EP #6 — Andrea Ormond: O mundo das comédias brasileiras
Andrea Ormond, pesquisadora especializada em comédia cinematográfica brasileira, debate com André e Gabriel o gênero que mais vende ingresso no país. A conversa analisa o boom das comédias populares nos anos 2010, o fenômeno "Money Chanchadas", a passagem dos influencers para o cinema e a relação da crítica com esse tipo de produção. O episódio também discute o que a comédia brasileira diz sobre o humor político e sobre os impasses do cinema contemporâneo.
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Salve, salve, Blackout no ar. Episódio 6 começando. Desse lado de cá, Gabriel Martins. E aqui, André Félix. A gente está aí indo para a segunda metade, né? Da temporada. Segunda metade da temporada. E aí, André, tudo certo, né? Tudo certo. Dias quentes por aqui. E vamos que vamos.
Esse episódio é um episódio que é muito especial, né, André? Eu acho que foi um dos episódios que eu mais aprendi de todas as nossas entrevistas. É um episódio que eu particularmente estava muito ansioso para fazer, que a gente tem como uma convidada hoje, André Ormon, que eu acredito que talvez até agora é uma das convidadas que pode ser que algumas pessoas não conheçam tanto, embora deveriam conhecer, né?
Ela é uma crítica que eu acompanho já pelo menos uns 10 anos. E tem aquela coisa que o crítico que bate com as suas ideias te faz se identificar. E aí conhecer ela pessoalmente, conversar com ela...
Ela é muito mais legal do que... Sabe quando você acompanha a pessoa só pelos textos, depois você conhece a pessoa, é uma pessoa legal também. E isso transparece no papo, que é um papo bem tranquilo, é uma pessoa bem tranquila, bem simples.
mas com um pensamento muito sofisticado sobre esse Brasil que uma parte da inteligência insiste em não enxergar, que é o das monies chanchadas, e ela até faz esse resgate da porno chanchada.
Dos filmes populares, né? Ela é uma figura, né, cara? Eu acho que, assim, foi a primeira vez que eu também conversei com ela mais extensivamente, assim, pessoalmente. Eu conheci a André Ormon com textos na revista Cinética e no blog Estranho Encontro dela, né? Essa duplinha, mas mais os textos da revista Cinética tem um texto dela...
Os textos delas sobre comédias, as mona enchanchadas são muito bons, mas tem um texto delas sobre o Aquarius, do Kleber Mendonça Filho, que eu gosto muito, assim. Fundamental. Se vocês digitarem aí Aquarius, revista cinética, é...
Acho que vocês vão achar. A Revista Cinética é uma revista eletrônica, que a gente inclusive vai falar mais sobre ela em um dos próximos episódios aqui, que a gente vai falar sobre crítica. Mas dando só um breve panorama aqui sobre a Andrea Ormão, ela é uma escritora, pesquisadora, curadora, crítica de arte brasileira, né? E talvez um dos trabalhos mais significativos dela, uma das obras maiores, é uma trilogia de livros chamada Ensaios de Cinema Brasileiro, dos filmes silenciosos ao século XXI.
que ela lançou em 2024, que inclusive fomos presenteados, né, André, com cópias disso aí durante o podcast, e que é um livro que tá à venda aí, gente, acho que conseguem achar aí nas livrarias online, livrarias físicas, e a gente recomenda muito também.
porque, novamente a gente reiterando aqui, né André, a importância de se ver, de se ler sobre cinema brasileiro, eu acho que a Andréia, pra mim, o que me chama muita atenção, pra além do conteúdo da pesquisa e do que a gente consegue perceber do olhar dela, muito carinhoso pra cinema brasileiro, a canetada é muito boa, assim, acho que tem uma coisa rara de pessoas que conseguem na escrita...
ter uma personalidade muito única e eu posso dizer assim que a Andréia, em termos de canetada, o jeito que ela escreve, ela é a minha crítica brasileira favorita em atividade, pelo menos, assim, né? É uma das minhas também. É uma das minhas também e porque ela consegue aliar uma... é...
visão do passado que chega a ser quase nostálgica, uma total atualidade, né? Quando ela fala de filmes contemporâneos e autores contemporâneos, de grande bilheteria, né? Tenta investigar o que é esse fenômeno.
da comédia que vai perdendo força no mundo todo e aqui continua muito forte, né? Então, eu acho que é um episódio fundamental por ser uma grande crítica brasileira e por ter nunca se sucumbido ao hype, né? Então, assim, eu acho legal isso, assim, que ela sempre está não indo de encontro às novas...
tendências experimentais, mas sim aos cinemas mais básicos. E o texto dela é sobre um dos meus filmes brasileiros favoritos, que é o Bar Esperança, o último a fechar do Hugo Carvana, é particularmente uma pérola.
Ela escreveu muito também sobre Walter Hugo Cury, né? Acho que é uma grande figura, um patrimônio histórico. Uma coisa antes da gente passar a bola para a entrevista, qual é a sua sensação sobre essas comédias em geral? Talvez até pensando pós essa conversa que a gente teve com ela, que foi muito densa.
Porque eu acho que vai ficar bem visível na entrevista várias dificuldades que eu tenho com essas comédias. Mas eu queria também te ouvir um pouquinho sobre sua relação com essas comédias brasileiras dos idos de 2010. Se é que você tem uma relação, né? Porque eu também não construí uma relação muito extensa, mas eu tenho opiniões fortes sobre elas também.
Por um lado, eu acho que é um pouco um movimento meio como, em parte, foi a Jovem Guarda, sabe? A Jovem Guarda tem um elemento ali, dentre todas as coisas geniais dos gêneros que apareceram, como Roberto Erasmo, Wanderlei Cardoso, tem um quê de tradução dura.
de uma tendência americana para o Brasil, que é uma coisa que se repete no cinema brasileiro. Isso, de um lado, me afasta um pouco, porque...
Tem temas que, sei lá, temas do Leandro Hasson sobre o Natal, sabe? Tentando trazer o Natal meio gélido para o Brasil com esses símbolos americanos simplesmente porque o Netflix recomendou ele. Ou filmes como aqueles da Samantha Schmutz, que vão copiar filmes como Chuvas Milhões, do Walter Hill.
Então esse movimento, ele me dá uma repelida. Mas ao mesmo tempo, eu sou um cara que me atrai muito pela coisa popular. A pergunta que eu fico fazendo, vendo esse filme, é por que eles dão tão certo? Tentando não sucumbir à tentação.
Tentando não sucubir a tentação é ótimo, mas assim, de que a Globo, a resposta sempre é a Globo, sempre é uma mídia massiva e tudo. Eu acho que tem coisas neles que talvez o bordão, talvez uma captura de uma linguagem carioca, na maioria deles, contemporânea, talvez seja isso que faça eles funcionarem, né?
Agora, cada um tem uma... O Santuça é um tipo de filme. Os filmes feitos pela Ingrid Guimarães são outros filmes. Enfim, é um universo que parece muito homogêneo, mas ele é muito diverso. É, tem uma coisa que eu acho que é curiosa, que esses são filmes que têm uma relação muito forte mesmo com o dinheiro, né? Daí o termo money chanchadas.
mas uma perspectiva meio estranha sobre dinheiro também, né? Talvez um pouco mal resolvida, mas que eu acho que a conversa com a Andrea me fez tentar olhar com um pouco mais de generosidade para outras camadas, ou pelo menos a conversa e os textos antes disso.
De olhar menos como uma busca dentro dos próprios filmes de uma narrativa ou algo que pudesse me envolver, ou ser particularmente original, mas mais como uma evidência também de um tempo, de um momento, né? Que acaba por ter um valor histórico, né? Que acho que talvez a minha tendência original seria uma rejeição maior por não ver ali grande criatividade, grande...
risco, né, em muitas coisas mas eu acho que de alguma forma eu tenho buscado desde essa conversa e a partir dos textos, criar uma relação melhor com essas comédias pra ver o que elas podem dizer sobre a sua própria existência entendendo também sobre em um país que a crise de bilheteria é um grande assunto e nos assombra como pessoas que somos artistas também e aí
entender o que é essa coisa que deu certo, né? Que talvez hoje tenha dado menos certo, né? 2025 me parece que foi um ano não muito bom, mesmo para essas comédias, né? Em termos de bilheteria. Mas que, de alguma forma, foi um grande fenômeno que durou um bom tempo, né?
Eu fiquei achando que faltou a gente perguntar um pouco para além da comédia, né? Eu acho que ela é uma crítica que fala sobre o cinema brasileiro contemporâneo.
Falo isso pensando em coisas tipo a atuação do Afro Reggae na Globoplay, sabe? Tipo, Arcângel Renegado, o jogo que mudou a história. Eu acho que numa segunda conversa, em outra temporada, a gente pode...
Pensar também essas coisas que estão já fazendo história de muito tempo, né? Que também apontam para um sintoma do cinema brasileiro e novos caminhos também. Com certeza. Bom, bora lá, né? Falar com o André. Eu estava a fim de fazer essa conversa já há muito tempo, assim, né? Lendo vários textos seus, assim, sobre as comédias brasileiras.
E no processo, assim, né, de me preparar, assistir, que várias dessas comédias eu meio que perdi, assim, na época que elas apareceram. Não tive vontade, assim, de ir ao cinema, né? Talvez por um certo preconceito, e esse também vai ser um dos assuntos que a gente vai falar. Mas...
Ao assistir ali essas comédias dos idos de 2010, 2012, até que a sorte nos separe, de pernas pro ar, trabalhos que você escreveu, né, que você produziu pensamento sobre, eu me deparei com algo meio insuportável, assim, de ver, às vezes, os filmes, assim, achando difícil, assim, de ver mesmo, sendo um amante de comédia, um amante mesmo, assim, de comédia. Mas tem alguma coisa, assim, que você até coloca, assim, no texto... Voilà.
Especificamente sobre a Teca e a Sorte nos separe Que o Leandro Hasson e a Daniele Vines Fazem personagens meio insuportáveis mesmo Um certo excesso Uma certa...
a tosquidão também da coisa toda, que também tem algo de fascinante. Acho que você escreveu um pouco sobre como isso é fascinante. Eu queria saber, para começar, o que te atraiu nessas comédias, além de ser uma estudiosa de cinema brasileiro, o que especificamente te fez querer começar a escrever mais sobre esses filmes?
E você falar um pouco também desse momento ali, em que começa de fato a nascer o que você cunhou de monas chanchadas, assim, né? Queria que você falasse um pouco desse começo aí. Eu começo o blog Estranho Encontro em 2005. E o Estranho Encontro é um trabalho sobre o passado, às vezes com o pé no presente. Começou assim.
Esse exercício de falar sobre as manas chanchadas, esse nome que eu dei, não é por acaso a gente vai falar sobre isso, porque foi um exercício de falar sobre o que estava acontecendo em tempo real. Era no calor da hora. E eu comecei a notar que havia um monte de características ali que apareciam em outros também.
Ora, se isso acontece, não é mais um fenômeno do cinema, é um fenômeno sociológico. Alguma coisa no Brasil estava acontecendo que impeliu, que levou a essa direção, ponto. Porque na medida em que eu não tenho uma pauta identitária, eu não me vendo algum interesse, eu sou eu, desde o início, sempre fui assim.
eu tenho que entender o que está acontecendo, até por sobrevivência, porque país é assim que eu estou ali metida em 2010, nos 2010. E era um país, a gente lembra, bastante movimentado, né? Para dizer o mínimo. Quando a gente pensa no lance todo da Dilma e no que... E aquele...
