Episódios de Revista de Vinhos

EP. 28 Educar, criar marca e gerir tendências

07 de maio de 20261h5min
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Usamos a linguagem mais adequada quando falamos sobre vinho? O setor está a convencer novos públicos ou a perder a batalha anti-álcool? E como explorar a vertente emocional de ligação a uma marca?

Neste episódio, Ana Sofia Oliveira, especialista em Marketing e RP, mentora da The Wine Agency, e a wine educator Sara Matos, criadora da escola de vinhos The Wine House, estão à conversa com o host José João Santos.

Participantes neste episódio2
A

Ana Sofia Oliveira

ConvidadoEspecialista em Marketing e RP
S

Sara Matos

ConvidadoWine educator
Assuntos7
  • Comércio de VinhosEstratégias de comunicação para produtores de vinho · Identidade de marca no setor de vinhos · Storytelling no marketing de vinhos · Erros comuns na comunicação de vinhos portugueses · O papel dos críticos e sommeliers na promoção de vinhos
  • Consumo de vinho em PortugalCrescimento da imagem do vinho português no mercado internacional · A diversidade de castas e vinhos portugueses · O papel do turismo na promoção do vinho português · Tendências de consumo: vinhos sem álcool, formatos alternativos · A importância da moderação no consumo de vinho · Oportunidades de mercado para produtores portugueses
  • Educação e Formação em VinhosA importância da formação técnica e emocional no vinho · Cursos WSET e a sua aplicação em Portugal · A necessidade de adaptar a linguagem ao consumidor · Escolas de vinho e o seu público-alvo · A dependência da certificação internacional em Portugal
  • O Papel da Emoção e Prazer no VinhoA conciliação entre técnica e emoção na apreciação de vinhos · A importância da conexão emocional com o vinho · O prazer como objetivo final do consumo de vinho
  • Características da Munich WineA categoria de vinhos sem álcool ou com baixo teor alcoólico · Processos de produção de vinhos desalcoolizados · Proxy wines como alternativa aos vinhos tradicionais
  • Recorde de vinho em leilãoInovação em formatos de eventos de vinho · A lata e o Wine on Tap como formatos acessíveis · A importância da pedagogia e moderação em eventos
  • Crise de identidade e propósito pessoalOrigens e percurso de Ana Sofia Oliveira · A ligação de Sara Matos a Coimbra · Experiências de rádio e formação
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A convencâta convencâta convencâta

Vinho, gastronomia, enoturismo e talvez até muito mais. Este é o podcast da Revista de Vinhos. Olá, bem-vindos a mais um podcast da Revista de Vinhos. E nos próximos minutos vou estar à conversa com duas protagonistas que estão muito associadas à comunicação, à formação e ao marketing de vinhos. A Ana Sofia Oliveira, que nunca sabemos se está em Paris, em Londres ou em Lisboa.

E a Sara Matos, habitualmente, encontramos-la por Coimbra, ainda que essa localização não seja, em termos diários, 100% garantida. Ana, fiquei a saber que nasceste não em Lisboa de Portugal, mas em Paris de França, e que fizeste rádio incrível. Certo, fiz, fiz, sim. A minha história com Portugal, ou com a minha Portugalidade, que está muito na moda este termo, foi um bocadinho estranha, porque os meus pais eram imigrantes em França.

E eu adorava vir de férias a Portugal, mas gostava muito mais de França. Quando me perguntavam, eu dizia que era francesa, não me dizia que era portuguesa. E há um, de repente, na universidade, quando estudei na Sorbonne, e uma pessoa que se tornou agora uma das minhas melhores amigas, que vive no Canadá, que tinha origens iranianas, fez-me imensas perguntas sobre Portugal. Fazia-me, porque ela tinha curiosidade de como é que é Portugal, o que é ser português, e eu não sabia responder, porque não tinha conhecimento.

E então fomos à procura, graças a ela, uma associação de jovens lusodescendentes, a Capemageron, que encontramos, que organizava concertos de música moderna em Portugal, em França, neste caso. E pronto, e tornei-me, digamos, super fã da associação e participei na organização de concertos e de coisas e convidaram-me.

Houve um momento, enfim, tínhamos esse slot horário de 3 horas de segunda-feira à noite na Rádio Alfa para passar a música diferente e para, enfim, mostrar um Portugal se calhar um bocadinho mais moderno do que aquilo que a Rádio Alfa estava habituada. E então sim, co-animei um programa de rádio que se chamava Tempestada. Ui!

verdade, muito giro tenho muito, muito boas recordações dessa experiência a Sara nunca vês rádio mas já entrou pelo menos uma vez na vida num estúdio de rádio o meu marido faz rádio há 20 e tal anos na Rádio Universidade de Coimbra portanto era comum entrar na Rádio Universidade de Coimbra e às vezes como convidada, portanto já entrei várias vezes a forma orgulhosa com que ele diz às vezes como convidada a Rádio Universidade de Coimbra

Sara, nasceu-te em Coimbra, que é uma cidade que ainda te diz muito pelas mesmas razões pelas quais tu te habituaste a reconhecer Coimbra enquanto uma cidade apelativa, ou olhas para Coimbra com o olhar de que Coimbra poderia ou deveria estar neste momento um bocadinho mais à frente de que se do que está?

Eu acredito no desenvolvimento pessoal, inclusive é das cidades, e portanto, obviamente, a cidade pode ser sempre melhor, mas não sou fã do discurso de não faças isso em Coimbra porque isso não vai resultar, que foi o que aconteceu quando eu quis começar uma escola de vinho em Coimbra. O que eu mais ouvi foi isso, isso não em Coimbra, as pessoas de Coimbra, e isto em Coimbra não funciona.

E quando funciona as pessoas dizem, olha, para Coimbra é sempre este o discurso. Portanto, eu acho que neste momento me sinto confiante de fazer parte da tentativa de mudança e desenvolvimento da cidade e que as pessoas possam ir à cidade fazer coisas, desde ir a restaurantes ou eventos ou escolas de vinho, de propósito, independentemente de serem em Coimbra ou não.

Eu gosto muito de viver em Coimbra, não me imagino a viver noutra cidade e quero fazer parte desse crescimento, que obviamente pode acontecer, a cidade não pode estar estanque, nenhuma cidade pode estar estanque. E, portanto, está no tamanho adequado ao meu tamanho também, portanto, não é demasiado grande nem demasiado pequeno, eu gosto do tamanho que a cidade tem e daquilo que tem para oferecer e quero fazer parte desse crescimento, obviamente.

Mais nada. Ana, voltamos a ti. Costumo tratar-te habitualmente por Ana, por Ana Sofia, por Sofia, como é que é?

Há sempre uma história relacionada com alguma coisa que uma pessoa te preocupa. Sim, há sempre. Eu tenho sempre muitas histórias, mas quando cheguei a Portugal, era uma pergunta que me fazia muito. Isto é uma coisa muito portuguesa, porque na verdade eu nasci a Anne-Sophie, com um tracinho entre o Anne e a Sophie. É muito mais interessante. Não digo que é mais interessante, mas é um nome. Sempre me chamaram Anne-Sophie, nunca ninguém questionou.

E quando cheguei aqui, toda a gente perguntava, prefere Ana ou Sofia? E eu não percebia a pergunta de se eu prefiro Ana e Sofia.

Portanto, se me perguntares se prefiro Ana Sofia, mas para simplificar entre os dois, prefiro Ana. Pronto, seja Ana. A primeira imagem que tenho da tua pessoa em Portugal e relacionada com o vinho é na vinho em Portugal. Como é que começou o teu percurso na área do vinho?

Exatamente aí que tu dizes, portanto foi por acaso, quando cheguei a Portugal, estava à procura de emprego e enviei a minha candidatura para aquelas agências, aquelas empresas de headhunting e no dia seguinte ligou-me uma a dizer, ah já fechamos o concurso para alguma coisa, mas eu acho que nem mesmo o perfil, portanto gostava muito de ir a ver. Portanto, cortando aqui a história para não contar tudo, mas era a Avenida Portugal e portanto escolheram-me e fui então, fiquei na Avenida Portugal.

que foi a minha base, a minha aprendizagem, foi tudo. Aprendi muito, sou muito, muito grata por ter passado pela Vinda em Portugal, para tudo, porque é um conhecimento tanto do lado, se calhar, do vinho em si, visitava muitos produtores, etc. E ao mesmo tempo tive a oportunidade, enfim, sim, é isso, a oportunidade de estar com tantos jornalistas estrangeiros a acompanhar visitas.

e todos, quase todos, com imensa generosidade em partilhar os seus conhecimentos. Portanto, eu cheguei e não percebia nada de vinho. Estamos a falar de inícios de 2000? Sim, 2004, 2005. Portanto, eu não percebia nada de vinho, falava línguas.

