Episódios de 451 MHz

#194 Querido diário - Júlia de Carvalho Hansen e Adriana Lisboa

01 de maio de 20261h
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O diário é um gênero literário? Este episódio traz uma conversa das poetas Adriana Lisboa e Júlia de Carvalho Hansen sobre como o registro de acontecimentos do cotidiano permeia a escrita de suas últimas coletâneas de poemas, Antes de Dar Nomes ao Mundo (Relicário), de Lisboa, e Ano Passado (Nós), de Hansen. Elas falam da mistura de elementos biográficos e ficção, das rupturas com o tempo cronológico e da influência dos pais, presentes nos livros. A conversa foi mediada pela crítica Luciana Araujo Marques e aconteceu durante A Feira do Livro 2025, meses antes da morte do professor de literatura João Adolfo Hansen, pai de Júlia, em fevereiro deste ano. Apoio: Lei Rouanet Assine a Quatro Cinco Um por R$ 10/mês: https://bit.ly/Assine451 Seja um Ouvinte Entusiasta e apoie o 451 MHz: https://bit.ly/Assine451

Assuntos4
  • LiteraturaMistura de elementos biográficos e ficção · Uso do diário como gênero de poemário · Condensação da experiência do vivido no diário · Diário como gênero dentro da ficção
  • Influência de figuras paternaisPresença dos pais nos livros · Morte do pai e o luto na poesia · Perda de memória do pai intelectual · Relação com a autoridade paterna na escrita
  • Escrevendo um livroOrganização do livro em episódios ou sessões · A sessão 'Pré-História' e o início do livro · O poema 'Dia Desses' e o encerramento do livro · A ideia de passeio com múltiplas entradas no livro
  • Poesia e LiteraturaInfluência da música na poesia · Evocação de artes plásticas e objetos visuais · A poesia como música e a sonoridade dos versos · A importância da leitura em voz alta para a poesia
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Oi! Está começando o episódio 194 do 451 MHz, o podcast para quem lê até com os ouvidos. Eu sou o Paulo Werneck, editor da revista 451. Toda sexta-feira a gente conversa aqui com autores, críticos e leitores sobre os livros mais legais que acabaram de ser publicados no Brasil.

E a poesia é um modo de fazer essa exploração, de cavar as possibilidades desse instante, mas, ao mesmo tempo, respeitando a simplicidade do que é instante. Conforme eu fui escrevendo meus livros de poemas, eu vi que sempre tinha um limiar onde aquilo que a gente pode chamar de cotidiano, ou de intimidade, ou às vezes até mesmo...

de experiência que atravessava para dentro do poema. E eu acho que nesse momento da minha vida como escritora ficou evidente para mim que eu poderia usar o gênero do diário como um gênero de um poemário.

Essas vozes que você acabou de ouvir são das poetas Adriana Lisboa e Júlia de Carvalho Hansen. Eu já vou te falar mais sobre elas, mas antes eu preciso te avisar que esse episódio é realizado com apoio da Lei Rouanet. E antes de mais nada, a gente tem um recado pra você da Tinta da China Brasil. Conheça a Malária de Carmen e Stefan, o novo romance da Tinta da China Brasil. Tudo parece correr bem na viagem da Carmen pela Amazônia com o namorado.

Até que no último dia surge uma forte dor de cabeça e outros sintomas inéditos que permanecem sem diagnóstico por 14 dias. Quem revela os detalhes dessa história é a própria culpada pela doença, a fêmea de mosquito que a picou.

Um romance original que combina a força da narrativa autobiográfica com a maestria da ficção e a beleza da divulgação científica. Malária, um romance, de Carmen Stephan. Contradução de Claudia Abeling. Já está disponível no site da editora e nas melhores livrarias.

A Adriana Lisboa, além de poeta, é ficcionista, ensaísta e tradutora. Ela é autora de romances, ensaios, livros de poesia, de contos e também infantis. O livro mais recente dela é a coletânea de poemas Antes de Dar Nomes ao Mundo, que foi publicada em 2025 pela editora Relicário.

A Juliet Carvalho Hansen, que também é editora e astróloga, já lançou vários livros de poemas. Entre eles, O Seiva, Veneno ou Fruto, de 2015, e O Romã, de 2019, os dois publicados pela editora Chão da Feira. Em 2025, ela lançou mais um pela editora Nós, chamado Ano Passado, que registra um momento de crise que ela viveu.

No episódio de hoje, a gente publica uma conversa com essas duas grandes poetas, em que elas falam sobre como os diários e a figura paterna aparecem na sua escrita. Esse papo rolou na Feira do Livro do ano passado e teve mediação da crítica literária Luciana Araújo Marques. Já é um esquenta para a edição de 2026 da feira que está chegando. A gente se vê lá na Praça Charles Miller, no Pacaembu, de 30 de maio a 7 de junho.

