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EP #5 — Cavi Borges: Cinema, bilheteria e streaming

01 de maio de 20261h51min
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Cavi Borges, distribuidor e um dos maiores conhecedores do mercado de cinema brasileiro, conversa com André e Gabriel sobre como um filme chega até o público — e por que tantos não chegam. A partir da sua experiência com a Cavideo e com salas de cinema, ele analisa o crescimento das bilheterias em 2024, o impacto do streaming na distribuição independente, o fenômeno do cinema gospel e os desafios estruturais que ainda travam o cinema nacional.

Assuntos5
  • Trajetória de Cavi Borges no cinemaOrigem no judô e a resiliência como filosofia de vida · Abertura da locadora Cavideo e os diferenciais de negócio · A transição de formatos: VHS, DVD e a resistência à obsolescência · A importância das parcerias e do marketing de relacionamento · A transformação da Cavideo em produtora de eventos e cinema
  • Cinema BrasileiroO preconceito do público brasileiro com filmes nacionais · A importância de filmes como 'Ainda Estou Aqui' como eventos culturais · A influência de premiações internacionais na valorização do cinema nacional · A necessidade de aproximar o cinema brasileiro do povo brasileiro · O papel do preço dos ingressos na acessibilidade ao cinema
  • Cinema e SériesDificuldade de acesso a filmes nos anos 2000 · A dança do catálogo entre VHS, DVD, Blu-ray e streaming · Excesso de oferta e despersonalização das linguagens no streaming · A importância da mídia física para a posse efetiva de filmes · O papel da pirataria como consequência de falhas de distribuição
  • Impacto da Pirataria e EmulaçãoA pirataria como superação de falhas na distribuição · A pirataria como sinônimo de sucesso para realizadores · A falta de dados de audiência dos streamings e o papel da pirataria · A pirataria como consequência da falta de acesso e do alto preço dos filmes
  • Transformação de cinema e gênerosO interesse da nova geração por cinema, mesmo com a tecnologia · A importância de curadores jovens para atrair o público jovem · A necessidade de inovar em eventos e formatos para engajar o público · A adaptação às mudanças tecnológicas e de hábitos de consumo
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Salve, salve, Blackout Podcast no ar Começando aqui o nosso episódio 5 De cá, Gabriel Martins E daí? André Félix Vamos com tudo Vamos com tudo André, episódio 5 Esse episódio a gente vai falar de cinema, bilheteria e streaming

E a gente chamou, na verdade, uma figura que acho que dá um sentido diferente, porque essa não vai ser uma conversa tão tradicional sobre esses três pilares, que são um assunto frequentemente, né? As transformações aí do cinema e tudo. A gente chamou o Cavi Borges, que o Cavi Borges, pra quem tem escutado o nosso podcast, talvez seja uma das figuras...

que fora do cinema, né, não sejam tão conhecidas. O Kavi Borges, ele é um cineasta, produtor, ex-judoca brasileiro, ele é dono de locadora, o Kavi é um agitador cultural, talvez seja a palavra pra definir uma figura como Kavi, que fez muita coisa já. A gente, esse breve currículo que eu dei, na verdade ele vai ser desembolado aí ao longo do episódio, né, talvez...

o que as pessoas podem mais, talvez, conhecer o Kavi, seja por ter dirigido o documentário Cidade de Deus, 10 anos depois, né? Junto com o Luciano Vidigal, né? Junto com o Luciano Vidigal, outro cineasta bem interessante, bem importante, no Rio, no Brasil. Kavi é uma figuraça, foi muito legal conversar com ele, e eu queria, inclusive, te perguntar, André,

Você é da geração do Kavi, de alguma forma, né? E eu fico curioso pra saber como é que era esse Rio de Janeiro, Kavi, e o que a figura do Kavi diz sobre o Rio de Janeiro, o cinema do Rio de Janeiro. É, na época que eu voltei pro Rio, um pouquinho antes de voltar pro Rio, quando eu ia pro Rio e ficava temporadas, assim, ia pro CCBB, pras mostras que tinham lá, pro Estação.

a mostra do Casavetes, que eu acho que foi 2006, 2007. A gente já sabia que algumas coisas, assim, e o mundo, pra você ser jovem, cinéfilo em 2006, 2005, meados dos anos 2000, era um mundo que as referências não estavam aí.

no Drive, no Letterboxx ou no makingoff.org. Elas estavam para você garimpar, você lutar na rua.

Era quase uma briga de rua para você conseguir chegar a um filme. E o Cavite, a muitos desses filmes que a gente só ouvia falar em revistas contrabandeadas, ele pirateava uns filmes italianos, sabe? Lutino Visconti, eu lembro que é A Morte em Veneza.

A primeira vez que eu vi foi pegando uma fita com um DVD pirata do Kavi. E essa era uma coisa da geração. Aqui em Vitória a gente tinha um projeto que ficou muito famoso, que era o Cine Falcatrua.

que a gente pegava a banda larga da faculdade, baixava os filmes do Casar e exibia no IC, IC1, IC2, que era auditório dos departamentos da faculdade, e dava 500 pessoas, dava mil pessoas, porque a gente queria ver, a gente não tinha acesso.

E acho que a influência do Gil como ministro da cultura, do Lula, foi acelerar o acesso do cultural do Brasil às coisas que estavam acontecendo no mundo. Tanto a ideia do download, do upload, que o Gil sempre fala.

E o Kavi, eu acho que ele é, se ele não é um fruto disso, ele é, a existência da produção dele foi muito potencializada por esse momento. Então ele era o cara que fazia bolão do Oscar dentro da locadora dele, eu ia. E ele entendia isso como modelo de negócios e tudo.

E eu acho que para pensar o cinema carioca dos últimos 15 anos é fundamental falar do KV. É, eu acho curioso que talvez, nem sempre eu acho que isso é discutido tanto, né André, como para a nossa geração a gente atravessou, tanto na forma de fazer como na forma de consumir cinema, pelo menos uns 3 ou 4 dispositivos muito diferentes, né?

E se a gente for pegar da nossa infância, aí acho que amplia isso ainda mais. Eu falo isso não criando conflitos direcionais meio bobos, porque existe a verdade de cada tempo, mas eu sinto que a gente teve que lutar muito para conhecer certas coisas, e eu acho que conhecer certas coisas... O lutar, eu digo assim, tem uma certa persistência, uma persistência para ir atrás da informação, como o André colocou, que eu acho que de alguma forma...

criou-se até uma relação muito afetiva com certos cineastas, com a ideia da raridade, de cinematografias raras, porque às vezes um filme demorava mesmo para baixar. Então, ao demorar para baixar, esse consumo se tornava muito precioso, ou a dificuldade de acessar esse filme virava até o assunto, a dificuldade de acessar o filme.

E aí eu acho que tem uma questão que eu deixo para as novas gerações, que é uma questão filosófica quase, que é a questão do catálogo. Ou seja, quando existia só cinema, existia um catálogo.

Quando fui pro videocassete, até o videocassete dar conta do catálogo do cinema, demorou um tempo, entrou o DVD, e o DVD teve dificuldades muito grandes de chegar ao catálogo do VHS e do cinema. E depois veio o Blu-ray, e o final do DVD, o começo do Blu-ray,

E o streaming fez a coisa ficar do catálogo ainda mais difícil. Então hoje você tem streaming e o streaming está nadando ainda na construção do catálogo. O que eu quero dizer é que cada nova tecnologia tem sempre a questão do catálogo.

É uma dança do catálogo. E a definição do catálogo, ela é uma coisa tão ou mais importante que a grade. Ou seja, quando a gente tinha a televisão só como meio de ver certas coisas, a televisão instantânea, o ao vivo da televisão, o instantâneo da televisão, você tinha uma grade. Hoje a grade pode ser relativizada, embora tenha muita força.

Então catálogo e grade e pirataria são as conversas interditas desse papo com o KV. Com certeza, indo de encontro a você. Sabe qual é a minha sensação, André, que eu tenho às vezes? Nesse mundo de browsing para tentar achar o que vai ver, eu tenho a sensação que mais não é suficiente.

que o tudo, que o muito, não é suficiente, porque eu me vejo, eu vou falar de duas coisas específicas só dentro desse assunto, mesmo desviando um pouco aqui, mas que eu sinto que a gente vê tanta coisa, tem realmente um excesso de oferta em termos quantitativos.

Mas eu acho que se despersonalizou um tanto também as linguagens. Por séries, por certos filmes, pela forma meio genérica como às vezes as coisas são empacotadas, que às vezes existe uma oferta grande de coisas, mas essa oferta não contempla, de fato, uma diversidade necessária para uma formação, eu acho. Que é mais contraste entre uma coisa e outra.

que é narrativas que apontem para caminhos mais complexos, mais amplos, mesmo a gente tendo um ou outro streaming que vai se debruçar sobre catálogos bem mais interessantes do que os streamings mais massificados, mas assim, me parece que esse mais não é o suficiente ainda, porque nunca a gente teve tanta coisa sendo ofertada.

E automaticamente também muita coisa escondida, muita coisa que ninguém sabe onde achar, muita coisa que ninguém realmente consegue ver o tempo todo, porque as coisas também saem de catálogo. É um paradoxo muito doido que eu acho que norteou um pouco a nossa conversa também, né? Muito. Vou ouvir? Bora ouvir o Kavi. Tem uma coisa interessante assim da sua persona, Kavi, que...

você é um, não vou dizer nem que é uma espécie, você é um agitador cultural, assim, por natureza, e que você tá inscrito, assim, na história do cinema brasileiro de uma maneira muito forte, assim, em várias frentes, né?

Quando a gente estava finalizando um curta, que era o Contagem, um projeto que eu dirigi lá nos rios de 2010, foi o que havia a pessoa que tinha a luz, assim, de onde que você faz uma cópia em película mais acessível. Eu lembro de você me ligando. Eu te mandei lá para os Estados Unidos, Tecnocolor, não foi? Exatamente. E que isso levou...

a gente entrar na mostra principal do Festival de Brasília em 2010, que levou ao Carlão Raichemba ver o nosso filme, escrever sobre o nosso filme, a gente ganhou o prêmio de melhor direção. Então, assim, tudo isso pra dizer que essa conversa aqui vai passar por ações e gestos que tem a ver com generosidade e inventividade e que muda o caminho da história, assim, das coisas. Eu acho que o Kavi é uma dessas pessoas, uma dessas pessoas que é uma das pessoas que tem a ver.

até assim, até engraçado eu falei assim, brasileiro, né, que não desiste nunca, mas eu acho que o cinema brasileiro, principalmente nesse nosso tema de cinema bilheteria e streaming desde que eu comecei a ir pra festival de cinema muito novo o papo sobre distribuição e bilheteria era sempre desesperado e pessimista no geral muitos anos depois, segue meio parecido com isso, assim então assim Réussi

A primeira pergunta que eu tenho é como você se sente em relação ao cinema brasileiro?

O que que te faz ter essa energia constante, assim, que há muitos anos atrás você já falava de cinema brasileiro, de ações pro cinema brasileiro, da mesma forma que você tava falando aqui no café antes da gente começar de gravar. E isso eu acho bem impressionante, porque eu vejo as pessoas, no geral, desistindo ou desanimando. E você, eu nunca te vi desanimado nos nossos vários encontros.

Então, primeiro eu queria agradecer o convite, é uma honra poder conversar com vocês. Eu acho que não tem como não falar da minha origem do judô, sabe? O judô, eu falo que eu continuo fazendo judô fazendo cinema. E no judô eu passei as mesmas coisas que eu passo no cinema.

O judô, há muitos anos atrás, ele não tinha também patrocínio, era um esporte que não tinha apoio, só tinha apoio na época das Olimpíadas. Então, eu aprendi a lidar com a dificuldade desde cedo, sabe? Eu vendia camisa nas competições judô para pagar minhas viagens para lutar fora do Brasil, entendeu? Eu ia para o Japão trazer kimono para vender aqui para eu garantir minha próxima viagem, entendeu?

E aí eu tinha uma equipe de som, eu era o DJ com 11 anos de idade, pra poder pagar o meu patrocínio do judô. Então eu sempre, nunca desisti. O judô tem essa coisa também de você... A primeira coisa que você aprende no judô é cair.

Depois você aprende a derrubar. E eu acho que a vida é um pouco isso também. Você sempre tá caindo e levantando, caindo e levantando. E o judô é um pouco isso, assim. E você aprende, às vezes, mais com as derrotas que com as vitórias, assim, sabe? Eu lembro quando eu perdi a competição, na segunda-feira seguinte eu já tava lá treinando, tentando melhorar o que eu tinha errado. E quando eu ganhava, eu ia comemorar, ia beber, faltava treino e isso era ruim.

Então, eu acho que esse espírito de resiliência, de não desistir, de perder e levantar, sabe? Eu acho que o judô me ensinou, eu trago até hoje isso, eu acho que a minha formação vem disso. E, de uma certa forma, eu fui levando isso para essas minhas atividades no cinema, assim, sabe?

Eu abri uma locadora, né? Porque é de um acidente, olha que loucura. Eu ia pras Olimpíadas, e aí sofri um acidente no joelho, rompi os ligamentos no Japão, faltando um dia pra voltar. E aí tive a ideia maluca de abrir uma locadora, não entendia nada de locadora. Eu sempre fui também meio... Eu sempre me arrisquei muito, assim. Eu acho que também de não ter medo, assim, sabe? De...

De errar também, não ter medo de perder. Acho que isso tudo é o judô que traz pra mim, entendeu? Aí eu abro uma locadora sem entender nada de cinema, ia ser uma locadora de filmes de luta. Aí sorte que isso não deu certo. Eu vejo na minha vida, assim, as coisas às vezes dão errado.

E lá na frente, aquele erro, aquele problema ali se transforma numa coisa boa, assim, sabe? O problema se torna numa coisa melhor do que seria, entendeu? Eu não tinha dinheiro pra tirar a documentação da locadora. O despachante me cobrava uma grana, eu não tinha. E eu resolvi eu mesmo fazer, tirar o alvará, documentos da locadora. Aí eu fiquei um ano.

sem poder abrir a locadora pronta, e eu não podia abrir a locadora porque eu não tinha documentação. Nesse ano, as pessoas passavam pela locadora e perguntavam, vai ter filme do Fellini aí, vai ter filme do Tarkovsky? Eu falei, quem é? Aí eu ia anotando, vai ter filme do Scorsese, do D'Aleyn? Aí eu percebi assim, cara, aonde a minha locadora está, onde eu vou abrir a locadora, não vai dar certo o filme de luta.

