal como eu lido em termos de saúde com o pós.
O que isso traz? Eu sofro muito na neto quando dizem olha lá, não sei o que. Sofro muito. E isso vai influenciar a minha vida em casa e com os meus filhos. Influencia muito e eu não tenho essa coragem.
Claro. Não, eu entendo muito isso dele, porque realmente... E eu estou virando um pouco mais assim, eu estou escolhendo mais as batalhas. Quer dizer, o Coco Bambu, no caso, eu não tinha escolhido. Às vezes as batalhas... Era uma batalha que tu tinhas e não sabias. As batalhas escolhem, tá? As batalhas escolhem. Que eu falando do Coco Bambu, sou eu tentando não comprar brigas no Brasil. Exato, eras tudo assim fofinho, sim. Exatamente.
Quer dizer, não falando do Coco Bambu, não. Falando de um restaurante aí... Um restaurante...
Enfim, eu tenho um pouco o contrário ao mesmo tempo, que é o seguinte, eu desde pequeno, que eu não posso ver alguém fazendo uma merda, que eu vou atrás. Eu lembro quantos meninos estavam indo para o diretor, eu ia tanto para o diretor, quantos meninos estavam indo para o diretor e eu não estava.
que não me chamaram, o que fizeram que eu não fui chamado? E eu queria ir junto, sabe? Falar assim, não é? Eu me sentia mal de não ir ao diretor. É o quê? Uma preocupação com a injustiça desde sempre? Com a justiça, não. Eu acho que é com não estar alinhado ao poder, à maioria, sabe? Não ser, eu tinha muito medo disso, assim, de ser. Então, eu estudei, acho que isso daí também me informou, que eu estudei numa escola meio rígida.
que eu odiava, que era a escola francesa do Rio, da escola Licea Mulher. Eu odiava porque eles eram justamente franceses e a regra e tal. E eu passei uma escolaridade inteira lutando contra o sistema. No sistema. No sistema. No sistema. Eu achava um resistão da Segunda Guerra. Eu ia lá e me aliava e era representante de sala, justamente. Era tudo. E eu tinha um ódio gigante daquela regra, daqueles diretores, daquela coisa. Aí eu fui lá e botei minha filha na mesma escola, minhas filhas.
Incrível, esses padrões que a gente... É uma loucura, mas eu percebi que é porque, no fundo, foi muito importante para mim ter uma lei contra a qual lutar. Porque eu acho que... E às vezes é bom saber onde é que está o limite para saber quando é que estamos deste lado ou do lado de lá. Meus pais sempre foram mais liberais. São pais, são artistas, eram pais. E não tinha muita regra no sentido de hora para dormir, não tinha uma, sabe, a hora exata, todos à mesa não tinham que se sentar de uma forma, uma etiqueta rígida.
Não, aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela aquela
Eles eram bastante progressistas, assim, liberais e tal. Então eu não tinha um poder contra o qual lutar em casa, sabe? Porque quando meu pai me pegou... Eu tive problemas com a polícia com 13 anos de idade por fumar maconha na rua. Ou três? 13. Imagina, é com três. Cara, foi a primeira vez que eu fumei maconha. Ok. 13 ou 14, agora eu não lembro. No aterro do Flamengo, brotou um PM do nada. Porque eles, sei lá, como eles saem do... Que é comum até hoje.
Até hoje, no AD do Flamengo, acho que eles ficam atrás da árvore, não sei. E era legal fumar. Era ilegal. Ainda é, mas na época era mais ilegal. E eles chegaram e brotaram, e foi horrível. Bateram, o cara me deu um socão. Eu já era marrento, como se diz no Brasil. Era, como se diz, marrento? Marrento é quê? Tinha lata, não sei como é que se fala. Não, marrento é tipo atrevido. Ok, sim, sim.
folgado também. Certo, certo. E eu falei, e eles começaram a fazer um terrorismo de que vocês vão apodrecer na cadeia, vão morrer, vão, sei lá, uma coisa horrorosa. Aí eu falei, vamos, eu conheço meus direitos, falou alguma coisa assim. Aí ele cala a boca, me deu um socão aqui assim, eu caí no chão. Foi horrível. E aí extorquiramos a gente, fomos à casa de um moleque, de um amigo meu pegar o Playstation dele, demos o Playstation dele pro policial.
Olha que merda. Isso já me aconteceu no Rio. Já aconteceu, né? A minha já. Olha isso. Quando eu morava lá. Incrível. Aconteceu ainda. É horrível. Você tem mais medo da polícia do que do tráfico no Rio. E aí, quando eu contei isso com meus pais, meu pai falou, por que você não fuma comigo? Fuma aqui em casa. Seu pai fuma. Eu fuma. Seu avó fuma. Meu pai falou. Eu passei a fumar com a minha avó. Minha avó fumava maconha. Fumavas maconha com a tua avó. Fumava. Isso com os mesmos 14.
Não, não, depois. É incrível. Depois. Com a minha avó foi um pouco depois. O que o meu pai falou foi, se quiser fumar maconha, cuidado, se a idade não é boa, ele teve um papo que eu acho que foi certo. É um pouco cedo, mas não fumo mais na rua. E sobretudo por causa de consequências como essa, que depois também é um exagero. Exatamente. Não tens o corretivo que é justo. Exatamente. Imagina, fumares erva com a tua avó.
A minha avó nunca fumou. Mas imagina. Mas eu acho que tem um... Não sei, mas tem uma... Tem um lar interessante que eu adorava ter passado por isso. Mas a minha avó não fumava maconha. Eu nunca fumei maconha. Minha avó descobriu a maconha com 80 anos. Foi uma maravilha na vida dela. Mas só com 80 é que ela fumou? Ela viveu até 90 e poucos. Fumando.