Então vamos lá para a primeira parte da conversa da Adriana Lisboa e da Júlia de Carvalho Hansen com a Luciana Araújo Marques.

Uma coisa que me chama a atenção, eu comentei isso agora um pouco antes da gente entrar aqui, e eu fiquei pensando um pouco nessa questão do gênero para a gente começar a conversa. Mas, Júlia, no ano passado, nesse seu livro, você não só recorre ao gênero diário, como faz um elogio ao diário como um gênero de ficção.

Essa forma foi escolhida já dentro do seu projeto autoral ou foi uma forma de experimentar a escrita nessa chave que, para você, gira no ficcional, do passar por um calendário que cruza com o autobiográfico? Como você lida assim? Então, é a poesia, é o diário, e como você experimenta tudo isso?

Bela pergunta. Bom, primeiro de tudo, muito obrigada a todas as pessoas que estão aqui e todos os envolvidos, tanto na feira como nas editoras, Luciana, Adriana. Estou muito alegre de poder estar aqui nessa mesa.

Eu escrevo diários desde adolescente, e, quando eu tinha mais ou menos 17 para 18 anos de idade, eu fui apresentada a poesia da Ana Cristina César. A partir daquele momento, além de que a sintácia dos meus textos explodiu...

também uma vontade que eu tinha de registrar a minha vida se modificou. Acho que porque eu percebi que, para mim, era mais importante a experiência de escrever e o próprio texto ter uma vida própria do que eu via narrar a minha vida através de um registro.

E isso eu acho que é transversal, a minha escrita, desde o final da minha adolescência. E, conforme eu fui escrevendo meus livros de poemas, eu vi que sempre tinha um limiar onde aquilo que a gente pode chamar ou de cotidiano, ou de intimidade, ou às vezes até mesmo de experiência.

que atravessava para dentro do poema. E acho que, nesse momento da minha vida como escritora, ficou evidente para mim que eu poderia usar o gênero do diário como um gênero de um poemário. O meu livro, que acabou de sair ano passado pela NOS,

Ele é um livro de poemas, mas ele é um diário, mas ele também tem estruturas narrativas, ele também tem um quê romanesco nele, embora ele não se pretenda um romance. E acho que muito porque, como o diário traz essa condensação da experiência do vivido...

ele tem algo de narrativo. O diário traz uma narrativa por dentro dele. E, de certa maneira, eu acho que o meu interesse foi conseguir tocar numa experiência da linguagem, que ela é uma experiência que... Eu sei que a Luciana, quando falou isso da ficção, é porque tem um verso no livro que diz isso, que o diário é um gênero dentro da ficção.

E aí eu diria, tem algo aí de uma brincadeira aprendida com Ana Cristina César, no sentido de a pessoa que lê está lendo a vida da Júlia? Está, mas não está. É como se tivesse uma brincadeira luzco-fusco, de um holograma.

tem algo de biográfico, mas tem algo de inventado. Mas até mesmo nas grandes biografias que a gente lê, isso acontece. Eu sou muito apaixonada, por exemplo, pela trilogia biográfica do Elias Canetti. Só que eu também li os romances do Canetti, e, quando eu leio a biografia dele, eu penso...

que foi inventado, porque a história inventada, muitas vezes, é muito mais legível, mais agradável. Acho que eu responderia algo por aí.

E, Adriana, eu vou fazer duas perguntas. Eu estava comentando um pouquinho também antes, quando a gente estava conversando, que a gente tem uma amiga em comum, que é a escritora Cláudia Laje, que, aliás, leiam um livro dela que se chama O Corpo Interminável, é maravilhoso. E ela estava superfeliz que eu ia conhecer a Adriana. E eu perguntei, você quer furar a fila aqui? Porque vocês só vão poder fazer perguntas nos 15 minutos finais. Mas eu dei esse privilégio para a Cláudia.

fazer alguma pergunta. Ela falou que não lia ainda o livro de poemas da Adriana, do qual vocês vão estar conversando. Ela perguntou se ela escreveu esse livro enquanto escrevia Os Grandes Carnívoros. Eu falei...

Perfeito, porque eu quero justamente abrir a conversa conversando sobre gênero. Então, essa é uma das perguntas. E você também, para dialogar também com o livro da Júlia, você também recorre?

ao diário, de certa forma, na forma do seu livro. No poema Carta ao Meu Pai, no dia 7 de setembro de 2021, quer dizer, a gente tem justamente um título que data com dia, mês e ano.

Mas, conforme a gente lê esse poema, obviamente ele vai levar para todos os dias, que não são só esse. Então, quer dizer, a gente tem aqui, obviamente, não a evocação do diário, como a gente estava comentando, mas o gênero epistolar, mas que, no final, todos esses gêneros brincam aí dentro da sua poesia, ou não sei se o verbo brincar é o melhor, para ir para todos os outros tempos que furam com esse cronológico. Então, se você pudesse falar sobre isso, que é muita coisa...