Mas esse tipo de filme aqui, eu tô vendo que a galera quer ver isso. Era uma área, Cobaldo Maitá, onde os artistas frequentavam. As produtoras de cinema eram ali em volta. Acabava uma peça de teatro, o pessoal ia comemorar ali. Era um lugar meio de bares, assim, onde tinha locadora. E aí eu começo a aprender, a entender o cinema e conhecer o cinema.

Com os clientes. Sabe uma pessoa que foi lá, o primeiro cineasta que foi na minha locadora, que eu tenho orgulho de falar, o Nelson Pereira dos Santos, cara. Ele morava em frente à minha locadora. Ele foi lá, chegou assim, pode me dar uma dica de filme aí pra mim? Aí quando ele foi embora, o cara falou assim, sabe quem é esse cara? Eu falei, não, esse cara é o maior cineasta brasileiro, cara. Nelson Pereira dos Santos. Aí eu fui pesquisar, falei, caraca.

E olha a humildade do cara. O cara foi, eu não entendia nada do cinema, ele foi lá e me pedia, me pedia dicas de filmes, de curtas, dessas coisas todas assim.

E aí eu fui aprendendo com os clientes, assim, eu fui começando a gostar de cinema, eu só via filme de porradaria, eu era o cara do Rambo, do Schwarzenegger, do Van Damme, até fiz um filme brincando sobre isso com o Van Damme, chamado Sonho de Rui. E aí eu fui conhecendo, né? A gente tem uma tendência a não gostar do que a gente não conhece, né? Mas quando você começa a conhecer, vai mudando, assim, né? Eu lembro que eu fui assistir o primeiro Truffaut.

Eu achei chato pra caramba, preto e branco, lento, não tava acostumado àquele tipo de filme. Aí eu comecei a pesquisar, ler, aí fui ver de novo, aí fui ver de novo, aí fui ver de novo, fui ver de novo. Hoje em dia é o meu diretor preferido, assim, mas é isso. Você não tá acostumado, né? Quando você só via filme de Stallone, de Rambo, só via televisão, eu era formado por isso, entendeu? E aí quando você começa a lidar com uma nova realidade... ...

Você estranha no início, mas se você insistir, você vai. E foi assim, tudo comigo foi meio por acaso, nada foi planejado. Nunca imaginei que eu fosse trabalhar com cinema, que eu fosse ser cineasta. Eu era o cara do judô desde três anos de idade, entendeu? Eu estudei economia pensando em abrir uma academia de judô para...

para poder seguir o judô. E acabou que eu percebi também que eu era um cara empreendedor. Acho que isso é uma característica muito forte em mim. Eu sempre fico pensando em caminhos diferentes, em formas de resolver, de ideias malucas que às vezes quando se concretizam se tornam geniais.

desde a locadora, eu lembro que eu criei um projeto de distribuição de curta-metragem para as locadoras, chamado Curtas na Prateleira. As pessoas davam os curtas dela, eu fazia VHS assim, distribuía nas locadoras todas, não era só na Cavite. E ela era obrigada a alugar de graça para o público.

Aí eu lembro que várias locadoras eu levei e a pessoa falou assim, mas o que eu vou ganhar com isso? Aí eu não quis. Aí começou a sair várias matérias no jornal. Aí os clientes começaram a cobrar. Por que a locadora lá tem aqui e não tem curta? Aí voltaram pra me pedir.

curta, e durante um tempão eu comecei a... eram cinco coletâneas de cinco curtas, eram 25 curtas no final já eram 60 coletâneas já eram DVDs, 60 DVDs tinham mais de... tinham uns 500 curtas, e era temático assim, curtas de futebol curtas do Nós do Morro, curtas de samba, curtas de hip hop, percebi que era mais atrativo, em vez de ter um curta só

ter vários pra pessoa pegar. E era de graça. Eu até ganhei um prêmio. O British Council me deu um prêmio Jovem Empreendedor do Cinema Brasileiro em 2007. Aí eu fui pra Inglaterra. Fiquei um mês lá com vários empreendedores do mundo inteiro, assim, visitando as produtoras. Visitei a Pinewood Studios. Visitei a produtora do Ridley Scott. Visitei a do Danny Boyle.

Conheci assim, e eu sempre tive essas ideias, sempre fui um cara de ideia, de querer, sempre percebi que o caminho tradicional não servia para mim, sabe? Eu tinha que criar um outro caminho, que o jeito normal que todo mundo fazia, eu até falo hoje em dia, o meu professor de produção, eu fiz faculdade de cinema, depois eu resolvi fazer faculdade de cinema, me formei em economia.

E ele me ensinou, hoje em dia ele trabalha pra mim, o Márcio Melges. Eu falo assim, pô Márcio, tudo que você me ensinou eu faço o oposto.

tudo que você me ensinou, eu falo assim, isso não é assim, eu vou fazer assado. E é isso até hoje, eu fico tendo ideias, aí meus interesses vão mudando, hoje em dia eu quero ser cineasta, eu quero ser diretor, não quero mais nem, não tem como produzir, mas antigamente eu produzia muita coisa e não fazia os meus projetos, agora eu estou focando mais nos meus projetos, mas eu acho que eu já pulei a sua pergunta, já estou lá na frente.

Mas você construiu muita coisa. Eu acho que a gente precisa ouvir mais sobre a K-Video, né? É, a K-Video, pra mim, assim, que morava no Rio, no meio da década de 2000, ia muito a K-Video porque tinha uns filmes que a gente não achava, né? Eu acho legal a gente falar desse momento, porque pra gente que tava lá com seus 20 e poucos anos, quase 30, assim, é uma coisa... Então, muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas muitas

quase natural assim, né? Mas pra galera que tá ouvindo a gente entender em que contexto de acesso a K-Video surgiu, né? No Rio de Janeiro, mesmo sendo esse lugar Muito pré-internet Muito pré-internet Como é que era, assim, a gente sabe mas eu queria que você falasse como é que era pra você conseguir ver um filme do Godard, como é que era pra você ver um filme do Néus Pereira dos Santos O que é que era pra você ver

E eu acho que nisso a Cavígio, durante muito tempo, foi uma ilha no cinema brasileiro. Eu acho que eu queria só complementar de...

respondendo isso, você também falar um pouco dessa transição de formatos. Claro. Como foi, como a Cavide começou, o que era o formato do momento e como foi essa transição e como você foi se adaptando a isso. A Cavide inaugura em 97, ou seja, está fazendo 28 anos. Na época era VHS ainda, não tinha DVD. E eu lembro que as locadoras estavam no auge dela ainda, estava bombando ainda. E onde eu abri a minha locadora, tinham 20 locadoras em volta.

E eu falei assim, cara, o que vai fazer as pessoas quererem vir na minha locadora em vez de vir naquela outra? Eu falei assim, eu tenho que buscar diferenciais. Também é um foco, são duas palavras que eu uso muito, que eu dou curso, eu tenho uma didática também assim. Duas palavras que acompanham a minha carreira, é diferencial e divulgação.

São dois pontos que eu percebi que são muito importantes e eu foco nisso. Então quando eu resolvi abrir a Cávidas, eu falei assim, cara, eu tenho que fazer alguma coisa diferente aqui para atrair o público. Aí eu lembro que a primeira coisa que eu fiz, nenhuma locadora abriu os domingos. Eu falei, porra, domingo é o pior dia. É Gugu, é Silvio Santos, é Faustão. Porra, vou abrir domingo. Aí já era um diferencial. Toda locadora fechava 8 da noite.

Falei, porra, eu trabalho num lugar cheio de bar em volta. Vou abrir, não tinha hora pra fechar. Fechava quatro da manhã, às vezes. Eu falei, até prejudicou minha carreira no judô, que eu ia dormir duas da manhã. Ficava tonto, assim, que eu quase não dormia, assim. Então, tinha o horário até mais tarde. Eu contratei, como eu não entendia de cinema, eu chamei pra trabalhar com o Nacavídeo, estudantes de cinema, pra poder falar de cinema, assim, entender do que tá fazendo. Porque eu acho que eu via blockbuster, assim, sei lá, o...

O atendente era um robô, assim. Conhece tal filme? Não. Onde que tá? Ah, deve estar ali. Não era uma pessoa que atendia, conversava, falava. Então, assim, eu chamei funcionários pra trabalhar, que eram cinéfilos ou estudantes de cinema. Eu botei o preço. Eu me lembro que, assim, lançamento é quatro, antigo é doido. Eu falei, cara, não existe lançamento. Existe filme bom e filme ruim. Então, todo filme meu vai ser...

Um preço só, dois reais. Não tinha essa diferenciação. E outra coisa também que rolou, que foi impactante. Isso aí é legal falar. Foi um cara vender um filme lá pra mim. Os vendedores iam lá vender filmes. E o cara falou assim, ó. Não compra filme brasileiro não, que é ruim. Eu falei assim, mas como assim ruim? Não aluga, ninguém quer.

E eu fiquei com aquela cena, mas como isso? Eu não entendia muito bem ainda. Aí eu fui ver dois filmes que me mudaram essa minha percepção. Central do Brasil e Baile Perfumado. Eu saí desses dois, era em 97 isso aí mesmo. Lembro que eu saí desse filme tão impactado, mas tão impactado, que eu falei assim, cara, cinema brasileiro é muito bom. Só que os caras não conhecem.

Mais uma vez, o cara trabalha com uma coisa que não sabe o que ele tá falando. E se o som é ruim, não é problema do filme, às vezes é problema da sala de cinema, entendeu? E eu falei, vou especializar a Cavide Filme Brasileiro. Vai ser mais um diferencial. E eu percebi também, olhando as locadoras de volta, que eles botavam os filmes muito mal distribuídos. Pra você achar filme brasileiro, você tinha que buscar em drama, em terror, em comédia. Aí eu resolvi separar por temas. A Cavide era assim...

Diretores, Godard, Truffaut, cinema brasileiro, tinha os diretores também, mas quando não tinha muito, às vezes muitos filmes de mesmo diretor, juntava cinema brasileiro, curta-metragem, documentário. Essas divisões foram um grande diferencial, porque virou uma espécie de referência para a galera que ia lá. O cara pegava um filme de um diretor assim, sei lá, o de Alien, aí ele gostava.

Aí ele via que tinha outros filmes do Diário e Lili. Aí ele começava a ver os outros, entendeu? Eu percebi que isso ajudava a organizar o pensamento das pessoas em relação a pegar os filmes, entendeu? Então foram várias ideiasinhas. E aí depois, o que aconteceu? Quatro anos depois, quer dizer, três anos depois, eu ia para a Sydney lutar nas Olimpíadas de novo. E aí me machuquei de novo.

É, não pude de novo pras Olimpíadas. E aí resolvi do lado... Aí fiquei um ano sem poder andar direito, porque eu machuquei o outro joelho. E aí do lado da minha locadora eu resolvi abrir um cineclube, um cineminha, assim. Tinha um projetor digital, tinha umas cadeiras de plástico. E eu trazia filmes das viagens que eu fazia. Eu lembro que eu tinha toda a série do Arquivo X, que era uma série bombada na época. Fui pro Japão, fiquei o mesmo Japão. Aí eu entrei de sócio de uma locadora no Japão. Eu copiei.

Então tinha o Arquivo X com legenda em japonês. Lembro que isso era engraçado. Tem toda a série do Arquivo X. Estava passando ainda na Fox e já tinha tudo com legenda em japonês. Eu já era para Nova York. Aí tinha uma locadora lá chamada Kings Video. Que era tipo um coreano fodástico. Que pegava filmes raros, underground. Os próprios diretores deixavam filme lá. Foi minha grande inspiração. A Cavide passou a ser uma Kings Video.

Tem até um documentário sobre a Kings Video falando que é uma locadora muito doida.

Esse último filme do Daryl Aronofsky, que passa, Ladrões, passa em Nova Iorque, assim, ele tem uma... o cara tá correndo assim, ele tem a 15 vídeos, assim, que eu acho que foi uma locadora que... Já acabou, acredito. Acabou, acabou. Mas ela é uma referência pros cinéfilos americanos. Aí eu tentei copiar isso, trazer pro Brasil isso, acabei de tentar ter esse espírito, assim, da 15 vídeos. E a transição pras outras mídias, pra DVD?

Então, quando chegou o DVD, pra mim foi ruim, porque eu ia ter que substituir todos aqueles filmes que eu tinha em VHS.

raríssimos, para DVD. E eu não ia conseguir voltar para o Japão para gravar de novo. Então, assim, foi uma transição difícil, mas foi feita aos poucos. Mas alguns filmes na Gavidio eram gravados, né? Muitos. Isso era uma coisa também que eu fazia.

eu tentava, eu realizava que era uma pirataria cultural, que eu copiava os filmes que não existiam lançados. Por exemplo, o Nelson Pereira dos Santos botou lá o Quem é Beta dele, não tinha lançado ainda, ninguém tinha esse filme gravado por ele, eu tô gravado por ele lá, tinha lá. Eu ia pra 15 vídeos, trazia os filmes lá da locadora de lá, copiava do Japão, trazia. Eu sempre me arrisquei nesse sentido, assim. Sempre tinha um filme pirata, mas era uma pirataria que as pessoas admiravam.

Por exemplo, eu consegui os curtas do Kubrick E o primeiro longa dele chamado Fear and Desire Que não existia, ninguém tinha ouvido falar Pensa numa fase que não tinha como baixar filme Não tinha YouTube Não tinha quem te informasse que existisse Exatamente Eu tinha os curtas do Laszlo Vontrier Eu tinha...

Eu fiz agora a amostra da Ghibli. Eu tinha o Princess Mononoke. Eu lancei na Cobal, no evento lá, uma amostra do Miyazaki. Ninguém nunca tinha ouvido falar dele. Passou o Spirit's Away, que é o Viagem de Shihiro, antes de lançar no Brasil. Até deu um problema que o distribuidor comprou e viu que tinha tido um evento. Me ligou para saber o que era isso. Mas eu sempre acreditei que...