Aquele chocar dos ovos, sabe? O ovo da serpente que estava sendo montado. É o Brasil pré-Olimpíada. Depois é o Brasil pós-Olimpíada. É a ressaca do 7 a 1. É uma pós-euforia.
que antes era euforia, se é pós-euforia é porque teve euforia antes, então estava tudo ok. E foi degringolando. Quando a gente fala sobre esses filmes, não pode esquecer esse momento. Porque é muito nítido, gente, é muito nítido. A comédia, ela produziu heróis nacionais, o nosso primeiro palhaço negro conhecido é o Benjamin de Oliveira.
Um cara que nasceu lá na escravidão, literalmente, nos tempos da escravidão, no século XIX, e ele depois, por uma vida louca, brilhante, surreal, ele chega a frequentar o Palácio do Presidente, Floriano Peixoto. Ele vira um ser, assim, totalmente diferente do que ele tinha sido talhado para ser. Ele era filho de um capitão do mato, pô. E ele não suportava o pai, ele tinha terror do pai.
Então vocês imaginam no interior de Minas, no século XIX, antes inclusive de haver BH, nem sequer havia Belo Horizonte. Esse ser aparece ali, filho de um capitão do mato, de uma moça também escrava, e que consegue ter uma vida, uma nova vida, e o Benjamim teve mais de sete vidas, bem mais que os gatos, ele conseguiu virar gente através do circo, através da comédia.
E assim ele faz em 1918, em 1912, se não me engano, os Guaranis. Que é uma paródia do Guarani do Zé de Alencar, que é aquela coisa, ó, o Guarani. A gente tem esses temas sinfônicos, né? Não, é um Guarani.
brincalhão. Ele fez um whiteface, era negro, fez uma maneira lá de virar indígena e com isso ele abriu as portas da comédia no Brasil. No cinema brasileiro, no nosso cinema. Então não tem como desvencilhar a mona enchanchada desse momento histórico.
eufórico, pós-eufórico, que a gente nem sequer imaginaria que ficaria apocalíptico com a pandemia, que estava lá nos anos 2010. E tem um problema de base ali que é o seguinte.
Pensem quando a gente vai falar do corpo, quando a gente vai falar de sexo, quando a gente vai falar da... Quando a gente quer sacanear alguém, fazer alguma brincadeira. Isso é a história do cinema brasileiro. É o Didi imitando o Neymato Grosso, porque tinha um peito cabeludo também. Era uma coisa assim de zoeira. Quando a gente vê essas... pipocando essas comédias, a gente percebe que elas são, em si, essencialmente reacionárias.
Isso que tem que ser guardado. Elas não são conservadoras. Elas são reacionárias. Então, a euforia toda, a libido, por isso que eu falei do sexo, da brincadeira, ou seja, quando a gente está bem, quando a gente está solar, para cima, é o sexo, é a comida, são os sentidos, é o pertencimento a alguma coisa, é a felicidade, é o riso, é a comédia.
Tudo isso foi misturado, foi retravestido, numa embalagem reacionária em que a libido deixa de ser o sexo e passa a ser o dinheiro. Por isso manem chanchada. Porque a gente tem uma tradição de chanchada que é nossa e não há mal nenhum em ser chanchadeiro, em gostar. A gente vai ver ao longo do tempo que essa malícia, essa sacanagem, esse olhar sacana, havia, por exemplo, no Zé Trindade, lá nos anos 50.
Tem o filme Ed Schuá, que faz parte num momento da vida brasileira no cinema, em que havia chanchadas...
E as chanchadas B. As chanchadas A, digamos, as chanchadas eram da Atlântida, eram padrão ouro. Começa um pouco lá a origem, lá com a Lua Lua Carnaval, com a Cinedia, que é um estúdio ultra importante. Essa era a chanchada. A Herbert Riches e a Cinedistre perceberam que ali havia ouro, um petróleo ali que foi descoberto, começaram a fazer chanchadas B. Então não era Oscarito e Grande Otelo, passou a ser Zé Trindade.
A própria Violeta Ferraz era o antecessor ali da mulher feia que vai servir de escada. Tudo isso, gente, está na alma do brasileiro. A gente não pode fugir disso só apenas de se isolar, de criar um cinema que não existe, que nunca existiu. Nós somos chanchadeiros, sim.
Seja agora em 2025, seja em 2010 com essas manas chanchadas, seja nas pornochanchadas lá dos anos 70, é um termo cabuloso porque não havia sexo, penetração, nada disso. Mas era uma coisa mais voltada ao sexo, naquele calor todo da hora em que a gente não poderia nem sequer falar sobre certos temas porque havia uma ditadura, havia uma pornochanchada para dar uma válvula de escape, o pão e o circo. O brasileiro precisa disso. Não à toa os militares não foram burros o suficiente de... Não à toa os militares não foram burros.
extinguir as pornochanchadas, liberaram homeopaticamente. Então, o Mosse, por exemplo, Carlo Mosse, que foi um dos primeiros magnatas da pornochanchada, o Mosse dizia, bom, André, eu botava lá minha pastinha de respeitável funcionário público ali, tentando emular uma cara de pessoa respeitável, ia para Brasília e negociava os filmes.
E assim ele conseguia vender os filmes, por exemplo, como Gisele. Gisele é aquele pinguim em cima do armário. É a alma brasileira, a gente já teve isso. Não adianta ficar tentando criar uma pessoa que não é nossa. Sim, é o pinguim em cima do armário. A gente ri daquilo, a gente brinca daquilo. São diálogos, às vezes, tosquíssimos.
mas que, em essência, refletem essa vontade da gente se libertar de alguma forma. A comédia tem isso. Quando eu falo do Benjamim de Oliveira, não é à toa. Ele se libertou, literalmente, gente, ele teve uma vida por conta da comédia. O cara virou figurinista, virou roteirista, virou aderecista, virou musicista devido ao circo.
O circo, minha gente, está presente ainda hoje em dia. Aquele circo lá dos 1800 aparece, por exemplo, no Paulinho Gogó. Paulinho Gogó, fato venéreo, que é na Praça Nossa. O cara, ele se fez no circo.
Então, comédia brasileira é essa mistura, é essa panela doida em que cabe de um tudo. Cabe comédia, cabe circo, cabe rádio, cabe televisão, cabe teatro de revista, cabe, hoje em dia, o fenômeno dos memes, do streaming, da TV, do cinema propriamente dito, que a gente tem na cabeça, aquela coisa de ir à sala de cinema. Tudo isso é campo para a comédia.
Quando a gente vê as monéis chanchadas nos anos 2010, a gente vê aquele Brasil que quer ser workaholic, que quer brincar de ganhar dinheiro, que as mulheres querem brincar de serem independentes. Por que eu digo brincar? Porque não é tão independente assim, na medida em que precisa do dinheiro e se vive para o dinheiro. Não é uma coisa fluida, desconstruída, a fúria do corpo, o final dos anos 70, o Carlão. Não é nada disso, o Carlão Requembar.
Não é um desejo de liberdade, de a gente formar uma comunidade em que todos somos livres e fazemos. Não. Ali o desejo, a libido, era canalizada para o dinheiro. Então, esses filmes são todos muito marcantes nesse sentido. Todos eles, né? E é interessante que um nome que fica marcado e que ainda hoje em dia faz muito sucesso, por méritos próprios até, porque ele se manteve por vários anos, é o Roberto Santucci.
O Santucci começa em um filme mais cabeça, Bellini e a Esfinge. Isso nem sempre é comentado. Ele percebe essa lacuna no mercado de haver uma sucessão de comédias, de fazer uma franquia de comédias. A gente sempre vê que é um, dois, três. Até que a sorte nos separes, um, dois. De pernas pro ar, um, dois, três. A Sogra Perfeita agora estreou a segunda.
Torrica. Torrica também. Um e dois. Acho que o Torrica foi só um, se não me engano. Foi. Acho que sim. Não me engano. Não me lembro. Mas o fato é que todos esses tem isso. Tem uma... Tem esse estilo que o Santucci criou junto com o Paulo Cursino, que é o roteirista. E eles têm mérito em descobrirem essa lacuna que havia no cinema brasileiro. Porque o público quer. O público queremos isso.
Quando surge o Paulo Gustavo, aí que vem a novidade. Sempre tem, quando está tudo assim planejadinho, estabilizado, todo mundo achando que ia ser por aquele caminho das manas chanchadas, muda a chave, que aparece um cara que não está numa linha gay especificamente, é mais uma coisa drag, é o supersônico, é a Madonna e o...
Eu lembro que após o falecimento do Paulo Gustavo, o Phil Braz, que é o roteirista, muito amigo dele, fez um artigo em colaboração com um jornalista para a Piauí falando sobre o falecimento do Paulo. E é um texto lindo, que todo mundo pode ler nesse momento, se puder, em que ele fala como era essa vida do Paulo Gustavo, a existência do Paulo Gustavo. E eu me identifico totalmente, porque é a minha geração, se for de 77, Paulo era de 78.
E era muito isso, aquela repressão a quem quisesse ser bissexual ou gay, o que fosse. É aquela vontade de se comunicar com o exterior, porque havia uma barreira muito grande na via internet, quando a gente era adolescente. Então era o fato de ir ver na cama com uma adorna, que eu vi, inclusive.
E achar aquilo máximo. Pô, aqueles banalinos bichas e a Madonna bascando chiclete insuportável. Mas era um tesão ver a Madonna. Era um álbum erótico, né? Sim, sim. E o Paulo viu muitas vezes no cinema. Eram as fitas de VHS.
Quem não fez? Eu fiz dezenas, trocentas, milhares de fitas. Era essa geração que cresceu vendo TV pirata, um outro tipo de cinema, de comédia, e que o Paulo simplesmente, quando aparece, ele leva o cinema brasileiro nas costas.
As bilheterias do Minha Mãe é Uma Peça são astronômicas. É coisa que os trapalhões, deixam os trapalhões na poeira dos anos 80. Eu lembro quando era menina, criança, o meu primeiro filme de comédia que eu vi no cinema foi O Cangaceiro Trapalhão. O meu primeiro foi O Trapalhões e O Rei do Futebol. Rei do Futebol. E era assim, era o primeiro filme que a gente via, geralmente era O Trapalhão. É, foi de 81. Total. Pra mim também.
E eu lembro até hoje daquela cena da Bruna Lombardi, ele, como uma lagartixa, como lagartixa, ixa, ixa, ixa, ixa. Aí eles faziam um efeito, tipo as nupces reais do Fred Astaire, em que o plano, assim, o teto ia para baixo e o que estava embaixo ia para cima. Então parecia que a pessoa estava dançando no teto. E ele dançando, fazendo aqueles trejeitos dele. Isso era o fenômeno das bilheterias.
aparece o doido do Paulo Gustavo, quebra tudo a modo dele e cria uma nova fase no cinema brasileiro. E que interessante que seja justo na comédia, né?
Olha aí. Não é no cinema de ação, não é no drama puro e simples, vamos fazer essa separação aqui pra fins da nossa conversa. Porque comédia também é drama. Mas não é aquela coisa encucada, triste. Não. Foi através da comédia que ele instalou um novo caos na cabeça das pessoas, em que ele trouxe as pessoas pra perto e criou um novo cinema brasileiro. Ponto.