Bom, a questão do diário, para começar, acho que posso emendar as duas perguntas que você fez, da questão dos gêneros e do diário também. Esse foi um livro que não foi um projeto coeso, não pensei nesse livro como uma coisa só, ao contrário de outros livros de poesia anteriores que foram pensados como um projeto. Esse aqui foi escrito ao longo de mais tempo, ele começou a ser escrito em 2021, justamente.

Esse poema que você cita da carta ao meu pai, no dia 7 de setembro de 2021, ele começou a ser escrito mais ou menos por aí. Ele é quase como se fosse um diário nesse sentido. Ele fala de momentos específicos que eu estava vivendo ou que estava observando.

e que vão sendo compilados poeticamente, digamos assim, aqui. Então, ele começa num momento muito importante para mim, que foi, meados de 2021, que foi o momento da morte do meu pai. E esse 7 de setembro de 2021 foi o primeiro 7 de setembro sem o meu pai, que tinha morrido em agosto daquele ano de Covid.

Mas foi um 7 de setembro tão terrível, para quem se lembra daquele ano de 2021, que era um pouco assim, é o primeiro 7 de setembro sem o meu pai, e que pena que eu não tenho o meu pai, mas que bom que o meu pai não está vendo esse 7 de setembro ao mesmo tempo. Então, essa coisa ambivalente da vida mesmo, que se apresenta tantas vezes e a gente fica tentando, de um jeito ou de outro, dar conta na poesia.

E tem o diário literal, que é a sessão que encerra o livro, que são as duas semanas em retiro de meditação, que foi um retiro de meditação vipassana, e que eu ia escrevendo, então, dia 1, como você falou, dia 1, dia 2, dia 3, mas aí começa a existir a subversão do tempo.

nessas experiências. A gente falando de transcendência e poesia e tal, e tem um momento em que o tempo vira outra coisa. Então, você não pode mais falar de dia 5 ou dia 6, de repente é o dia do sol, tem um dia zero. Achei curiosíssimo porque...

porque no livro da Júlia também tem o dia zero, que foi o primeiro dia da Covid que ela teve, e aqui eu tenho o dia zero também. E tem um momento em que é o dia 3.000, tem um que se chama dia 18.654, que era o número de dias que eu tinha vivido até ali. Então era o dia 18.000 e tal da minha vida.

E eu acho que essa criação desse livro aqui em episódios ou em sessões, para ir para a pergunta da Cláudia, ela foi se fazendo enquanto eu fazia outros trabalhos. Depois da morte do meu pai, eu escrevi um ensaio autobiográfico sobre a perda dos meus pais, que está um pouco misturado nisso aqui, isso aqui está misturado lá também.

Os Grandes Carnívoros, que é um livro que eu queria escrever tinha muito tempo, um romance falando da nossa relação com os animais. Então tem um pouco disso aqui também nesse livro. Então é como se os temas conversassem nos trabalhos dos gêneros diferentes.

Mas cada gênero responde de um modo a essa demanda criativa. O romance é um projeto longo, é algo com que você convive às vezes durante muitos anos, e o poema já é mais flash, já é mais polaroide.

Maravilha! Aliás, você ter falado essa palavra polaroide, vou até furar um pouco as perguntas do jeito que eu tinha planejado, porque é muito interessante, na Júlia, quando ela usa o que é repentina, algo que acontece de maneira repentina. Então, você pode, talvez, responder um pouco sobre o que é repentino dentro desse livro.

Mas também coloco na mesma pergunta a Cláudia para conversar com a gente, porque ela traz também essa questão do instantâneo, das fotografias, que é o instantâneo, mas que não é justamente essa mordida do tempo, para usar uma outra imagem que está no livro da Cláudia. Então, se vocês puderem falar sobre esse repentino e sobre esse instantâneo, que podem parecer sinôminos, porém não são, Júlia.

Eu acho, sobre o repentino, eu pensei duas coisas. Uma primeira é que eu sou filha de Yansã, e para as filhas de Oiá tudo é repentino, porque nós somos o raio. Então o intempestivo acho que sempre acaba fazendo parte da minha experiência.

Mas eu também pensei na minha experiência como astróloga, que muitas vezes as pessoas me procuram para ler o caminho de vida delas, não exatamente buscando o que vai acontecer, mas um entendimento sobre algo repentino que já se deu. E que em alguns momentos das nossas vidas a gente vive.

algum acontecimento intempestivo que modifica muito claramente o nosso caminho. E eu trabalho com isso cotidianamente na vida dos outros também. A minha experiência de registro do diário é repentino uma formiga que, de repente, aparece nesse palco e anda aqui em cima e me chama a atenção. Isso é um acontecimento que, embora delicado, pode ser intempestivo ao ponto de ser registrado. E essa noção do instante que você traz...