Eu sempre sou um cara otimista, né? Eu sempre achei que não ia dar problema, nunca fosse dar problema pra mim. E eu investia, e esse era um diferencial, assim, ter filme que ninguém tinha. Eu fico obsessivo por isso. Todo lugar que eu ia, os fechinhos, vai em cinema. Eu pegava os filmes das galera, botava. Tem filmes, tem DVDs lá, o VHS, tem filmes de plástico, alguns cultos de vocês. Tem de má galera, assim. E a gente ia botando. O negócio era ter coisa que ninguém tinha.

E a Cavite começou a ficar conhecida como... E assim, aí eu tinha amigos pirateiros também, especialistas assim, colecionadores de séries, de filme raro. Então o cara chegava assim, eu quero tal filme. Aí não tinha. Cara, eu me virava, eu rodava todos os lugares, todas as pessoas pra conseguir o filme. Aí era tipo um orgulho meu, era tipo um troféu. Consegui. O cara não acreditava. Assim, caraca, você conseguiu, você lembrou de mim.

E aí foi uma coisa que ficou legal. Um cara fez uma tese sobre a Cavide e falou que o que eu fazia chamava marketing de relacionamento, assim. Que era de tratar o cliente, não como um cliente, como um amigo, um parceiro, um cara do meu CineClube, um cara que gosta dos mesmos filmes que você. Então eu tinha uma necessidade de conseguir os filmes que fazer, agradar a galera.

Aí vai, né? Aí você começa a conhecer as pessoas. Aí eu comecei a namorar uma estudante de cinema. Comecei a frequentar... No final de semana ela ia filmar curta. Aí eu ia junto pra acompanhar ela. Aí quando eu vi, eu já tava segurando o refletor. Impressionando a minha câmera digital que eu trouxe do Japão, que ninguém tinha. Impressionando o meu projetor. Conseguindo comida no restaurante Cittacobal pra equipe do filme. Quando eu me dei conta, eu tava produzindo os filmes, mas sem pensar em ser produtor.

Eu estava ali para ajudar, colaborar, entendeu? E aí eu comecei a criar esses meus parceiros, que eu trago até hoje. A Cavídeo, ela vive das parcerias, assim. Tudo que eu faço é baseado em parcerias. Pessoas que eu ajudei, que me ajudam. E a gente vai conseguindo fazer filmes, fazer mostras, fazer cineclubes, dando o nosso jeito. Dentro desse assunto eu tenho uma curiosidade também.

De duas coisas. Primeiro, você falar um pouco dessa economia de locadora, assim, como manter a locadora nesse auge, mas principalmente o que aconteceu com a Cavidio quando as locadoras começaram a desaparecer. Nesse momento que todo mundo desapareceu e vocês ficaram de pé,

Como foi, assim, esse baque que isso se dá muito na chegada do streaming e tudo, né? Com essa debandada geral que, inclusive, assim, né? Blockbuster, que a blockbuster, a locadora blockbuster... Ela me ajudou. Pois é, então, eu queria saber um pouco, primeiro, assim, dessa economia de locadora, se manter nesse auge, como é que era a entrada, foi difícil, foi fácil, deu muita grana, uma época não deu, e como foi quando...

o mundo foi desistindo de ter locadoras como uma forma de ver filmes. Então, uma coisa que rola muito, e no cinema também rola, são as crises. São os momentos, tem as crises que mudam tudo.

E aí eu lembro que quando eu abri a locadora eu já estava numa crise. Foi um momento que chegou a TV a cabo, a NET. Várias locadoras estavam fechando. E foi nessas locadoras fechando que eu ia lá garimpar os filmes de arte que custavam R$1,00. O filme de arte e o lançamento custava R$20,00. Então eu fui criando o meu acervo indo em locadoras que estavam fechando porque se imaginava que a NET ia acabar com as locadoras. Não aconteceu isso, entendeu? Aí passou um tempo, chegou a Blockbuster.

Vai acabar, vai acabar. Acabou. Acabou com as 19 locadoras que eram minhas concorrentes. Só sobrou a Cavidio e a Blockbuster. O que que acontecia? A Blockbuster, ela tinha um perfil de tipo de filmes, de atendimento, que baseava no lançamento, no volume de lançamento. E a Cavidio lidava com filmes raros, brasileiro, curta-metragem, underground, filme raro. Então, assim, quando a Blockbuster chegou, ela faliu todas as outras locadoras.

Aí só ficou a K-Video e a Blockbuster. Quem queria ver filme de arte só tinha a K-Video, quem queria ver filme comercial só tinha a Blockbuster, entendeu? A Blockbuster era perto de você? Do lado, dentro da Cobal, do lado. Todo mundo falou assim, K-Video faliu, vai fechar. Falei, calma gente, vamos ter fé, vai dar certo. Foi 5 anos, você lembra?

Mais ou menos. Dois mil e pouco, 2004, 2005, por aí. Não tenho certeza. Mas eu lembro claramente, assim, que abriu a Blockbuster, aí todo mundo falou assim, fudeu, Cavite, vai fechar minha mãe, meu avô. Já era, Cavite, pensa outra coisa. Falei, não, calma. Vamos buscar os nossos diferenciais. E uma coisa que eu percebi também, que fez a Cavite continuar,

que eram os eventos. Porque assim, qual locadora, e a divulgação, porque assim, toda semana a Cavite estava nos jornais, cara, no Rio de Janeiro. Toda semana estava dizendo, alguém falava da Cavite, porque assim, qual locadora que faz mostras de filmes, do Kubrick? Qual locadora que faz Cineclube com Júlio Bressani, Zé Carlos Avelar? Qual locadora que faz... Eh,

evento do Oscar, bolão de aposta, qual locadora que bota um telão gigante no teto da Cobal no estacionamento e faz o Cobal drive-in, passando curta-metragem. Então, assim, a gente começou a... Pra a Cavídeo se manter, eu comecei a fazer coisas paralelas relacionadas a cinema pra divulgar a Cavídeo. Eu patrocinava eventos de teatro, emprestando meu projetor, filmando. Eu patrocinava eventos de poesia.

também impressionando meu projetor, impressionando filmes, vários filmes eram apoiados pela Cavidio, deixava pegar filme de graça. Então eu comecei ali, eu já estava sendo um pouco produtor, a Cavidio já não era só mais uma locadora, a Cavidio já era também uma locadora que fazia eventos. Eu acho que a Cavidio vai se transformando, ela vai se...

se modificando, assim. Era uma locadora, que depois virou uma produtora de eventos, que depois virou uma produtora de cinema, depois virou uma distribuidora, e agora também trabalha dentro de um cinema, é uma biblioteca. Hoje em dia tem uma biblioteca de cinema, ainda tem uma locadora. Por exemplo, a locadora, voltando na locadora, que o foco é a locadora.

Então assim, eu vivi tempos auros, a Cavildes me deu muito dinheiro. E era uma época que eu ainda vivia com meus pais. Ainda fazia judô, tinha patrocínio no judô também. Então eu não vivia disso. Eu ganhava muito dinheiro e aquele dinheiro, o que eu fazia? Eu patrocinava curtas-metragens, eu patrocinava eventos, eu ajudava pessoas, produzia peças. Porque era um dinheiro que eu, de uma hora pra outra, comecei a ganhar muito dinheiro, porque a locadora bombou.

isso de 2000 a 2008, 2010 no março, eu comecei a pegar esse dinheiro e investir na produtora, nos cineclubes, eu ajudei a criar mais de 20 cineclubes, eu comprava projetor, emprestava, eu tinha 5 projetores, emprestava para todo mundo, ninguém emprestava projetor no Rio de Janeiro, todo mundo queria alugar, eu era um cara que emprestava, então eu ajudei, por exemplo, a primeira projeção da Cufa, que era uma escola de cinema nas favelas, foi com o projetor da Cavidio, a primeira projeção do Mati Quangu, que era um cineclube,

Conhecido Igor, né? O Igor que tá lançando agora o Amuleto Agora no Festival do Rio Foi com o projetor da Cavidio Lá no Vidigal, na Rocinha E o engraçado é que eu comecei a ir pra periferias Foi uma coisa também Eu não sou da periferia Sou classe média E aí eu comecei a ir nesses lugares Conhecer essas pessoas Comecei a travar amizade, parceria E hoje em dia elas são minhas grandes parceiras Mas assim A Cavidio, de algum momento Ela começou a decair Réalizante

Mas aí a produtora começou a crescer. No início da Cavide, os primeiros cinco anos eu não ganhei dinheiro nenhum. Eu acho que quando você abre um negócio, os primeiros anos você está investindo. Eu pegava o dinheiro que eu ganhava do judô, eu era patrocinado pelo Vasco, pelo Exército, e vendia camisa, vendia kimono, eu fui injetando dinheiro na locadora. Quando a locadora já começou a dar lucro, eu comecei a injetar dinheiro da locadora na produtora.

Uma coisa foi ajudando a outra. E hoje em dia eu ganho dinheiro de várias fontes. Então eu não dependo mais da locadora. A locadora existe ainda. Hoje em dia a locadora é uma espécie de biblioteca gratuita. A Rio Filme, na pandemia, me chamou. Eu não tinha como pagar lá o aluguel da Cobal mais, que era tipo 15 mil reais por mês, estava tendo muito prejuízo. Aí a Rio Filme falou assim, vem para cá, eu vou te dar um espaço, mas em troca você disponibilizar gratuitamente para o público.

Falei, ok. Foi a forma que eu encontrei pra cá a vida de continuar existindo. Ela existe ainda. Ela é uma locadora, tem 30 mil filmes. Hoje em dia quem frequenta são os estudantes de cinema, são os cinéfilos, são os pesquisadores. Ainda tem muitos filmes que você não encontra no streaming.

básicos, assim, tipo assim, Fellini. Às vezes tem um ou outro, às vezes entra e depois sai, lá tem tudo. John Casavetes, eu lembro que o John Casavetes foi um diretor que a Cavite apresentou, assim, pra uma geração. Só tinha na Cavite esse filme, eu tinha trazido os Estados Unidos. Celto Mello descobriu o John Casavetes lá, até o filme dele foi inspirado no John Casavetes, o primeiro filme dele.

Ele viu lá. O próprio Pedro Freire, Malu, descobriu Casavetes também na Cavide, esse filme novo dele, Malu, totalmente Casavetes. Então é muito legal que hoje em dia eu vejo muitas pessoas que são artistas, são cineastas, que falam assim, ah, eu vi o meu primeiro Casavetes lá. Ah, eu vi, apresentei o cinema iraniano para a minha filha. A Cavide virou um... Eu quero fazer um filme depois sobre isso, assim. Mas ela virou um lugar, assim, que as pessoas tinham acesso à informação.

Os filmes, as pessoas. E depois comecei a fazer festa também. Acabei de também produzir a festa. O Emílio Domingos tinha uma festa chamada Festa Funk, com PH. De Black Music. Fui eu que comecei a produzir. O que eu percebi? Eu queria fazer uma amostra Black Spotation. Eu comecei a perceber que... Inclusive hoje eu ainda faço isso.

Só a mostra não era suficiente. Então eu começava a fazer atividades paralelas pra atrair mais gente. Então depois da mostra Black Spotation, tinha uma festa black. E aí eu chamei o Emílio, e a gente fazia dobradinha a mostra e festa. Comecei a produzir festa. Abri uma boate, chamado Cine Buraco. Era um hortifruti no interior de uma favelinha assim, que eu arrendei assim, transformou num cineclube que tinha a festa depois. Então assim, era festa anos 80, filme anos 80. Festa black, filme black antes. Festa black.

Então a gente ficava inventando. Então a Cavídeo passou a ser outras coisas. E aí, quando a Cavídeo começou a dar pouca grana, teoricamente fecharia, eu comecei a pegar dinheiro desses, e os outros parados, e investi na Cavídeo. Isso foi quando? Isso foi nessa transição dos streamings? Um pouco antes já. Antes de chegar os streamings, as locadoras já estavam bem em queda. Eu acho que bem antes. Acho que as locadoras estavam em queda. Acho que de 2015.

antes até um pouco, talvez. Mas a Cavide sempre continuou um pouco, assim, porque a gente tinha esses diferenciais, tinha essas outras atividades, entendeu? Mas eu lembro que muitas locadoras iam fechando e a Cavide sobrevivendo lá, Highlander, assim. E aí as pessoas foram mudando os hábitos, assim, também, foram deixando aos poucos a Cavide, assim.

No final, assim, era pra me fechar, só que a Cavide passou a ser um filho pra mim. Não tem um filho, às vezes, problemático, que só dá problema, os filhos, às vezes... Virou um filho problemático, dava prejuízo. Mas era um filho, eu tenho que cuidar dele, foi onde tudo aconteceu, tudo começou pra mim. Então, sempre...

Ingestava dinheiro, não deixava fechar, bancava para a locadora continuar, já não era mais um negócio financeiramente viável. Eu queria que ela existisse ainda. Quando veio a pandemia, foi a porrada fulminante. Eu procurei vários lugares que pudessem aceitar o acervo da Cavílio. A PUC, a Faculdade de Cinema, Parque Lage. Ninguém queria, ninguém tinha espaço, ninguém podia. Aí a Rio Filme...

me chamou, aí virou esse novo momento que a Cavídeo virou um espaço cultural, na verdade, hoje em dia, não é mais uma locadora.

Mas ela continua lá. Ela virou uma filmoteca, né? É. Uma espécie assim. Eu queria saber, assim, a gente está pensando que a Cávide, ela é um case de distribuição, de movimento em torno dos filmes. Algumas pessoas atribuem às tecnologias o fim de certos lugares culturais.

Em termos de tecnologia, você acha que o que foi mais danoso, assim, a mudança de mídia com o Blu-ray...

Os streamings ou o celular? Como você acha que é a grande coisa que faz essa cultura? Para falar a verdade, eu vou... Antes disso tudo que você falou. Para mim, o que faz as coisas acabarem, acontecerem, é o dinheiro. O que dá dinheiro? Então, em algum momento, alguém falou assim, vamos acabar com as locadoras e agora a parada que dá dinheiro é o streaming. Porque se...

Por exemplo, você não consegue mais comprar DVD, aparelho de DVD. Não se fabrica mais DVD no Brasil. Você tem que mandar fazer DVD fora. Não tem mais fábrica que faz DVD no Brasil, aquela mídia. Não tem mais. Então, assim, é uma imposição de mercado. Porque quando as locadoras fecharam, muita gente ainda gostava que pegava a firma de locadora. Mas você vai sendo quase que imposto pelo mercado. Agora acabou a locadora. Agora é isso. Agora acabou o VHS, é o DVD. Agora acabou o DVD, é Blu-ray.