Queria te fazer uma pergunta. As comédias no cinema americano, ou seja, o gênero de comédia, teve um declínio nos últimos 10 anos, talvez nos últimos 15 anos, né? De bilheteria. Então, hoje, a comédia que, em algum momento dos anos 90, lá com American Pie, Patricinha de Beverly Hills...
Legalmente Loura. Legalmente Loura. Miss Congeniality, que é... Simpatia. Miss Simpatia. Elas que foram... Que como levaram um pouco a bilheteria, aconteceu um declínio e vários vídeos de redes sociais, de YouTube, atores falam sobre isso, né? Que a comédia... Sim, sim. Ela está no momento em que vai... As maiores comédias desse ano, praticamente todas foram direto para o streaming. Sim.
E aqui você atribui a comédia brasileira ainda ter esse fôlego todo. Eu acho que ano passado, minha irmã e eu foram uma das maiores bilheterias do ano. E ainda tem, minha mãe é uma peça 1, 2, esses filmes todos do Santuça, e o Leandro Hassum, que é um grande fenômeno de Netflix, global, fazendo filmes...
E aí depois vira até uma outra pergunta, filmes baseados em grandes clássicos americanos. Mas o que você atribui a esse movimento em que o maior mercado cinematográfico, esse gênero, está caindo e no nosso ele está, pelo menos, estável, se não está em expansão e pelo menos ele continua sendo sucesso, levando as pessoas para o cinema?
Então, vamos fazer uma autocrítica aqui. Quem éramos nós aqui, né? Conversando. Como é que a gente era em 2010? A gente se lembra da nossa cara em 2010? Pois é.
Então, da mesma forma, é mais do que natural que a ida ao cinema, ou o consumo do fenômeno cinema, também tenha mudado. Quando eu começo, isso é interessante, bem legal de conversar, porque quando eu começo lá em 2005 no Blog Estranho, ou seja, Blog Estranho Encontro, era aquela época da febre dos blogs. E era tipo um ponto de encontro, as pessoas se encontravam ali, a gente conversava, víamos outros blogs, era uma efervescência e as pessoas gostavam.
Pensem o seguinte, os textos, se vocês entrarem agora no site do Estranho Encontro, são imensos, não são pequenos, e são assim de propósito. Eu queria falar o que eu quisesse, e porque havia quem consumisse aquilo, e sinceramente, se não houvesse também, dane-se, porque eu ia fazer igual. Era uma vontade minha de fazer.
Então, quando a gente passa ao longo do tempo, a gente passa por essa web 2.0, em que já tem algum tipo de imersão entre o criador e o público, o público pode interferir com o criador, a gente passa por uma web atual, em que o fenômeno das redes sociais é, já inclusive, coisa do passado, praticamente, é claro que a maneira com que a gente consome a arte mudou também, igualmente. É muito mais passivo do que qualquer outra coisa. A própria Twitter ou o Ex aí,
É feito através de uma estética de poucos caracteres para comunicar pensamentos às vezes complexos ou pensamentos não complexos. São poucos caracteres para você.
E existe também uma cobrança de você ter sempre uma produtividade alta, você ser um cidadão exemplar através do consumo, coisas do gênero. Então, o mundo mudou. A maneira com que a gente consome o cinema mudou. Basta ver, por exemplo, o Whindersson no ônibus. O cara é um fenômeno engraçadíssimo, sim. E ele começou a ir para o streaming fazer também os corres dele, sim.
Porque faz todo sentido. Você pega um cara que tem zilhões de seguidores, olha a mentalidade da coisa, são seguidores, vão com ele, são passivos até certo ponto, mas vão com ele. São uma comunidade que se nutre mutuamente, ele precisa do público, tanto quanto o público precisa dele, e ele vai levar tudo isso para...
pra um canal externo. Pro streaming. Que inclusive fala mundialmente. E que tem todo um suporte, assim, de você poder entrar em outros mercados. Então, na comédia também.
Tem uma cena no Os Vizinhos, que é do Hassum, que é lá de 2020, pouquinho, em que eu achei bem interessante esse fenômeno de uma coisa, o gato mordendo o próprio rabo, sabe? Como é tudo circular. A esposa do Hassum no filme fala você quer saber o que eu quero, Mário Alberto?
Você tem certeza que você quer saber o que eu quero? E a atriz do Porta dos Fundos, que fez aquele... A Julia Rabilo? Sim. Sim, sim, sim. Então, pô, já é uma coisa que se nutre mutuamente. Essa comédia também mudou. Não é lá, obviamente, a dos Trapalhões, que já tá na poeira há muito tempo, né? Nem é a Lada Mona enchanchada. Também já é uma outra, já é uma transformação, é pós-pandemia. E isso explica muita coisa.
porque de fato a gente continua a ter no Brasil a vontade de ter um alívio, ter um refresco, poder sorrir. E o que vai diferenciar sempre a comédia, isso é o ponto central, se tivesse que ficar uma frase do que a gente conversa hoje, eu gostaria que fosse essa. Na piada importa qual lugar você está da piada. Você está com a pessoa que conta a piada, ou você está rindo da pessoa contra quem a piada é feita?
Às vezes você tem que rir contra a pessoa sobre quem a piada é feita, claro. Ele tá ali pra desconcatenar tudo, o comediante fala uma piada e tá pra sacanear o lado tosco da vida. Outras vezes não, outras vezes você vai rir junto com o comediante porque ele quer justamente sacanear o que tá no extraquadro. Isso é a máxima, fundamental. O Charles Chaplin com o balão lá do grande ditador.
Não é pra gente se identificar com aquele cara de bigodinho que tá falando que vai matar geral, coisa do gênero. Não. Ele tá fazendo aquela mise en scene toda e olha que o Chaplin é um cara bastante controverso. Mas se a gente pegar o filme em si, é um convite a vamos rir juntos, vamos debochar disso e vamos enfraquecer essa palhaçada que esse cara na vida real tá fazendo. O tirano da vida real tava fazendo uma guerra.
Então, o lado que você está da piada conta muito. Conta muitíssimo. É o X da questão. Quando a gente vê o Primo Rico e o Primo Probre na estrutura da rádio, é exatamente isso, o Brandão Filho e o Paulo Gracindo. A rádio é um dos fenômenos, dos pontos...
É um dos esquetes mais famosos de todos os tempos. Sim, a balança mais não cai. O que que é? É o cara que é o primo rico, que é o Paulo Gracindo, ele fala assim, todo empolado. E o Brandão Filho que fala assim, é primo, mas eu não consigo... É tudo uma situação armada pro primo pobre.
Ficar por baixo do primo rico e pro primo rico sacanear todo mundo e achar que ele é belo e formoso. Mas quando o Brandão Filho, quando o primo pobre responde, você vê que ele próprio, Paulo Gracinda, que é o babaca. É quem tá ali pra ser zoado. E você fica do lado do primo...
pobre, porque você não precisa fechar com o Paulo Gracindo e pisar nas pessoas, você pode ter graça em muitas coisas depende do brilhantismo de quem faz a piada, do contexto, depende muito tem um fenômeno que você falou do Whindersson Nunes e eu tô já há 10 anos estudando esse fenômeno dos influencers né
Ali por 16, começou uma tentativa dos influencers, muitos deles, eu acho que a maioria deles, dos maiores, o sonho era ser atores da Globo. Ser grandes estrelas da Globo. E a gente viu que...
Nesse tempo, a migração deles para o cinema não foi tão bem sucedida assim. Não falo nem só de público, não. Eu falo da representatividade, a adaptação ao formato, principalmente da Kéfera, o Whindersson Nunes e o Felipe Neto, que são os...
O Felipe Neto, eu não sei se ele fez cinema. Ele fez uma aparição, uma vez eu lembro, como radialista, em um filme também, B, na época, lá dos anos 2010. Mas a Kefra fez a Fada, o Whindersson Nunes migrou para o cinema. E o que isso parecia automático, porque eles tinham seguidores?
Não foi tão automático assim, né? E a gente foi entendendo que as redes, elas têm uma frequência, uma dinâmica, e transportar a rede para as salas de cinema não é tão fácil assim. Eu queria ver você falando dessa geração que vai pegar também de um outro lado.
O Porta dos Fundos, os meninos lá, João Vicente, Gregório do Vieira e até Marcela Dinei depois, enfim. Que se estabeleceram para além da comédia, se estabeleceram uma espécie de... se tornaram o novo status quo da TV brasileira, né?
Então você tem o Porchat com programa de história, você tem o João Vicente com papo de segunda. Eles tomaram um pouco o lugar que já foi de Vigo Vilela, de Luiz Fernando Guimarães, enfim. Queria falar tanto da internet, na verdade, o tema dessa pergunta.
E acho que só complementando o caso do Whindersson Nunes, eu acho bem interessante, particularmente, porque o Whindersson, eu acredito que de todos esses comediantes, ele é o que tem mais seguidores no Brasil no Instagram. E seguidores que ele construiu essencialmente...
Lá atrás, com conteúdo de humor para YouTube, que tinha algo de ficcional. Ele fazia pequenas esquetes em casa, aí depois muitas imitações. E o Whindersson, eu acho imensamente talentoso como ator. Muito.
Muito talentoso mesmo. Ele consegue imitar gente pra caramba. Pra mim, ele é forjado nessa água do Tom Cavalcante, Tiririca e etc. E todos. Mas ele também, já vi por entrevista, ele é um cara muito atento à cultura internacional de comédia. Ele tem uma sofisticação de como pensar a coisa.
Só que ele não virou um protagonista, como o Leandro Hasson virou. Ou pelo menos ainda não. Ainda não, só que é estranho porque já tem muito tempo que o Whindersson tá no jogo. Pelo menos uns 13 anos. Então o caso dele, eu até nem sei se a gente, talvez você vai conseguir ajudar aqui a pensar. Nem tô falando de um diagnóstico, mas esse caso me parece bastante estranho que o Whindersson não tenha virado uma grande estrela de cinema brasileiro.
Eu não sei muito bem por que isso aconteceu, assim. Não sei se tem pormenores contratuais, o que foi proposto a ele. Porque até ele fez o filme lá com o Tom Cavalcante, né? Que eu esqueci o nome. Que tem o Tiro Lipa e tal. Mas ele não era sequer o protagonista, assim. Também era um protagonismo dividido. E ele tem essa comunidade em torno dele. Mas que acabou se destacando mais no stand-up comedy. Que ele tem vários. Ele viaja. O Whindersson é um menino que saiu... É muito bom.
pobre do interior de uma cidade tem jato particular, assim. É uma coisa bem assustadora. Mas isso não se converteu, como o André falou desses vários outros exemplos, no caso dele mais radicalmente não se converteu em um estrelato, assim, como o Ed Murphy, como... Como a Tata Werneck é uma estrela, como a Ingrid Marans é uma estrela, enfim. E o próprio Porchat, que no cinema fez muita coisa.
Vocês estavam falando, se a gente pudesse repetir o que você falou do Whindersson, é interessante que alguém que tem uma cabeça, o que você comentou, lembra? É um talento. É um talento para além da indústria brasileira, ele quer o mercado internacional, não foi isso que você falou? E parece a descrição de um cara chamado Luiz de Barros.
Vocês sabem quem é o Luiz de Barros? É só pra todo mundo que tá ouvindo. Vocês sabem, pessoal, quem é o Luiz de Barros? Foi o cara que gravou a primeira comédia brasileira com som. Chamava-se Acabaram-se os Otários, de 1929.