Tem um poema no ano passado, que é um dos primeiros dele, que diz alguma coisa do tipo assim Não sei porque me distraio tão pouco... Posso ler o poema? Não é mais fácil. Senão vou falar bobagem. Mas ele tem a palavra instante... É o segundo poema do livro.

Não sei por que me distraio tão pouco com o instante que antecede as coisas, mas me concentro tanto pelo instante do que ainda não aconteceu. É um poema sobre a ansiedade, não é, gente? Não sei por que me distraio tão pouco com o instante que antecede as coisas, mas me concentro tanto pelo instante do que ainda não aconteceu. Quando eu digo que é um poema sobre a ansiedade, eu sou, infelizmente, uma pessoa muito preocupada.

É até um diagnóstico médico que eu tenho, preocupação. Então eu passo muito tempo concentrada com o instante do que eu me preocupo, do que eu me preocupo com antecipação. E, ao mesmo tempo, o instante tem uma captura do efêmero.

A Adriana estava falando do Vipassana. E no Vipassana, para quem não é familiarizado, você tem uma técnica de respiração em que você observa basicamente o instante efêmero em constante transformação, em constante efemeridade.

Vou dar meu pitaco aqui, embora a Júlia tenha falado coisas tão incríveis. Pois é. Eu acho que o momentâneo, o instantâneo, muitas coisas cabem dentro dele. Eu acho que esse é um tema que me interessa muito na poesia, me interessa muito explorar. É exatamente isso que você falou, a formiga que passa por aqui, de repente...

E o que pode caber dentro disso? De que modo o tempo se distende, o tempo de um instante se distende e muitos instantes cabem dentro de um instante? Acho que é fundamentalmente isso para mim.

E a poesia é um modo de fazer essa exploração, de cavar as possibilidades desse instante, mas, ao mesmo tempo, respeitando a simplicidade do que é instante. Eu tenho um grande professor que se chama Manuel Bandeira, que é a escola da simplicidade, do humilde cotidiano e de como você pode chegar perto da transcendência, nessa imanência do momento, e da potencialidade de explosão.

desses instantes, mas você para um pouquinho antes, porque senão você vai para o sublime, você se descabela e aquilo vira uma outra coisa, ou vira um soneto elaboradíssimo. Então você para um minuto antes e deixa aquilo sendo...

o potencial, que eu acho que é também a escola do Raikai, que é uma escola muito bonita. Eu não escrevo Raikai, mas aprendi muito com a leitura de Raikai, com o estudo de Raikai, essa ideia de que o poema aponta para algo que está fora do poema. Então é uma espécie de arte da sugestão. Não sei se eu fui para outro caminho, mas isso para mim tem muito a ver com essa sua pergunta sobre o instantâneo, o momentâneo.

E, mais uma vez, a evocação aqui do inseto coincide com a minha próxima pergunta. Júlia, esses insetos, é quase como se o seu ano passado fosse uma fruteira. Eles estão ali, estão rodeando o seu livro o tempo todo.

Eu fiquei pensando ainda um pouco sobre essa questão da forma, quando eu estava pensando nas perguntas, e fiquei muito obcecada nessa comparação das formas que esses poetas vão encontrando para escrever seus versos.

Quer dizer, você, Júlia, tem esse projeto que chama Ano Passado e, de alguma maneira, nós também que acompanhamos você nas redes sociais, a gente foi acompanhando um pouco. Então, isso foi se construindo, mas você já tinha esse título e essa colocação dos dias como algo que você estava caminhando com.

Ao mesmo tempo, como a gente já comentou aqui na mesa hoje, esses dias quebram. A gente tem essa ilusão de uma cronologia. Esse ano, inclusive, não começa em janeiro. Talvez, se a Ju quiser comentar um pouco sobre essa coisa de quando começa esse ano, quando termina, e quando você pensa que está lendo a página de créditos, tem um destino no final. Então, quer dizer, a gente se ilude com essa cronologia, mas fiquei pensando em você, ela escrevendo.

sob essa data. Cada vez que você escolhe uma data, enfim, quem também está escrevendo um diário hoje, vai escrever o que aconteceu hoje, como esse hoje viram mil outros tempos. O animal e o vegetal são temas sobre os quais eu me interesso há muitos anos. E esse livro foi, em grande parte, escrito enquanto eu estava vivendo entre São Paulo e a Mantiqueira. E...

Esse mundo dos insetos lá é ainda mais intenso do que é na cidade, claro. Então, as tarântulas que aparecem no livro, as formigas que aparecem nos livros, elas eram absolutamente cotidianas e, em alguns momentos, apresentando riscos muito maiores. Por exemplo, o meu cachorro, um Yorkshire burguês, entrou num cupim zero um dia e, de repente, eu descobri que cupins podiam picar um cachorro.