É uma questão de escolha financeira, de determinação assim. Agora toda a mídia, todo o dinheiro é nisso. Esquece isso, entendeu? Lógico que as tecnologias, elas mudam, ajudam a mudar. Mas vai muito junto com o dinheiro. Por exemplo, o iPhone. Todo ano eles inventam um iPhone novo com uma coisinha extra. Lógico que eles já têm isso inventado há um tempão, mas eles vão segurando para ganhar mais dinheiro, para ganhar mais dinheiro, para ganhar... Tudo é o dinheiro. Quando falaram que a locadora tinha que acabar...

Foi uma imposição do mercado. Não foi por causa das pessoas. As pessoas até hoje falam com nostalgia das locadoras. Pô, se ainda tivesse uma locadora aqui, se eu tivesse acesso ao DVD, se eu tivesse, o streaming não é tão bom quanto a gente achava que era, não tem todos os filmes que eu gostaria, mas eu não tenho mais equipamento, mas eu não tenho mais onde comprar.

Então, assim, se tivesse onde comprar equipamento, se tivesse onde ter os DVDs, as pessoas ainda teriam, assim, igual a Vitrola, hoje em dia, o toca-disco. O vinil, né? Se você parar de produzir vinil, se você parar de produzir a Vitrola, ninguém vai ter mais mesmo, porque não tem acesso. Mas, assim, eu tenho um roteiro, assim, de um filme que eu quero fazer, que, assim, um dia vai ter um bug da internet e vai apagar todos os streamings, todos os arquivos de filme.

E aí o único lugar que vai ter para as pessoas verem filme é no cinema ou na K-Video. Aí no dia seguinte tem uma fila quilométrica de pessoas para voltar na locadora, porque não tem mais acesso a nenhum filme. E o único lugar que existe é a K-Video. É uma ideia, Malu, com o Sanko, que eu tive que fazer um curto. Mas essa especulação do seu filme é interessante, porque tem um certo movimento.

voltando recentemente, primeiro, né, o vinil voltou em certa medida, não é aquela coisa, um boom, né, mas pegando uma pequena tangente eu fiquei de cara de ver um dado que os vinis mais vendidos no mundo, acho que ano passado, se não me engano, os 10 artistas que mais venderam vinil, primeiro era Taylor Swift,

E os outros nove eram bandas de K-pop, que é um sucesso que não é da nossa geração nem mais velha, que talvez seria associado a uma geração que descobriu música com vinil. Mas pessoas novas, muito jovens, assim, né? Então eu acho interessante também como volta, e falando dessa ideia sua, porque pessoas que são muito apaixonadas com cinema, cinefla como nós três, assim, várias mais,

tem voltado a se interessar por essa ideia da mídia física. Porque, na prática, você vai lá na Netflix, na Amazon, e você compra um filme. Lá, você tem a opção de alugar ou comprar, né? Você compra um filme, mas isso não significa que você tem esse filme.

porque o catálogo, se mudar, não é garantido pelas leis e condições lá que você vai ter aquilo no seu dispositivo. Se o filme que você comprou sair do catálogo, você perdeu ele mesmo, assim. Então tem uma certa linha de pessoas que estão voltando para a mídia física para você efetivamente ter o filme. Além do que agora estão começando a fazer...

Ultra HD, Blu-ray, então tem nichos de discussão na internet, o que é melhor? É o 4K Ultra HD? O que eu acho interessante também, essa coisa de não pensar, que é só essa ideia que morre, né? De repente, às vezes volta, né? Os making-offs também. Os making-offs, muitas pessoas que falam disso, que sentem falta.

Dessas coisas extras, né? Filhos comentados pelos diretores, aula de cinema, porra. Você vê o diretor comentando o filme, só tem DVDs. Total. Acho que já é um bom momento pra gente começar a fazer uma transição pra pensar a sua presença ali no estação, né? Eu queria que você falasse, que eu acho que é muito importante a gente falar sobre bilheteria, sobre cinema.

e acho que você, como agitador cultural que eu falei, como foi sua chegada nesse processo de estar próximo de uma sala de cinema, fazendo ações muito efetivas para mudar a forma como essa sala de cinema é frequentada. E falar isso diante de um cenário em que existe, obviamente, desilusão, números às vezes bons, às vezes não tão bons, momentos, falar um pouco dessa chegada ali sua no estação e como foi esse sentimento de estar junto a uma sala de cinema.

Então, eu já fazia cineclubes, eventos, né, lá na Cobal, depois eu comecei a expandir, fui pro tempo Glauber, peguei o cineclube Cinema Ricamar, que era um teatro. Eu sempre busquei lugares alternativos pra passar meus filmes, pra passar os curtas da galera, pra levar pra comunidades, cara, muitos lugares, assim, eu já fiz projeção durante festas.

fazia projeção antes das festas, durante as festas, coisa de VJ também, eu sou um dos primeiros lá no Rio, tinha uma festa no Cine Iris, que era um cinema pornô, chamada Lounge, eu fazia as projeções no cinema, e no terraço que era com drum and bass, então eu sempre tive essa coisa de levar o cinema.

para outros lugares, assim, de tentar levar o cinema para as festas, Cobal Drive, eu montei um telão no estacionamento da Cobal, eu sempre tive essa coisa de, eu sempre tive esse prazer também, não só de fazer filme, mas de mostrar os filmes, assim, né, fazer as pessoas descobrirem filmes novos, ter acesso a um curta-metragem que não passa normalmente, e aí eu fiquei sempre nesses caminhos alternativos, muito underground, muito experimental, muito doidos, demais,

quando o Estação abriu a possibilidade de eu fazer algumas coisas lá. Eles queriam fazer cineclube. O Estação é um grupo de anos 80, e eles eram cineclubistas, assim. A maioria com 20 anos, 20 e poucos anos. Eles tinham esse espírito de cineclubista. Mas durante o que foi passando o tempo, eles foram crescendo muito, viraram empresários, assim. Acho que eles, de uma certa forma, cresceram, foram envelhecendo. Então foram indo mais para esse lado. Essa alma cineclubista deles sempre existiu, mas...

ali já era uma empresa que tinha que dar lucro, que tinha que ser um negócio. Então, se perdeu um pouco, assim, eu acho, aquele espírito inicial do estação, sabe? E aí eles viram eu como uma espécie de filho, que é uma geração que influenciado o que eles eram.

mais ou menos eu era, assim, dez anos depois, assim, entendeu? Eles começaram a me chamar pra fazer esses eventos que dá muito trabalho e não dá nenhum dinheiro, que é o Cineclube, né? Que é essas sessões, essas festas. E eu sempre fui um cara muito disponível, sempre muito empolgado, muito apaixonado pelas coisas que eu faço. Já ganhava meu dinheiro lá na Cavide e tal, não precisava ganhar dinheiro ali fazendo Cineclube, então eu topava fazer os eventos de graça.

O que era muito bom para o Estação, porque eles tinham um evento muito legal, com filmes diferenciados, raros, curtas, da nova geração, e sem gastar nada, porque eu era o cara que fazia. E aí tinha essa parceria ali. Mas aí veio a pandemia. E aí o cinema ferrou, né? Fechou, prejuzão, queriam pagar os funcionários, não tinham grana.

E aí eles... E eu sempre fui um cara também, um cara agregador, assim, né? Um cara... Não é popular, assim. É um cara que todo mundo conhece, todo mundo confia. A Cavidio, ela tem um nome muito forte no Rio, assim. Todo mundo adora a Cavidio, assim. Todo mundo fala da Cavidio, assim, como se fosse uma coisa muito querida, assim. Acho que é uma coisa que eu tenho orgulho, assim. Não tenho dinheiro, mas eu tenho um...

uma história ali que as pessoas gostam, marca a vida, desparcou a vida de algumas pessoas. E aí o Estação me chamou para me ajudar. Primeiro numa campanha de crowdfunded, para conseguir dinheiro durante a pandemia pagar os funcionários. Aí eu mobilizei, fiz os vídeos, organizei uma amostra do Estação Online, chamada Estação Virtual.

Eles não tinham nenhuma prática online, eles não entendiam nada de coisa de streaming, de canal de Vimeo, de... E eu já tinha um pouco essa experiência de produtor, dos meus filmes e tal. Então eles me chamaram nesse momento.

E aí eu ajudei bastante. Quando acabou a pandemia, os cinemas estavam vazios, desertos. Ninguém ia mais ao cinema. E eles precisavam trazer as pessoas de volta. Aí me chamaram para mim também tentar movimentar o cinema. Foi quando eu fui chamado para fazer esses outros eventos que eu chamo. Tipo teatro dentro do cinema, festa dentro do cinema, lançamento de livro, recital de poesia, show dentro do cinema.

Era pensar o cinema como um espaço cultural, de convívio, não mais só como um lugar para você lá ver o filme ir embora, entendeu? Que isso trazia as pessoas, os eventos. Por exemplo, hoje em dia eu comemoro aniversário. Rui Guerra comemorou agora 94 anos no cinema. Semana que vem, toda semana tem um aniversário lá, que virou um lugar de aniversário. Cara, a gente fez o velório do Pereio dentro do cinema. O Pereio morreu, a família dele me ligou, ele me ligou, eu falei, ele ama o estação.

Vamos fazer o velório dentro do cinema. Eu falei, vamos. Aí ficou durante um dia lá no caixão do Peraí. A pessoa chegava, estava com susto. Virou um acontecimento. Todo mundo lá beber, contar as histórias. Virou um lugar. E isso, eu posso dizer que eu colaborei muito. E o Estação teve um outro problema. Que o Grupo Severino Ribeiro, que era dono do espaço físico do Estação Net, queria tirar eles para transformar em um prédio.

especulação imobiliária. E aí eu ajudei a fazer uma campanha chamada Fica e Estação. Aí eu mobilizei os cineastas, os artistas, no Saguão, a gente fez placas, fez uma campanha online. Eu me lembro que eu fiz vários cartazes assim, Fica e Estação, não sei o que e tal. Mobilizamos a mídia, de novo a mídia, divulgação, e conseguimos tombar pelo patrimônio histórico, o cinema, e aí deixou de poder...

Ser um prédio, vai ter que ser sempre um cinema. Então assim, aí em troca disso tudo, a Adriana Ratz, que é a dona, falou assim, Cavi, toma aqui, tem um espaço aqui, uma lojinha aqui, que faliu, era uma livraria, você não quer ocupar. Aí eu transformei na estação Cavi, que é um sebo de cinema, onde eu vendo DVD, Blu-ray, camisa, pôster, tudo, vinil, tudo de cinema, bonequinho.

O pessoal quer se né, vai ficar doido quando chega lá assim. E hoje em dia a forma de eu ganhar dinheiro no Estação é através dessa loja. Eles não me pagam nada. Eu não sou funcionário do Estação. Eu sempre fui claro para ele, ele falou assim, eu não quero ser funcionário do Estação, eu quero ser parceiro do Estação. Eu quero que a Cavidio seja parceiro do Estação. Eu não quero...

ser empregado em estação. Quero que a Cavilho seja uma parceira. Um ajuda o outro, entendeu? E é o que eu sou. Muita gente hoje em dia acha que eu sou até o dom do cinema. Eu até fico preocupado assim da dona não ficar com ciúme, não criar um problema ali de... Acho que eu sou o programador do cinema. Eu achei isso por um bom tempo. Depois eu fui entender. Eu achei que você tinha virado programador. É porque eu divulgo mais o cinema do que o próprio cinema.

Essa coisa do... Às vezes, as mídias sociais têm a programação toda do Estação, têm todos os eventos. O próprio Estação, às vezes, não divulga. É porque eu sou obsessivo. E eu, quando gosto de uma coisa, eu vou com tudo, assim, entendeu? E ali virou também uma vitrine para mim. Eu entendi que eu não ganho tanto em dinheiro, mas, assim, as pessoas me chamam para fazer podcast, me chamam para...

distribuir um filme, me chamam para ajudar na distribuição, tipo, em Baúba, me chamam para dar palestra, para ser jurado. Então, eu acabo usando o Estação como uma vitrine para mim, para cá vídeo, e eu ganho dinheiro de outras formas. Eu sei que o Estação tem dificuldade financeira. Hoje em dia, uma sala de cinema...

Ainda mais o Estação, que trabalha com filmes de arte, filme brasileiro, é uma montanha russa. Tem meses que é muito que dá prejuízo, tem meses que dá lucro, tem meses que dá prejuízo. Não é hoje em dia mais uma coisa para ganhar dinheiro, ter sala de cinema. Hoje em dia, quem tem cinema é porque ama o cinema, não é pelo dinheiro. O próprio Severino Ribeiro, que é o maior distribuidor do Brasil, os netos dele viraram agora construtora, cantando franquique.

eles usam o nome deles, eles alugam lá os espaços, tem o Kinoplex, mas não é mais uma coisa para você ficar rico, para você ganhar dinheiro, o cinema não é mais isso, a sala de exibição, o circuito exibidor. E aí eu estou lá com eles.

Sempre fazendo coisas, sempre pensando coisas, sempre viajando. Por exemplo, a Tiagoara vai inventar um... Eu inventei um evento lá que foi muito legal. Essa história eu queria contar que é... Mais um problema que virou uma solução. Eu queria homenagear os 20 anos do Madame Satã. Fazer uma sessão especial do Carim. E aí eu procurei a videofilmes e ela falou assim... Eu acho que ela não queria, eu acho que ela não queria que exibiu o filme.

Ela falou assim, a gente só tem cópia em película, a gente não tem digital mais.

Aí eu fui lá na estação, tinha um projetor de 35 quebrado. Aí eu contatei um cara para consertar o projetor. Aí consertamos o projetor de 35, eu cheguei lá assim, ó. Beleza, a gente pode passar em 35. Vamos passar? Aí ela falou assim, pô, mas eu não paguei o CRT na Ancine, eu não posso exibir, senão eu vou ser multada. Aí eu descobri na Ancine que se eu elaborasse uma amostra,

Eu ficava isento de pagar o CRT ou o Condecine. Eu tive que inventar uma amostra chamado Clássicos Brasileiros de 35mm para poder passar a Madame Satã. Aí ela, então tá, então passa. Aí o evento foi um sucesso. A equipe toda ia junto. Era não só a exibição em 35mm, como também tinha um debate depois com a equipe toda. Virou um acontecimento no Rio. Os jovens que nunca tinham visto filme em película, nova geração de 20 anos, que nunca tinham visto a Madame Satã.