E ela tinha uma velhice maravilhosa, porque ela morava perto da praia, todo dia ela fumava na praia, tinha um cabelo bem vermelho, era uma figura, e todo mundo adorava ela na praia, na Ipanema, ela morava em Ipanema. Era uma pessoa muito querida, um pouco também como uma senhora que teve uma velhice divertidíssima.
ia morrer de rir, fazia amigos na praia, andava falando com todo mundo. Ela teve uma velhice ideal, eu acho que muito graças à maconha, porque acho que é uma droga ótima para a terceira idade. Não é droga para 14 anos, eu acho. Certo. Porque o cérebro não está em formação e tal, não é certo. Eu vou ser um pouco careta com isso, inclusive com as minhas filhas. Isso é engraçado, depois também, perceber como é que nós fazemos isso, a atitude que temos com os miúdos. Tu és menino para ter boas histórias com a polícia também.
Tenho algumas, porque, atenção, eu esta cobardia que tenho na internet... Sobra, tem? Ela sobra-me pessoalmente depois. Eu tenho muito este... Eu sou da justiça e da injustiça também. Eu compro...
É aquela pessoa que não tem nada a ver com uma situação e se for preciso metes-te percebidos que uma coisa te está... Imediatamente, sim, sim, sim. Quando extrapolou para esta coisa toda gigante de qualquer pessoa já te vem dizer olha, tu, não sei o quê, isso é que me amedrontou porque eu sei que eu não lido bem e não vivo bem com isso. Mas no que diz respeito à rua e esse tratamento de autoridade, eu aí vou muito no braço de ferro.
Ou seja, é um bocado também aquela ideia de combater o pequeno poder quando é exercido de uma forma abusiva, não é? Sem dúvida. Eu tive alguns casos assim. Um que estava a contar antes de começarmos a filmar, com o Marco Gonçalves. Eu podia ir, não contes, por favor. Um ator, improvisador também brasileiro, de São Paulo. Ele tinha vindo para fazer um espetáculo connosco, com Comendal à Carte, e foi o dia da estreia. Portanto, eu só o tinha conhecido em São Paulo, mas muito pouco.
e quando ele vem para cá estreamos e ele ainda não estava num hotel e eu disse olha, queres dormir na minha casa, eu tenho uma casa fora de Lisboa e podes ficar lá, não sei o quê vamos, vamos, vamos e ele foi a conduzir o meu carro ah, deixa-me conduzir, não sei o quê em Lisboa e tal, eu tenho a carteira de condução, ah, claro e ele levou o meu carro e eu ia no lugar do Pendura, até que na Ponte 25 de Abril a operação se top E aí
Uma blitz. E mandou-me parar. E ele ficou preocupado. Mas eu não tinha visto o grau de preocupação que ele estava. Era muitíssimo. Não tinha percebido. E ele ficou, mas eu achei que era porque ele estava a conduzir. E eu disse, não, não, está tudo bem. Tens a carta de condução, está tudo bem. Ele é que ia guiar o meu carro. E ele encostou.
E o polícia pede os documentos do carro, os meus documentos, os da viatura e os dele. Ele deu o carteiro de condução, ele olhou assim, a carteira no Brasil, assim, ok, tudo bem. Os seus documentos, eu dei os meus documentos. Ah, sim, tudo bem, os documentos da viatura. Sim, sim. E eu abro.
Uma papelada, sabes? Eu odeio documentos. Não sei o que é que são. Odeio documentos. Eu adorava dar o porta-luvas todo, arrancar. Ah, arranque. Acha aí. Acha. Tipo papel, papel, papel. Então fiquei meio... Ah, e era muito tarde. Nós tínhamos ido comer a seguir ao espetáculo. Tipo, eram umas duas da manhã. Três da manhã. E eu não estava a encontrar. Ah, mas é este? Não, não, esse é o não sei o quê. Faltou o seguro.
Sim, sim, mas é que eu não estou a encontrar o seguro. Sim, mas tenho que encontrar o seguro. Sim, mas não estou a encontrar. E nós, não sei como é que é no Brasil, mas tens 24 horas ou 48 horas para apresentar o documento. Sim, sim, para apresentar, sim. Podes não ter logo no momento. Podes não ter logo no momento. E eu não estava a encontrar. E esse policial disse-me, esse polícia disse-me, ah, vocês lá porque trabalham em televisão acham que podem não ter regras?
E eu fiquei puto e fechei assim. Não sei. Não sabe? Não sei, não sei. Passo-me uma guia, não sei o que, eu vou entregar no outro dia. Não sei. Não vou procurar mais. Mas agora tenho que encontrar. Não tenho que encontrar, não vou procurar mais. Bom, aquilo houve um bate-boca, porque eu não gostei que ele tivesse falado. Amoaste um pouco. Não quero. E começa a ouvir o mar Gonçalves muito baixinho. César, vai.
Dá para ele o... Não, não, sem olhar para o Marco, não vou dar. Bom, e o polícia, não sei o quê, então pronto, tem 24 horas, 48 para apresentar, está aqui, apicinou, nervoso, pô, me deu, me mandou-se o papel, eu peguei no papel, quando olho para o Marco Gonçalves, a chorar, a caírem lágrimas, a tremer.
Caralho, meu irmão Você falou assim com ele Você falou, não, calma, calma Não, não, mas está tudo bem Nossa, não podes No Brasil estávamos mortos Não, felizmente aqui não Então isto deu uma Playstation para não ir para cada pobre Senão ainda hoje estava preso Exatamente, fui salvo por uma Playstation Então esse abuso de autoridade E essa coisa do Só que trabalha em televisão, acha que pode Já me aconteceu mais do que uma vez E aquela coisa
Porque quem trabalha em televisão tem esses dois lados opostos, não é? Ou até às vezes podes não ter nada. Ah, passo lá, não é? Normalmente acontece. Aquela coisa de... Ah, é uma garça, amor. Às vezes não chegas a mostrar. Tipo, ah, não, pronto, e passa. No Brasil funciona. Como o contrário também às vezes é... Gregório.
É um pouco parecido. Eu acho que tem um lado que a exigência é até maior, ainda mais pra mim, que não sou exatamente um amigo da polícia, né, em algum lugar. A polícia no Brasil, ela é um pouco politizada. Então, já olham pra mim, dificilmente vão me passar. Mas, embora eu...