E é curioso que esse cara que também é outro, que tem uma vida louquíssima, o Lulu de Barros, vulgo Lulu de Barros, ele faz em 1936 um filme que também é cômico, chamado O Jovem Bisavô. Já vou chegar lá no Whindersson, mas eu quero dar esse contexto.
E em 1936, em quase 100 anos, e tem uma cena no Jovem Bisavô que é o seguinte, eles evocam o bisavô do protagonista, que aparece na sala, ah, o que eu quero é uma caixa que foi deixada pelo Estácio de Sá, lá nos 1500, uma coisa assim, antiquíssima. Ele pega no leilão essa caixa, sabendo que ali tem algum mistério.
E usa esse plot pra fazer o filme todo. Era uma peça de teatro que virou cinema. Então eles fazem lá uma chamação. Venha, bisavô, venha. Quando olham pro lado, tá lá o fantasma ao vivo e a cores. Que no caso não é a cores que é preto e branco o filme. Tá ali parado no canto da sala. Não me chamaram, voltei. Tinha uma coisa meio portuguesa, assim, no jeito de falar.
E na hora que eles saem de casa, claro que tem aquela parte toda, ah, o que está acontecendo? Socorro! Eles conseguem sair de casa, o bisavô e o bisneto, né? O bisneto está no tempo lá, em 1936. O bisavô veio lá dos 1700. Eles saem de casa.
Quando eles saem de casa, eles se deparam com uma coisa muito estranha que o bisavô nunca tinha havido na vida. Não tinha nem como saber que aquilo existia. E acha que é um ser de outra galáxia, um objeto de outra galáxia. Vocês sabem o que era? O cinema? Era um carro. Um carro.
Então, se em 1936, e inclusive o personagem fala isso, não, bisavô, hoje em dia a gente tem carro, são melhores do que os burros de carga, você nem viu o cinema, você ainda nem viu o rádio, e o bisavô vai ficando cada vez mais bolado com tudo aquilo. Então, o Whindersson é como se fosse uma reprodução tempos depois de toda essa bagunça. Ele chega num momento distinto, diferente da vida brasileira, de produção de arte, vamos produzir arte.
sem sacralizar nada. Estava dentro de casa, como você falou, Gabi. Estava em casa fazendo os esquetes dele e aquilo foi crescendo. Sempre que a gente faz essa pergunta do porquê que algo não deu certo, a gente precisa entrar na cabeça daquele tempo. Por que que não deu certo, até o momento, o Whindersson virar uma estrela, uma puta estrela de cinema brasileiro?
Será que é porque o público não quer mais isso? Será que ele já não é uma estrela pelo fato de estar ali como youtuber, influenciador, barra pugilista, também, né? Como alguém que levanta... Barra trapper, barra... Barra coach. Barra alguém que fala de depressão, porque tem uma depressão severa. Então, são esses arquétipos que mudaram com o tempo. Assim como o bisavô lá, de 1936,
Ele não consegue entender. Se a gente pegasse, sei lá, a Uísa Carla, às vezes é Macedo, que são estrelas lá dos anos 50, das chanchadas dos anos 50, e trouxessem para esse lugar assim de hoje, elas ficariam sem entender nada. Não entenderiam nada. Não tem aquela coisa do vamos atrás das nossas estrelas, vamos persegui-las.
Vamos tirar, nem foto havia, mas é uma coisa assim de estar junto, abraçar, como foi com as cantoras do rádio, também vamos abraçar e gritar, uns fãs estapeiam outros, porque aquela griga, a Heleninha, eu e a Heleninha, a Emelinha Borba e a Marlene, isso mudou radicalmente, isso não deixou um resquício forte, virou outra coisa. Então, o Whindersson...
Do que eu vejo, do que eu percebo, é um trabalho de base que foi muito bem feito. Ele vai lucrar muito com isso, tanto pessoalmente, me parece que é uma jornada dele também, de entender o mundo, de entender as coisas. Ele não é mais aquele menino do interior do Piauí. Além de ter essa base muito grande, ele está indo no fluxo. O cinema perdeu muito do glamour na sociedade brasileira. Perdeu muitíssimo.
Quem viveu esse momento pré-internet, quem via como era o mercado de cinema, mudou muitíssimo. A gente via o que estava passando no cinema, via as fotos, consumia as fotos. Ah, então o filme vai ser sobre isso. A gente não devia nada, não tinha informação sobre o que acontecia. Então era mais fácil ficar num lugar de conto de fadas. Esses são os atores, as estrelas do cinema. Ó!
Ali não, hoje em dia você tem um diálogo com esses atores e com essas atrizes que antes não havia você pode pressionar eles a ir pra um caminho ou ir pra outro existe uma cobrança maior
uma junção maior entre o público consumidor e o público fabricante de sonhos. Esse é muito o caminho. Então, isso responde a essa pergunta de por que será que ainda não foi, não virou essa mega estrela. Talvez ele já seja nesse contexto que ele sabe lidar muito bem, ele navega lindamente.
É interessante, né? E eu queria voltar um pouquinho, eu comecei falando um pouco dessa, de uma certa rejeição, assim, que essas comédias me provocaram, e elaborando um pouco melhor, tinha a ver, às vezes, com...
uma certa... Talvez tenha um pouco a ver com o que você falou de uma ideia reacionária que acompanha, e eu queria que talvez você falasse um pouco mais do gesto dos filmes, assim, esteticamente mesmo falando. Tem uma coisa que eu acho interessante, que vendo o Até Que A Sorte Nos Separe e o De Pernas Pro Ar, os primeiros...
Eu não lembrava, na minha cabeça, eu não lembrava que mesmo sendo naquele momento produções já relativamente grandes, assim, com um certo dinheiro aplicado, elas tinham pra mim uma certa cara, por falta de palavra melhor, um pouco amadora. Tem uma equipe toda fazendo, mas não tinha um certo cuidado que eu via com uma...
Uma fotografia que fosse coerente com o filme todo. Até uma outra coisa de enquadramento. Algo de iluminação. Até mesmo essa coisa do cinema digital ali começando a chegar. Então tinha essa cara de um digital um pouco feio e tal. Só que...
Eu fui também, eu falei, deixa eu ver a sequência, estudando especificamente isso, deixa eu ver o 2, o 3, e a coisa vai se arredondando um pouco também. Acho que junto com uma certa maturidade tecnológica da captura digital, até chegar nos filmes, por exemplo, que o Santucci tá fazendo com o Hasson, com a Netflix hoje, que tem totalmente um padrão global de cinema, estético, fotografia, finalização, acabamento.
Então tem também uma coisa que eu acho interessante, assim, que mesmo naquele momento ali de surgimento, se a gente fosse pegar um cinema independente brasileiro que estava com recursos piores que esses filmes, tinha um certo cuidado de um acabamento, que a gente pode até falar do que é essa ideia de bom ou ruim, né?
mas me impressionou, assim, voltar essas comédias, isso também, um certo lugar, até da montagem, assim, muito bruta, não tem uma certa linha narrativa muito coerente, assim, é uma coisa bem caótica de humor, piada, piada, e muita elipse, muita...
Por isso, o nome que eu dei de insuportável, que eu tô dizendo isso também não dizendo que eu não tenho um certo fascínio também, e que as coisas que você escreve também me fascinam ver assim. Mas analisando objetivamente como um filme, isso me provoca um certo desconforto não intelectual, nada disso. É da experiência mesmo de ver. Eu fico achando, às vezes, um pouco demais a forma como enquadra.
pra mim é um pouco difícil acompanhar aí às vezes tem um exagero muito grande uma piada que se reitera, reitera, reitera não vai pra frente então eu queria que você falasse um pouco desses gestos cinematográficos de alguns desses filmes junto a essa ideia mesmo essa ideia reacionária que você comentou, essa ideia do dinheiro acho que essa é uma primeira pergunta porque depois eu queria também entender o que é um filme
esse lugar, voltar a esse lugar político da coisa também. Mas eu queria que você falasse do que está dentro da tela ali, que obviamente reflete o que está fora, mas dessas escolhas narrativas, dessa coisa que talvez pode provocar um certo tipo de rejeição ou não, né? Não sei se você se sentiu assim também, às vezes com uma dificuldade de assistir e com uma certa, caramba, isso está demais, esse excesso, como que eu lido com tudo isso?
Não, com certeza. Essa parte do estranhamento era muito nítida. Lendo os textos que eu escrevi para a cinética, esses que foram no calor da hora, eu tinha que usar todo o meu fel de sarcasmo para poder conter e ser crítica. Porque crítica não é um achismo. Crítica é um embasamento, é uma visão de mundo que você quer compartilhar.
E aí nessas horas o sarcasmo, que é uma das minhas características principais, brilhar muito. De fato, é cansativo. É cansativo. E vamos em termos estéticos. Primeiro, eles são blockbusters, certo? Se eles são blockbusters, eles não podem fazer algo muito fluido, desconstruído, porque senão não vai ter o público que consome o blockbuster.
E aí, rapidinho, só porque a gente tem ouvintes, disseca um pouco melhor o que você quer dizer como blockbuster. A gente sabe, mas é bom a galera em casa. Pensem o seguinte, vocês estão em casa agora nesse momento e vocês têm que pensar em um filme que fez muito sucesso. Recente.
3, 2, 1. 3, 2, 1. Vou dar mais uma chance. 3, 2, 1. É claro que algum de vocês, ou quase todos vocês, vão pensar em algum filme estrangeiro. Barbie. Avatar. Sim, filme super-herói. O filme do Minecraft. Exatamente.
Porque ali, ou seja, é um fenômeno que aparece tanto no cinema, gente, quanto na tela do seu celular, quando você tá lendo e aparece aquela propaganda insuportável. A propaganda também é insuportável, né, Gabi? Não só o fio. E eu adoro a tradução brasileira de blockbuster, que é Arrasa Quarteirão. Sim, Arrasa Quarteirão. Arrasa Quarteirão. É bom de falar, né? Arrasa Quarteirão. Arrasa Quarteirão. É tipo, parece um trator desgovernado que destrói o quarteirão inteiro, né?
E é meio verdade. É muito dinheiro, é uma quantidade de dinheiro, assim, absurda, né?
Porque esse fenômeno que existe aqui, ele roda o mundo. Esses filmes estrangeiros que a gente acabou de pensar, eles rodam o mundo, então circulam muito. E eles têm um padrão, novamente a gente está falando de estética, a começar pelos cartazes, pela escolha de cor, pela forma com que os personagens estão no cartaz, tudo isso já é um primeiro ponto, não é à toa.
E não faz mal nenhum e não ser à toa, viu gente? Calma, não vamos detonar tudo ao mesmo tempo agora. Não, pô, é uma indústria, é um fenômeno capitalista que se retroalimenta. Então, aparece uma primeira franquia de um super-herói, vai aparecer uma outra B, assim como a gente falou agora há pouco, da chanchada A, chanchada B. Esse é um outro elemento estético forte.
Ou ele se refaz como farsa. Então ele vai se refazendo, ele ri de si mesmo e vai indo até o extertor. Vamos criar um monte de sósia nossa, mas tá todo mundo lucrando. Essa é a ideia de um blockbuster. É o Rambo, por exemplo, Rock 1, Rock 2, Rock 3, Rock 4. De volta pro futuro. De volta pro futuro. Tudo isso é muita grana. Então é um imaginário sobre grana.