Iam lá pra ver quanto mais riscada era a cópia. Mas, ah, 35. Uma coisa, tipo um fetiche, assim. E aí, sem querer, eu tive que inventar esse evento pra poder passar o Madama Satã. E foi genial, porque depois eu passei Cidade de Deus, Amarelo Manga, Amuleto Jogum, Babara. Cara, foi tudo fenômeno. Foi tudo, assim, lotação. Esgotava em uma hora. Você botava, tipo, o Cidade de Deus. Eu botei pra vender, assim, online. E uma hora tinha esgotado, já, assim. Virou uma... Película. Película. Película. Tinha que ser película.

O Kleber Menoso foi passar lá o som ao redor, tive que fazer duas sessões, porque chegou tudo também em 15 minutos. Então virou, era um evento que eu, olha que louco, né? Era um evento que eu criei para resolver um problema aqui do Madame Satã se transformou num evento cult do Rio de Janeiro de cinema de arte, entendeu? Então para ver como que as coisas, às vezes comigo, acontecem sem querer.

E dá certo. Às vezes não dá também, mas às vezes dá. Então eu sempre já me arrisco, eu fico inventando as coisas muito doidas, assim, que às vezes dá certo. E aí quando dá certo, ó, genial! Como é que você vê, Cavi, as novas gerações? Porque é uma coisa que, quando eu fui lançar o Martinho no Estação, uma coisa que me deixou muito feliz

é ver que tinha muita gente nova, assim, e uma nova disposição, e eu entendi, pela lógica ali, que era um público que é frequentador daquele cinema. E acho que muito do fato daquelas pessoas estarem ali presentes tem a ver com esse trabalho que você fez, né? Que também é muito parecido com a minha formação no Ciro Humberto Mauro, em Belo Horizonte. Então, como é que você vê...

Porque também existe, às vezes, um pensamento que existe uma nova geração que não se interessa por se é em película. Só que isso não está se provando. Eu acho que existem algumas pessoas que seguem interessadas. Eu acho que é, inclusive, possível...

Até assim, no certo sentido, é uma pergunta se tem salvação, né? Essa coisa da bilheteria do cinema, das pessoas voltarem aí ao cinema, porque eu acho que a gente tem visto possibilidades disso acontecer, embora muitas vezes os números ficam aí nos altos e baixos, né? Cinema não dá dinheiro mais, mas eu sinto às vezes uns lapsos assim de que não dá pra desistir também, sabe? Ou não faz sentido desistir, assim.

Como você sente isso? Então, todo mundo falava assim, a nova geração é só internet, é só celular, é só streaming. E eu vi no Estação que não é verdade isso, entendeu? Mas, para atrair essa nova geração, é aquela minha ideia que eu continuo batendo na tecla, que é o evento, entendeu? A nova geração consegue baixar qualquer filme.

viver em casa, mas não consegue encontrar o diretor e falar com o diretor depois do filme, não consegue ver o filme em película, não consegue ter a festa depois, ter a cachaça, ter a exposição rolando lá, ter um encontro. Eu acho que também essa nova geração, ao mesmo tempo que ela é muito tecnológica e individualista, ela sente falta de encontrar, de azarar, de estar junto, de abraçar. Eu acho que isso é uma lacuna, é uma galera que...

sofreu muito com a pandemia, fez faculdade online, mostra online, streaming, não teve... Então, acho que quando você transforma aquilo numa novidade, quando eu falo evento, é uma coisa nova, uma coisa que atrai, que também acaba, por exemplo, essa amostra de 35 durou dois anos, depois parou de funcionar, então tem que inventar uma nova coisa, um novo evento. Aí começamos a fazer a sessão da meia-noite.

Só que o filme Underground lotou de jovem. Percebemos que os jovens gostam muito de filmes LGBTs e terror. São dois gêneros que a galera jovem gosta muito. Criamos uma mostra chamada Terrível, só de filmes de terror.

Depois mostra quem quer queer. Quando eu falo criamos, eu tenho que tomar cuidado porque não sou eu que faço isso sozinho. Tenho uma equipe no Estação, eu sou um dos colaboradores. Como eu apareço muito, com a impressão errada que eu faço tudo. Não sou, entendeu? Até que é injusto também com os parceiros lá. Eu colaboro. E aí, uma coisa que foi um diferencial lá no Estação foi quando a Adriana Ratz convidou um curador para ser curador do cinema, um garoto de 20 anos.

Isso fez toda a diferença. Porque assim, eu lembro que teve uma amostra chamada, essa amostra é terrível de terror, ele programou lá, filme Scooby-Doo dublado. Falei, cara, esse filme é uma merda. E dublado lotou a sala. Porque foi um filme que marcou uma geração. E eu não sabia disso, mas do garoto de 20 anos eu não sabia, entendeu? Então assim, quando ele bota uma pessoa que pensa igual a eles, que vê os mesmos filmes que eles, pra poder escolher os filmes, escolher os eventos, Réalizat ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne ligne

Muda tudo. Eu, como curador, nunca botaria Scooby-Doo dublar do filme. Porque, pra mim, é uma merda esse filme. Eles consideram o Psicopata Americano um clássico. Pra mim, um clássico é, sei lá, Feline. Compreendidos. Compreendidos. Ele é esse Psicopata Americano.

É jovem em chamas, entendeu? Então, acho que assim, é você tentar também entender como eles pensam. E aí, é isso, inserir eles dentro da parada, entendeu? Então, assim, eles serem os curadores, eles poderem participar das escolhas. Por exemplo, a gente faz agora mostras de curtas com curtas jovens, assim. Quando eles se sentem dono também, participante, a coisa muda, entendeu? E eles conseguem atrair, sabe? Por exemplo, o Estação tinha um problema sério de divulgação.

Não tinha uma rede social boa, divulgação online. O cara falou assim, galera, o pessoal novo não vê mais Facebook, é Instagram. Contatamos um garoto lá, hacker de Instagram lá. Ele bota postagem a cada duas horas, bota... Pô, ele divulgou o Truffaut, botou na TeleSwift. Um balãozinho assim, ah, eu vou ver a Truffaut pela primeira vez no estação. Olha o jeito de... Olha o marketing. Usaram a TeleSwift pra divulgar o Truffaut. Eu nunca faria isso, pra mim até fiquei meio puto quando eu vi aquilo. Eu falei assim, não... Eu falei assim, não é?

A nova geração não conhece o Truffaut, mas se falar com a tele-suitos, brincar pelo menos, que ela está indo ver o Truffaut na estação, a pessoa vai achar engraçado e vai. E deu certo, entendeu? Então é assim, é isso também, a gente tentar ser humilde, aceitar as mudanças e entender elas e trabalhar em cima disso, entendeu?

A distribuição está sempre em mudança também. A produção do cinema também está sempre em mudança. Quando muda a tecnologia, muda o cinema. Por exemplo, a pandemia, a distribuição de um filme antes da pandemia era uma, depois da pandemia era totalmente diferente. Era um outro jeito de divulgar, outras mídias de exibição. O cinema perdeu a força, o streaming ganhou força. Então, assim, essas mudanças estão acontecendo ao todo tempo. E se a gente não acompanhar essas mudanças, a gente fica para trás.

Igual aqueles diretores, ah, Embra Filme, a película. Não tem mais Embra Filme, não tem mais película. Agora é digital, aceita. Se não aceitar, fica pra trás. Mesma coisa com distribuição, com exibição e com produção, assim. Então a gente tem que estar estudando, pesquisando, ouvindo as novas gerações, as novas ideias, os maluquinhos lá novos que inventam lá um streaming black pelo WhatsApp, entendeu? É meio isso. Você sentiu... Réu. Réu.

um impacto real, estando próximo da sala de cinema, de uma sala de cinema de um grande grupo e tal, se sentiu um impacto real.

em bilheterias, por essa questão do Oscar brasileiro, do Ainda Estou Aqui, não tô falando pro filme do Walter, que a gente viu os números, né? Mas você sentiu que isso se espraiou ao redor pro cinema brasileiro? Não? Foi uma onda que passou? Que essa é uma dúvida que eu tenho, e talvez você que estava mais próximo de uma sala pode dizer. Então, eu estar numa sala diariamente lá, e eu frequento, todo dia eu vou no cinema, todo dia eu assisto...

É uma escola pra mim. Todo dia é um laboratório. Todo dia eu aprendo, assim, o melhor horário, melhor filme. Por que que viu aqui, não viu aqui. Pra mim, eu tô sempre aprendendo ali na prática. Isso é muito rico. Isso é muito bom pra mim como cara que quer pensar o cinema. Não só com a produção, com a distribuição também. Mas, assim, os números caíram muito, né? Hoje em dia, você passar de 10 mil espectadores é muito bom.

Praticamente era ridículo. Você, no mínimo, fazia 100 mil. Lembro que o Fala Atu, um documentário de hip hop, nos anos 2000, deu 100 mil e era pouco. Hoje em dia, se um documentário passar de 5 mil, bate palmas, é ótimo. Então, assim, os números mudaram. A realidade mudou. Então, não dá para você mais pensar como era antes e como é hoje. Hoje em dia, passou de 10 mil, passou de 20 mil.

para um filme independente, alternativo, pequeno, brasileiro, é muito bom. Mas claro que assim, as pessoas têm muito preconceito de ser brasileiro ainda, o brasileiro não vê filme brasileiro de uma forma geral, eu estou numa bolha ali, o Estação é uma bolha, né? Para quem frequenta ali a Zona Sul, cara intelectual, cara estudante de cinema, não é a realidade do Brasil, entendeu?

Então, assim, lá é uma coisa, eu sei que se você for para um outro lugar é totalmente diferente. Mas o cinema brasileiro, quando acontece filmes como Ainda Estou Aqui, vira um evento, vira um acontecimento. E todo mundo está em busca desses eventos, desses acontecimentos. Então, muita gente, eu percebi, muita gente que nunca tinha ido na estação.

Foi no Estação para ver, eu ainda estou aqui. E aí se deparou com um pôster do Malu, se deparou com um pôster do Casa Branca, se deparou com um pôster não sei de quem. Aí ele olha, ele vê, pesquisa, que filme é esse, não sei o que e tal. Claro que vai ajudando, uma coisa ajuda a outra, entendeu? Então a gente tem que... Para o cinema brasileiro foi muito bom, eu ainda estou aqui, assim, ser esse acontecimento.

que muitos filmes foram juntos. E aí as pessoas já começam a criar, qual o próximo, ainda estou aqui. Aí já tem o Agente Secreto, que virou um novo acontecimento. Aí qual o próximo filme, aí vai, as pessoas vão perdendo o preconceito que o filme brasileiro é ruim, que a qualidade é ruim.

Dá uma autoestima, por mais que Oscar seja uma coisa meio... A gente, tipo, pô, americano tem que falar que é bom pra gente dizer que é bom. Imperialista, sim. Mas, cara, não tem jeito. A gente vê até a gente mesmo nos festivais. Quando o filme entra em Cannes...

Muda tudo, todo mundo quer ver o filme, todo mundo no festival quer que passe no seu festival. O seu filme foi para a Sundance, foi gramado, todo mundo queria o seu filme. Então a gente vive, infelizmente, a gente ainda é muito influenciado pelos Estados Unidos, pelo que o gringo fala, pelos prêmios internacionais. Então isso tudo ajuda, o Oscar ajuda, assim, sabe? Dizer que o Brasil ganhou o Oscar ajuda, assim, vai ajudar o agente secreto também, e o agente secreto vai ajudar o próximo.

Você teve um ano antes do Ainda Estou Aqui, ou dois anos antes ou três anos antes com o seu filme no Oscar. Dois anos. Deve ter sentido a dificuldade, assim. Talvez se o Amartin fosse hoje, tivesse já a porta mais aberta. O Préber mesmo fala que ele está... A divulgação do agente secreto está...

já está bem à frente, não quer dizer que ele vai ganhar, mas ele já conseguiu mais espaços que eu ainda estou aqui, tinha conseguido no ano anterior, porque eu ainda estou aqui e abriu portas. Então eu acho que é muito bem-vindo esses filmes, faz muito bem para o cinema brasileiro, faz muito bem para as pessoas pensarem, valorizarem o nosso cinema. Então eu fico torcendo para sempre ter um filme assim, evento, para a gente ir crescendo junto.

E qual é a tua relação com... Vamos voltar no Estação, mas eu queria perguntar...

entrar em outro assunto, porque a gente vai fazendo assim, indo e voltando. A tua relação com o streaming. E assim, tem uma... alguns casos, assim, que... especificamente em relação também com a sala de cinema. Esse ano a gente teve um caso de um filme brasileiro, que foi O Homem com H.

que foi um sucesso de bilheteria, mas ele foi muito rápido para o streaming. O acordo logo levou o filme para o streaming. E alguns diretores clássicos, como o Spike Lee, o filme dele chegou no Brasil diretamente no streaming. Então eu queria que você falasse da sua relação e dessa situação do encurtamento da janela de alguns filmes.

Eu acho, sim, minha opinião, né? Não sei se eu tô certo ou tô errado. Mas eu acho que, igual a distribuição de um filme, não dá pra usar um padrão pra todos os filmes, sabe? Eu acho que tem que pensar individualmente. Você, por exemplo, uma distribuidora vai lançar um documentário e vai lançar uma ficção, tem que pensar diferente. Vai lançar um filme independente, um filme mainstream...

Por isso que a vitrine se destacou tanto, porque ela consegue pensar o filme por filme, não fazer a mesma coisa que ela fez num filme aqui com outro ali. A mesma coisa é esse streaming, por exemplo. Ninguém imaginava que o Homem com H fosse fazer tão sucesso assim, fosse bombar tanto no cinema quanto bombou, entendeu?

Então o cara lá, o distribuidor, fez um cálculo errado. Fechou o contrato com a Netflix e só pediu três meses ou quatro meses. Achou que não fosse passar disso. O cinema está em crise. É difícil um filme ficar mais de um mês em cartaz, entendeu? Ele não esperava. Então foi um erro ali de cálculo e de expectativa do distribuidor quando fechou o contrato da produtora, não sei.