Tem acontecido já isso também, de muitos policiais, gente boa, que falaram assim, Ê, porra, é você. Exato. E deixa passar. Mas eu acho que tem, de modo geral, uma exigência um pouco maior. Por exemplo, eu às vezes chego muito atrasado no aeroporto. E eu vejo... A tentativa de pôr às vezes. Às vezes, é. Eu sempre chego em cima da hora. E às vezes acontece de ter uma fila gigante no raio-x.
E aí eu vejo pessoas que estão no meu voo falando assim, olha, voo, eu tô atrasado no meu voo. Porque quando a pessoa tá com voo em cima da hora, ela às vezes passa a fila do raio-x. Porque o voo delas...
Entendeu? Tá em cima. Certo, certo. Então elas vão perder. Faz algum sentido. Eu não posso. Eu não posso, porque se eu fizer isso, é o famoso que tá dizendo... Ah, tá achando que é fácil, sei lá o quê. Sim, sim, sim. Já perdeu estes aviões por isso? Já perdi. Eu já fiz isso de, gente, meu voo foi horroroso, porque aí começam... Ah, tá pensando que é da televisão que vai... Entendeu?
Então você acaba tendo que ser mais chato, mais careta, seguir mais as regras, porque as pessoas estão olhando e vão achar que você está fazendo isso por causa porque é famoso por algum motivo. Qual é que diriam que foi a vossa maior desobediência até hoje? No sentido em que coisa que esperavam de vocês e a maior desobediência da vossa vida. A maior desobediência? Ou a vossa existência já é uma grande desobediência, porque senão o humor.
Maior desobediência... Ou por outra, pergunta outra maneira. Qual foi a escolha que tu fizeste que te deu mais liberdade até hoje? A escolha que eu fiz que me deu mais liberdade? Olha, eu acho que é... Acho que esta é inevitável dizer que realmente foi trabalhar em improvisação. Acho que é mesmo. Foi a escolha mais acertada nesse sentido de liberdade, embora ela tenha a tal pistola para tu teres que ser criativo na hora. Tem a ser.
mas eu ainda considero que ela tem essa liberdade de tu não te preocupares até o momento. Porque em outros espetáculos que já fiz, onde tens texto, onde tens marcações, onde tens ensaios, tu vives com a arma. Aliás, o espetáculo do Gregório, o Céu na Língua,
que eu posso dizer que foi a melhor coisa que eu vi em 47 anos de idade, a melhor coisa que eu vi de tudo que já vi. Portugal é muito bem escrito, é muito bem feito, é tudo. Mas tu vives com uma arma de...
Texto de marcações Por mais que tu já tenhas aquilo muito Estruturado, muito pensado Tu continuas, acredito eu Antes de ir para o palco a dizer Vê se não esqueço daquela coisa Ontem não fui ali, fiz aquela marcação mala Ontem saltei aquele pedaço do texto que é bom No improviso não, tens essa liberdade Até eu ir logo Não sei Então dirias que o improviso foi a escolha mais Acho que sim Qual é que achas que foi A escolha que tu fizeste na vida que te deu mais E aí
Eu acho que a peça que eu fiz agora está me dando uma liberdade muito gostosa, porque... A liberdade está numa cidade diferente todos os dias, não é?
É muito contraditório, né? Porque ao mesmo tempo é uma coisa menos libertária. Mas o que eu sinto é que ela está me dando uma liberdade de eu poder dizer não. Porque, aliás, ela é fruto do desemprego, porque eu fui demitido do... Demitido, não. Não é a palavra porque eu não era contratado, mas a HBO, que eu fazia um programa há sete anos, cancelou o Greg News, que era a minha fonte de renda primária. Minha fonte primária, sim.
Depois a Folha também cancelou a minha coluna, que também era uma outra fonte de renda. Algumas coisas que eu fazia, por algum motivo, no ano de 2024, elas caíram. Foi um ano que eu falei, o que aconteceu agora? E aí eu me vi, de repente, falando, caralho, eu vou ter que aceitar umas coisas que não são tão boas. Fiz uma coisa que eu não gostei muito aqui, eu comecei a ficar agoniado. Aí, pô, vou pensar numa peça, sabe? Pra eu ter uma peça minha que me... Em boa hora.
Cara, e foi ótimo, porque hoje, graças à peça, eu não preciso fazer a minha peça. A peça é a minha fonte de renda única hoje em dia. Eu não preciso fazer nada mais que eu não queira, claro. Certo. Então, tá pra mim um grito de liberdade. A Fernanda Torres, que é uma atriz que eu amo, falou que ela, quando eu tava com sua peça, falou assim, ah, parabéns, você comprou um táxi, você ganhou um táxi. Eu falei, como assim? Porque essa peça, ela diz que ela tem uma peça, que é o Casa dos Budas de Todos, que é o táxi dela, que ela tem um táxi na garagem.
Então ela tá precisando ganhar um dinheiro. Pega no táxi. Então eu me sinto com essa peça com um táxi. Eu vou parar de fazer ela, mas eu vou ter em algum momento, mas eu vou ficar com esse táxi na garagem. Que é uma coisa que assim, vou descolar um trocadinho aqui no domingo, tá vazio. Qual é o teu táxi? É o Comer Alacarte. Sem dúvida, né? É um táxi já com 26 anos. 26 anos? Cara, isso é um recorde, não é?
O Gustavo diz que sim. Eu acho que é. Porque os outros grupos de improviso que começaram na altura, todos terminaram. Certo. O nosso manteve-se, com mortos pelo meio, mas manteve-se a 26 anos. Portanto, é claramente o meu táxi.
De todas as coisas que vocês fazem, e incluo aqui não só aquilo que fazem como trabalho, ou seja, como pais, como maridos, como tudo, vocês são mais livres em qual das vossas vidas? É tipo, és mais livre...
Sei lá, no corpo de uma velha, és mais livre a escrever, és mais livre no palco, és mais livre como marido da Giovana, pai das tuas filhas. Onde é que vocês se sentem mais plenos de liberdade? Exercer melhor a liberdade. Eu é noutra profissão que adoro, eu é fotografar. Ah, é verdade. Fotografar é onde eu estou mais livre, onde eu mais me sinto eu, livre de qualquer coisa, sou eu.
a passear, a ver ângulos, a ver outras...