A gente falou primeiro dos cartazes, segundo das franquias e terceiro, vamos ver agora os filmes, dentro dos filmes. O que acontece?
Geralmente é uma repetição de uma... A maneira com que a câmera aparece, ou com que o roteiro é construído, ou com que os atores e atrizes se expressam, repetem coisas que deram certo em outros meios. Exemplo, vamos pegar um bem cabuloso lá dos anos 60, bem antigão mesmo para a gente pensar que não é uma coisa de agora.
Então tinha o seriado Dallas, que é dos anos 70, que fez a cabeça de muita gente, era uma coisa assim, era uma novela. Eu vi, eu vi a criança, meus pais viam. O JR, né? E tudo isso também deu ensejo a outros seriados bays americanos em que os atores também tinham isso, de ser o machão, o JR era o machão gostosão, tem a parte deslumbrada.
Porque é mais fácil você gostar de uma mulher que seja mais frágilzinha do que outra que seja mais da pá virada. Tudo isso faz parte, de boa parte, dos blockbusters. Vamos pensar também no Tropa de Elite, que foi um tremendo arraso a quarteirão, um fenômeno muito importante para o cinema brasileiro. Era isso, você teve uma primeira ideia original que se repetiu no 2 e foi a luta. Então, quando a gente pensa nesses blockbusters, eles têm essa estética da repetição.
de se retroalimentarem, inclusive a minúcias, como o jeito de interpretar, a maneira de você se expressar, a maneira com que o roteiro é construído, a construção da mulher. O tempo em que as coisas acontecem, né? Sim, você deduz a próxima cena, você deduz mole a próxima cena. Então, esse é o contexto do blockbuster, aquele filme que ganha dinheiro pra cacete.
E é do jogo, porque como a gente falou aqui, é um sistema capitalista, a gente precisa conviver nisso e a quem preferir ir para um outro caminho mais contestador ou revolucionário, há espaço também.
Mas o cinema é tudo isso. Não dá pra gente fingir que não é isso. É isso, é essencialmente isso. Quando o Thomas Edison faz lá um dos primeiros, não foi um dos primeiros, mas faz um invento em que a gente consegue ver imagens em movimento, e depois isso vai pra uma escala industrial, e dá em sejo, por exemplo, a Kodak, começa a fazer as películas pros filmes, olha como tudo isso é capitalismo. São as rodas rodando.
Na boa, na boa. E hoje em dia a gente vê um panorama de construção cinematográfica em que, por exemplo, as pessoas nem sabem mais o que é Kodak. Kodak, eu tive um parente meu que faleceu em 2006. Eu lembro que a gente estava mostrando, eu e meu marido para ele, um celular. Já era um senhor de idade, né? E a gente tirou uma foto juntos. Aí ele falou, o quê? Você quer dizer que isso aqui vai matar Kodak?
Olha a sacada dele. Olha como é. Para a geração dele, a foto era uma coisa sagrada, ultra difícil de ser acessada. E aí você tem um instrumento capitalista de consumo chamado celular, em que você pode fazer filme, fazer vídeo, tirar foto.
Então, tudo isso vai impactando também esteticamente. O nosso padrão de fala, de expressar ideias, como eu falei agora há pouco do Estranho Encontro, um blog com muito texto, tudo era lido, tudo era comentado, continua-se ainda hoje com essa pegada de muita ideia, muita palavra, e ao mesmo tempo você tem que conviver com uma rede social de X caracteres.
Isso muda a gente por dentro também. É claro que o imaginário também é impactado por isso. Então, esses filmes que te incomodam, que te incomodaram lá nos 2010, eles usam essa linguagem que estava chegando.
fragmentado, repetição de piada. Parece uma imensa sessão da tarde, com momentos aqui e ali que trazem algo mais brazuca, assim, em essência, né? Por exemplo, quando o Hassum vai para o exterior, até que a sorte nos separe, ele encontra o Jerry Lewis. Ali o Hassum faz uma declaração de amor para o Jerry Lewis.
uma coisa de pô, eu tô aqui na sua frente, cara você me formou mas é engraçado que o Jerry Lewis ele, o Hasson eu acho que ele não deve ter uns 50 anos hoje 50 e pouquinhos anos o que formou deve ter sido os filmes antigos que ele viu porque ali quando o Hasson nasceu por isso que eu acho essa participação bem estranha
o Jerry Lewis já não tava fazendo ele já não tava na ordem do dia não foi uma influência direta sim, tava naquela fase, quando é que o Jerry Lewis vai morrer vamos esperar, vamos fazer tudo eu quero pegar uma carona nessa cena nesse momento do Jerry Lewis porque talvez também faz um eco ao que me pega assim também dessa coisa, um dos meus incômodos talvez seja um incômodo meio Música
Não sei, talvez seja uma falsa expectativa também, talvez uma expectativa um pouco desiludida, porque para citar um exemplo, a gente, vamos pegar, por exemplo, o Professor Aloprado do Jerry Lewis, né? Que é uma comédia...
Uma comédia muito bem executada do ponto de vista da direção, do humor, em que o ato da comédia, enquanto performance do Jerry Lewis, enquanto forma de filmar, traduz, assim, esteticamente...
Uma crise existencial ali também. Dessa dualidade. É o loser que vira o buddy e de repente tem essa...
tem uma espécie de alter ego, e tem uma questão muito bonita de falar sobre a contradição, e tem uma forma de construir que eu acho que se vale, na minha opinião sobre o Jerry Lewis, de um cinema muito forte, sofisticado em certo lugar.
e que consegue não só o resultado do humor, é muito divertido de ver, é muito engraçado de ver, mas diante disso se constrói algo assim que... Eu saio daquele filme e eu sinto que teve uma certa dança com a vida ali também. Teve uma certa dança, uma certa brincadeira com a ideia.
de se sentir rejeitado, de o bonitão e o feio, conceitos assim da sociedade estão em jogo, estão sendo questionados. E às vezes, eu não vou dizer que essas comédias, e essas comédias eu não tô falando só dos idos lá de trás, não, inclusive das de hoje. Eu às vezes sinto que...
Não está presente tanto essa sofisticação. Claro que quando eu tô falando de Jerry Lewis, eu tô falando também de um gênio, né? Sim, sim. Mas eu sinto que nesse bolo de comédias que vieram, nesse bolo, eu sinto muito mais uma repetição e me falta, às vezes, eu senti falta de algumas...
Algumas correntes e algumas dissidências que talvez falassem um pouco mais sobre a vida ou questionassem um certo status quo da coisa. E nisso vem um certo desapontamento de acabar, no fim das contas, parecendo que no bolo a comédia não pode ser também questionadora nesse lugar ou disruptiva até em quanto forma.
Talvez por essa repetição, né? Esses filmes que viram adaptações de outros filmes, um certo deserto de ideias, assim, originais, assim, um pouco, né? Guardar as dividas proporções dessa palavra. Então, pra mim, esse é o espaço mais difícil de lidar. Com uma, na minha opinião, uma falta de sofisticação muito grande. Eu tô usando essa palavra com todo cuidado pra não parecer algo elitista. Porque eu não acho que é necessariamente elitista, porque, inclusive, esses filmes têm muito dinheiro.
Então não é um problema de dinheiro, é um problema de escolha, na minha opinião. E eu acho que às vezes me incomoda que se faça a escolha do caminho mais fácil. Mais fácil de humor, mais fácil de... E eu sinto que várias comédias, eu gosto muito de Mel Brooks, gosto muito...
desses filmes Zucker, Zucker Abrams, tipo, corra que a polícia vem aí, eu acho aquilo genial, em termos de mise-en-scene e tudo. Tem uma sofisticação do humor que eu acho que desmantela um pouco a nossa noção de mundo. E eu acho isso importante, acho isso uma das coisas mais importantes. E aí eu fico nesse paradoxo com esses filmes, assim. O que você talvez atribui a isso, assim?
Olha, tem um detalhe nisso tudo. Não sei nem se você concorda comigo, né? Concordo, concordo. Mas tem um detalhe que a gente precisa colocar na mesa que aí fecha o quebra-cabeça. O professor Aloprado, sim, é um marco, todo mundo que vê, continua a gostar, ou seja, é um bom indicador, o filme permanece, né? Mas muita gente analisa o filme, eu gosto do filme, pelo fato de ser...
contra mulheres. Existe isso, existe uma visão do filme nesse sentido. Então, muitas vezes as nossas certezas, o que a gente vê de brilhante ali, e que eu também vejo, Gabriel, mas é há quem veja de outra forma e por aí o troço de strambélia. Com certeza. No caso do Hassum, se a gente lembrar, ele fazia com o Mehren, os irmãos Caradipau.
que era uma cópia dos Blues Brothers. Os Blues Brothers lá da... Era um quadro do Saturday Night Live, com o Dan Aykroyd e o John Belucci. E era uma coisa super, assim, iconoclasta.
Botar a Aretha Franklin pra fazer uma cozinheira, ela começa a cantar Respect. Are you as busy? Todo mundo começa a cantar junto. E tem o saxofone, tem aqueles caras... Os dois são esquisitos, são off, são marginais, né? Tem um grande acidente de carros de polícia em certo momento, né? Sim, aquela coisa dos dois serem...
off, assim, serem diferentes dos galãs e dos fofinhos e dos faceizinhos de serem digeridos. Esses dois caras fizeram a cabeça de muita gente. Eu lembro de uma cena do John Belucci em que ele nem estava de Blues Brother, mas ele fala, ele sacaneia os hippies, por exemplo. Então eu trouxe o iconoclasta, que ele tinha vontade de pegar um violão e bater, pegar o violão do hippie e bater na cabeça do hippie.
Então é uma coisa mais... Não julgo, não julgo. É, pois é, né? Pois é. Então, tudo isso leva a gente a perceber que esses fenômenos todos de massa que a gente está falando, que cinema é um fenômeno de massa, é um instrumento político, sim, e ao mesmo tempo ele pode falar e deve, não há mal algum dele falar para as massas, para todo mundo.
Tudo isso às vezes chega em uma determinada geração e é consumido de uma forma. Ao passo que uma geração anterior consumiria de outra. E a posterior também. E a posterior também, a gente nunca sabe. Eu lembro, por exemplo, vou dar um exemplo de comédia também brasileiríssimo.
que é uma coxa de retalho, tem muito Udgrude junto, muita vanguarda e contracultura. Udgrude é ótimo. É, Udgrude é ótimo. Que é underground e virou Udgrude. E aí, esse filme do As Sete Vampiras, de 1986, do Ivan.
E ele faz um filme que tem todas as malícias de uma pessoa que foi criança nos anos 50 e que ouviu muito rádio. Tem bolero, tem mulher boa, tem mulher boa que é mais recatada, tem mulher boa que... Sempre mulher, né? Mulher mais gostosa. São sete, são sete. São sete, gente, é muita mulher.
E além disso, tem rock BR, que era uma coisa que fazia muito a cabeça das crianças. Eu adorava essas musicazinhas todas de lollipop, assim, eu adorava. E ao mesmo tempo ele usa... O cara que faz o filme, ele tem uma história junto, por exemplo, ao Torquato Neto.