Coisas assim. Inclusive, aparece nos primeiros poemas do livro duas iniciais, que são LF, que é o poeta Leonardo Froes, e que eu escrevi para o Leonardo, por favor, Leonardo, o que você acha das aranhas? E aí ele me mandou um e-mail falando que ele não tinha muitas relações com elas, que ele gostava mais das lagartixas. E isso também está no livro.

E, de certa maneira, eu acho que o mundo é dos insetos, e, nesses lugares mais naturais, a gente nota isso com muita força, que eles têm respostas ao mundo, uma sistematização, que a gente, como vocês sabem, enquanto espécie, nós destruímos o mundo, nós não construímos junto dele, infelizmente.

E o meu livro também é sobre isso, sobre um ser individual. Eu, no caso, esse livro é um livro sobre crise, mas no sentido de uma crise que entende uma transformação. Por que eu digo que é um livro sobre crise? O primeiro poema, que é hoje, no livro, 4 de março, foi um poema que eu devo ter escrito, na verdade, mais ou menos num 13, ou 15, 16 de março.

de 2022, que foi mais ou menos a data em que eu tive um burnout. Eu disse isso no lançamento uns dias atrás, que espero que ninguém passe por isso, mas imagino que muitos já passaram e que muitos podem vir a passar, porque é uma doença da nossa época. E eu lembro que eu percebi que eu precisava voltar a escrever.

seriamente, no sentido de que eu estava três anos sem um projeto de livro, eu tinha publicado o Romã em 2019, e eu estava escrevendo coisas assim, assado, mas eu percebi que, se eu não escrevesse como a escritora que eu sou, eu iria sucumbir à destruição que a minha vida individual, pessoal, biográfica, estava vivendo por uma série de questões de foro íntimo e familiar.

E aí eu comecei a escrever o primeiro poema, e eu passei anos escrevendo, de 2022 até três, quatro meses atrás, e, quando eu resolvi que eu ia montar o livro...

Eu tinha, primeiro, um corpo extensíssimo que cada vez que eu mandava para o Schneider, Schneider Capetiani, o editor formal do texto, eu pensava, o Schneider vai me dizer, Júlia, corta, corta, corta! E o Schneider dizia, está ótimo, manda mais, manda mais, manda mais.

E eu percebi que, como eu tinha um corpo muito extenso, eu queria produzir para quem lesse a viabilidade de ler o texto num contínuo, que o livro tivesse uma forma gentil. E eu pensei, quem consegue produzir isso é a prosa, então eu preciso de linhas narrativas. E comecei a imaginar isso um pouco.

Mas, ao mesmo tempo, quando eu percebi que era um ano, eu pensei, um ano tem o quê? Estações, primavera, verão, outono, inverno, certo? E eu andava muito... Não sei se a palavra correta é influenciada, porque não tem muita modéstia dizer que eu estava influenciada por Bachot, mas eu estava lendo muito o Bachot. E um livro, uma edição maravilhosa da Sirio Alvim, que eu roubei do meu pai, que chama O Eremita Viajante.

que é uma edição organizada pelas estações do ano. Então, Primavera, Outono, dos muitos anos de vida do Bachon. Livro lindíssimo. E, então, eu peguei o corpo dos poemas que, sei lá, por exemplo, o 2 de março hoje, ele era um 19 de julho. Eu tinha escrito num 19 de julho.

E eu fui montando o livro por temperaturas. Eu pensei, bom, outono tem cara de uma transformação que a gente tem que se entregar a ela, porque é inerente da estação, algo se destruir para refazer. O outono tem isso. O inverno tem uma profundidade.

diferente, a primavera vai despontar alguma coisa. E, enquanto eu fui organizando assim, eu também fui percebendo que os poemas do livro, muitos deles, falam da destruição climática que a gente vive. E que, então, de certa maneira, fazer esse registro nas estações do ano é também fazer um registro de um tempo que está se perdendo. Nós estamos perdendo as marcações das estações do ano. Nós, enquanto espécie planeta.

essa destruição está acontecendo. Então o livro também se pensa um tanto como um registro dessa crise. Só que, ao mesmo tempo, como eu sou astróloga, e muito da minha vida tem a ver com dizer para as pessoas vai, levanta a cabeça, anda, não fica assim. Eu não poderia fazer um livro que fizesse o contrário.

Então, o livro vai tendo uma espécie de pensamento, um pensamento mágico por trás dele, que tem a ver com traduzir não exatamente uma esperança, mas uma alegria humana. E antes de seguir com o programa, a gente tem um recado da Feira do Livro para você.

Ministério da Cultura apresenta A Feira do Livro 2026, o Festival Literário a céu aberto já está chegando. E a gente te convida a ocupar a Praça Charles Miller no Paquembu, em São Paulo, de 30 de maio a 7 de junho. Durante nove dias, autoras e autores, editoras, livrarias e leitores ocupam a Praça Pública com o melhor da produção editorial nacional e internacional e os debates mais instigantes da atualidade.