Aí o pessoal do cinema fala assim Ah, temos que botar a janela de cinema Pra seis meses, no mínimo Que é o ideal, é o tempo ideal Pra trabalhar bem um filme no cinema Pode ser, mas às vezes o filme fica uma semana No cinema, aí Esses cinco meses todos O filme vai ficar no limbo

Aí tem o outro lado também da moeda, que é a democratização. Só tem sala de cinema nas grandes centros. Pessoal que mora nos subúrbios, nas periferias, que não tem como acesso ao cinema. Os caras também querem ver logo o filme Homem com H, não querem ver daqui a seis meses. Todo mundo quer estar junto, ninguém quer estar para trás. Todo mundo comentando no bar sobre o filme, você não vê o filme, vai ficar caladão lá na sua. Então tem essa deformidade do sistema.

Que tem que pensar também, por exemplo, eu lembro que um cara foi vender o... lançou o Pixote em DVD, muito tempo atrás, foi vendendo a Cavídeo, cem reais. Falei, cem reais? Cada cópia? Eu já fiz cópia de DVD, custa três reais. Por que o cara tá vendendo por cem reais? O que aconteceu? No dia seguinte eu fui pra uma periferia, vi um camilo lá, eu cedei igualzinho, pirata, cinco reais.

Por que está R$5 ali? Porque o cara está vendendo a R$100 aqui, entendeu? Então, assim, é uma deformidade que faz acontecer essas coisas. São saídas que a gente vai encontrando para conseguir ter acesso. Então, assim, eu acho que o fato de não ter cinema nas periferias e todo mundo quer ver os filmes, vai ter filme para baixar sim, vai ter pirataria sim. Eu acho que isso faz...

uma consequência de uma falha de mercado. O mercado brasileiro tem muitas falhas. A gente fala de mercado, mercado, mercado, a gente está engatinhando. A gente não tem agente de venda no Brasil. Você tem que pedir um francês para distribuir o nosso filme pelo mundo. Não tem nenhum brasileiro que faz. Por que Cancinho não faz um curso, cria agente de vendas brasileiros para lançar os filmes brasileiros, patrocina produtores para ir nos festivais para vender os filmes, entendeu? Tem muitas falhas. E essas falhas geram...

consequências, e uma dessas consequências é essa, eu acho que por exemplo, o filme do Spike Lee eu não sei exatamente porque, mas me parece que talvez o filme não teve a expectativa, não teve o sucesso que esperavam, uma repercussão que esperavam em Cannes ou em outros festivais, acharam que no fundo você vê que tudo é dinheiro tudo está em função de dinheiro se o Spike Lee ganhasse Cannes

prêmio lá, ia lançar no cinema, com certeza, entendeu? Mas como não foi bem falado, como não sei o que, eles reduziram, ganharam mais, pum, foi. Tudo é interesse financeiro. Se perceberem que vale a pena botar no cinema e esperar seis meses,

as próprias majors vão obrigar isso a acontecer. É sempre o dinheiro que decide, entendeu? Por mais que a gente lute, a gente fale, a gente peça, movimenta, no fundo, quem dita as normas é o dinheiro, infelizmente.

Eu... Massa demais. E às vezes também, no caso do Spike Lee, muitas vezes já está atrelado à produção do filme, né? Que tem a ver com essa baixa expectativa, uma forma de pensar, o agendamento do lançamento já é feito, que foi um pouco o caso do Clint Eastwood, ano passado, com o Júlio. O último filme do Spike Lee no cinema foi qual? Foi o Clã?

Infiltrados na Clã Ele ganhou a melhor direção em Cannes Ele foge da Five Blood Já pro Netflix Mas Five Blood estava na pandemia Então é justificado Aí sim Mas esse não sei Mas eu acho que é um novo Uma nova forma de se pensar Que se o próprio streaming banca o filme Obviamente muitas vezes já tem o interesse Que a janela principal seja deles É

Não sei se é exatamente o caso agora. Quando eles podiam fazer, tipo, o que a Netflix faz, assim, deixa duas semaninhas o Scorsese no cinema só pra dar um gostinho e já bota na Netflix, entendeu? É. O Scorsese foi isso com os infiltrados, né? Não, depois. O Irlandês. O Irlandês.

E o da Apple te viu os assinos da Rua das Flores puro. Por que você falou, né? Como concorrer ao Oscar e tal. É, tem uma obrigatoriedade também, muitas vezes, né? De estar no cinema por causa do Oscar. Eu queria... A gente acho que até...

Não é muito interesse da nossa conversa a gente ficar se atendo muito a problemas, né? Porque, como eu falei, a origem dessa discussão toda de distribuição é sempre problemas. Dito isso, eu acho que é válido te perguntar, na sua perspectiva de correria, né? De alguém que é correria total, assim, nas coisas.

Como a política pública brasileira vem falhando na distribuição e onde você acha que poderia ser melhor? Para além do... Óbvio, a primeira resposta é mais dinheiro. Mas como esse dinheiro poderia ser melhor gasto em termos de políticas públicas exclusivamente para a gente tentar melhorar o cenário de distribuição? E aí eu destaco, pensando principalmente nos peixes pequenos, porque eu ainda estou aqui e ele vai dar certo.

A gente secreta também, né? A gente secreta, tem várias outras coisas ali em torno. O último azul. Mas como pensar, você falou desse exemplo de lá atrás, o filme que deu 100 mil. Claro que, né, cada contexto é o contexto, cada era uma era, mas como a política pública pode talvez proteger ou ajudar um pouco mais esse peixe pequeno, que somos talvez a maioria de nós, assim, cineastas brasileiros independentes, né?

Uma coisa que acho que é importante falar, que 90% do investimento da Ancine, de onde sai a maioria do dinheiro brasileiro, vai para a produção. E a gente produz muito filme, a gente produz 300 longas por ano. E aí, onde a gente consegue ver esses filmes? Desses 300, nem metade chega nos cinemas. Tem uns que nem conseguem entrar em festival.

que passa uma vez, o filme custa um milhão, passa uma ou duas vezes e já fica engavetado, já vai para o próximo filme. Então, assim, tem que ter um pensamento, assim, de mercado, entender que o cinema não é só fazer filme.

é distribuir, é exibir e é ver. Tem que investir também no cara que vai ver cinema. Eu fui em Paris, lá tinha um cartão de crédito que você compra, tipo um Visa, você paga 20 euros por mês para a Ancine de Paris, você pode ir a qualquer cinema de graça, ver quantas vezes, se quiser ainda levar um acompanhante, os cinemas ficavam lotados, porque o cara com 20 euros, que era o preço de dois ingressos, ele podia ver o mês inteiro o filme.

Mas o que acontecia? Esse dinheiro era pago para a ANC, lá de Paris, que eu esqueci o nome, da França, e esse órgão repassava os ingressos para os cinemas, subsidiava os cinemas, entendeu? Todo mundo ia ver filme, quem pagava não era o cara, esse cartão de crédito era o governo que pagava os cinemas. Então, tem que ter um pensamento de estimular as pessoas a ir nas salas de cinema ver filme, o ingresso está caro. Por que os ingressos...

Pô, a Cine podia falar assim, ó, o cinema brasileiro a partir de agora é 10 reais e os outros são 40. Vai ter gente pra caramba que vai ver se não vai por causa disso. E a gente vai subsidiar o resto do ingresso. Ah, não pode. Isso é contra as leis de mercado. Caô. Porque, assim, o dinheiro que é investido num filme blockbuster americano também é massacrante em relação ao cinema brasileiro. Então, também... Soberania nacional.

É. Então, assim, eu acho que a gente tem que ter alguém na Ancine, do governo, que eu acho que, assim, a Ancine,

é importantíssima, é fundamental para o cinema brasileiro. Eu odeio o Ancine, mas é fundamental para a Ancine. Mas tem que ter gente de cinema lá, que entende de cinema, que vive o cinema. Não pode ser um concursado que vai ganhar 20 mil reais de salário, que nem sabe que filme, nem vê filme. Tem que ser uma pessoa... Vamos botar uma pessoa da distribuição lá na Ancine para pensar a distribuição? Vamos pensar alguém de exibição dentro da Ancine para pensar a exibição?

Porque são pessoas que sabem quais são as dificuldades, sabem quais são os problemas e vão fazer ações para melhorar, entendeu? Então, assim, eu acho que não existe investimento praticamente... Cara, você vê esses editais. Cadê edital de distribuição? Não tem quase. Cadê edital para salas de cinema? Precisa também as salas de cinema ter dinheiro para reformar, para comprar um projetor novo, para subsidiar algumas sessões, para bancar outras, para conseguir fazer um cineclube de graça e não gastar dinheiro, poder ter um dinheiro ganho lá do governo, ter um edital de subsídio.

Cadê edital para as pessoas poderem ver filme mais barato, para ter galera da periferia, poder ter vários cinema, poder ver de graça. Tem que pensar um todo. O cinema não é só produção. Também ainda tem uma outra, a quinta vertente, que é a...

De preservação também. Se a gente não preservar, a gente não vai ter mais os filmes para ver, a gente não vai conseguir ver os filmes antigos. Então tem que ter política para cada área dessa. E a Ancine só pensa na produção, entendeu? Então a gente está produzindo cada vez mais, produção enorme. E aonde está passando esses filmes? Aonde...

botar esse filme pra ser visto, não tem muitos filmes são feitos e não são vistos, não tem como vender, não tem estimular também os canais de televisão estimular, tem que pensar em tudo não pode ter um pensamento só da produção entendeu, então acho que esse eu vejo assim de fora, um grande problema claro que a gente precisa de dinheiro público assim, entendeu

É difícil? Mas o brasileiro que ainda não tem uma educação ainda de cultura forte, que não tem estímulo desde criancinha nas escolas, que é pobre, que é difícil, que a maioria foi errada, entendeu? Então tem que estimular sim, o governo é fundamental. Só que também acho que a gente não pode só depender do governo também. Uma outra questão também que eu acho que senão a gente fica viciado também. A gente só faz, a gente só se mexe quando tem dinheiro do governo.

Entendeu? Eu sou contra isso. Eu até... Eu, por exemplo, tenho uma parada minha, eu vou me fuder muito por causa disso, mas eu não entro mais em edital. Não entro.

Porque assim, a maioria das vezes eu não ganho mesmo. Entendeu? E eu fico assim, iludindo. Já penso meus filmes pequenos. Já criei minha forma alternativa de viabilizar meus filmes através de crowdfunding. Através de investidores. Através de dinheiro próprio. Através de pré-vendas. Entendeu? Então eu vou criando a minha forma de fazer. Assim, não funciona para mim. Não quero fazer um filme de 30 milhões. Eu quero fazer meus filminhos lá de 200 mil, 300 mil. Para mim...

Tô feliz, consigo fazer cinco filmes por ano ao invés de fazer um filme a cada cinco. Eu tive a experiência agora de fazer o Casa Branca, lá eu produzi o filme do Luciano. Ficou sete anos pra conseguir dinheiro pra fazer o filme, entendeu? Captando, captando, captando. Foi ótimo. Cara, mas eu não quero ficar sete anos pra fazer um filme. Eu quero fazer sete filmes por ano. Eu queria ir pra um assunto que é muito caro pra mim, que é a pirataria. Eu sou a favor. A gente saiu lá da...

Da fita que você copiava para o Emule, casar, e aí começaram a ter os fóruns, como o Caragarga, Making Off, e dos fóruns a gente está...

na pirataria da nuvem, né? Com os drives, com os Mayer Bridge, os links, né? Os links do drive agora. Eu queria que você falasse da sua relação com a pirataria.

E como é que você vê, assim, né? Porque os jovens, eles... Talvez a coisa erótica que tem no cinema se mantenha com a pirataria. Ou seja, você sabe um link escondido dentro da Letterbox? Que... Queria que você falasse um pouco sobre essa... A pirataria que é uma coisa que foi muito pouco...

documentada, registrada a conversa sobre pirataria, porque sempre foi um tabu. É, é crime, né? Eu quase que fui preso. A Cavíldio, assumidamente, tinha filmes piratas, esses piratas, que eu chamo de piratas, pirataria cultural, né? Aí foi bater um dia lá, um fiscal lá, aí ele, me lembro que ele tropeçou assim, eu fui ajudar ele assim, quer uma ajuda? Não é bem uma ajuda, eu sou fiscal, eu vim aqui pegar os filmes piratas. Literalmente eu fui levar de camburão.

Aí você quase foi preso. Eu ia ser preso, quase. Não ia ser preso porque eu era o réu primário, nunca fiz nada de mal, eu ia ter que ficar pagando multa ou serviços humanitários que eu já faço sempre, não precisa nem me obrigar a fazer, ajudar as pessoas e tal. Mas eu quase me ferrei.

Depois eu dei uma travada, assim, tentei não evoluir tanto nisso. Mas eu sou a favor, eu acho que a pirataria é uma ótima forma de distribuição, entendeu? É justamente a falha que a distribuição tem, é superada pela pirataria. É uma consequência de uma má distribuição. Aquilo que eu falei do Pixote, se o cara faz um DVD por três reais...

Se ele vender por 10 reais, as pessoas vão preferir comprar um original por 10 reais do que um pirata por 5. Porque tem a capa oficial, tem a mídia oficial, tem a coisinha, então assim. Só existe pirataria porque o cara botou uma varada de 3 reais que custa 100 reais. Aí surge a pirataria.