Isso não é uma coisa muito comentada, mas é o mesmo diretor, o Ivan Cardoso. É o mesmo diretor que, quando era novinho, era um infante híbrido, era uma pessoa tida como gênio, que ia estourar de qualquer maneira. E trabalhando nessa coisa do underground, junto ao Helio Ticca, junto a uma geração de artistas plásticos. Bem pra Frentex também, né, André? Como se fala? O de grude pra Frentex. E arrasa o quarteirão. A gente tá ressuscitando esses termos aqui.
Então, ou seja, esse cara faz uma comédia totalmente aloprada, que tem muito do espírito que depois ia estourar no Besterol, no teatro do Besterol, uma coisa que estava sendo cozinhada ali nos anos 80, né? E chega também, vai envelhecendo, e outras pessoas vão se apropriando disso tudo, o que é natural, é normal, as coisas estão à disposição, você vai chegando junto e vai consumindo o que você preferir. Então, é o que a gente pensa que...
é uma inspiração lá atrás num Jerry Lewis puro, o que ele queria fazer na época, acaba sendo um Jerry Lewis reconstruído. Tanto é que eu acho tolo você ir lá pedir a bênção do Jerry Lewis para você existir. Assim como é tolo a gente esperar que chegue um Oscar para dizer que a gente existe.
Não é necessidade disso, pô. É óbvio que eu gritei muito, fiquei feliz pra caramba. Mas o cinema brasileiro já existia antes. Existe no momento e existirá posteriormente. A posteridade deixa tudo em pratos limpos, né? O problema é que a gente não sabe ainda como vai ser o futuro. Mas eu lembro de entrevistar uma vez o Mauro Alice. Mauro Alice é um cara que era muito ligado tanto ao cinema mais cabeça, né? Do Cury, do Walter Hugo Cury. Era montador.
Ele teve aula com o montador da Senhorita de Uniforme, que é um filme alemão, pré-segunda guerra, de 1929. E esse filme é conhecido por ser uma história de uma professora que se envolve com alguma aluna, uma coisa de Betise, de Sáfica.
E aí o Mauro Alice, na Vera Cruz, que é um dos estúdios, eu estou trazendo aqui para servir de referência, a gente correr atrás disso. Ele, na Vera Cruz, tem aula com esse cara montador, que vem lá da Alemanha. Ele dirige não só essa coisa cabeçuda, Walter Hugo Cury, intelectual, que tem uma profundidade absurda, e que inclusive foi bastante corajoso de se manter em um meio que lutava contra ele desde os anos 50 até os anos 90.
Esse cara que monta os filmes do Cury, o Mauro Alice, monta também de um dos pais da comédia brasileira chamado Mazaropi. Então, o mesmo cara... O Brasil é muito isso, né? A mesma pessoa que faz esse trabalho, supostamente, mais nariz empinado, é o mesmo que faz do escracho. Do cara que anda feito pato, que debocha de tudo, que é o sonso, o falso bonzinho.
que deglute o jacatatu do Monteiro Lobato, faz um jacatatu dele, que não é o jacatatu do Monteiro Lobato, e que esse cara, esse Mazaropi, ele bebeu muito no que ele fazia pelo interior de São Paulo, nas caravanas que ele fazia pelo interior. Então, Cornélio Pires. Outras versões de Caipira, ele foi burilando nos shows que ele fazia e colocou depois na tela. Ali é o caminho diferente. Ali o cinema bebeu do circo.
Você entende como é tudo muito louco, cara? É muito louco, porque surgem as referências e a gente vai consumindo elas e o cinema brasileiro vai sendo criado sobre isso, a respeito disso. A comédia brasileira ainda respeita esses paradigmas, digamos. É uma história cômica, vamos dizer assim, que tem circo, tem teatro de revista, tem rádio, tem fotonovela, tem TV.
Tem depois as redes sociais, tem meme. Tudo isso cria uma comédia que é muito nossa. Muito nossa. Num país em que o Benjamim de Oliveira, que a gente falou agora há pouco, era um escravo que teve que fugir do pai. Tem um conto do Machado de Assis que é muito bacana para se entender o que era a escravidão. Chama-se Pai contra a Mãe. E eu vejo muito o pai do...
do Benjamim de Oliveira, que era uma pessoa execrável, cruel, batia nele, nesses contos, nessa literatura da época. Porque é uma forma da gente entender ali a escravidão e o Brasil.
que de muitas formas continua a ser o mesmo, muito dividido e muito estarecedoramente injusto, esse Brasil estava ali cristalizado. Então o Benjamim de Oliveira, quando começa a atuar, ele luta contra esse status quo e consegue vencer, mas nem todo mundo consegue. E o circo foi o que deu a dignidade para ele e por aí destrambelhou.
É, só pegando um... Que eu acho que, dada a parte que eu fiz a minha, de certa forma, crítica a essas comédias ou meus incômodos, mas também tem uma coisa que eu acho incrível, assim, que é elas existirem, inclusive nessa forma caótica.
sem pedir muita permissão, assim, também, guardado todas essas observações nossas sobre o sistema capitalista. E que eu acho o Leandro Rasson um puta ator, assim. Eu acho ele um cara bem interessante, assim. Sim, sim. Isso me leva a pensar que, um pouco do que você falou, eu sinto que existem essas comédias com o modo de produção todo e existe um cinema independente brasileiro.
da qual até nós fazemos parte, assim, de várias formas, né, objetivamente falando, e que eu sinto que esse cinema independente brasileiro, ele é também um tanto um nariz empinado, assim.
com essas comédias, com humor. Eu acho os filmes muito desprovidos de humor no geral, assim. E eu sinto que cria-se uma certa separação, sendo que poderiam haver mais interseções. Até assim, pô, será que não tem um cineasta que é muito cinéfilo, que tem num certo lugar, tem um set de obras que de repente...
poderia fazer algo com o Leandro Rassum e dessa faísca sai uma coisa interessante. Eu adoraria. E eu nem estou dizendo, novamente usando a palavra ruim, trazer uma sofisticação pra comédia, porque eu acho que essas comédias também têm uma linguagem própria, que eu acho que elas também podem ter algo a ensinar esse cinema independente, nariz empinado. Eu sinto, assim, que tem também...
Eu falo como uma pessoa que enquanto espectador eu gosto muito de várias coisas e gosto muito de comédia. Apesar de essas comédias particularmente trazerem conflitos para mim por alguns atalhos que elas tomam que me incomodam. Que inclusive na minha opinião... É...
rompem um pouco com a própria tradição do cinema brasileiro. Porque eu dei o exemplo do Jerry Lewis, mas a gente poderia falar de vários exemplos que você já deu daqui, nossos, que eu acho que me pareciam mais interessantes, ou mais propositivos. Mas aí eu queria falar dessa dicotomia, desse lado, dessa ausência de humor.
De um certo cinema independente que... Acho que é legal conversar também. E que é um cinema independente que eu sei, por fato, que rejeita essas comédias mesmo, assim. Rejeita frontalmente, assim. Acha isso tudo um lixo, acha um mal pra sociedade. É de uma...
Visão um pouco simplista, que felizmente eu acho que as suas observações e seus textos deram uma luz e complexificaram essa produção que existe, está aí, é pulsante, tem resultados econômicos, está presente e por que fugirmos dela de analisá-las e entendê-las, né? Mas eu queria falar um pouco desse outro lado, que tem uma rejeição ao humor e que você também estuda esses filmes, né? Você também está vendo essa produção.
O que acontece é que o Brasil, a gente estava falando agora há pouco do pai contra a mãe, esse conto do Machado de Assis. Tem outros, o Espelho, que fala do complexo de grandiosidade, de um cara que era senhor de escravos. E aí só ele consegue se ver grande no espelho. Ele tem que ficar em frente ao espelho para se sentir grande. Quando ele sai do espelho, ninguém está nem aí para ele.
Isso serve de metáfora para o que a gente está falando. O Brasil é muito construído em... Não é gueto. Em panelas. Uhum.
talvez inclusive como mecanismo de defesa pelo pouco consumo que havia anteriormente, pelos preconceitos que existem em relação ao cinema brasileiro. O próprio Carlão Requembar falava isso, ele tinha a tese de que as majors, como ele falava, as majors entraram no Brasil nos anos 80 para quebrar todo mundo e foi por isso que acabou o cinema popular, digamos, da boca do lixo, que virou pornográfico e deixou de ser um cinema popular, passou a ser pornografia pura e simples.
E ainda assim tinha gente que produzia. O pessoal da Boca do Lixo fazia. O Alfred Steinheim, por exemplo, ele assinava como Alfred Stein. Ele continuava a fazer o pornozão dele. Um cara cultíssimo, assim. Uma história maravilhosa. E tinha aquelas closes necológicos ali, né? E... Por que eu tava falando isso, hein?
Pra pensar esse cinema independente. Ah, sim, sim, sim. O lance das panelas. O lance das panelas. Quando eu comecei, por exemplo, em 2005, a escrever sobre cinema, foi uma decisão minha por prazer, assim, por gosto e por querer falar isso com... compartilhar o que eu queria com mais pessoas, gente que eu nem conhecia, que não tinha condição de conhecer dentro do meu castelinho, né, da minha vida cotidiana. Quando a gente vai pra internet, isso espalha, explode e a gente não tem nem controle sobre o que é falado, né?
Chegou até a gente, inclusive. E aí, em 2005, havia esse estranhamento. Quem é a Andréia? Havia pessoas que diziam que eu não existia. Que a Andréia... Era um... Sim, não existe. Era um pseudônimo. Devia ser, sei lá, um colecionador de VHS. Sei lá o que era esse cara aí, esse Andréia Ormon. Mas falaram textualmente. Não, não existe. Poderia ser Andréia. Andréia.
Andrei, um crítico russo. Cara, é bizarro pensar nisso. Por quê? Porque foi um OVNI que chegou, eu na qualidade de OVNI, cheguei com ideias totalmente novas que não foram validadas por quem quer que fosse. Mulher. Mulher, né? Na crítica. Na crítica. E falando de sexo, falando de porno chanchada, falando de filmes mais cabeça, falando de filmes populares, que é uma coisa que eu amo, né?
Então, essa pessoa não cabia em nenhuma panela.
Então essa pessoa teve que ir, eu tive que ir, a luta do meu jeito, indo em frente e construindo o que eu quisesse construir. Assim. É muito mais cômodo você fazer uma panela, se blindar, se proteger, construir as tuas neuroses, enfim, os teus mecanismos de defesa, e assim ir adiante. É muito mais fácil, claro. Se você tem uma plateia ali que vai sempre servir de claque, ok. Então, há um problema, isso é em termos de inteligência, assim, um...
o pensamento brasileiro, como é que a gente vai driblar isso e como é que a gente vai falar para as pessoas que existe um cinema que não precisa ser assim, nariz empinado. O que parece que é uma culpa. Para eu ser inteligente, eu tenho que gostar de um filme insuportável, chato, que eu não vou entender absolutamente nada, mas eu tenho que dizer que eu entendi e que aquilo ali é uma obra de arte. Esse é o estereótipo do crítico.
E é uma pena muito grande pro crítico. Não precisa ser assim. Não precisa. Eu até gostaria que houvesse filmes, assim, tipo, chanchadeiros sobre o crítico. Já disseram, por exemplo, que eu sou médium. Podia ser o crítico espírita. Não sei. O crítico... Você é médium? Sou, já. Sim, eu tenho umas sacadas, assim, umas premonições bem esquisitas. É. Desde pequena.