Era muito dedicada ao meu trabalho, mas não percebia de vinho. E, portanto, a Vinho de Portugal foi a minha formação, para além das formações WSIT, etc., às quais depois eles me deram acesso. Portanto, foi uma aventura maravilhosa. Trabalhei sete, oito anos na Vinho de Portugal, a tratar de mercados, nomeadamente o mercado do Reino Unido, que ainda hoje é o mercado onde eu trabalho.

E nos dois últimos anos tinha sido promovida a diretora de marketing da própria Vinha de Portugal. Portanto, foi maravilhoso, foi uma escola muito, muito boa. Por falar em escola, Sara, o que é que aconteceu até teres decidido abrir uma escola de vinhos?

Também é uma boa história. Eu estava a fazer um mestrado em gestão e desenvolvimento em turismo, em Aveiro, e quando estava a terminar o mestrado, na altura, a Universidade de Aveiro estava a fazer um projeto de anoturismo para a bairrada. E o Luís Pato, na altura, procurava alguém para trabalhar com ele, anoturismo. Portanto, o Luís Pato estava basicamente desde 1984 até 2007 a trabalhar sozinho no que é a gestão da adega e a exportação e etc.

e então o meu orientador recomendou-me como pessoa para trabalhar com o Lisbeth e na verdade como a Ana houve um momento nas nossas vidas que não sabíamos nada sobre determinados assuntos houve um momento na minha vida que eu não sabia nada sobre vinho e quando cheguei ao Lisbeth eu não sabia absolutamente nada sobre vinho e portanto foi muito fácil ter a minha escola a Ana foi a vir em Portugal a minha escola foi um professor como o Lisbeth todos os dias a responder-me

às minhas perguntas, portanto foram nove anos que eu estive ali, depois estive nos lavradores de feitoria, não chegou a dois anos porque entretanto engravidei e decidi fazer uma pausa e foi nessa pausa que comecei a pensar que não queria voltar à vida de export manager, de estar sempre a viajar e estar sempre ausente e eu sempre gostei, eu nunca fui fã da parte comercial, eu acho que não tenho jeito nenhum para a parte comercial, mas tinha jeito.

para poder criar conexão com as pessoas e os vinhos. E, portanto, a ideia da formação, que já tinha experimentado, inclusive na Escola de Artes que o meu irmão tinha em Coimbra, e, portanto, a ideia começou-se a consolidar em mim durante essa pausa que tive depois dos lavradores de feitoria. E, portanto, recebi muitos feedbacks, como aquele que disse, que isto em Coimbra não vai funcionar, o que é que é uma escola de vinho.

O próprio conceito em si gerava dúvidas. E, portanto, em 2000, em janeiro de 2020, dois meses antes do primeiro confinamento, eu abro a Duanaus em Coimbra. Portanto, o time incerto.

Foi o timing certo, na verdade, pode parecer irónico, mas foi, eu tenho a certeza que se fosse esperar depois dos dois confinamentos, tudo seria muito mais demorado. Portanto, eu lembro-me, na semana antes do primeiro confinamento, eu tinha a sala em overbooking, tinha 20 e tal pessoas, e depois o vazio completo na semana seguinte. Não demorei muito a resistir, porque as pessoas diziam que tens que te reinventar, mas como é que eu tenho que me reinventar se eu acabei de me inventar e já tenho que me reinventar. Portanto, resisti muito a essa...

a adaptação à nova realidade mas fui-me adaptando e portanto a escola neste momento já tem mais de 6 anos e espero continuar a fazer parte desse crescimento E já passaram por lá quantos alunos?

Eu tentei fazer as contas há dias, porque há muitos alunos que vêm muitas vezes. Portanto, isso acontece muito. Portanto, se eu tivesse que contar, se repetir, são mais de mil alunos. Contando só com os alunos na escola, não é? Não contando com os alunos de cursos que eu dou fora da escola, nomeadamente em empresas. Ana, o que é a Wine Agency?

A The Wine Agency é uma agência que, na altura, tenho ideia que não havia em Portugal muito isto, que era uma agência que seria especializada no marketing, nos eventos e na comunicação de vinhos. Portanto, definir a parte estratégica com um produtor, por exemplo, perceber onde é que ele queria ir e, na altura...

Na verdade, os produtores achavam que comunicar sobre vinhos era ter uma página no Facebook. Portanto, eles super orgulhosos quando diziam, ah, mas eu tenho uma página no Facebook e para eles era ter uma estratégia de comunicação. Portanto, foi demorado até eu ter realmente contactos de produtores, como tenho hoje, que me contactam a dizer, precisamos de uma estratégia, precisamos definir a estratégia e gostávamos de poder ter uma reunião consigo.

Portanto, isto demorou muito, demorou algum tempo, mas também mostra uma evolução do próprio mercado e dos produtores que percebem agora, hoje, a necessidade de saberem para onde vão, o que querem contar, o que têm de diferente para propor a potenciais clientes. Quais são os erros que os portugueses continuam a cometer ainda mais frequentemente quando o tema é comunicar vinho e fazer algum tipo de marketing?

Na verdade, eu diria que é achar que dizer que somos uma empresa familiar com X séculos, que é suficiente e que é um argumento de venda, isto não é exceção. E se olharmos só para Portugal, o número de produtores que iriam...

que começam o seu texto de apresentação exatamente da mesma forma. Não é um erro em si, é um erro só pela parte comercial. Isto não é vendedor, isto não é catch, isto não dá vontade a uma pessoa de continuar a ler e a perceber o que é que esta pessoa tem para me oferecer.

Portanto, eu acho que o desvalorizar o eu sei quem sou, eu sei o que a minha empresa está a propor, que outras empresas não estão a propor, desvalorizar esse conhecimento continua a ser, se calhar, o maior erro. E dizer os nossos vinhos são bons como se fosse suficiente. Infelizmente ou felizmente não é suficiente, porque há tantos vinhos bons em Portugal e então no mundo nem se fala, não é? Portanto, é essa a escala.

A questão da competição é muito grande e, portanto, temos realmente que termos uma identidade. Portanto, eu acho que falta... Os produtores têm identidade, não sabem é defini-la. Falta a questão do storytelling, não é? Essa expressão feliz que significa muita coisa, mas que às vezes é difícil de ser compreendida. É isso. Eu, se calhar, quer dizer, não desgosto da expressão storytelling, mas acho que não diz muita coisa. Acho que é mesmo a questão de identidade. Se eu tivesse que...

Se eu, produtora, estivesse agora em duas frases que dizer quem sou o que façam, e reduzir isto a duas frases, esse é um exercício muito difícil e que deveria ser obrigatório para qualquer produtor. Obrigatório porque quando estamos numa fora, quando estamos numa prova, quando estamos em que quer que seja, nem em que contexto que seja, eu preciso de atrair a atenção do outro. Porque a competição, para além de ser simpático, ou se calhar ter rótulos diferentes, enfim, o que for.

isto vai poder iniciar realmente uma conversa. Eu diria que é isso que falta. Portanto, os produtores perceberem que precisam de definir a sua identidade que lhes é própria e que vai fazer com que eles tenham algo diferente a propor às pessoas. Sara, os anos que passaste com o Luís Pato certamente ter-te-ão ensinado bastantes coisas acerca do vinho, até porque o Luís Pato não só representa uma esta...

uma determinada geração de uma família com muita ligação, nomeadamente abairrada, como é um globetrotter, foi dos primeiros a ir com uma mala de vinhos a percorrer o mundo e conhece como ninguém alguns dos principais nomes, por exemplo, da crítica mundial de vinhos. Mas o que é que o Luís Pato, ou de que forma é que a tua experiência com ele, te ajudou a olhar de uma forma um bocadinho mais mundo evidente para este universo do vinho?

A ideia de que mesmo que nós façamos aquilo que achamos que é o melhor vinho do mundo, como a Ana acabou de dizer, não é suficiente. Primeiro porque há tanta coisa no mundo que a gente não conhece. Portanto, sair do espaço onde estás e acreditares que fora do teu espaço existe mais. Portanto, a possibilidade de aceitar, a humildade de aceitar.

que há outras pessoas que possam estar a fazer bem e obviamente que isso é uma coisa que ele teve visão desde o início e houve muitas coisas que ele me disse desde o início que iam acontecer e que aconteceram nomeadamente a questão da baga quando eu comecei a trabalhar com ele a baga não tinha o protagonismo que tem hoje

podemos questionar ou não se a bairrada é só baga, etc. Isso é um assunto, podemos ir aos livros de história e tudo, e podemos falar sobre isso também. Mas a verdade é que criou a tal identidade, uma região que não existia, e que estava associada a vinhos que não se conseguiam beber, que não se conseguiam beber no imediato, que era preciso guardar, quando a maioria das pessoas comprou uma garrafa de vinho hoje para beber à noite. Portanto, a maioria das pessoas não compra garrafas para guardar.