E ganha prêmios e tudo. E fotografa lindamente. Já aconteceu assim umas coisas, mas é onde eu me sinto melhor hoje em dia. Dá uns anos já para cá. Mas é onde eu sou mais feliz é a fotografar. E tu, Greg? Eu acho que família, as minhas meninas eu fico muito, muito... Ah, sei lá. Para a gente, porque é do improviso, é um estado criativo com as crianças e da brincadeira de ouvir. Não sei se é liberdade, que ao mesmo tempo é uma escravidão. Sim. Isso é uma loucura de ter filhos.
Perguntar-vos agora, entrar aqui num tema que é... Vocês são já de uma geração de homens, de quem não é esperado que sejam machos, que estejam aqui a prover tudo e mais alguma coisa, não é? A ideia de... Isso é, ao mesmo tempo, é libertador?
Percebem esta ideia de... E não só em relação à família, ou seja, acho que os homens estão cada vez mais a poder estar em contacto com as emoções, com os afetos, com a vulnerabilidade. Como é que vocês olham para isso?
Essa ideia de que... Sim, total. Liberta os homens também, não é? Totalmente, é muito libertador. Imagina, o meu avô era um cara que não podia lidar com criança, porque aquilo era uma coisa gay para ele, sabe?
Sei lá, cuidar com crianças. Então ele olhava pra gente com uma cara de... Não chega perto. É, imagina se ele ia sentar no chão, engatinhar, sabe? Certo. E eu sinto que ele tinha essa tristeza, porque ele gostaria, às vezes, de pensar, não, os meninos não ligam pra mim. Mas ele tinha uma relação muito...
Ele obviamente queria ter aproveitado os netos, mas não lhe era permitido. E meu pai já não, meu pai já brincava, mas talvez eu sinto, ainda tinha no meu pai, mas ainda tem a sombra desse pai falando para ele. Eu acho que, para mim, minha geração já não tem e é muito libertador. Sim, é uma geração de homens que dizem que se vão sair às quatro porque vão buscar os filhos, tipo, claro que sim.
não é tipo patético sim já estamos, não tem nada a ver mesmo uma geração há muito pouco tempo os nossos pais quase nós temos essa, isso realmente é muito libertador, essa coisa do homem não chora que já não sabe como é hoje em dia
Coisa de, ah, um homem não chora. Isso já não existe. O homem chora, já podemos chorar. E acham que os homens ganham também, ou perdem um segundo a pensar que para eles poderem ser muito livres...
Há alguém que tem que ficar muito preso, nomeadamente quase sempre mulheres, a tomar conta da casa, das crianças, de tudo. Ou seja, como é que vocês olham para isso? Sim, total. Tem uma coisa também que era muito... Meu pai, por exemplo, ele era tido como um pai espetacular por todo mundo meia-volta, porque ele fazia o básico. Ele ia buscar gente na escola, eventualmente. E as pessoas falavam, uau, um pai que busca. Era uma coisa... Uau!
e hoje em dia já não é assim e está certo e eu acho que tem uma coisa mesmo dessa suposta porque hoje em dia eu me sinto tem uma coisa da paternidade que ela escraviza um pouco a paternidade legal porque a paternidade antiga não escravizava nada era melhor antes um tipo de sentia-se muito
Era muito fácil, né? Era muito fácil, porque você não era uma obrigação nenhuma. Ao mesmo tempo, era uma tristeza, porque você chegava no fim da vida e falava que você não viu seu filho crescer. Porque você não existe... A paternidade, a relação com o filho está diretamente ligada também ao perrengue que você passa. Não sei como é que se diz isso em Portugal. A dificuldade. É. A chatez. A chatez. A chatez é melhor que a dificuldade. A chatez, é. É.
Tem algo de acordar no meio da noite, que é o inferno, mas também cria um laço. Então, esses pais que tinham uma paternidade muito livre, com muitas aspas, uma paternidade que não abdicou de nada na vida, eu tenho certeza que eles têm uma relação muito mais frágil com os filhos. Mas também inaugura uma nova sensação, que é... Desculpa.
Que vem uma culpinha também. Aquela culpinha boa de quando a pessoa está longe e não estou lá. Claro, eu vivo todos os dias essa culpa. Eu acho que por acaso esse ângulo que tu agora propuseste para a conversa, eu acho que ele ainda continua...
Ainda não está tão resolvido assim. Eu ainda sinto que cabe muito à mulher quase com uma obrigação de... Nós trabalhamos muito, o Gregório viaja muito com o espetáculo dele, eu com o meu programa. Ainda há... Eu acho que ainda precisa de ser... Quando a balança tem que... Essa balança... Para mim, acho que ainda está desequilibrada e eu próprio pertenço ao desequilíbrio dessa balança. Certo.
porque aceito muita coisa que é fora na mesma hora porque vais ter que filmar em Sidney ah sim, sim, claro sem nunca dizer assim não, espera, em Sidney não dá porque tem que ir buscar à escola não, porque sei que alguma forma se arranja então a minha primeira
vontade a dizer que sim ao projeto. Que eu acho que nas mulheres não é tanto assim. Acho que pensam muito mais calma para Sidney, não sei se posso. Com os miúdos, com não sei o quê, tem que ver com o meu marido. Pensam em mais pessoas e em mais situações antes de aceitar uma coisa. Nós acho que ainda estamos no... Ah, claro, digressão no Brasil.
Eu tenho em casa uma mulher que não... Assim, que é braba. Então, o que é ótimo. Mas assim, eu tenho que dar, prestar conta. Ah, eu também. Você tá maluco? Eu também. Tipo a cisne, sabe? Eu também tenho que justificar muito bem. Justifica de ir. Mas foi assinado. Assinado. Assinado. Mas na exigência... Aqui, eu tô fazendo... Eu chego no dia da minha peça e eu saio...
No dia seguinte, não tem um dia extra, que é uma pena, eu adorei, mas por outro lado, eu também estou morrendo de saudade, então não é que ela me exige. Mas assim, eu também não poderia ser esse pai, foda-se, poderia ser divorciado, claro. Mas muitas vezes eu subia extra.