Ah, eu não cobro nada, mas... Mas você... Você tá em algum lugar? Você atende em algum lugar? Não, não, não. É pra consumo interno, assim. Família, amigos... Já ficou interessado. O André já ficou interessado. É, tipo, essa pessoa que tá atrás de você, acho que sou eu que tô vendo. É mesmo? Tá, tá fazendo carinho, massagem no seu ombro, pra você ficar de boa aqui na conversa. Essas coisas existem. Eu vi.
Voltando às panelas. Eu adoraria, por exemplo, que fizessem um filme zoando os críticos, que essa gente chata, pô, estraga prazer, diz o que eu tenho que gostar ou não tenho que gostar. Tinha que fazer, obviamente. Se tivesse uma visão maior do todo, que esse sistema cinematográfico se alimenta de vários canais, inclusive dos críticos, né? Seria legal ter um filme da crítica espírita.
Mas bota, não faz só o óbvio que é uma pessoa séria, que aí é chata e fala mal dos filmes, porque só pode gostar de filme cabeça. Quebra isso, fala que depois o crítico virou, de manhã ele é crítico, à tarde, à noite ele é açougueiro. Sabe, é alguma coisa assim pra você entender que essa figura existe e você zoa ele numa boa.
porque parece que não pode. Se o cara é crítico, ele vai ser de um jeito tal, vai gostar dos filmes tais e não vai ter coragem nunca de quebrar esse ninho. Essa é a bobagem, esse é o erro, é a falta de coragem. O gesto da arte, o gesto do autor, parte do pressuposto de autoria, de você ter uma opinião, de você ter a sua ideia e você defende ela e você dá a sua cara a tapa.
Quando você precisa ter uma claque organizada para te levar para de frente, você deixou de ser um autor. Você passou a ser um papagaio, um ser penado, cheio de penas, que vai para lá e para cá. Você não é crítico. O crítico tem que ser...
um cara, uma mulher, que fale o que ele pensa e se desceu pra brincar, dá tua cara a tapa. Aguenta. Aguenta. Porque não é docinho. Aí que é legal. Aí que é gostoso. Essa parte que eu gosto, entendeu? Aí você se coloca. Então, as pessoas que acabam consumindo o cinema e tem esses preconceitos todos, por exemplo, como essa classe que você falou, que tem tudo a ver.
Então, eu vou fazer cinema, eu vou fazer um cinema bastante profundo, com muitas camadas, eu vou ser enigmático. Isso é uma masturbação. É elitista? É elitista, em essência, em essência. Porque você pressupõe que o povo, existe um povo, não existem povos, não existem pessoas, assim como a homossexualidade. Em 2006, eu lancei um livro chamado Longa Carta para a Mila.
É um livro que conta experiências minhas, da qualidade bissexual, conta ficção, conta um monte de coisas da época, que eu achava que era importante falar para as pessoas. E naquele momento, era estranho me dizer bissexual. Era uma coisa assim, ou você é gay, ou você é hétero, ou você é hétero, ou você é gay.
Você não pode quebrar a barreira não, pô. As coisas acontecem. A vida é uma festa. Eu morei com o meu marido em Londres quando a gente era garoto. E ali foi uma abertura de portais pra gente, de outras cabeças. De viver um mundo diferente. Eu acho que passa muito por aí, gente.
de quem criar, de quem quiser ser autor, seja na crítica, seja mais especificamente no caminho da criação artística, num filme, de se colocar, de ter vontade de pensar diferente. Porque eu poderia muito bem ser uma pessoa ultra fácil de ser diagnosticada, de ser entendida. Eu podia ser aquela...
patricinha que casa sete anos depois e se separa e fala todos os vícios possíveis e óbvios. Mas não, o ideal, o que eu gostava, era ir nas locadoras e ver a parte dedicada ao cinema brasileiro, porque era a parte mais vetada.
Era quase a parte pornográfica, né? Claro, só faltava ter uma caveira, assim, um negócio, assim, cuidado, conteúdo inflamável, assim, porque isso que eu achava interessante, se era algo que eu não poderia chegar perto, ali é que estava o interesse, mas para isso demanda uma coragem, né? É, tem um fenômeno que eu queria evocar aqui, que é o fenômeno do zorra total.
O Zorro Total, ele é em si, na minha maneira de ver, é um OVNI porque é um programa que chegou para tomar o sábado à noite, nos moldes do teatro de revista. Foi o último respiro de algumas manifestações e da figura do Maurício Sherman.
que é o cara que tá lá desde o Chico Anísio, Jô Soares, fazendo aquele tipo de comédia, né? Eu tenho amigos que nessa época a gente tava escrevendo coisas, chegava lá pra apresentar pro Marucio Sherman, uma ideia super Saturday Night Live, assim, de sketch, de...
E o cara falava assim, cadê a coxa? Cadê a coxa da gostosa? Cadê a peituda? Cadê o gordo? Cadê o preto pobre? Sim, o preto pobre. É, desdentado, né? E as ideias sempre esbarravam nisso, porque o humor para essa geração...
Era a gostosa com a coxa de fora, a peituda, a gorda suburbana e tal. E alguns fenômenos foram surgindo, como Rodrigo Santana, como... Cacau protássio. Cacau protássio, que surgiram, que de certa forma se encaixaram...
Nesse formatinho. E aí acontece que, em algum momento, a geração Porta dos Fundos, junto com Marcos Mellin, com Dani Calabresa, Marcela Dini e tal, toma conta do Zorro Totó e o Zorro Totó acaba.
Eles vêm com novas ideias, derrubam essa coisa. Os rototóis acabam. Paralelamente a isso, você tem ainda hoje a Praça Nossa, que é um programa que está desde 88 no ar, fazendo as mesmas piadas.
A gente teve um problema de atualização, a nossa geração, esse sonho de atualizar as piadas, a gente não conseguiu ainda fazer um projeto consistente que fique, porque eu vejo isso, que a nossa geração fala assim, nossa que coisa ultrapassada, não vamos falar de gay, não vamos falar de negro, não vamos falar...
Mas o Brasil parece que ainda é muito gay, negro. O outro sucesso lá, que é o vai que cola, é totalmente baseado em estereotipos de suburbano, de velha safada, de... Corno. Corno, né?
Então eu queria falar um pouco disso. Talvez essa coisa que nós... Esse humor que tenta se sofisticar, eu estou pensando agora aqui, né? Esse humor que tenta se sofisticar... Depois do almoço, né? Que a gente almoçou, a gente está meio numa brisa. Podiam filmar isso, porque a gente está meio viajando. Viajando, mas assim...
Esse humor que tenta se sofisticar e acaba, assim como o humor, talvez o humor americano, e o humor que ainda está calcado nos estereótipos, esse humor ultrajante, ainda continua. Queria que você falasse um pouco sobre isso.
Olha, você foi falando, a primeira imagem que veio na minha cabeça foi uma cena do Alô, Alô, Carnaval, 1937, por aí. E aparece a Carmen Miranda com a irmã. E o filme é um...
Ele é cansativo porque é uma outra visão de mundo, é um outro fazer cinematográfico, mas tem aquela cena final em que elas cantam as cantoras do rádio, um dos momentos mais fofos do cinema brasileiro, gente. Muito lindo. Nessa cena, o que acontece? O cara sai do elevador.
Tipo assim, gag de... de... fácil de compreensão, que todo mundo curte. Saem duas caras do elevador e nisso estão vindo duas boazudas. Que tem a figura da boazuda, que a gente sabe. É, a boazuda. A boazuda. Aí vem as duas boazudas, eles dão meia volta, fazem uma cara meio assim de sacana e vão atrás das boazudas, entram novamente no elevador e dão um papo na...
nas boazudas. Então, a gente lutar contra esses signos, contra essa forma de ser brasileiro, é muito difícil, não vem com cartilha. Não vem, gente. Não adianta que não vem. São processos que vão demandar tempo, vontade. E se forem impostos, eles perdem totalmente o propósito.
Se a gente seguir uma cartilha dirigista, vamos dirigir, falar o que pode ter ou não pode ter na comédia. Isso é um tiro de morte, que afasta a gente cada vez mais de conseguir qualquer tipo de mudança na sociedade.
encalacrado ali, está juntado. A gente tem esse estereótipo que vem do teatro de revista, o próprio Grande Otelo, um cara paupérrimo que sai lá do interior e ele usa, inclusive, na Certidão de Nascimento, ele botou um nome que não existia, quando se podia fazer isso na época. Ele botou...
Otelo, Sebastião, Prata, não sei das quantas. E o Prata era justamente da família onde ele, o pai e a mãe eram agregados. Ou seja, tem uma coisa escravagista também ali. Como é que a gente vai lutar contra isso só na base do decreto? Não tem como.
Não tem como. Ou o que a gente estava falando agora da figura do corno. Tudo isso são construções nossas, assim. A gente ri de si mesmo. E, ao mesmo tempo, existem pessoas que quebram a quarta parede, como, por exemplo, Cajado Filho. Um cara que era gay, preto e cenografista da Atlântida.
E assim ele deu a ideia do homem do Sputnik, que não foi do Carlos Manga. O Carlos Manga dirigiu. Quem deu a ideia foi ele. Naquela época lá da batalha espacial, da ida, não era nem batalha espacial, era o momento de chegada ao espaço, em 1959.
E aí falava-se muito dessas coisas, de descovador, e da prazo espaço, e nisso cai um satélite na Terra. O cajado teve essa ideia. E aí quando tem essa ideia, ele, um cara preto, gay, que não deixou nem muito registro, assim, seria... Eu adoraria ler um livro sobre o cajado filho, uma biografia dele. Mas não existe. Essas pessoas vão sumindo na poeira, é uma tristeza muito grande.
Mas ali ele começa a dar espaço para coisas, por exemplo, os bordões mais bobos, tipo a Corda Brasil. Ele não queria ser o revolucionário que ia quebrar absolutamente tudo. Ele usou dessas tags, desses bordões, para fazer uma chanchada. Então, talvez o caminho seja a gente pensar, a gente entender que a gente não sabe...
tanto assim, quem se propõe a fazer uma atualização, talvez não entenda tanto assim a alma desse Brasil profundo. Porque esse Brasil profundo continua por aí. Em histórias cada vez mais cavernosas e continua. E a gente pode a gente pode relacionar
isso, com personagens que pulam da ficção para a realidade. Ou seja, existe um lugar na extrema-direita que é um lugar um pouco cômico, né? Existe uma claque, existe uma saturação de trejeitos e de discursos e de absurdos que...
Eu, particularmente, relaciono muito com muitos personagens de tanto Oscarito como um pouco como Mazaropi, tem também um pouco de Praça Nossa, tem também um pouco das chanchadas, ou seja, esses personagens de extrema direita, principalmente o Jair, né?
que ao mesmo tempo fazem uma graça, uma graça até, de certa forma, iconoclasta, e causam nas pessoas um certo conforto e confiabilidade, porque eu acho que todos os personagens...
Os ssbetistas que vão ver Praça Nossa já há 40 anos vão lá para ter o conforto de rir das mesmas viadas. E antes os pais deles ouviam o programa na rádio. Isso, isso. A Praça da Alegria com o Manuel Nóbrega com o pai do próprio. Talvez o fato do Carlos Alberto estar ali direto segurando o trono, e observando tudo e validando o que pode e o que não pode, talvez seja uma jogada para manter essa essência, ainda está no ar.