E, portanto, ele já tinha essa visão na altura, quando eu comecei a trabalhar com ele, essa visão está-se a concretizar, nomeadamente em eventos que até hoje organizei com a Ana, com os Bagafriends, com o Dia Internacional da Bagua, que temos esgotado os bilhetes todos os anos. O ano passado foram 700 e tal, se não me engano. E, portanto, esta capacidade dele de ver à frente foi essa estaleca de mundo que lhe deu isso, porque ficando na bairrada isso não seria suficiente. Obviamente que, ao mesmo tempo, eu fui ultra contagiada.

por esta doença que é gostar de vinho e que o vinho não é só trabalho. Eu sempre tive esta vontade de ter um trabalho que não acabasse só quando o trabalho termina. E hoje em dia os livros que eu leio, as pessoas que me relacionam, quer dizer, eu não é porque acabei de dar uma aula que não quero mais falar sobre vinho, porque o vinho não é só vinho, não é? Há tanta coisa à volta do vinho que se aprende, coisas mais obscuras como assuntos, eu que sou de humanidades, que nunca me interessariam, nomeadamente microbiologia, química.

ou geografia, etc. E, portanto, são temas aditerno cativantes. E o Luís Pato, obviamente, todos os dias a responder às minhas perguntas, porque é verdade que eu fazia muitas perguntas, mas é verdade que ele também nunca se esquivava delas e me respondia, alimentou esta vontade de querer saber sempre mais. E depois, quer dizer, eu estava em A Moreira da Gândra. O que é que se passa em A Moreira da Gândra? Absolutamente nada. Portanto, se sentava a hora da almoça a ler livros.

livros desde o Jamie Good todo o tipo de livros que ele tinha lá era o que eu lia à hora de almoço portanto eu alimentava-me de todos os lados com ele e com aquilo que ele tinha disponível para me cativar para o que é hoje obviamente o meu trabalho e a minha vida

Por falar em livros e por falar em leitura e em sede de conhecimento, tu na escola, na Duane House, também ministras cursos W7, que são cursos, para quem não conhece o formato, são cursos extremamente técnicos, com uma compreensão ou com uma forma que nos obriga a ter uma compreensão um bocadinho mais britânica daquilo que é.

o mundo do vinho, e em que habitualmente, dependendo obviamente dos níveis, em que habitualmente a secção dedicada a Portugal tem meia-dozeiro de páginas e muitas delas não correspondem exatamente àquilo que atualmente se passa entre nós. Quando ministras os cursos W7 e quando sobretudo olhas para esta questão de Portugal, sentes-te pequenina, ou ainda mais pequenina?

Eu concordo contigo em 50%, ou seja, eu acho que os cursos da WST, tenho a certeza, da Wine and Spirit Education Trust, são muito anglo-saxónicos. Portanto, inclusivamente há descritores aromáticos que a nós não nos dizem nada, mas que a eles são muito comuns, nomeadamente a Grozelha Verde.

que praticamente não existem em Portugal. Portanto, é normal que tenha uma componente muito angloxaxónica, inclusive é nos vinhos de escola. Por exemplo, quando eu preciso de um Aidsinfandel para a minha escola, eu não consigo em Portugal. Eu preciso mandar a vida um site alemão, porque não é um estilo que se consuma em Portugal. É um rosé, meio doce, com pouco álcool, sempre igual, é uma fórmula.

e portanto é normal que tenha essa componente anglo-saxónica muito forte. Por outro lado, não concordo que seja altamente técnico, até porque se eu tivesse que dar uma percentagem, eu diria que 80% dos meus alunos não são pessoas que trabalham, alunos da WCT, não são pessoas que trabalham na área, nem vão trabalhar, nem têm interesse em trabalhar. É uma conquista pessoal, é uma questão de desenvolvimento pessoal e de querem estar, o que só prova que o vinho não é só vinho per se, não é só técnico, é cultura também. Portanto, as pessoas no dia-a-dia delas têm vinho.

e querem que isso faça parte da vida delas, principalmente no nível 1, maioritariamente são consumidores finais. No nível 2 aí sim, já tenho mais pessoas que trabalham no setor. Em relação a sentir-me pequenina, e tendo em conta que fiz o nível 4, que é o nível onde se fala mais de Portugal, nomeadamente na parte dos fortificados, em que se fala de Porto e de Madeira, e depois nas regiões, de uma forma mais superficial.

Sinto-me frustrada, sim, mas esta é a realidade da Wine Education em Portugal, que é nós estamos ainda muito dependentes da certificação internacional, ou seja, as escolas que são olhadas como escola percé, ou seja, com certificação, são dadas pela certificação internacional, que é da WCT.

Seja para certificar os próprios Wine Educators, que eu tenho essa formação, o Education Training Program da OCT, seja os próprios cursos que são ministrados aos alunos. Ou seja, não há uma entidade ainda em Portugal em que eu possa criar os cursos. Os cursos que existem, por exemplo, o meu curso especialista em vinhos portugueses, que é um curso de três dias, é a certificação do Winehouse. Não tem uma certificação de uma entidade que olhe para o vinho como um todo e possa certificar dessa forma.

Portanto, é uma realidade da formação de vinho em Portugal, de estarmos muito dependentes dessa formação internacional.

Ana, por falar em visão de Portugal e dos vinhos portugueses fora do nosso país, o que é que diz a tua experiência em 2026, face ao início da tua experiência com o vinho em 2004, 2005, 2006? A imagem do vinho português fora do nosso território cresceu assim tanto? Ou somos nós que nos procuramos autoconvencer acerca disso?

Não, acho que o crescimento é abismal. Eu quando comecei a trabalhar e a viajar, por exemplo, ao Reino Unido, quando tu és às lojas, Portugal nem sequer tinha o nome escrito e as poucas vezes que tinha era misturado com Espanha, tudo misturado, portanto não havia...

Enfim, uma diferenciação. E não havia, a não ser Porto, realmente, Porto, eventualmente Madeira ou assim, quer dizer, as pessoas não tinham muito a dizer sobre o vinho português. Hoje em dia...

E devido, acho eu, a uma conjunção de fatores, não é? Ou seja, o turismo ajudou imenso. Isso eu tenho zero dúvidas sobre isso. Portanto, as pessoas visitarem Portugal, beberem vinho português, porque é isto que se bebe aqui, não é? Na grande maioria. Descobrirem os vinhos portugueses e então já não sentirem aquele medo ou aquela sensação de risco.

quando voltam para casa em comprar uma garrafa de vinho português. Portanto, isto foi muito, muito importante para Portugal, em conjunto, obviamente, com uma série de coisas, o trabalho individual dos produtores que têm rótulos muito mais legíveis, muito mais atraentes, que têm também, se calhar, um interesse...

ou um objetivo pelo menos de perceber como fazer um vinho português que se possa vender para o mundo. E não é alterar o vinho português, o vinho continua a ser muito português, com castas portuguesas feitas à nossa maneira, mas adaptado também a um gosto internacional. Para além também da promoção que as regiões ou que a vinda em Portugal faz, e isso obviamente ajuda muito. Portanto, o que eu acho é que...

Quando eu comecei há 20 anos a trabalhar no vinho, mais de 20 anos agora, os jornalistas estavam todos convencidos pela qualidade dos vinhos portugueses. Não havia um que não conhecia, que não ficava apaixonado, que não gostasse, que não achasse super interessante e que dizia sempre, it's the next big thing. Com Portugal eu ouvi isto durante 20 anos.

O que mudou mesmo foi este interesse passar para o lado do consumidor e é notável, quer dizer, Portugal hoje, quem bebe vinho, acho eu, nos países onde se vende vinho, onde se bebe vinho.

já bebeu um vinho, quem se interessa por vinhos estrangeiros, já bebeu um vinho português, pelo menos um ou vários, ou até bebe com frequência, portanto isto é uma grande mudança, acho que seria muito injusto dizer que não há mudança, houve muita mudança, houve uma evolução muito grande, uma progressão, isto também se vê nas exportações, as exportações de vinho português têm crescido, portanto completamente nesse sentido da evolução e da progressão.

Falavas em prescritores da opinião há pouco, nomeadamente críticos de vinho, jornalistas, há neste momento também um novo ator, ou nos últimos anos tem surgido um novo ator cada vez a ganhar maior preponderância, chamado sommelier. Qual é a diferença em termos de trabalho de uma agência de relações públicas, por exemplo, como é o teu caso?