Nesta edição, a programação oficial celebra a literatura latino-americana e seus diálogos com o Brasil. O evento é gratuito. Vem ocupar a praça com a gente. Siga a Feira do Livro no Instagram e fique por dentro das novidades. E antes de seguir com o programa, a gente também tem um recado aqui da nossa colunista do 451MHz, a poeta Bruna Bever.

A escrita é meio você estar num palco abandonado, sabe? Sem plateia. Oi, eu sou a Bruna Beber, poeta, tradutora e colunista aqui do 451 MHz. Uma vez por mês, você pode me ouvir aqui conversando com grandes autores sobre grandes livros, poesia em primeiro lugar, aqui no podcast pra quem lê até com os ouvidos.

É... O que eu ia falar? Esqueci. Ah, esqueci o que eu ia falar. Tô nervosa. Isso tem que cortar, hein, galera, na edição. Show, shows. Isso também pode cortar, né? Ah, essa fofoca é ótima. O que você planeja pra trazer aqui, pra bagunçar aqui o programa, Bruna? Ah, é segredo, né? Acompanhe o 451 MHz no seu tocador de podcasts favorito. E fique por dentro de todas as novidades. Não perca.

Então vamos lá, para a segunda parte da conversa da Adriana Lisboa e da Júlia de Carvalho Hansen com a Luciana Araújo Marques. Adriana, eu queria que você também falasse sobre a construção do seu livro, as sessões. Engraçado que a gente estava falando justamente sobre essa questão do tempo. E você usa a palavra Ouroboros em um dos seus versos.

mas, ao mesmo tempo, tem essa divisão em sessões. Como você imagina? A gente pode entrar por qualquer sessão, mas elas têm uma rota. Como você pensou essa montagem? Eu pensei... É claro que ele permite muitas entradas, mas, embora, como eu tenho falado lá no início, ele tenha sido escrito, não pensado como um projeto único, escrito ao longo de alguns anos...

Eu organizei ele no final como um passeio, mesmo que, para mim, começa na primeira página e termina na última. Inclusive, eu acho que o primeiro poema e o último poema são muito deliberados, não estão ali à toa. Eu começo com uma sessão que se chama Pré-História, e é um poema que fala desse mês... Bom, eu não moro no Rio, eu sou do Rio, mas eu moro fora do Brasil há muitos anos, já quase 20, e meu pai estava nesse momento terminal da doença dele, e eu...

Fui para o Rio e fiquei um mês hospedada lá com uma sobrinha que mora do lado do Jardim Botânico. Então, eu tinha aqueles momentos de acordar, sei lá, cinco horas da manhã e olhar pela janela e ver aquilo que sobrou da Mata Atlântica, ali atrás do Jardim Botânico.

e ter toda uma relação com aquele mundo. E me veio essa ideia de pré-história, quase como se eu estivesse vendo um tempo ali que já não é mais o nosso, até porque a gente já conseguiu acabar com grande parte daquilo. Ainda havia um pouquinho ali, mas a gente sabe que, na verdade, é o bioma mais ameaçado, o da Mata Atlântica. Então, esse poema, que se chama Pré-História, começa, ele inaugura o livro, embora depois venham outras sessões.

E o último poema fala, que é o último das duas semanas em retiro de meditação, se chama Dia Desses. Se você quiser ler os poemas que você está citando, Adriana, por favor. Você também, Júlia, quando a gente conversar sobre poemas, pode sacar o poema e ler. Se vocês tolerarem.

Não são poemas longos, não são poemas longos. Mas eu acho que quando a gente fala de poesia faz falta ler um pouco também. Então, pré-história, assim. Esse silêncio de antes que o mundo pensa em despertar. O silêncio que os notívagos fumam com o último gole de chá. E os que perdem o sono tão cedo abraçam como se há um outro corpo que fica enquanto a noite se vai.

Esse silêncio de tudo, a maré que respira, um oceano que espera, um bilhão de pequenos seres abissais recolhidos ao escuro do seu escuro. Esse silêncio em que o corpo pende um milímetro para o campo da morte.

Sem medo. E, no entanto, o rumor do vivo cristalino impera. Bicho por trás da costura do sonho. E nada precisa vir a ser. E mesmo os nomes se esquecem na letra miúda dos contratos. Esse silêncio de oração por dentro. Não há mantras ou aleluias. E o Moezim ainda não chamou os seus.

Esse horizonte de eventos antes que tropecemos conosco na barra do dia e do espelho e abramos as janelas às cigarras, o que, no entanto, faremos sem susto ou arrependimento. Pré-história de nós mesmos, esse silêncio resiste ao tempo que o acossa.

A paleta cambiante de um céu que significa outro tudo ou tudo de novo. Quando queríamos só um pouco, só um pouco mais desse basal entretanto, entre mundos que vive e pulsa enquanto se dissolve no ar. Então isso para mim. Obrigada.