Pode ajudar na tua chegada depois. Pode. Eu vou argumentar isso na papelada. Mas a verdade é que a gente também morre de saudades, né? São muito loucos. Cara, eu fico... Cada vez mais. Era para eu estar completamente... Porra, eufórico é a coisa mais feliz do mundo. E eu estou por um lado. Mas também tem um coração apelido. Uma faquinha. É culpazinha. Uma faca. E eu vejo o vídeo e ela crescendo. A menor tem três anos cada dia. Começou a andar e eu não vi. Andou de bicicleta e eu não vi. Nossa.
Isso daí não tem... Então eu tento muito compensar de quando estar presente lá, estar pra cacete. Então também tem isso que eu tento, não é? Porque a nossa profissão, ela é quase incompatível com a parentalidade. Tanto pra homens quanto pra mulher, não é? Porque ela é às oito horas da noite, que é a hora que é pra botar pra dormir. Não é de oito às cinco enquanto você tá na escola.
Então, eu acho que tento compensar acordando, levantando, nos horários que os outros pais não estão, né? Porque os pais não estão em casa numa segunda tarde. E eu consigo estar. Mas é um equilíbrio muito difícil de manter, porque envolve isso. Está sempre no contra-fluxo da diversão. Então, às vezes, tento levar para o teatro. É claro, nem sempre elas gostam. Ficam, ah, que saco isso daqui. Mas vão que elas, depois, um dia vão para a televisão e dizem, ah, eu cresci nos teatros com o meu pai.
Vamos agora dizer é muito linda a culpa, agora vamos dizer mal de crianças, que também acho necessário vocês sentem que com esta maneira como tudo tudo isto está a mudar, a família as crianças estão a são as crianças que bandam nas famílias agora, nas casas eu acho que existem essas casas, lá em casa não como é que vocês fazem para as crianças não? nossa, eu não deixo minha filha falar tudo é muito em função da criança sim não
Não, e eu tento ouvi-la muito, ter muito, muito carinho e amor, óbvio, mas eu não tolero respostinha, sabe, de tom mesmo, tipo assim, você está maluca de falar assim, sabe, tipo assim, um calaboca, imagina, você vai falar calaboca para os teus pais. Nunca na vida também. Não, está doido. Mas hoje em dia é um bocado esta coisa de, de, de coisas que nem, tudo é muito, tudo é positivo, não é, a gente não diz que não, a gente vai como é que ele se sente, como é que não sei o quê. Está doida.
Não, eu digo que não o tempo inteiro, eles não mandam absolutamente nada, não vamos almoçar onde eles querem muito, porque tem não sei o quê. Não tem cardápio. Não escolhem, não, não, não. É tudo, não. Eu também acho. Aliás, estão acorrentados agora em casa. Agora estão acorrentados enquanto você não volta. Até eu voltar. Cara, mas eu sinto muito isso com elas, que as crianças amam uma restrição.
No princípio elas vão gritar, claro, vão falar, ah, mas é que a filha da fulana, a minha amiga, ela pode ver. Mas na verdade a restrição pra criança, ela é muito confortável. E muito estruturante. Não tem nada mais desesperador numa criança do que a escolha, porque ela não sabe escolher. Então fala assim, o que você quer jantar hoje? Ela não quer se escolher, ela vai fingir que quer, mas ela não quer escolher o que ela quer jantar, porque ela não sabe escolher.
Então é uma tortura, é injusto você dar pra criança o direito de escolher, porque ela não tem livre-arbítrio, não tem...
Maturidade para escolher. Porque por ela, então, ela ia jantar com uma sopa de ketchup todos os dias com batata frita e botar Nutella dentro. Ia passar mal, ia vomitar, ia ficar doente, sei lá. Então, é muito injusto você dar para a criança essa suposta liberdade.
A minha casa, nós não mudamos a vida em função das crianças. Fazemos exatamente aquilo que temos que fazer e elas são nossos filhos e fazem um papel muitíssimo bem de serem nossos filhos. Mas não viram pais, não viram decisores. Não tem o ascendente sobre aquilo. Não, não, não. E tu que já tens filhos, já tens assim uma mais velha, portanto, dirias a quem é que nós que temos filhos mais pequenos, dizer que não, não estraga ninguém, não é?
Vai da forma como tu dizes que não. Lá está. Voltámos. Eu sou um apaixonado pela argumentação. Portanto, eu não digo um não com a Mariana, por exemplo. Mariana tem 17 anos. Não é exatamente um não igual a que diga o Xavier de 5. Portanto, o não não é exatamente igual. Mas a Mariana adora a argumentação. E ela própria argumenta o porquê do sim. Ah, pai, mas é que eu...
achava que não sei o quê, porque era melhor, porque não sei o quê, e eu disse, está bem, eu percebo o ponto de vista, não concordo, porque não sei o quê. Então, queria ali um bate-boca de argumentação e a levá-la ao meu argumento. E com os meus filhos igual. Os meus filhos, eu estava a dizer que há... Depende dos filhos, não há dois filhos iguais.
Eu digo que não, mas por exemplo, o Martim, que tem sete anos, a pior coisa que tu podes fazer ao Martim é arrancar uma pulseira daquelas de papel dos, sei lá, das festas de anos e dos parques. Ah, dos parques, sim, aquelas de festival. Sim, por ele tinha pulseiras até aqui de papel. E arrancar-lhe uma pulseira daquela é tirar-lhe um órgão. É tirar um pedaço da vida dele. Da vida. E ele fica, pai, amarela não.
E diz assim, pai, a amarela não. E fica triste. O mundo acaba ali. Não faz sentido. E então ele às vezes aparece com muitas pulseiras e eu odeio aquilo. Também porquinho, não é? Então eu normalmente faço, brinco, não sei o quê. Não sei onde é que o pai pôs a minha pulseira. Ah, pai, vai pôr uma pulseira. Não, o pai põe, mas sabes que é mais bonito num homem ter, por exemplo, uma pulseira. Acho mais bonito do que... Nunca dou o exemplo dele. E ele às vezes fica olhar para o braço dele até aqui.