Qual é a diferença em termos de trabalho, em termos de abordagem, face àquilo que é um crítico de vinhos, um jornalista e um sommelier, por exemplo?

É interessante, nunca me coloquei a minha própria pergunta desta forma. Na verdade, a diferença não é assim tão grande, no sentido em que o que atrai, o que interessa um crítico de vinho, em regra só também é o que interessa um sommelier. Ou seja, um vinho diferente, um vinho com identidade, um vinho que conta um espaço, um sítio, um vinho que seja feito realmente por um enólogo, enfim.

que perceba, que possa explicar as castas, ou seja, isto tudo, sinceramente, acho que é tudo o que interessa ambas as categorias, digamos assim. Há uma diferença, diria, mais no impacto, não é? Hoje em dia, quando estamos a falar com um crítico de vinhos...

Não há assim tantos, são muito poucos os que influenciam realmente, que podem levar alguém a uma compra. Acho que são poucos mesmo. O poder dos críticos, dos jornalistas, na altura quando eu comecei, era maior do que hoje.

Porque redes sociais, porque internet... É muito mais difuso, claro. Exatamente, exatamente. Portanto, não quer dizer que não sejam importantes, mas eu acho que a importância é menor. Um sommelier está todos os dias a vender vinho. Todos os dias está em frente a pessoas que ajudam e recomendam vinhos. Portanto, a nível de trabalho, e acho que os produtores também, se quer demorar um bocadinho de tempo a perceber, produtores em Portugal...

Se cá também porque a profissão aqui era mal vista ou não era tão bem compreendida, não é? O escansão e assim, portanto, é uma profissão que também foi evoluindo e a importância do sommelier foi evoluindo no bom sentido, porque realmente são pessoas interessadas, formadas, que querem aprender, que querem saber de coisas diferentes. Portanto, Portugal entra ali naquele nicho que os interessa imensamente, não é? Portanto, eles adoram o vinho português em regra geral.

Por falar em isto, Sara, como é que tu te apresentas junto de alguém para tentar explicar de uma forma relativamente imediata o trabalho que tu fazes? Porque quando falamos em Wide Educator, em estar nos mercados anglo-saxónicos, toda a gente ligada à indústria percebe rapidamente, quando debitas um palavrão desses em Portugal, calculo que haja assim uns olhares meio exóticos para a tua pessoa, não é?

Eu não uso a palavra, a expressão One Educator, quando tenho que explicar de raiz alguém que não é do setor. Ou quando é para me explicar o que é alguém do setor, digo que sou One Educator, que é uma coisa que ainda é muito rara de forma exclusiva em Portugal. Ou seja, há muitas pessoas a dar formação, mas essa não é a sua função principal, não como forma secundária. Portanto, ainda é algo muito novo. E esta é a minha profissão.

Eu sou formadora na área de vinho, é isso que eu digo, normalmente tenho uma escola de vinho.

se eu tiver que dizer uma frase, eu tenho uma escola de vinho. E depois vêm as perguntas, o que é que se aprende numa escola de vinho? E na verdade o público-alvo de uma escola de vinho é imensamente diverso. A única coisa, o único critério especial é que tens de ter mais de 18 anos. Depois a partir daí, pela minha experiência, tu tanto tens consumidor final, pessoa que vai ao restaurante e que quer saber quais é que são as suas possibilidades e não ficar a subrabada com uma carta de vinho, especialmente quando não há um escansão, alguém que possa ajudar.

Depois temos o que está a acontecer cada vez mais, os profissionais do setor, não só que vão à escola, como depois pedem formação especializada dentro do contexto da sua carta de vinhos, etc. E ainda há uma terceira vertente que eu tenho explorado imenso, que é a das empresas de uma forma geral. Ou seja, atividades vínicas, team building.

para pessoas que inclusivamente são grupos, eu cheguei a ter grupos de 60 e 80 pessoas e obviamente um grupo de 60 e 80 pessoas há pessoas que não gostam de vinho e essas pessoas conseguem fazer as atividades, portanto muito mais relacionadas com os sentidos e com uma forma como tu percepcionas o vinho e todas as emoções e todas as sensações que podes ter quando tens o vinho e portanto é uma forma também de chegar a vários públicos inclusivamente a pessoas que à partida...

não gostam de vinho. Portanto, depende se queres a história curta ou a história longa, são essas as formas que uso para explicar o que é que faço. E porquê que se continua a comunicar e a transmitir conhecimento acerca de vinho de forma tão deficitária em Portugal?

Não sei se é deficitária, porque pela minha experiência tem crescido a procura. Estão deficitária no sentido de eficácia, parece-me. Dificilmente, há pouco falávamos aqui da questão dos produtores, dificilmente um produtor consegue ter uma conversa, é a minha forma de ver as coisas, consegue ter uma conversa didática acerca do vinho que acabou de fazer junto de um consumidor. Facilmente se consegue expressar junto de alguém que já tem um conhecimento, digamos assim, profundo acerca do vinho.

Isto é muito simples. Para alguém, inclusamente no Luís Pátio, eu trabalhava com o Ano Turismo, portanto eu recebia as visitas. Eu não podia falar de uma maneira para qualquer pessoa. Tu tens de ter a capacidade de adaptar a tua linguagem a quem tens à frente. Obviamente no meu caso o trabalho é mais difícil porque eu posso ter turmas altamente heterogêneas. Mas quando tu estás com um cliente para um produtor, tu tens de adaptar a linguagem.

Se tiveres alguém que quer simplesmente almoçar o meu ali num restaurante, se chegar alguém que quer só beber vinho, não quer explicações, tu simplesmente serves o vinho.

Se há alguém que realmente está disponível para saber mais sobre o vinho, é então tu abres o teu conhecimento, portanto tu não impões o teu conhecimento, eu não vou impor as coisas que eu sei a ninguém, principalmente se eu sentir, pela linguagem corporal ou pela forma como a pessoa se está a exprimir, não vou impor o conhecimento. Obviamente na escola eu tenho essa vantagem, as pessoas estão aqui, pagaram para estar aqui e querem saber.

Num restaurante é muito mais difícil essa gestão, porque tu tens que saber ler muito bem as pessoas. É um trabalho muito mais difícil perceber se esta pessoa quer saber o que é que está a beber ou quer simplesmente beber, está num contexto social.

Portanto, eu acho que há uma procura muito grande, as pessoas querem saber mais. O que acontece é que não há essa certificação das pessoas, tirando da WCT, que estão a dar formação na área de vinho. Muitas vezes não é a sua função.

principal e depois eu acho que há uma coisa que é essencial é que tu tens de estar em constante aprendizagem. Se tu não tens vontade de aprender, não há uma curiosidade constante, os meus alunos fazem-me constantemente perguntas das quais eu não tinha pensado daquela perspectiva.

Eu, a primeira coisa que faço normalmente nos cursos, tirando o WCT, que tem uma estrutura mais rígida de planos de sessão, é que palavras é que vocês já ouviram e que não fazem ideia o que é que significa, e que têm vergonha de perguntar o que é que significa. E tenho como resposta coisas que para nós podem ser ultra normais, como o que é que é um vinho gastronómico? O que é que é um vinho amadeirado? Isto que para nós faz parte do nosso vocabulário, não pode ser assumido.

como algo que as outras pessoas sabem. E quem diz a madeirada, diz que gastronómico, diz o corpo, diz quando se fala de pão torrada ou de manteiga, as pessoas falaram-me que o vinho pode ter pão torrado com manteiga. Eu posso. Pode ter pão torrado com manteiga. Agora não se percebo porquê. Portanto, eu acho que temos que adaptar a linguagem a quem temos à frente. E se a linguagem precisar de ser explicada, é para ser explicada, não é para assumir que as pessoas sabem.

Ana, a Sara, tocado aqui neste ponto, que me parece ter alguma graça, porque muitas vezes dou comigo num exercício quase de introspectivo para tentar perceber de que forma posso ajudar alguém a compreender melhor um determinado vinho, seja quando estou a escrever, seja quando estou também em cenário de formação.

E chego muitas vezes a uma conclusão interessante, ou não tão interessante quanto isso, que a grande parte dos problemas com os quais eu me debato a esse respeito em 2026 são exatamente os mesmos com que me debatia quando comecei a trabalhar nesta área, no meu caso em 2004. Na altura falava-se da necessidade de trazer novos públicos para o vinho e de atualizar a comunicação e de que forma comunicamos o vinho junto do grande público, nomeadamente o público mais jovem.