Mas você consegue fazer essa transferência sem juízo de valor, né? Sim, sim. Para o bolsonarismo, ou seja, para o espetáculo que eles criam, né? Que é um espetáculo também de piadas, de ironias, de sarcasmos, de maneiras de ver a política. Porque eu acho que esse entendimento...
do espetáculo, é importante pra gente não cair nas besteiras que se pensa sobre o que é o bolsonarismo, né? Como uma coisa completamente o outro. Ou seja, eu vi muito... Esse aqui é o ponto, né? Porque não é só o outro. Então nós somos os puros e eles são os capetas, os loucos. E os interditados, né? Se sentem interditados, né? Eu vejo muito que através do humor Voilà, é só o outro.
das chanchadas, eu vejo muito... É uma chave muito mais fácil para mim entender o fascínio do Bolsonaro, o fascínio do Jair, que não é uma coisa que apareceu e hipnotizou as pessoas de uma hora para outra. Nele existem várias dessas grandes representações e ele causa na gente repulsa, mas talvez na galera que... ...
ama ele, ele é a pessoa que chegou depois de muito tempo e meio que abrandou certos conflitos internos, como o personagem, sei lá, do cara que liga no telefone na Praça Nossa, no político corrupto que fica gaguejando pro Carlos Alberto Nobre, ou a velha surda.
Você consegue fazer essa relação entre esses personagens com o Milley? Também é um pouco isso, mas é cultura argentina. E o Trump também é um pouco isso, mas numa realidade americana. Homens de cabelos estranhos, né? Homens de cabelos estranhos, de peles estranhas. Uma laranja que parece que tá com uma peruquinha. Aí o Milley tem uma coisa, né? Tem aquele cabelo de peruca do Milley.
É verdade E tem uma graça nisso também Tem uma graça nisso Antes do Silvio Santos, que tinha aquele acaju Ele ia no jaça, a gente se acostumou Com essa metodologia Tudo isso é muito mais profundo Essa guinada, esse pessoal Que você comentou agora Bom, vocês estão a palavra Que é o centro da história, é um espetáculo
Todo jogo político no século XX, principalmente agora no XXI, dá-se pelo espetáculo. Então você controla os meios de produção, estou falando assim, bem amplo, ou seja, faculdade, o próprio cinema, TV, ou seja, você não consegue ter aquela república lá da Grécia em que as pessoas iam para a praça falar. Você não consegue reunir o Brasil inteiro numa praça. Então você tem que falar para vários Brasis diferentes, certo? Tudo bem.
Mas você falar de um jeito chato, pautado, duro, sem entender que hoje em dia existem mecanismos como, por exemplo, não só a internet, mas as redes sociais, e já começaram a vazar esses vídeos totalmente fakes e tal. Inclusive, o Mick Jagger teria ido aos Estados Unidos para abraçar os pais do Charlie Kirk. Eu vi o vídeo estarecedor, porque de fato parece que é o Mick Jagger validando e não é. Depois ele falou que não, não sou eu.
Então, nesse multiverso aí da vida atual, a gente precisa entender que fenômenos como esse lidam muito bem com o espetáculo, não é à toa. Existe uma produção, existe um ideário, existem teses que sustentam isso. Quando o Bolsonaro chega ao estrelato lá e consegue se eleger presidente...
É porque antes disso houve pessoas como, por exemplo, o Olavo de Carvalho, que através de uma disseminação de ideias conseguiu acessar camadas mais difíceis de serem quebradas, como, por exemplo, a academia. E isso de fato aconteceu, isso é algo comprovável. Não é uma deepfake, não estou inventando nada. De fato é um projeto muito bem pensado, muito bem embasado.
em que, infelizmente, ficou-se do lado errado da piada. Infelizmente, falou. Ele ficou do lado errado da piada, mas ele sabe qual é a piada. Então, não é à toa. Para esses movimentos aqui, em cima, na superfície, do cara que está super mal de vida, mas, ao mesmo tempo, fala que é contra o SUS, mas usa o SUS quando lhe convém.
Esse típico que está flutuando aí, está solto e muitas vezes está perdido, está com a vida arrasada pelo tigrinho, hoje em dia o lance do tigrinho, essa pessoa tem que ser entendida. Ele não é um ET, um alienígena diferente de nós. Não, não tem esse discurso muito de eles e nós. Isso é um problema muito delicado e é uma facada no próprio peito. Porque fazendo isso, à medida que cresce um dos lados, esse lado está condenado a ganhar.
Então é preciso entender o que está acontecendo, tanto no lado B, no lado A, lá no Epoca, lá no Chuí, entender que Brasil é esse que se formou. De fato, quando se domina o espetáculo, e muitas vezes a esquerda dominou o espetáculo, para a nossa geração, a esquerda era aquela que era legitimada pela MPB, pela Globo.
Na escola, a gente sabia o que a gente tinha que falar para ganhar um nota 10. Aquele professor masculérico à esquerda, ele só poderia ser ganho pelas crianças que nós éramos se a gente falasse certas coisas. Não dá para ser cínico em relação a isso. De fato, havia. A questão é que esse outro lado foi crescendo.
E foi colocando outras ideias em pauta e foi quebrando a resistência. Que muitas vezes nem sequer existia porque a pessoa não tinha anticorpos para aquilo. Você não tinha anticorpos para alguém falar em sala de aula que a mulher deve ser escrava, como o próprio Charlie Kirk defendia, coisas assim absurdas, né?
Lá eles usam a emenda constitucional que daria, a princípio, o direito de liberdade de expressão. Aqui a gente tem uma Constituição de 88 que foi consagrada após um período imenso de interdição política. Então, juridicamente, sociologicamente, politicamente, é um país diferente. Não é mais aquele país em que a piada pronta era o Sarney aparecendo dizendo que não podia comer carne.
E aí os bois, você lembra disso? Os bois sumiram do pasto, a gente não conseguia comer as carnes. Isso é real, isso é a história política do Brasil. Houve isso, porque o Brasil se fechava e não entrava num circuito.
vamos dizer, valioso, valoroso, de troca de bens e serviços. Era uma coisa tabelada, algo que hoje em dia não tem condição de existir. É um Brasil mais complexo, mais difícil. Então, a grande sacada seja a gente entender que esse Brasil das panelas, esse Brasil do...
lá do Oscarito, do Grande Otelo, esse Brasil dos memes, esse Brasil da Carmem Miranda cantando com a irmã, esse Brasil da Vera Cruz, que foi um projeto europeu de cinema trazido para o Brasil, tudo isso dialoga e nos cria abismos muito profundos.
Não dá para a gente ficar sempre nessa guerra de nós e eles, porque eles são brasileiros tanto quanto. Somos brasileiros tanto quanto. Então, o que é preciso é entender. Acho que a esquerda já teve tempo suficiente de fazer uma autocrítica. Sim, que é necessária. Não há dúvida sobre isso. Entender o que acerta muito e o que erra muito. Porque não é à toa. O cara não vai dizer que ele apoia determinado candidato se ele não tiver uma razão muito genuína, muito profunda.
se não houver um entendimento muito grande do espetáculo. O cara foi feito um espetáculo para ele. E há motivo para isso. Quando você diz que o empreendedor, o brasileiro ser empreendedor, e ele entender fazer cursos profissionalizantes, isso é o caminho para o sucesso dele, isso é uma maldade tão grande, tão tremenda, que faz com que ele não saiba rebater certos argumentos.
Porque ele não tem acesso, por exemplo, há pouco tempo na ocasião do Felca, que fez aquele vídeo, aquele mega vídeo sobre pornografia infantil, há um momento em que o Felca cita que são crianças conversando, adolescentes, pré-adolescentes até, e um deles usa a fachada de empreendedor, de direita, e diz que a filosofia e a escola atrapalham muito o empreendedor.
Esse cara que vai ser um empreendedor sem substrato, que acha que a escola atrapalha, ou que filosofia não resolve se o cara está diante de você com um tiro, o que vai valer filosofia? Coisas desse gênero. Se elas estão sendo absorvidas pelas pessoas, é uma razão de ser, né?
É triste, mas é um fato consagrado. É isso. E a gente precisa entender essas pessoas e saber dialogar. Porque ficar nessa guerra fratricida, todo mundo se matando, se estapeando, é um desserviço. É isso. É isso. É uma bela fala final, né? Eu sinto que eu não dá pra perguntar mais nada. Não, e deu uma hora e meia.
no ponto. Tá bom, né? Tá bom. Obrigado. Valeu.
No episódio de hoje, a nossa dica é Matar ou Correr, de Carlos Manga, um filme de 54. Enfim, um episódio tão especial sobre comédias, não poderia faltar um filme com Oscarito e Grande Hotelo, né? É essa dupla que marcou o cinema brasileiro por suas comédias de pastiche, muitas vezes zombando de tradições cinematográficas, como o do cinema americano, nesse caso do western americano.
E aí a gente tem um abrasileiramento desse gênero, pensado nessa era aí de ouro dos estúdios, né? E dirigido por um diretor de trabalho muito prolífico, que teve várias colaborações aí com o grande hotel Euscarito.
E acho que é um filme que representa muito a energia da Andrea, que acho que ilustra muito das origens dessas comédias brasileiras que a gente falou nesse episódio. E uma dica boa aí pra, de repente, dar uma olhada no cinema brasileiro 250, né?
Nem sempre novas gerações estão antenadas para esses vários momentos da história da cultura brasileira. E sem dúvida alguma aqui no Blackout a gente vai estar sempre estimulando vocês a buscarem cinemas de outras épocas, não só contemporâneos, de outros momentos, para a gente refletir o que a gente tem de mais rico na nossa cultura brasileira.
Lembrando de acessarem a plataforma Itaú Cultural Play, onde todas essas dicas que a gente vem dando no podcast estão. Você consegue acessar pelo site itaúculturalplay.com.br, mas também por aplicativos para celulares e tablets.
Android e iOS, Smart TVs, LG, Samsung, Android TV, Apple TV, Chromecast. Cadastro super fácil, plataformas gratuitas. E também sempre importante lembrar para vocês conferirem se essas dicas seguem disponíveis no Itacultural Play. Caso estejam vendo aí esse podcast em um momento, que essas dicas possam não estar mais lá. A gente estimula sempre procurar os filmes.
que são filmes muito ricos e também buscar outros filmes do tipo na plataforma. Matar ou Correr é um dos exemplos de filmes do Grande Otelo ou filmes que falam sobre o Grande Otelo que estão lá na plataforma. Então explorem aí o catálogo do Itaú Cultural Play, que ele é muito rico e muito legal de ter esses filmes brasileiros aí.
bastante acessíveis, né? Então, vejam lá, Matar ou Correr. E, enfim, nos encontramos na nossa próxima conversa, seguindo aí falando muito sobre cultura, arte e cinema, aqui no Blackout. O podcast Blackout é feito em parceria com o Itaú Cultural.
Equipe Blackout, produção executiva Lara Lima, vinheta Uncle Vender, design Paloma de Matos. Equipe Tao Cultural, criação em plataformas, gerência André Furtado, coordenação de produção Ket Fernandes Nassar, produção Amanda Lopes, captação de som Ana Paula Fiorotto e Raquel Vieira, terceirizada. Edição de som e mixagem Ana Paula Fiorotto.
Infraestrutura e produção, gerência Gilberto Labor, coordenação de produção de eventos Januário de Santos, produção Isadora de Cero.