O que tem pirataria? A gente quer ter os filmes, acesso aos filmes. Aí os filmes não tem, ninguém tem acesso. A gente quer passar o filme do Truffaut, ninguém tem dinheiro pra pagar os direitos. Acho que é uma consequência de um problema, assim, sabe? Se a gente tivesse uma...

facilidade de consumir filmes, de ter acesso a filmes raros, baratos. Não ia ter muita pirataria, mas como a gente tem dificuldade, não tem sala de cinema, nas áreas pobres, no interior, na maioria do país. Então a pirataria vai sempre existir. E aí, assim, eu como realizador, agora falando como diretor, eu fico feliz quando o meu filme é pirateado. É sinônimo de sucesso. Quando o meu filme é do balconista, eu fiz uma série que virou um filme do Matheus Solano.

aconteceu uma coisa muito engraçada, eu fiz pro celular né, depois passou pra internet aí um dia um amigo meu me ligou e falou assim Kavi, vem aqui pro camelódromo rápido todas as barracas estão vendendo o DVD do balconista e o cara, o Teu Solano na novela era um médico viver a vida, aí o cara grita só o médico virou balconista, o médico virou balconista aí eu fui lá

Olhei assim, cara, aí foi clássico, assim. Aí vi uma barraca assim, ó. Ilha do Medo, Scorsese, 5 reais. Teto do Coppola, 5 reais. Balconista, 15 reais. Falei, porra, tô valendo mais que o Scorsese que o Scorsese. Aí tirei uma foto, mandei pro Globo. Aí o Rodrigo Fonseca, que era meu amigo, fez uma matéria assim, depois de Tropa de Elite, o novo hit dos camelôs foi Matheus e o Balconista. Nem era, ele era meu amigo, fez uma ajuda, assim. No dia seguinte, quatro canais de televisão me ligaram querendo comprar.

Não é bom pirataria? Maravilhoso. Você acha que Tropa de Elite 2 ia ser o sucesso que foi se não tivesse pirateado um? A pirataria, ela possibilita todo mundo de ter acesso barato, rápido. Então, acho que...

Brincando, como a gente vive num mercado que é muito debilitado, que tem muitas falhas, muitos problemas, a pirataria é um caminho, uma solução. O ideal é que não tivesse, mas para não ter, tem que melhorar isso tudo. Tem um dado que eu acho importante falar, é que os serviços de streamings estrangeiros, eles não disponibilizam dados...

de audiência. Eles não abrem quanto foi visto, quanto as pessoas viram, quantos plays foram dados, quantos downloads foram feitos. E hoje, serviços de tecnologia, de análises de dados, do cinema, até para consultoria de roteiro, os dados são baseados em pirataria. Ou seja, o índice do que as pessoas pegam, e falaram assim, ah...

para falar que, sei lá, The Bear é um sucesso de fato, ou que Game of Thrones é um sucesso, é o quanto foi baixado na pirataria que dá para a gente, a pirataria entrega para a gente os dados. Tinha que apresentar essa pesquisa para a Ancine, que aí ela, em vez de avaliar o nosso filme só pelas salas de cinema, que é um absurdo.

avaliar pelo número de filmes que o filme é pirateado e baixado. E aí a gente poderia ter grandes sucessos filmes brasileiros que foram um fracasso no cinema, mas que são muito vistos. E a gente continua sendo fadado de fracasso, de pouca bilheteria, e a gente não ganha pontuação por causa disso. E não ganha nada no streaming, né? Quando vai para o streaming, alguns filmes famosos, quando vão para o streaming, ganham uma graninha no começo. Mas muitos filmes usam o streaming como vitrine.

E aí você não sabe muito bem quanto o teu filme fez, quantos plays foram dados, não tem relatório. Isso é ruim pra gente. A informação é muito importante, né? Pra pesquisas, pra gente até avaliar o resultado, pra tentar melhorar. Quanto mais informação a gente tem...

Melhor a gente pode se preparar para o próximo desafio, entendeu? Então é fundamental, assim, eu falo para meus alunos de cinema, para a galera de cineclube, eu falo assim, cara, vai lá na masterclass do Jorge Furtado, ouve lá a palestra, no dia lá do Marte 1, vai lá ouvir o pessoal dos filmes de plástico, os caras...

São uma galera de periferia que estão fazendo filme aí, estão bombando, indo para fora, fazendo filmes lindos. Ouve eles, cara. Você aprende muito mais do que ler um livro do cinema ou ir assistindo uma aula de faculdade. Então, assim, a informação é muito valiosa, né? E quando você nega a informação real e camufla ali uma coisa ali que...

É, vira mais um problema aí pra gente, assim. Legal, assim, a gente falar essa coisa da pirataria, que eu acho que uma das coisas que ela demonstra é como...

Aí, se eu falar só de cinema brasileiro, o cinema oficial brasileiro, colocando não, pirataria, ele é distante do público brasileiro, do povo mesmo. Tanto que a gente, isso se reflete na bilheteria. Existe uma distância que tem vários motivos, né? Cultural, a gente falou aqui, as pessoas tem que ser parte da cultura das pessoas ver filme brasileiro. Você falou lá atrás da experiência da Cavite, das pessoas não...

quererem ver filme brasileiro, e acho que também tem várias coisas, né? O preço é caro. E eu me lembro que quando pegou fogo na Cinemateca...

eu ficava vendo aquilo aí no nosso meio, na nossa bolha um drama assim, né, muita gente muito triste por uma coisa que é obviamente muito triste mas no fundo eu tava pensando assim, talvez é a primeira vez que uma série de pessoas, a maior parte do Brasil tá descobrindo que existe uma Cinemateca e segundo, eu fiquei pensando assim Always

as pessoas sequer sabem o que esse incêndio significa, para além de um prédio pegando fogo, porque ali era, obviamente, mais que um prédio pegando fogo. É um prédio que representa uma memória de um campo artístico, só que essa memória não importa para as pessoas. Eu acho que as pessoas, no geral, não que elas não se importam porque ninguém está nem aí para nada, embora às vezes é um pouco isso também, a gente tem essa sensação.

Mas não se construiu culturalmente de forma alguma um imaginário para que esse incêndio fosse uma coisa... Pô, isso é triste por causa disso. Isso é triste porque talvez queimou uma cópia de um filme que eu não vou conseguir ver mais, nunca mais.

E eu acho que existem vários diagnósticos sobre por que isso é um problema, mas aí a pergunta que eu faço, pensando até no futuro, como a gente aproxima mais o cinema brasileiro do povo brasileiro?

como uma pessoa que tem muitas boas ideias, várias delas em execução ao longo de todos esses anos, inclusive agora, para além de algumas coisas que a gente já falou, qual que é esse caminho? Porque isso eu até considero como um grande sonho que eu tenho, talvez o grande sonho, a grande mobilização é de aproximar o público, o povo brasileiro do cinema novamente, e em muitos momentos já foi, muito próximo. Mulher de Todos, um filme do Sganzerla, que não é um filme...

simples e tal, um filme cheio de ideias complexas, foi um filme que fez sucesso de bilheteria, as pessoas foram ao cinema ver como que a gente aproxima assim, culturalmente, que coisas a gente pode fazer é, eu não tenho uma resposta definida, assim, e eu acho que são também várias coisas, não é uma coisa só, né

Eu acho que o preço do cinema é muito caro. Hoje em dia, R$40,00 é uma coisa que só rico pode pagar, porque aí vai com outra pessoa, vai com a mulher, tem um... E o cinema custa mais que R$100,00, é um programa mensal. É um evento que o cara, de repente, organiza para fazer uma vez por mês com a família, porque não tem dinheiro para fazer mais. Mas se o cinema, por exemplo, fosse baratinho...

pessoas iam. Até respondendo uma outra pergunta antiga junto com essa, lá no estação, quando a dona do cinema, Adriana Hatz, ela abaixou o ingresso, criou um ingresso promocional de 15 reais, a resposta do público jovem foi gigantesca. A gente percebeu que os jovens adolescentes de 15 a 20 anos vivem de mesada e faz diferença o ingresso ser...

20, 25 e outros ser 15, entendeu? Fez as pessoas irem para o cinema. Então, assim, não é a única solução, mas acho que se os ingressos... Eu lembro que lá, eu já calotei ônibus na minha infância e com o calote do ônibus eu fui ao cinema. Quanto custa o ônibus hoje em dia? 6 reais lá no Rio, 5 ou alguma coisa?

Imagina se o ingresso fosse 6 reais também, o mesmo preço de uma passagem de ônibus. Com certeza ia ter mais gente no cinema. Mas isso é só uma das coisas, eu acho que é o preço. Outra coisa também, que eu acho que você até participa muito disso. Quando também essa galera poder participar também do cinema, assim, poder fazer os seus filmes, poder se ver na tela, você se identificar também com aqueles filmes. Eu acho que também vai crescer bastante o público.

as pessoas vão querer, olha que legal, o cara lá da minha periferia, pô, o cara de contagem também, pô, tá no Oscar lá, vamos lá ver, claro que isso aí dá, estimula, o cara se sente fazendo parte daquilo ali, de alguma forma, ele se identifica com você, ele vê que, pô, também pode chegar lá, também faz o par do cinema brasileiro, não é só mulher em shopping center, em Miami fazendo compras, entendeu? Então eu acho que isso também é uma questão.

Eu acho que também é ter as salas de cinema também nessas áreas. Eu estou fazendo agora um projeto sobre salas de cinema de rua. E eu tenho visitado a periferia do Rio e achei muito interessante que tinha muitos cinemas. Os cinemas todos eram construídos ao longo da linha do trem. Você vai para o Meier, você vai indo para a Baixada, para a Zona Norte. Muitos cinemas que hoje em dia são igrejas ou são lojas ou estão abandonados. Era tudo...

Era tudo do lado da linha de trem, ou seja, era um lugar que as pessoas mudavam de um bairro para o outro, pegavam o trem, levavam e traziam as pessoas. E era perto, era rápido. Cara, uma pessoa... Tem uns caras lá da Baixada que vão ver estação cinema, eles demoram uma hora e meia para chegar.

Aí veio o filme, aí se sai antes, depois das 11, perde o trem, ou seja, não pode ouvir o debate. Muita gente naquele dia lá do Martinho foi embora antes, porque o metrô fechava às 11, senão não ia ter como voltar para casa. Mas uma hora e meia para voltar, ou seja, para ir e para voltar, três horas que você gasta.

Cara, você tem que querer muito pra você gastar ainda mais as duas horas do filme. Então, isso é um programa de cinco horas. Você vai chegar em casa uma da manhã pra trabalhar cedo no dia seguinte. Então, assim, ter cinema também perto deles também é uma outra questão. São várias, eu acho. Tem muito mais que isso, mas eu enumerei já três aí. Preço, a identificação e a proximidade com as salas. Assim, entendeu?

Tem mais, mas eu acho que são várias questões. É complexo, não é fácil, não. Não tem solução a curto prazo. Eu tenho uma impressão, e até o filme do Leos Carax, aquele Holy Motors, ele pronuncia isso, que até os shoppings estão em crise. Os shoppings, eles já não são mais... Eles sofrem com o streaming deles, que é o marketplace na internet, né?

Porque eu acho importante colocar o shopping nessa conversa aqui, né? Ou seja, teve um momento em que os cinemas foram... Cinemas de rua foram quebrando por influência do dinheiro que o shopping circulou. E agora com essa crise, né? Ou seja...

a venda online, quebrando os shoppings, eu não sei até que ponto, nós estamos falando do fim dos shoppings, mas assim, os shoppings hoje, uma loja no shopping, numa cidade, pelo menos lá em Vitória, é uma luta para ele conseguir também existir, porque as lojas são muito caras, o aluguel é muito caro, a circulação já não é tão grande, não são todos os shoppings que tem tanta circulação.

Então você também entende que essa queda de público também pode ter a ver com essa queda de circulação dentro dos shoppings? É, não sei se é exatamente isso. Eu acho que o shopping, qual era a vantagem do shopping em relação ao sistema de rua? Dava segurança, né? Você tinha lugar para estacionar carro, você já almoçava ali do lado. Já foi condicionado. Acondicionado, você tinha um...

um combo de vantagens do programa familiar do final de semana que o cinema de rua não tinha. Você tinha que ir no cinema de rua arranjar uma vaga, podia ser assaltado de noite quando saia tarde lá, você tem que procurar depois um restaurante para comer. O shopping meio tinha tudo ali, em volta ali. Era um programa já pronto ali. Você chegava meio-dia, saia 10 da noite, comprava, comia.

se divertia, deu fim. Só chegava em casa pra botar as comensas pra dormir. Só que assim, as coisas mudam, né? Vão evoluindo, vão transformando. Acho que a pandemia, os streamings afetaram muito os shoppings também, né? Porque é mais seguro ficar em casa, é mais barato ficar em casa. Agora, você pede as comidas pelo aplicativo, vem em você. A praticidade foi inimiga dos shoppings, assim. Você não precisa nem mais sair de casa agora. Tudo vem a você, assim. Os filmes...

A segurança. Tudo que o shopping tinha vem pra você. É. É esse que é o ponto. Então talvez o shopping também tem que se reinventar. Também tem que pensar em alguma estratégia. Nunca pensei nisso. Estou pensando aqui na primeira vez. Mas o shopping também tem que ser criativos pra conseguir sobreviver também. Senão vai ficar pra trás também. Os antigos cinemas de rua que fecharam, agora vai ser os shoppings que vão fechar. Daqui a pouco isso, sei, é a evolução, né?

Vão surgir novas paradas e o antigo vai... Tem que se reinventar pra conseguir isso. Senão fica pra trás.

Eu não sei. Estou pensando aqui assim. É uma coisa que eu tenho a observar porque eu sou uma pessoa que gosta muito de shopping. Eu acho que na minha geração eu sou um dos únicos que realmente gosta de shopping. Uma pessoa de cultura do cinema. Eu gosto de ir para ver essa loja aqui porque algumas lojas são muito maneiras de luzes.

E de prateleira. Arquitetura. É, a loja de tênis. Às vezes, pô, tem um tênis maneiro. Aí tem uma prateleira toda de tênis branco, de tênis amarelo. Eu gosto muito dessa relação com as formas que o shopping me proporciona, sendo eu o cara de periferia. Sempre foi uma coisa.

E eu que gosto de shopping, e você só consegue observar uma decadência quando você gosta da coisa, né? Você gosta do cinema, você vê os filmes minguando. Você vê os shoppings, eles já não são mais aquela... Claro que em grandes eventos, Natal, Dia das Mães, Dia dos Namorados, você tem o shopping voltando, mas o dia a dia do shopping também ele é...

Ele vai minguando, tem momentos que o show fica totalmente vazio e a melancolia que eu sinto nos cinemas é muito parecida com o que eu sinto hoje nos shoppings. Mas, por exemplo, eu fui no interior de Minas, no interior de Goiás.