20 anos depois, parece que estamos diante da mesma equação. Sim, se calhar nesse aspecto realmente não houve evolução, mas não tanta como seria de esperar. Eu se calhar acrescentava à tua pergunta e à resposta da Sara uma coisa, nós também temos a sensação...

que em Portugal o consumidor é desta forma. Eu posso dizer que é no mundo inteiro. As pessoas não sabem muito de vinho. Não sabem. Acham, se calhar, algumas que têm um bocadinho mais de certeza, um bocadinho mais de confiança nelas próprias.

e que acham que sabem. Mas eu fiz muitos eventos para consumidores no Reino Unido e posso-te garantir que eles acham, ou na maioria acham que sabem, mas não sabem muito mais do que o consumidor português. Portanto, acho que também às vezes é bom nos colocarmos aqui numa perspectiva internacional, não acho que Portugal, por exemplo...

Tenha algum atraso em relação a isso? Nada. E se fores a França é a mesma coisa. As pessoas bebem vinho, consomem, aproveitam, experienciam, mas... E fazem-no sem estarem a pensar, ao contrário daquilo que nós que trabalhamos na indústria habitualmente fazemos. Claro, não querem e não precisam, na verdade. Não precisam de pensar, não é? Nós é que, nós ou os produtores, a nível comercial, precisamos de encontrar aqui vias de chegar até elas, para elas escolherem mais o meu vinho do que o do vizinho, não é?

Portanto, a nível de comunicação, aliás com a Sara falamos muito sobre esse assunto e a comunicação de vinhos é muito difícil.

Portanto, eu não diria que há uma fórmula, é uma coisa fácil e toda a gente é borra e não está a aplicar. Mas é muito difícil por culpa nossa ou é muito difícil porque tem que ser? Não é difícil por nós queremos, não por aquela arrogância de nós queremos que o vinho seja difícil porque só queremos falar com alguns que percebem. Não, é de facto difícil. Se nós quisermos tornar em palavras aquilo que é simplesmente...

a experiência cultural, ou não, mas de partilhar uma garrafa de vinho, é muito difícil, é muito difícil. Portanto, claro que as imagens, os vídeos de pessoas a aproveitar o momento podem ajudar, e nisso, por exemplo, as bebidas espirituosas têm anos de luzes, estão muito mais à frente do que o vinho, porque o vinho sempre teve este complexo.

de dizer, não, não, porque nós somos muito melhores do que as espirituosas, nós temos que nos posicionar, não é, de uma forma, enfim, superior, porque o vinho é uma coisa complexa, porque o vinho é difícil de se fazer, não é uma fórmula, isto tudo é verdade, isto tudo é verdade, quer dizer, não podemos dizer que não é a maioria dos vinhos, e em Portugal então, não é uma fórmula, a maioria.

E, portanto, claro que os produtores não querem reduzir o vinho a um produto, não é? A um bem de consumo como outro qualquer. E isto leva-nos, e quando diz os portugueses, diz outros produtores do mundo, na verdade, acho que estão todos com o mesmo problema. Portanto, a única solução que resta, acho eu...

É criar uma marca, é criar marca, fazer com que as pessoas queiram beber, experimentar o meu vinho, experimentar aquilo que eu tenho para lhes propor, fazer parte do meu clube, entre aspas. Acho que é só o que nos resta, porque não estou a dizer que não há solução para a comunicação de vinhos, mas acho que a comunicação, digamos, mais fácil, ou que se poderia aproximar mais daquilo que são as grandes marcas de bebidas brancas, ou o que for, são vinhos que são um bocadinho mais fórmulas.

que também têm todo o direito de existir, etc., que são produzidos em grandes quantidades, que são sempre os mesmos todos os anos, etc., aí sim podemos aplicar essa regra, porque aí estamos a vender uma espécie de lifestyle e pronto. Para outros produtores, também simplificar ao máximo o discurso daquilo que é o vinho.

Eu acho que não faz sentido. E acho ainda por cima que não é necessário. Há muitos produtores que não simplificam forçosamente o seu discurso e que vendem muito bem os seus vinhos, não é? E que falam da complexidade. Portanto, eu acho que...

trabalhar de mãos dadas justamente com a parte da educação, que aí sim se calhar em Portugal é deficitária e não se percebe, dado que Portugal é um país produtor de vinhos e portanto deveria criar cursos, deveria criar normas, deveria criar formas de explicar e de ensinar sobre os vinhos portugueses.

Eu acho que isto trabalhando, não é de mãos dadas com isto, de haver cada vez mais pessoas que percebam de vinho, isto vai ajudar a vender mais vinho, apesar do ambiente, talvez vamos falar sobre isso, de queda de consumo, etc. Sim, daqui a pouco vamos falar das grandes tendências que aí existem. Sara, tu tens, habitualmente, gostas de praticar um exercício que me parece bastante curioso.

porque, por um lado, dá-se formação muito técnica, porque assim tem que ser, nomeadamente no formato W7, de linguagem e de apreciação e de classificação de um determinado vínculo, quando esse trabalho também é feito...

connosco, com o painel de provadores da Revista de Vinhos, terá de ser também necessariamente por aí. E, simultaneamente, dou contigo a dissertar textos bastante criativos quando acabas de provar um determinado vinho. E aí entra a questão do gosto pessoal.

Como é que convivem dentro de uma mesma pessoa esses dois mundos? A parte técnica e o mais rigorosa possível e depois a parte totalmente emocional em que gostas de dar largas à imaginação através daquilo que escreves?

Na verdade eu acho que acabaste de definir aquilo que eu acho que é o vinho, ou que é a minha perspectiva daquilo que veio ser o vinho, e de como se faz vinho, e de como se prova vinho, e como se bebe vinho, não é? Porque eu não preciso ensinar ninguém a beber, só a gente saber, só preciso ensinar a provar.

E há momentos em que eu provo e depois desligo o cérebro e estou só a tirar prazer, que é esse o objetivo, é maximizar o prazer do vinho. Portanto, na verdade, eu acho que o vinho é esta conciliação entre a técnica e saber como é que se faz vinho tecnicamente, mas se o fazes sem emoção...

Nunca pode ser um grande vinho, para mim. Isto é obviamente uma coisa muito pessoal. Ao mesmo tempo, também se só tiver emoção e não tiver a par técnica, saber o que é que estás a fazer, também não acredito que possas fazer um grande vinho. Pela minha experiência, tudo o que eu provei. Eu já provei vinhos que sinto que são só emoção e não gostei deles. E já provei vinhos que são só técnica e também não gostei deles. Para mim, tem que haver...

Há um interesse, há um fascínio, por exemplo, que eu tenho com fichas técnicas e com o detalhe técnico de tudo o que eu estou a provar naquele momento, para perceber onde é que está aquilo, isto que acabou de se fazer tecnicamente, qual é o impacto disto no vinho. Gosto de fazer essa associação, portanto gosto muito de boas fichas técnicas, que é uma coisa que falta muito em Portugal. É raro, é muito raro. Porque uma coisa é...

E isso é contra rótulos. Totalmente. Uma coisa é tu estás a, mais uma vez, adaptar a tua comunicação com quem estás a falar. E, portanto, se eu quero uma ficha técnica, é para estar lá todo o detalhe técnico possível e imaginar.

Se eles estiverem a falar com um consumidor, obviamente que ele não vai querer saber de outros detalhes e adapta a linguagem. Portanto, eu nunca me visto a dar aulas, quer dizer, já me visto uma vez no festival da... No Essência Festival, sim. Exatamente, no Essência Festival.

Mas eu, na verdade, eu, inclusamente, já me aconteceu chorar com o vinho em um contexto de sala de aula. Portanto, eu acho que não são coisas opostas. Tu poderes explicar as coisas tecnicamente e depois mostrares que também tem que ser emoção. Porque eu acho que não pode ser sustentável a longo prazo. Tu não sentires emoção.

Como é que tu vais dar formação a alguém e isto é só técnico? Se a pessoa não se cria conexão, seja com o vinho no geral, seja com uma marca em específico, ou uma região, que é uma coisa que fizemos muito em Portugal, ou até com um país, se tu não crias essa ligação emocional, nunca pode ser sustentável a longo prazo em termos de venda, que é o objetivo que na verdade é o que todos queremos, que se consuma pelo menos mais vinho português, de uma forma geral. Mais vinho e mais vinho português.

Portanto, para mim não são duas coisas dissociáveis, têm que estar em conjunto e acho que se toda a gente se abrir à emoção e aos adjetivos que sentimos que não são necessariamente os adjetivos que estão nos livros...

Os livros ajudam e W7N, isso é muito boa, é criar pensamento sistematizado. Tu tentares criar estrutura e perceber que há uma forma quase como se provasses de forma igual todas as vezes, que obviamente sabes muito bem, melhor do que é impossível, porque nós somos diferentes todos os dias, há dias que estamos mais bem dispostos, outros menos bem dispostos, etc. E então se seguirmos o calendário de biodinâmica, se hoje é dia flor, é dia fruta, é dia raiz.