Isso, para mim, tem muito desse momento mesmo pré-histórico, e era uma espécie de pré-história do meu dia, que começaria também indo, saindo dali, indo para o hospital, estar com o meu pai e tal. E o último poema, que é o último do Retiro de Meditação, fala...

da morte da minha mãe, que aconteceu muitos anos antes, em 2014, e fala do momento em que eu e minha irmã fomos arrumar o armário, aquele momento de arrumar o armário de quem se foi. Então se chama Dia desses. Quando minha mãe morreu e minha irmã e eu fomos arrumar seu armário, encontrei uma amostra grátis de hidratante que dizia cuide-se bem.

Quando meu filho visitou Jerusalém, trouxe para mim uma pedra de sal de recordação do mar morto. Dois talismãs, companhia ao longo dos anos, a amostra grátis que algum dia hão de jogar no lixo, a pedra de sal fadada a desmanchar. Noves fora não sobramos nem mesmo nós, incautos e prontos, mas tão só à vista daqui, da beirada do nosso amor.

Júlia, você comentava agora há pouco sobre como astróloga ter que falar para as pessoas seguirem, erguerem a cabeça. E, de fato, eu acho que você alcança mesmo nos seus poemas, sobretudo quando a gente lê o livro todo.

É curioso, eu sou editora também, e toda vez que a gente precisa licenciar um poema, se alguém cita um poema em qualquer coisa, o poema é uma obra em si, você precisa licenciar, você não pode, como num romance, pegar um trecho e citar, você precisa chegar na pessoa, olha, é uma obra toda. Mas, obviamente, tem essa coisa, quando você lê um livro inteiro, de alguma maneira, aquela parte é muito metonímica, como se esse todo do livro tivesse em cada uma dessas partes.

Mas eu comecei a falar isso porque, de alguma maneira, e aí também tem essa parte narrativa, tem muitas narrativas dentro do seu livro, mas uma delas que chama muita atenção é de algo que a gente percebe um luto, um fim, mas logo em seguida começa uma explosão, alguma coisa que renasce. Enfim, eu acho que no livro isso é muito íntimo, é muito pessoal. Mas basicamente do que morre, do que nasce.

Acho que são coisas bastante íntimas, mas eu diria que é um livro sobre uma separação amorosa de um casamento muito longo, e é também um livro sobre a perda da memória do meu pai. E acho que a primeira parte não é tão clara, a segunda parte é totalmente explícita. Eu digo isso...

em alguns momentos. E que meu pai, para quem não sabe, ele é um enormicíssimo intelectual e, entre outras coisas que ele estudou, ele estudou a memória. Então, não deixa de ser uma ironia da vida. Mas, ao mesmo tempo, tudo que eu coloco sobre isso, por exemplo, tem um grau. As passagens sobre o meu pai são as únicas que eu não inventei nada.

Eu cito muitas vezes coisas que ele diz, por exemplo, isso é uma frase dele para mim, de repente, num almoço. Ju, quando eu crescer, eu quero ser como o Milor. Como é como o Milor para ele? O Milor é que já dizia, quando eu crescer, eu quero ser um cisne no Itamaraty. Então, você ter um senhor de 83 anos de idade fazendo esse tipo de piada, porque ele sabe que está perdendo a memória, porque, claro, é uma pessoa inteligentíssima.

E, de certa maneira, essa é uma das crises que eu quis pontuar no livro. Ao mesmo tempo, eu também sinto que tem uma coisa de uma virada etária. Eu agora tenho 41 anos de idade, sei que isso é relativamente jovem, mas eu fui uma pessoa mais jovem.

com muito ímpeto e muita... A minha questão médica não era tanto a preocupação, era a euforia. Os médicos me diziam que a euforia não era bom, o chamas de ayahuasca me diziam que eu era eufórica demais e que isso levava os rituais a picos de muita intensidade. E eu levei muito tempo para entender por que a euforia seria algo negativo, porque ela tampou outras coisas.

Mas acho que é um livro também sobre a descoberta de uma outra cadência. E, ao mesmo tempo, tenho na minha personalidade, e acho que não só no meu texto, a intensidade é uma marca que me acompanha. Com 41 anos de idade, já resolvi aceitar isso. Tentei corrigir de muitos modos, mas não foi possível.

E acho que o livro vai jogando com isso. Os poemas, sejam os mais longos ou os mais concisos, eles têm uma pegada meio casusa. Eles têm um... Também é uma coisa que eu trago de algum jeito da rede social. Enfim, acho que eu respondo.

Ah, seleciona alguns para você ler agora. Nossa, esses do seu pai, eu confesso que fiquei bem arrebatada. Fazendo o elogio do trabalho editorial, esse é um livro que tem, ao final...

um índice de primeiros versos. Ele está aqui, índice de poema, mas é o índice dos primeiros versos. Então talvez seja mais fácil para você. Não vou ser tão autoritária. Adoro, adoro. Já que eu estava falando do meu pai, vou ler um que está na página 98. Depois você lê o da 55 também. Está bom. Eu vou primeiro da 55, então.