Eu acho mais bonito, filho, porque tem a ver com elegância, com classe. Ou usar um relógio, por exemplo, do que usar as pulseiras o pai não gosta. Perfeito. E ele fica muito, é lá está, na argumentação. E depois o porquê, até que eu lá o apanho e ele diz pai, esta está a ficar meio velhinha, então eu tiro estas duas. Pronto, já são menos. Já com pulseiras de 1978. Já com pulseiras de 1978. Exato. E então lá vai cedendo, mas é mais pela argumentação. Eu adoro a argumentação mais do que outra coisa.
Certo. E tu, Gregório, também. Sim, e eu adoro dar opções. É um truque clássico, não é? É dar falsas opções. Ah, eu faço muito isso. Então, não quero ir para a escola, não quero ir para a escola.
Tenha uma ideia, você pode escolher. Você quer ir pulando que nem um coelho ou você quer ir voando que nem um passarinho, sabe? Porque vamos lá, a criança dá falsas opções, a menor não funciona, mas a menor, uau, eu posso escolher. Exato, é ilusão da escolha, né? Lindamente. E a menor tem uma vantagem, que a maior é mais argumentadora também, por ser maior, mas a menor tem um fraco por comédia, por piada.
Ela é uma coisa que ela mais gosta do mundo, é palhaço, é humor físico. Certo. Então, se ela pode estar, na hora que for, no meio do tantrum e tem uma queda, eu voltei a fazer palhaçaria, coisa de... Ela morre de rir, não importa.
o quanto que ela esteja berrando porque está puto, porque não vai comer. Então ela é muito manhosa, ela chora, mas ao longo do tempo ela quer o humor, assim, uma arma. Então também tem isso, acho que dá para usar muito o humor na educação, do tipo assim, ter a leveza. Porque se você entrar, ela vai falar, não quero comer, você fala assim, vai comer, não quero comer. Isso vai ser infernal. Mas você faz uma piadinha do que, pá, e você vê aqui, e olha aqui, quando vê, ela está comendo, cara. Quem foi a pessoa mais livre que já conheceram?
Falei da minha avó, né, que tinha esses 80 anos e fumava. É, realmente. Um exemplo de liberdade lindo. Até como artista. Ela era uma artista caótica, assim. Ela era poeta, pintora, era pianista, na verdade. Era o que ela mais fazia até. E ela fazia meio tudo. Então ela tinha a liberdade de se expressar de todas as formas. Fazia tudo muito bem. Foi começar a fumar maconha aos 80. Às 80. Ela era uma doida maravilhosa, assim. Ela era de 90 e poucos anos.
Estava um pouco triste. Falei, o que houve? Ela falou assim, não sei ainda o que eu quero ser.
na vida. Ela teve essa dúvida até morrer, assim. Mas que é uma dúvida boa, acho, de se ter, né? A pessoa mais livre que eu conheci... Talvez seja uma resposta que não a que queiras ouvir, mas eu acho que a pessoa mais livre que eu conheci é um amigo meu, que tu conheces também muito bem, que se chama João Manzar. Acho que é a pessoa mais livre que eu conheci na vida.
na essência de ser livre de realmente ele não sabe o que vai fazer no minuto a seguir e tem uma liberdade de escolha, de decisão de acorda hoje e vai para Tóquio ainda hoje acho que já vou a Tóquio mas pagaste e compraste bilhete não, não, mas tipo, comprávamos agora chegou-me a propor muitas coisas deste género bora a Tóquio
e vai e vai e compra na hora e vai e diz nove e meia da noite há um voo e vou para Tóquio e acho que é o João, tanto livre de cabeça como de atitude, como de horário como de calendário, acho que foi o João curioso
Este podcast tem o apoio da Dacia e se querem saber onde é que o ouvem mesmo, mesmo, mesmo, muito bem, eu digo-vos, é a bordo de um Dacia Spring, o elétrico que é mais silencioso do que uma criança quando está a fazer as neiras. Não contente, também tem aquele pequeno detalhe de ser só o elétrico mais acessível do mercado. E agora, para terminar, Gregório e César, se vocês mandassem, o que é que passava a ser obrigatório?
Folga. Férias. Certo. Não, é porque eu acho que tem, às vezes, uma coisa, um culto, como eu falei do trabalho inferno, das pessoas não pararem, e eu acho que o tempo é muito importante. Até para quem não quer. Ah, mas eu gosto de me dar uma coisa na outra. Até para essa pessoa vai ser melhor a obrigação da folga. Sim, mas agora você tem a obrigação de parar. Parar. Eu acho que seria a amabilidade. Acho que devias ser obrigado a ser amável. Cris.
Que frete é que deixavas de fazer? Sabe-se o que é um frete? Não, quer dizer, eu perguntei logo antes de vir, porque eu tinha ouvido essa... Mas eu não sei. Quer dizer, no Brasil é o transporte, mas aqui não. Portanto, esta pergunta para ti é que transporte é que deixavas de fazer? Exatamente. Ah, exatamente, até o aeroporto. Aqui é sacrifício. Sacrifício, sim, mas frete é meio... Frete é sacrifício. Maravilhoso, adorei. Não é meio um sacrifício, é aquela...
É aquela coisa que tu tens que fazer e socialmente aceito que não é uma coisa muito boa de fazer. Um frete. Ter uma tarefa doméstica que tu não gostas. O balgão é um sacrifício. Certo, sim, sim. Não. Sim. Acho que dos fretes... Mas qual é a pergunta? Desculpa, qual é o frete? Que deixavas de fazer. Ah, que deixavas de fazer? Uhum.
Eu acho que tem um tipo de obrigação social muito desagradável. Eu adoro encontros, amigos e tal, mas tem um tipo de obrigação de socialização, de small talk, assim, sabe? De modo geral, de conversinha, que me incomoda muito. Tipo, o papo, sabe? Eu adoro, por exemplo, a minha família encontrar pai e mãe é uma delícia. Mas quando começa aquela família longa, de Natal, de como é que tá? Aí você tem que prestar contas do que você fez.