Mas se não vais com a intenção de criar emoção em ti mesmo e depois eventualmente usares a comunicação para partilhares essa emoção com outra pessoa, não estou a ver qual é que é o objetivo. O que é que vende mais? Vende mais aquilo que está dentro do copo ou vende mais, por exemplo, a imagem de quem fez aquilo que chegou ao copo?

Não creio que possa ser dissociável, quer dizer, já aprendi isso na filosofia do décimo ano, que é que interessa tu ires a Marte e depois não podes partilhar que foste a Marte, se não podes usar a linguagem para comunicar que foste a Marte, não é suficiente, portanto, têm que ser absolutamente indissociáveis, porque eu não bebo vinho sozinha.

a não ser que seja para provar em contexto de estudo não bebo, ou seja, provo sozinha mas não bebo sozinha, portanto o que é que me interessa é eu estar a beber e não estar a poder partilhar aquilo que estou a sentir que às vezes é diferente do que a outra pessoa está a sentir e não faz mal, esta coisa de que temos que todos

sentir da mesma maneira o mesmo vinho e eu tenho de dizer isso muitas vezes nas aulas até com coisas analíticas, por exemplo se nós provarmos o mesmo vinho, analiticamente a acidez é a mesma, mas a forma como nós vamos percepcionar a acidez é completamente diferente, portanto é preciso esquecermos que o vinho é só técnica

E dizer isto também ao consumidor final, que não há problema em tu sentires uma coisa que não é aquilo que faz parte dos canons ou dos livros, daquilo das palavras que se quer usar. E por isso é que eu, neste momento, é uma coisa que eu já há muito tempo tenho pensado, e também com a ajuda da Ana, estou a escrever um livro que funciona como um glossário, quase uma coisa onde tu recorres, quando olha esta palavra, o que é que isto quer dizer?

Ou seja, que pode funcionar para qualquer pessoa, seja alguém que trabalha no setor ou não trabalha.

Portanto, a forma como tu usas as palavras, é importante haver cánones, mas também é importante tu libertar-se e deixar-te o que é que eu senti agora? Mas estás a olhar mesmo para o que estás a sentir ou estás a tentar ver o que é que o outro está a sentir para sentires o mesmo que ele, porque sentes intimidade, sentires de forma diferente. E por isso é que eu digo muitas vezes, quando nós aprendemos sobre o vinho, aprendemos sobre nós e aprendemos sobre os outros.

Ana, começamos por comunicar em termos internacionais neste século o vinho português como sendo um vinho de excelente relação com a qualidade-preço, que foi, digamos assim, um tiro certeiro por um lado, mas tramado por outro. Depois insistimos muito que somos o país de uma casta, chamada Toriga Nacional, e agora estamos a dizer ao mundo que somos o país da diversidade. Afinal, que país somos nós?

Isso é a grande questão. Isto é a questão realmente à qual eu acho que muita gente gostava de ter resposta. Bom, na verdade eu acho que Portugal sempre vendeu a sua diversidade. Ou seja, eu quando comecei a trabalhar na Vinda em Portugal sempre se falou na diversidade, sempre se falou na riqueza do nosso património, das castas portuguesas. Portanto, isso acho que esteve sempre presente. E hoje...

tens razão, hoje mais do que nunca há muitas pessoas a perceberem a vantagem e o quão necessária, digamos, é esta insistência neste ponto o o o o

O vinho português, bem, enfim, temos que ser muito honestos, o vinho português é um bocadinho disto tudo o que tu disseste, não é? E a diversidade é um conceito difícil de percepcionar. O que é que é a diversidade e o que é que me traz a mim enquanto consumidor?

Portanto, eu acho que o conceito da diversidade é ótimo para comunicar a profissionais do vinho, sommeliers, críticos, até, enfim, compradores, etc. Ou seja, o que nós estamos a dizer é, nós temos vinhos para todas as ocasiões, nós temos vinhos para todos os preços, nós temos vinhos para todas as pessoas, é difícil.

não encontrarmos no leque de vinhos portugueses vinhos que vão agradar a quase toda a gente. Vinhos mais leves, vinhos mais pesados, vinhos tintos, brancos, plumantes, enfim, realmente temos fortificados.

Temos quase tudo, diria. Eu só duvido da eficácia de comunicação desse conceito junto do consumidor. Acho que o consumidor não pode percepcionar e perceber para ele uma vantagem direta nesta diversidade. Portanto, e não é culpar a Vini Portugal, ou seja, eu acho que o trabalho da Vini Portugal...

está a ser muito bem feito, e acho que o discurso e a mensagem faz muito, essa mensagem da diversidade faz muito sentido. Diria que depois, cada marca...

cada empresa portuguesa, depois tem que definir o que é que é, dentro dessa diversidade. Então, eu dentro dessa diversidade sou um produtor de vinhos fortificados, eu dentro dessa diversidade produzo espumantes. Ou seja, tenho, e posso estar a ser injusta, mas tenho um pouco a sensação que há uma espécie de atitude de a promoção é da vinda de Portugal e das regiões.

E eu não concordo com isto. E acho que temos empresas grandes, que vendem muito vinho, que com certeza fazem algum lucro, e que não se dão muito ao trabalho de fazer esse trabalho de marca. E, na verdade, não se estão a ajudar a elas próprias e não estão a ajudar Portugal.

Claro que isto é negócio e podem muito bem dizer, quer dizer, eu ajudar Portugal não me interessa, não é verdade, porque quando estamos a promover a marca Portugal, com marcas boas que funcionam, estamos a promover Portugal e estamos a ajudar-nos a nós próprios, na verdade, a vender mais vinhos no futuro. E aí acho que há uma escassez.

de empresas com visão e com estratégia para fazer esse trabalho e para se posicionarem tanto em Portugal como no mundo. E quem tem, digamos, capacidade financeira para o fazer, porque também é verdade que é preciso, para comunicar é preciso ter algum orçamento, não é? Não está a fazer-se cada melhor forma e é uma pena e acho que é mau para todos.

Estávamos a falar do Luís Pátio, eu diria o Dirk. Pronto, acho que muita gente põe um bocadinho estas duas pessoas, do Dirk Nippor e do Luís Pátio, um bocadinho do mesmo patamar, nesse sentido em que ambos foram pioneiros.

E ambos perceberam a necessidade de comunicar. O nome deles é uma marca. O nome deles é uma marca. Não tem que ser assim sempre. Não interessa. Eu não acho que todas as empresas tenham que ter uma página no Instagram. Eu não acho. Acho que não há regras. Acho que cada pessoa tem que ser o que é. E se alguém detesta redes sociais, detesta. Tem que fazer de outra forma. Mas o que eu quero dizer é que...

esta visão e esta forma de promover Portugal, porque eu acho que, nos dois casos, se cá no Lisbeth até foi mais promover a Bairrada, mas, por consequência, também promover Portugal. O Dirk, eu sei que ele tem muito essa vontade, e sempre teve muito presente essa vontade de promover Portugal, e até participa em muitos projetos, muito com este intuito, não é? Que é um intuito muito generoso, não é? Ele está bem, não precisava de...

Na verdade, se preocupar e ter essa generosidade de participar em grupos como os Vaga Friends e os Dourboys, etc. Portanto, acho que este tipo de atitude de perceber que...

também há uma parte que compete a cada um de nós, ou cada produtor, de fazer o seu trabalho e de não contar apenas na promoção genérica, que é essencial e que eu acho que está a ser feita, mas este trabalho individual depois tem que ser feito. Pela análise e pelo conhecimento que tens da forma como algumas empresas portuguesas se comunicam em mercados internacionais, na tua opinião quais são aqueles dois ou três excelentes exemplos?

é assim, marcas grandes e fortes que comunicam lá fora não são muitas, são quase nulas ou seja, conseguem vender mas quase sem comunicar daí o problema de não haver essa coisa eu diria que quem está a fazer um trabalho sinceramente que eu acho, sempre achei notável o esporão

O esporão tem posicionamento, tem identidade, fica na sua linha, acho que é uma coisa muito firme. E lá está, vê-se que há uma estratégia, há uma identidade e que se sabe o que eles estão a querer comunicar e o que estão a comunicar. Portanto, acho que a nível estratégico o esporão está muito bem. Assim, dos grandes, a Sogrape.