Agora, recentemente, num festival, eu até esqueci o lugar, o nome do lugar. E aí tinha um... O único cinema da cidade era um shopping, onde estava tendo um festival. E aí o dono do shopping era super a cabeça assim, pra frente. Era um jovem assim. Aí ele fez uma exposição de bonecos assim, da Disney, aqueles bonecos Star Wars e tal. Todo mundo ia lá, ficava horas olhando. Ele alugava o cinema pra aniversário, pras pessoas comemorarem o aniversário dentro do cinema. Ele ali, naquela cidadezinha dele, no interior.

tava pensando estratégias pra fazer as pessoas irem no cinema dele que era dentro de um shopping, entendeu? No shopping dele. É, entendeu? Ele fazia parceria com o Bob do lado, tipo, compra o ingresso, compra o Bob, ganha metade. Ele meio que começou a pensar uma estratégia ali própria, ali daquele espaço, daquele lugar, pra melhorar o cinema dele, entendeu? Então, é isso também. Achar também que você...

Pensar que é tipo uma franquia, né? Abre um cinema no shopping, bota lá. Vai dar certo? Porque tem que ser criativo. O dono tem que... Há muito tempo eu não vou no shopping e eu tenho...

Eu há muito tempo não vou no cinema de shopping que a sessão está lotada. Muito tempo. Eu acho que a última vez que eu fui, foi no Rei Leão Live Action, que aí foi uma grande conmoção. Eu tive fila para comprar ingresso. Mas isso aí é o quê? 2018, 2019? É, pandemia para cá. Da pandemia para cá, não tem mais sala de cinema lotada. Tem sala de cinema cheia às vezes.

A gente foi ver o filme do Botanho Mezana, da Sons Giz, sala cheia. Ontem tinha uma sessão especial, sala cheia. Mas a sala entupida de gente, aquela sala que a gente sabia que de filmes de Trapalhões... Titanic sentado no chão. Titanic sentado no chão. Isso não existe mais, né?

Eu acho que os shoppings, como tem muita grana e muita estrutura, tinham que pensar meio na experiência mesmo, né? Botar salas IMAX, botar uma super coisa, não sei. Pensar ou assim, né? O americano pensa um pouco assim, né?

Ou ser criativo também. Mas eu acho que... Um amigo meu estava agora em Miami, falou que foi assistir, estava passando Taxi Driver no cinema, estava ali sozinho vendo o filme. Você falou, ai, Cavir, não é só no Rio que é vazio, não. Aqui, estou em Miami, não tem ninguém para ver Taxi Driver, e cópia 35 mil anos nos Estados Unidos também. Então, essa crise não é só no Brasil, não, cara. Eu vejo vários cinemas fechando pelo mundo também. É uma coisa global, uma mudança de hábito.

Tem uma coisa já pensada assim, pra gente fechar, né? Uma conversa incrível. Teve um lance que rolou, não sei se foi esse ano, acho que foi ano passado, uma imagem que eu achei muito significativa e que ela voltou na minha cabeça agora, é que a gente teve no Brasil, não lembro em qual ocasião, aí você me lembra.

O Thierry Fremont, que é o diretor de Cannes, diretor de Cannes, que é o festival de Cannes, maior festival de cinema independente do mundo, né? Ou um dos mais, ou o mais icônico clássico. O mais glamuroso. O mais glamuroso, o mais... Cannes é uma marca, né? E o Thierry Fremont é quem está na frente disso. Em algum momento eu me deparei com a imagem do Kavi Borges dando um ipom no Thierry Fremont.

E eu achei isso tão foda, tão engraçado, muito engraçado, e eu não entendi o contexto daquilo. Mas de alguma forma eu achei massa, falei assim, porra, essa é a imagem que daqui a... Não só essa imagem, mas essa imagem daqui a 10, 20, 30 anos, o Cavi Borges, esse cara correria, dando um balão no diretor do maior festival de cinema do mundo, diz alguma coisa sobre cinema brasileiro.

Eu não sei o que é isso. Aí a minha pergunta final pra você é... Que eu achava que essa conversa nossa até não seria tão pessoal, mas ela não teve como não ser pessoal. E eu acho muito bom isso também. Eu também. Então, como uma última pergunta, assim, é... Como você vê o seu legado, assim, do cinema brasileiro? Lá no futuro, como você acha que você gostaria de ser lembrado, assim? Que eu acho que você será lembrado, já é lembrado.

enquanto está muito ativo ainda, mas eu acho que no futuro, certamente você já está inscrito na história do cinema brasileiro, mas como você vê isso, assim?

Cara, eu sou um cara muito apaixonado, assim, pelas coisas que eu faço. Judô, eu sou muito apaixonado. E agora o cinema, né? Eu vivo o cinema 24 horas por dia. Às vezes eu chego no cinema 9 da manhã, pra ver cabine, pra resolver exposição, pra gravar coisa, pra fazer filme. Todos os meus filmes hoje têm uma cena dentro do cinema, os filmes que eu faço como diretor, assim. Então, assim, eu acho que...

Quando você ama o que você faz, as coisas dão certo, assim, sabe? Eu te falo assim, pô, é um privilégio pra mim poder... No Brasil é um privilégio você trabalhar com uma coisa que você ama, assim, você viver disso, você conseguir ganhar dinheiro, pagar suas contas. Você não precisar se aposentar, viver, sofrer a vida inteira pra quando você se aposentar você poder fazer o que você gosta. Você poder fazer o que você gosta hoje, agora, entendeu? Pago um preço alto por isso também, mas eu sou um cara muito feliz, assim.

a vida que eu levo, as coisas que eu faço, tudo que eu faço, eu tenho muito prazer, assim, em fazer, e eu acho que isso, de uma certa forma, inspira as pessoas, assim, sabe? Eu sou também um cara simples, você vê, assim, judoca, cinéfilo, bermuda, camiseta, o cinema sempre foi uma coisa de rico, uma coisa distante, eu acho que, de uma certa forma, eu viro uma...

Uma referência, assim, de que nós brasileiros, ferrados, cheios de problema financeiro, político, podemos fazer o que a gente gosta, fazer cinema, que é uma coisa cara, difícil, fazer arte no Brasil, assim. Talvez eu...

Abrindo mais até que o mundo do cinema, assim, de uma forma geral, assim, mundo das artes, né, assim, de poder viver plenamente um sonho, assim, e realizar o sonho, assim, porque eu acho que a gente tá muito acostumado a ser meio vira-lata, assim, sabe? Sempre o cara que não consegue, que não ganha. A gente...

E eu perco, como eu falo, eu perco mais do que ganho também, mas eu sou um cara otimista, eu sempre acho que as coisas vão dar certo, eu sou o cara do sim, normalmente todo mundo é, ah, não sei, ah, não, eu sempre falo sim, depois eu vejo se o sim se perdura, às vezes vira não, mas eu sempre sou um cara otimista, eu acho que isso de uma certa forma inspira as pessoas, faz as pessoas quererem...

também fazer, realizar. Eu sinto quando eu vou pra uma faculdade de cinema, a galera sai com o olho brilhando. Falei, cara, que maneiro, cara. Eu falando de mim, assim, e fazendo as pessoas ficarem inspiradas, quererem também fazer, realizar seus sonhos. Então isso que pra mim eu acho que é o mais legal. Mas claro, assim, como eu sou um... Não sei, eu sou um cara apaixonado pelo cinema, que luta pelo cinema e... ama o cinema, assim, né? Tipo, quando eu...

Por exemplo, o Rui Guerra me ligou falando assim, porra, Cavi, tô sem grana, tô ferrado de grana, me ajuda. Eu parei assim pra pensar assim, cara, o Rui Guerra, cara, o maior cineasta brasileiro. O cara já rodou o mundo inteiro, o cara já foi um bilheteria, já filmou com o Gabriel Garcia Marques.

O cara tá precisando... 94 anos, tá me pedindo ajuda, cara. Que isso, cara? Às vezes eu até fico com medo assim. Sabe quando eu for velhinho também? Quantos cineastas nossos morrendo na miséria, cara? Não tem aposentadoria de cinema, né? Vários. Capovilla, Ferrado. Vários ali. Eu conheço vários, assim, passando dificuldade. Walter Lima. Não é legal ficar falando isso, mas... É uma realidade, assim, sabe? E aí eu fico querendo... Poder colaborar, ajudar e... Até pra...

pensar que no futuro alguém pode, também, quando eu estiver nessa mesma situação, alguém poder me ajudar também, mas eu acho que é isso, é tentar pensar também no coletivo, no cinema brasileiro, né, não pensar, eu acho que o Brasil, assim, os cineastas brasileiros, tudo é muito difícil, né, conseguir dinheiro, conseguir patrocínio, então tem muita competição entre as pessoas, assim, muita briga de conseguir de meu, de prêmio, de entrar em festival, de ganhar edital, assim.

Eu fico muito feliz quando... Lógico que eu quero ganhar edital, assim, mas eu também fico feliz quando... Às vezes eu não ganho mais uma pessoa amiga que também tá precisando ganhar, assim. É pensar no coletivo, eu acho, assim, sabe? Eu acho que falta muito. Acho que esse pensamento coletivo falta no Brasil. Falta no cinema brasileiro, assim, sabe? Esse grupo que eu me inspiro em vocês, filmes de plástico, pessoal de Nordeste, Pernambuco, Ceará. São pessoas que...

se ajudam, sabe? Isso é muito legal, assim. E eu tento fazer isso. Mas eu tento fazer isso em todas as áreas. Eu tento fazer isso com os mestres, que eu admiro tanto, que eu conheci nos livros de cinema. E hoje em dia, eu posso estar ali do lado, ajudando, colaborando. Eu quero fazer isso com um cara jovem, que está começando, que está passando todas as dúvidas e dificuldades.

achar se pode ou não viver de cinema, o cara tá junto comigo, eu acho que tem essa, eu trago isso do judô, eu acho, assim, sabe, de ajudar, de um colaborar com o outro, assim, sabe, juntos a gente é mais forte, a gente não consegue nada sozinho também, sabe, no judô é um esporte.

Que se você não tiver o seu oponente, você não evolui. Você evolui através do corpo do seu adversário. É ele que vai possibilitar você fazer o golpe melhor, você ser mais veloz, você evoluir. Então você precisa do cara que é o seu oponente pra você evoluir. Eu tenho esse pensamento, sabe? Então eu acho que...

Se as pessoas me virem como um cara apaixonado pelo cinema, que colaborou para a evolução do cinema, para a melhoria do cinema, para mais pessoas poderem fazer, viver, ver cinema brasileiro, eu vou ficar muito feliz. Mas eu não penso nisso, não. Na verdade, se vai ficar, se não vai, eu acho que...

eu quero que todo mundo cresça junto, assim, sabe? Porra, caralho, assim, todo mundo tá podendo ir pra Cannes, tá podendo fazer seus filmes, tá podendo viajar, poder falar. Eu acho que esse espírito, assim, de... Tem muita gente que é assim também. Não é todo mundo... Não tô falando que o senhor brasileiro todo é egoísta, não, mas eu acho que esse pensamento, assim, de afeto, né? É uma palavra, assim, meio clichê, assim, todo mundo fala disso, nem uma de afeto, assim.

Mas eu acho que é uma coisa forte, assim, potente, assim, que eu acho que eu uso isso no meu dia a dia, eu acredito nisso, eu sou verdadeiro nisso, sabe? Eu também não faço isso só para aparecer ou para achar que sou melhor que os outros. Eu acredito nisso, assim, e faço. E aí as coisas vão acontecendo, assim, os frutos... Cara, eu sou o cara da...

menor locadorazinha do Brasil, assim, como que eu ia imaginar que uma locadorazinha de fundo de quintal ia se transformar num lugar que afloreceu tantas pessoas. Meus filmes que eu faço com 50 mil reais, como que eu vou imaginar que isso pode chegar em outros lugares, outros países, outras pessoas, assim. Então eu acredito muito, assim, no... No...

de cada um colaborar, trabalhar assim, as coisas melhoram, assim, sabe? Eu não acredito, eu até não acredito muito nos políticos, eu acredito muito nas pessoas, assim, sabe? Um afeto, assim. Quando eu vou escolher um projeto, quando eu vou produzir um filme, eu nem leio o roteiro, eu nem podia falar isso. Eu vou pela pessoa.

Às vezes o projeto é ruim, mas eu quero trabalhar com aquele cara. Eu gosto dele, eu acredito nele, eu admiro ele. Aí eu vou. Eu acho que é isso, essa relação, essa amizade, esse afeto é muito poderoso. E eu acredito muito nisso. É como diz o John Lennon, né? Sim é a resposta. Kavi Borges. Obrigado, Kavi. Nem tudo heróis acaba.

E a dica de hoje é de um filme dos anos 40, final dos anos 40. Também somos irmãos do José Carlos Bulli. Filme que tem como ator, o personagem principal, o grande Otelo. José Carlos Bulli, que é um dos grandes diretores da Atlântida. Ele é o diretor também de Carnaval na Atlântida.

E é muito legal ver esse filme, porque me interessa muito a maneira que os atores se colocam em cena nessa época. Eu acho que, mais do que tudo...

A presença do Grande Otelo, né? Então, todos os filmes do Grande Otelo que você tiver, se tiverem oportunidade de ver, eu indico demais que ele pra mim é top 5 dos atores do mundo, tá? Então vai lá, vai lá na plataforma, também somos irmãos do Zé Carlos Bulli e diversos filmes brasileiros que vão estar lá, né? Então a dica de hoje fica assim.

E vale a pena conferir se o filme segue disponível na Itaú Cultural Play. Você pode acessar a plataforma Itaú Cultural Play através de seu site www.itauculturalplay.com.br Aplicativos para celulares e tablets, Android e iOS.

Smart TVs, LG, Samsung e Android TV, Apple TV e Chromecast. É facinho. Chega lá para curtir as pérolas do cinema brasileiro que estão lá no Itaú Cultural Play.

O podcast Blackout é feito em parceria com o Itaú Cultural. Equipe Blackout, produção executiva Lara Lima, vinheta Uncle Wender, design Paloma de Matos. Equipe Itaú Cultural, criação em plataformas, gerência André Furtado, coordenação de produção Cat Fernandes Nassar, produção Amanda Lopes, captação de som Ana Paula Fiorotto e Raquel Vieira, terceirizada. Edição do som e mixagem Ana Paula Fiorotto.

Infraestrutura e produção, gerência Gilberto Labor, coordenação de produção de eventos Januário de Santos, produção Isadora de Cero.

EP #5 — Cavi Borges: Cinema, bilheteria e streaming | Castnews Index — Castnews Index