Conversa de elevador é um frete que eu acho detestável. Eu estou no mesmo frete. No que diz respeito a temos que ir e falar do que fizemos. Conversa de chacha. Acho que é esse frete. O que é que todos devíamos experimentar uma vez na vida? Uma vez na vida.
Eu ia falar uma coisa terrível, porque eu vou ser cancelado, mas filhos foi a coisa mais revolucionária. Agora não vou falar para as pessoas terem filhos, que eu vou ser cancelado aqui, porque todo mundo tem o direito de não tê-los. Agora, para mim, foi uma coisa... E também LSD, eu também vou ser... Eu ficaria entre filhos e LSD. Porque LSD, para mim, é a minha droga de escolha. Eu acho uma delícia. A minha frase fica entre filhos e LSD. Fica entre filhos e LSD.
Faz sentido? Não sei. Faz todo sentido. E é meio parecido, assim. Qual era a pergunta? É uma viagem, né? Uma viagem? Não. Desculpa. É uma viagem. E é meio parecido porque nos dois casos tem uma coisa mágica que é a anulação do ego. Sabe? Que os filhos proporcionam, você deixa de ser o centro do mundo.
E o LSD também, você silencia aquelas vozes na sua cabeça e a gente fala, uau, eu sou um só com a natureza, eu sou um só com o planeta, eu faço parte de algo maior. Isso eu senti com filhos também e com o LSD. Faz todo sentido. O que é que devíamos todos experimentar uma vez na vida? Eu, LSD, nunca experimentei.
Mas já fui ao Prado, já tive anestesia geral. Também é muito. É uma delícia. Eu poderia ouvir alguns segundos aqui. O LSD nunca experimentou, mas já fui ao Prado. E eu pensei num museu do Prado. E eu pensei onde é que isto vai. O que é que devíamos fazer uma vez na vida? Sim. Sei lá. Comer o teu famoso arroz de não sei o quê. Não, não, não. Nada disso.
é que eu acho que tenho a resposta é muito bom improvisar para chegar aqui sim, sim, mas é daquelas nós queremos dar a certa, não é? e é daquelas que eu vou chegar ao carro e vou dizer aquilo que vem à cabeça a primeira olha, eu acho que eu vou dizer uma, não porque está aqui o Gregório mas eu acho que é o Carnaval no Rio
O Carnaval no Rio, acho que é uma experiência... É uma ótima versão. É verdade. Por acaso, achei que ias responder isso. Não sei se tem a ver também com um livro que estou a ler agora do Rui de Castro. O Carnaval no Fogo. O Carnaval no Fogo. É espetacular. É maravilhoso. Estou a ler agora. É maravilhoso. É maravilhoso. É incrível. E venho meio com esse... Carnaval. Falando que eu adoro o Rio também. Com esse fogo. Carnaval é ninguém manda ninguém.
Ninguém manda ninguém. E tudo funciona. E tem ali uma... Tem uma liberdade e ao mesmo tempo uma...
Eu sou um fã de música também, portanto aquela música que te entra, que te faz com que os órgãos façam... Certo. Acho que é o Carnaval no Rio. E não falámos nisso também, que é uma coisa que ninguém manda a ti. Aqui vais tu também, aqui vou eu fazer um disco e hipócrime pequeno. Exatamente. Durante um ano, ninguém pode dizer a palavra... Mindset. Ele até fez cara... Ele até fez assim um bocadinho cara de vómito quando dizem Mindset.
Mãe de sete é tão boa. Mãe de sete é ótimo. Mãe de sete é ótimo. Ninguém pode dizer... Trills. Trills ou Trills?
As pessoas falam treuze? Irrita-me muito treuze. Treuze com ele. Ou treuze com o... Isso é que eu pergunto. É como o quais? Eu... O treuze ou treuze pra mim faz-me um chão. Sabe que engraçado? No Rio falam douze. É sério? Douze? Mas treze não, falam treze. Agora douze. Onze, douze.
Do Rio, exatamente. É que é, muito trelos. É que já são trelos. Que palavra é que deixava de ser um palavrão? Foda-se. Com ou não? O que é que passava a dar crime? O que é que passava a dar multa ou a ser crime? O que tu fazias e... Desculpa, vou ter que autuar. Ah, andar com a camisola do clube...
do seu próprio clube, na rua que não em dias de jogo. Que específico, eu adoro. Sou, sou. Irrita-me muito. Sim. Uma coisa é um time... Uma camisa do Vasta Gama. Pronto. Do meu próprio clube, numa terça-feira à tarde, sem jogo, é multa. Senhor, desculpe, multa.
Não pode. Esse é o seu time. É pior. Pior. Me multa ainda. Exato. É gravado. No Brasil você ia multar muita gente. Ia multar muita gente. Eu tenho um amigo que ele só se... O Queiroga, não sei se conhece. Sei perfeitamente. O Queiroga, ele só tem camisas do Botafogo, mas não é a expressão, não. Não é a maneira de dizer. Ele coleciona. Então ele tem, acho que, 300. Então ele tem uma de mais chique, o de gala, uma de serocão. É muito difícil.
As pessoas que fazem essa coleção, normalmente, depois nunca usam. O meu irmão tem quase 70 camisolas do Benfica.
Nunca uso assim, devia usar no dia-a-dia. O que é que tu punhas? O que é que dá para ti? Dava crime? Mas as coleções não tens que usar no dia-a-dia, não é? Sim, certo. Eu tenho uma coleção muito de sui generis e não uso do dia-a-dia. São lupas, imagina. Tu fazes coleção de lupas?
Faço coleção de lupas. Lupas. Lupa? Não sabia disso. Quantas você tem? Estás a gozar? Eu gosto muito de lupas. O objeto de lupas. Lupas. Quantas você tem? Ainda não tenho muitas, porque a coleção não tem muito tempo. Sempre andei a adiar. Um dia faço uma coleção de lupas. Adoro lupas, adoro lupas, adoro lupas. Houve um dia... Vou comprar. Comprei e já tenho umas, sei lá, umas 60. Uau! Mas há assim tantos tipos de lupas diferentes? Há muitas. Mas não são lupas que tu chegas a uma loja e compras. É uma lupa...