Eu acho que foi procurando um bocadinho o seu caminho, portanto, de comunicar as marcas, eu tenho tantas marcas, não é? De comunicar as marcas de forma separada, muito separada, agora já se apresentam como só grau, porque foi um passo, não é? Porque eles não faziam isso no início.

mas também não posso dizer que vejo publicidades e muitas ações lá fora. Acho é que passaram a fazer uma coisa que eu acho essencial e muito interessante e que é realmente, ou seja, estão-se a posicionar ao nível dos grandes deste mundo.

que é de patrocinar eventos, eventos grandes, eventos bons, eventos com nome, para se associarem a esse patamar. Portanto, acho que isto é importante e mostra a estratégia. Portanto, se calhar se tivesse que citar esses dois, seriam esses.

Muito bem. Sara, vamos falar um bocadinho agora de tendências. Anda toda a gente à procura da próxima tendência ou de acompanhar, pelo menos, as tendências mais imediatas. Nos últimos anos, recordo-me da lata, e vocês também terão alguma coisa a dizer a esse respeito, a lata toda a gente dizia que ia ser o UAU.

agora está a ser um balão a esvaziar. Continuamos a ver crescimentos de esplomantes e de vinhos brancos. Os rosés já não estão a crescer ao ritmo que chegaram a crescer. Falamos agora dos vinhos sem álcool ou com baixo teor alcoólico. Falamos de tintos muito mais leves. Quais são as tendências do momento, na tua opinião?

Se nós começarmos pela lata, que é obviamente onde nós temos algum know-how, o formato é importante no vinho. Enquanto a Ana há pouco falou das espirituosas e das cervejas artesanais, eu há uns tempos fui convidada pela WCT para fazer um seminário sobre portos que não são tintos. Portanto, começar a mostrar...

que se pode fazer outras coisas com o Porto e entro no Olimpa é assim que se chamava Olimpa, não é? em Londres e o mundo criativo à volta das cervejas espirituais é completamente diferente portanto, o setor do vinho tem medo, um pouco eu sinto como consumidora que tem medo da criatividade e portanto eu acho que isso é uma forma de atrair as pessoas novos públicos, que é o que tanto preocupa as pessoas porque o que está a acontecer neste momento no mundo então

é um fenómeno chamado de primimização, que as pessoas estão a comprar menos, mas estão a gastar mais. E, portanto, isto obviamente cria alguns filtros, não é? Portanto, pode haver menos vendas, mas pode haver mais vendas de valor. E, portanto, eu acho que, enquanto não abrirmos...

a possibilidade de podermos ser criativos, nomeadamente com os formatos, seja com a lata, seja, por exemplo, com o Wine on Tap, que é um formato que eu própria, como consumidora, gosto muito. E tanto a lata como o Wine on Tap não têm que ser os restos, ou os vinhos que não prestam, ou aquilo que sobrou.

Podemos ter vinhos de qualidade nestes formatos. E, portanto, eu acho que o tornar tudo mais acessível às pessoas, seja como a unidose da lata, ou seja como num restaurante eu poder me levantar, te me lembrar quando fui ao... Como é que se chama o bar em...? O bar da planta. Não, o de Madrid. Não.

em que eu simplesmente levantava-me e punhava um jarro e eram vinhos de pequenos produtores portanto eu acho que o formato tem que haver flexibilidade para o formato, mas a verdade é que nós quando lançámos a lata o que ouvíamos muito era o vinho é ótimo mas traz-me em garrafa, portanto há um bloqueio criativo e comercial e de perceção sobre o próprio formato depois relativamente ao conteúdo, obviamente que as pessoas estão muito preocupadas e com o mundo fundamentalista, cada vez mais fundamentalista em que vivemos em que sem álcool então

sem hidratos de carbono, sem açúcar, sem não sei o quê, sem nada. Eu sou consumidora de vinho, mas eu não sou só consumidora de vinho. Eu bebo água, as minhas amigas até gozam comigo porque eu bebo pouco, não é? Provo muito e bebo pouco. Sou a que bebo menos delas. E, portanto, se nós não tornarmos o conteúdo, a preocupação com o conteúdo também tem que existir. Portanto, o formato foi do formato, o conteúdo. E o que é que eu estava a dizer? Já me esqueci.

a preocupação com o conteúdo sim, ou seja, com o processo não pode interessar só o produto final que eu tenho eu como consumidor quero saber o que é que aconteceu no entretanto não me interessa só uma fórmula final, o vinho tem que ser assim ok, então e o que é que isso significa? significa que eu me preocupo com a agricultura, o impacto do que estou a fazer quer dizer que eu faço qualquer coisa independentemente para ter um não, eu tenho que me preocupar com o processo tem que haver uma agricultura, uma analogia então

mais consciente e que não esconda. Por exemplo, nós pensarmos em produtos como a Coca-Cola ou outro qualquer que tem muitos segredos. Quando as coisas têm segredos, eu desconfio um bocadinho. E, portanto, as pessoas quererem... Ah, era os fundamentalismos que eu estava a falar. Portanto, os fundamentalismos. Se nós falámos, por exemplo, daquilo que é um vinho...

A própria definição de vinho está em causa, não é? Um vinho desalcoolizado. O objetivo é eu ter um vinho que não tem álcool porque eu estou preocupada com a saúde e bem-estar. Mas a verdade é que esses são vinhos, primeiro, altamente interventivos, com processos altamente tecnológicos e ao tirar o álcool, eu não estou a tirar só a capacidade de...

De me embebedar. Eu estou também a tirar o elemento mais volátil do vinho, que é ele que me traz os aromas. E, portanto, se eu tirei essa capacidade, eu vou ter que ter aditivos para o vinho ser aromaticamente mais interessante. Estou a tirar o álcool, que também dá peso, também dá corpo ao vinho. Portanto, eu vou ter que adicionar outra coisa, nomeadamente açúcar. Portanto, o fato de nós sermos fundamentalistas e dizer ah, eu quero um bem-estar, se preocupo com a saúde.

E o vinho não é só álcool. O vinho é muito mais do que álcool. Se estamos aqui há uma hora a falar e mais horas ficaríamos, porque realmente há muito mais...

pelo vinho além do álcool, portanto é preciso realmente ouvir isso e por exemplo há um estilo do vinho muito mais interessante que nós também queríamos fazer uma coisa nesse sentido que são os chamados proxy wines, que são os vinhos que são próximos do vinho portanto não são necessariamente vinhos mas há a base de super produtos do vinho, nomeadamente películas, ervas aromáticas que se usam na biodinâmica etc e que não tenham álcool ou que tenham pouco álcool e que são vinhos muito menos e

interventivos e que possam apelar a esse público que então se preocupa apenas com o álcool. Portanto, se tiver que citar duas tendências, no meu caso diria os proxy wines, para mim acho como consumidora muito interessante, e novamente também como consumidora os formatos diferentes, nomeadamente lata e wine on tap. Ana, para ti a mesma questão, esta questão das tendências.

Para já, referir que tendências são tendências. Vão, vêm, vão, depois voltam eventualmente, etc. Fala-se muito dos vinhos com pouco ou nenhum álcool. Eu, sinceramente, acho que não são tendência.

Acho que é uma coisa que vai ficar. Acho que é uma categoria que se vai instalar. Isso é aquilo que eu acho. Portanto, acho que não é uma tendência. Vem como uma tendência e concordo, obviamente, totalmente com aquilo que a Sara estava a dizer. Portanto, aí a comunicação tem um grande impacto. E o impacto de ver numa garrafa, zero. Zero remete para as pessoas como algo que é clean.

que não tem nada de mal, não é? Tem zero, tem zero de mal, está tudo bem, e que não é verdade. Portanto, obviamente, que todos os produtores que produzem esse tipo de vinho, e que têm público, não tenho absolutamente nada contra, e entendo a necessidade...

de haver opções, de haver opções para as pessoas. E como disse a Sarah muito bem e concordo a 100%, nós não somos, portanto, esta coisa do marketing e da comunicação, na verdade, de segmentar as pessoas. Portanto, eu sou uma consumidora de vinho. Eu não sou consumidora de vinho todos os dias.

Exatamente, eu não bebo vinho todos os dias, não poderia, não seria saudável e acho que não faz sentido, portanto, o setor de uma forma geral, eu insisto muito nisto porque acredito mesmo nisto, acho que o setor de uma forma geral perdeu o comboio da moderação. A moderação foi vista como, foi até overlooked, olhamos para a moderação como coisa, tínhamos que pôr ali beba com a moderação, era um logo que tinha que ser e… Era uma chatice.

Era uma chatice, era uma obrigação e claro, nada contra, está ali, não é? Mas esse discurso proactivo do setor do vinho, dizer às pessoas, não, não bebam todos os dias, mas bebam quando vos apetece, quando querem, e bebam bem, bebam coisas boas.

porque o vinho é cultural, porque o vinho é conexão, isto tudo, nós, na verdade, não fizemos este discurso, porque assumíamos que as pessoas iam beber para sempre. Só que há, de facto, um momento, eu não seria capaz de dizer o vinho é saudável. Eu estaria a mentir se dissesse isso. Agora, o vinho, bebido com moderação, é saudável. Isto é uma enorme diferença. E o setor perdeu esse comboio.

Too late. Eu acho que agora só estamos aqui a criar conflitos entre o no low não é vinho e as pessoas que não bebem são horríveis. Não, quer dizer, não pode ser assim. E se nós estivermos, na verdade, enquanto setor, a falar dessa forma, vamos perder outro comboio. Porque vamos perder estas pessoas todas que se vão virar para outras bebidas. Para a cerveja artesanal, para bebidas que não são bebinhos sem álcool.

vinhos sem álcool, que são outro tipo de bebidas a base de outras coisas tão interessantes. Portanto, esta necessidade...

Para responder à pergunta da tendência, eu acho é que, não sei, na verdade não olho muito para as tendências, se queres te digo. Eu acho que é, agora este assunto do sem álcool e pouco álcool é um assunto que me interessa imensamente, porque acho que estamos a errar na forma como estamos a falar com, supostamente, as pessoas que defendem isto. Acho que seria, ao contrário, tão interessante fazer-se comunicação sobre como é que são feitos estes vinhos.

Explicar ao consumidor por que processos tecnológicos estes vinhos passam. E aí sim, se calhar, diríamos às pessoas, não beba tanto e quando bebe tenta beber uma coisa mais saudável, de facto. E quando bebe, beba um bom vinho, uma coisa feita que sabe que é bem feita. Se calhar tente perceber quem é o produtor, de que forma é que trabalha.

É pedir muito ao consumidor? Acho que não, acho que o consumidor, na verdade, até tem alguma sede de perceber o que está a consumir. Pelo menos algum consumidor, ou o consumidor que tem esse poder de compra, da premiumização e de comprar vinhos de melhor qualidade. Eles têm sede de saber o que o produtor faz, de que forma o faz, quais vão ser o... E querem pertencer a este movimento, não é? De ajudar a natureza, de ajudar a agricultura, de ajudar pessoas. Quer dizer, um produtor de vinho é um agrícola. Enfim.

se for viticultor, não é? É um agricultor e é alguém que eu acho que as pessoas respeitam. O consumidor pode perceber, pode respeitar e essa comunicação acho que não está a ser... Não estamos a aproveitar esta oportunidade. Eu vejo mesmo isto como uma oportunidade e o setor, não tenho bem a certeza daquilo que eu tenho ouvido de uma forma genérica, não tem aproveitado muito para... Ao contrário, para ir falar com estas pessoas. E acho que é uma pena.

Estamos na reta final deste episódio. Sara, os formatos dos eventos de vinho têm que ser repensados, na tua opinião, e em parte por causa disso, tu juntamente com, em algumas situações com a Ana, estão também a tentar adotar uma filosofia um bocadinho diferente, ou a propor uma filosofia um bocadinho diferente?

Eu não sou fundamentalista e sei que a Ana também não. E portanto nós, por exemplo, quando fizemos a lata, houve pessoas que deduziram que nós a partir desse momento só íamos beber vinho em lata. Como se eu tivesse que escolher se eu gosto mais da mamãe ou do papá. Eu posso gostar da mamãe e do papá e posso beber vinho em lata e posso beber vinho em garrafa. Portanto, longe de mim se quer dizer agora que há formatos que não funcionam, porque os eventos do vinho têm sempre gente.

No nosso caso, nós criámos um evento que organizámos o ano passado em Coimbra, o Blue Blue, com um formato inovador em Portugal, um dia único, mas inovador em Portugal, e que funcionou muito bem numa cidade como Coimbra, que não é uma cidade central.

e que atraiu, na verdade, aquilo que nós queremos sempre com aquilo que fazemos, que é atrair tanto as pessoas que já estão dentro do setor como as pessoas que não estão, umas que querem saber, outras que nem querem saber. Nós também vendemos garrafas a pessoas que não sabem nada de vinho e não querem saber.

Portanto, eu acho que têm que ser repensados, não têm que ser exclusivamente só da maneira como nós estamos a fazer. E o formato do Glooblo obrigava a que as pessoas comprassem todos os copos que consumiam. O que é que tinham de volta? Tinham um contacto direto com os produtores.

tiraram aquilo que Ana acabou de falar, que é um discurso que eu aplaudo e que falarei ao megafone quantas vezes sou preciso, que é o da moderação. Não foi preciso expulsar ninguém por estar bêbado, porque as pessoas deram valor ao que estavam a consumir. E, acima de tudo, não se queriam ir embora, mesmo havendo uma hora de saída da meia-noite, ficaram até às duas da manhã.

Portanto, eu acho que não tem que ser exclusivo este formato, mas é um formato em que as pessoas têm que pagar, mas acho que as pessoas estão próximas dos consumidores e assim, ainda mais tudo, outra coisa que nós introduzimos que foram as wine walks, que não sabemos se devemos mudar o nome para pedir taxas ou não, para ser menos elitista, mas que é o que acontece muitas vezes, que as pessoas têm medo de abordar o produtor, porque não sabem como comunicar, não sabem o que lhe perguntar, então somos nós que pegamos nas pessoas.

e criamos, cortamos esse receio e fazemos a ligação com o produtor e depois largas, como largas um filho à vida, largas as pessoas e as pessoas estão a falar com o produtor sem problemas. Portanto, eu acho que temos de nos preocupar muito mais com estas duas vertentes. Por um lado, o lado pedagógico, porque isto é sustentável, ensinar às pessoas como é que se faz e não ter nada a esconder.

E, por outro lado, o da moderação, não é? Porque no nosso caso foi apoiado pela autarquia e houve logo discursos dissonantes que isto era apoiar o álcool. Mais uma vez, como se o vinho fosse apenas só o álcool. E, portanto, a moderação e a parte pedagógica, para mim, são essenciais em qualquer tipo de evento, seja ele o formato que for.

Ana, a última questão que tenho para ti está relacionada com mercados. Aconselhamento para produtores portugueses à beira de descobrir o próximo grande mercado, o próximo grande nicho do mercado. Quais são as coordenadas GPS?

Se eu soubesse não diria aqui, não é? Pois claro, é que eu dizia. Viver o serviço. Se eu soubesse, exato, dizia só para me contactarem. Não, na verdade, cada mercado pode ser, todos os mercados podem ser interessantes para os produtores e eu acho que tem que ser muito adaptado à realidade de cada um, ao tamanho do produtor, ao...

ao investimento disponível, porque visitar o Brasil ou visitar o Reino Unido são dois coisas completamente diferentes, já a partida, não é? Só fazer uma primeira visita. Portanto, este apelo, eu conto só essa anedota, porque realmente eu sempre trabalho muito no mercado do Reino Unido e sempre os produtores vieram ter comigo e dizer, ah, o mercado do Reino Unido é difícil. E é interessante dizer isso porque depois, quando se fala, por exemplo, sobre o mercado brasileiro...

O mercado brasileiro não é nada fácil e pode-se demorar anos até encontrar um importador. A única diferença é, um, penso que o português tem, obviamente, uma ligação cultural, enfim, com o Brasil, falamos a mesma língua e o português tem imensa vontade de ir ao Brasil. E, portanto, se for esse o objetivo, está tudo bem, podem iniciar e começar pelo Brasil, está tudo ótimo.

Agora, não acho que o Brasil seja um mercado mais fácil do que o mercado inglês, de todo, e acho, eu, sim, pronto, obviamente que como tenho conhecimentos do Reino Unido, diria sempre por começar pelo Reino Unido, porque há vinhos do mundo inteiro no Reino Unido e alguém que consiga lá um importador e a representação e consiga vender.

realmente os seus produtos lá não há razão nenhuma, acho que sento uma espécie como se construísse uma espécie de confiança interna, dizer, então sou capaz de vender no mundo inteiro, acho que isto ainda é verdade, sinceramente porque com a concorrência que existe no Reino Unido

Quem consegue importador, e não é que seja, mais uma vez, extremamente mais difícil do que noutro país, é só mais difícil porque lá está, eu tenho que ter o meu discurso, tenho que ter a minha estratégia prontos, porque eu vou ter que defender o meu lugar e concorrer com outros que se cá estão melhor preparados do que eu. Portanto, para não ser muito original, diria o Reino Unido, sem que isto seja um segredo absoluto.

Muito bem, Anne-Sophie, em português de Portugal, Ana-Sophie Oliveira e Sara Matos, as convidadas deste episódio do podcast da Revista de Vinhos, agradeço a ambas a presença e agradeço a si pela escuta.

EP. 28 Educar, criar marca e gerir tendências | Castnews Index — Castnews Index