Tens que pesquisar bastante. Imagina, lupa de religioaria antiga, lupa de marinheiro, de 1963, 1954. Uau, cara, eu não sabia dessa... Adoro lupas. Eu acho o objeto lindo. E sabe o que é bom de você ter uma coleção específica? As pessoas vão lembrar... Eu quando viro uma lupa, eu vou... Claro.
Eu vou te trazer uma lupa. Lupa, acho bonito. Sim, senhora. Acho bonito. Continuamos sem saber o que é que o Gregório criminalizava. O que era? Ah, criminalizava? Ah, cara, é tanta coisa que me dá raiva. A rede social, basicamente, tudo. Ah, essa também. Eu queria proibir a rede, de modo geral. Ah, sim, sim. Sabe o que eu queria, se fosse ditador, que tivesse um horário de uso?
Tipo um recolher abrigatório. A televisão antigamente era assim. Quando era pequeno a televisão não começava. Tinha fim, claro. Desligou, acabou. Não tem que ver televisão às duas horas da manhã. Não tem, é para dormir. Tinha um horário e acabava o dia grande. E a escrita social era assim também. Fechou, acabou às dez e retoma às seis, sabe? E não podias ir lá com um chefe de álcool ou assim, porque podes escrever coisas. Exatamente, é certo.
Bafómetro, tem que ver. Antes de ir. Idade também. Idade. Só pode ser até aos 75.
E assim, até 20 Porque olha que vergonha A gente, imagina se a gente tivesse rede social com 15 anos A vergonha Graças a Deus que não havia Mas por acaso tu quase tem um ponto que me parece Curioso que é Está uma cena tipo a terceira idade e as redes sociais Claro Está complicado Bom, o Brasil, Bolsonaro é filho disso na verdade São idosos com redes sociais
Se um dia fores preso, o mais provável é ser porque fizeste o quê? O trânsito me faz meio pateta, sabe? O pateta no trânsito. Eu poderia cometer um crime no trânsito. Eu poderia vazar conversas minhas no WhatsApp com amigos, fazendo piadas que infringem direitos humanos. Ah, mesmo? Logo direitos humanos? Era direto para a AIA, nem sequer era no Brasil. Exatamente.
Eu vi alguém falando assim, cara, você é amigo de uma pessoa de verdade se o vazamento das suas conversas der em cadeia. Ah, sim, sim, sim. Entende? Se não, talvez você não tenha amigos. Você não entende? Eu também seria preso por isso. Conversas do WhatsApp com amigos.
Pesado. Amanhã, sim, sim. Pesado. Bom, se vocês mandassem na vossa vida desde o início, esta pergunta é palermo, aviso já, desde o momento zero, que escolha é que tinham feito diferente? Ou que escolha é que revertiam? Ah.
Eu teria focado em um instrumento. Eu nunca dei bola para instrumento na infância. Meus pais insistiram, botaram em uma aula, sei lá o quê. Eu não gostava. Mas tu tocas? Eu toco muito mal, porque eu comecei velho. Velho, uns 30 anos, comecei a tocar trombone. E eu fiz piano quando era criança, fiz violão quando era criança. Toco rudimento, toco muito mal, porque...
eu fiz essas aulas, mas toco os dois ainda mal, porque eu não o levei a sério. Se eu pudesse mandar em mim, eu me obrigaria a levar, porque quem toca bem o instrumento é a minha maior inveja. Ontem estava vendo, aliás, seu marido gênio, marido da Inês, Ivo, Ivo, desculpe, qual é o sobrenome dele? Costa. Ivo Costa, que gênio, meu Deus. Me dá uma inveja positiva. Também é uma sorte que é tipo, sou logo, quero aquilo desde muito cedo.
Isso. Isso é uma benção na vida de uma pessoa. É uma benção. Eu sou um bocado como a tua avó. Eu acho que aos 90 também não sei o que é que eu quero dizer.
eu dificilmente tenho uma resposta para ti porque uma das coisas que eu mais gosto em mim é a que eu menos gosto em mim adeus e bom dia e tem a ver também com instrumentos musicais tem a ver com uma série de coisas eu fiquei-me pela metade de tudo o que eu faço
de tudo o que eu faço, ou seja, eu tenho a minha busca pela... Ou seja, achas que se fosse muito bom numa coisa não terias tanto gosto de ser não ser excelente em várias? É muito por aí. Eu como tenho muita obsessão por fazer muitas coisas
depois esqueci-me de fazer uma muito bem. Então eu faço várias coisinhas, que é tipo, eu improviso, depois faço, depois toco, e depois escrevo coisas, depois canto, depois faço, mas depois também não sei o quê, depois equilibro uma flor no meu nariz, como equilibro uma cadeira, faz uma coleção de lupas. Faz uma coleção de lupas.
E não sou o maior colecionador de lupas do mundo. Que era talvez o que eu me devia ter focado. E não foquei. Só tenho 60 ao invés de ter 6 milhões de lupas. E hoje está no recorde. E para terminar, a pergunta das perguntas deste podcast. O que é que manda em ti? Às minhas filhas. É pá, aos meus filhos, claro.
O Lins que não mandava, né? A gente falou que a gente mandava. Mas no fim de contas, vocês têm quantos filhos? Olha, então dá para dar uma, cada um dá aí um ao César também. São autoclantes, podem distribuir aos vossos filhos. Tu tens três filhos? Olha! A princípio...
Quando eles quiserem mandar. Já tens isto bem pensado, porque esta última pergunta, quem tem filhos diz os meus filhos aqui. Muita gente sim, mas é giro que eu perguntei-vos o que é que mandem vocês e vocês disseram levaram para quem. Ah, é verdade. Aqueles para mim são como objetos, percebem-se. Claro, eu percebo. São mobiliários. As garrafas também são para vocês. Muito obrigada por terem vindo ao Mandas em Mim. Nós é que agradecemos.
Gregório do Vivi e a César Mourão. Muito obrigado. Uma coleção de lupas. Incrível. Também me surpreendeu isso. Porra.
Aqui eu estou, uma mulher entre muitos.
DIU