O meu pai está perdendo a memória. Justo o meu pai. Podiam ser os tantos pais dos outros. E muitas vezes são. E tem um outro que eu não vou achar, porque eu acho que ele está com data, mas que fala do médico. Que o médico dele me disse que seu pai vai esquecer antes o seu nome do que os sonetos de Camões.

Porque a memória tem camadas, não sei se vocês já ouviram isso de um neurologista, como eu ouvi, mas que a primeira memória que se perde é a recente. E, no caso de um intelectual, a base da memória, como se fosse uma pirâmide, ela é o que o intelectual estudou, e isso não desaparece.

Então, por exemplo, o pai de uma amiga minha, um grande pianista, no final da vida, não sabia o nome de ninguém, não reconhecia nem a própria mulher, mas você colocava ele na frente de um piano e tocava Mahler, Bach, Schubert, tudo. E isso é a última memória a desaparecer. 21 de outubro.

Papai me levava para a escola cantando, a depender do seu bom humor. Todo mundo vai ao circo, menos eu, menos eu. Everybody knows that our city is rebuilt to be destroyed. Se eu deixar de sofrer, como é que vai ser para eu me acostumar?

Eu acho que ainda nessa emenda, eu adoro esse verso da Adriana, quando ela fala do silêncio com a emenda do som. Então, um pouco inspirada nessa ideia de emenda, essa emenda desses personagens dos livros de vocês, mas que, enfim, essas figuras maternas e paternas. Como é, Adriana, trabalhar com...

essas pessoas, mas que também viram seus personagens. E, sobretudo, além da ideia de personagem, me interessa ouvir um pouquinho vocês duas. Ju, depois você fala também. A gente falou bastante de tempo, agora vamos falar do personagem, mas também dos espaços.

Tanto no livro da Júlia quanto da Adriana, me chamou muito a atenção essa recorrência de espaços e como eles ficam encrustados dessas presenças. Ou porque essas pessoas viveram nesses lugares, mas inclusive nos lugares onde elas não viveram e elas reaparecem. Como é isso, Adriana? É uma busca ou são aparições?

Acho que são mais aparições do que buscas. Acho que essas coisas meio que se manifestam. Eu sou muito dos espaços domésticos, eu gosto muito do espaço doméstico, eu acho que ele fica muito carregado de nós mesmos e do que se passa ali, e do que se passou ali também, não se passa mais. Eu tive uma experiência esse ano que ainda não virou poema, mas está em vias de virar.

que foi vender o piano do meu filho, depois de décadas. Meu filho é um super pianista, mas não mora mais comigo, e o piano estava lá encostado, ele não tocava mais. E eu tinha aquela memória de meu filho estudando a vida inteira, criança, adolescente. Tinha sempre aquela companhia do som do piano. A gente podia estar brigando, podia estar saindo no tapa, mas em algum momento ele tocava piano, e aquilo me preenchia muito.

E primeiro houve um momento em que o piano emudeceu, porque ele saiu de casa, e depois teve o momento da venda do piano. Não sei nem por que estou falando isso agora, porque acho que é um mote para o meu próximo poema. Mas isso, de um vazio que ficou ali, que tem tantos significados, que foi, na verdade, um móvel, um piano.

vagabunda, inclusive, que foi embora. E o que fica no lugar, o que você coloca no lugar, e o espaço da casa, que é o espaço da família, que é o espaço do afeto, e que diz tantas coisas, isso é um tema constante para mim, esse espaço e os seus significados.

mas acho que os espaços públicos também. Isso de sair à rua. Com o que você esbarra quando sai na rua, em todos os sentidos? O que você quer encontrar, o que você não quer encontrar, mas vem ao seu encontro.

a revelia do seu desejo, e muitas vezes é violento e é indesejável, ou é algo que você preferia não ver, mas que está ali na sua frente. Então, de que modo a gente percebe esse mundo, e esse mundo meio que se infiltra nas nossas experiências e nos nossos versos também.

Eu quero fazer uma pergunta para a Adriana, mas depois também seria muito bom ouvir a Júlia falar sobre essa relação, no livro de vocês, com as outras artes. No livro da Adriana, óbvio, ela tem uma formação em música, então essa questão da música aparece, mas às vezes aparece quebrando as expectativas, porque a gente imagina... Eu acabei de citar agora há pouco sobre essa questão do silêncio como essa emenda do som.

mas você localiza objetos dos quais a gente imagina também o som. Mas não só também essa relação com a música, que também é bem irmã de se falar de poesia, e outra irmã de se falar de poesia é pensar no que a gente forma de imagens. E você também evoca bastante as artes plásticas. Então, se você pudesse falar um pouco sobre essa alimentação da poesia com as outras artes.

Começaram a aparecer esses poemas e aí eu gostei. Eu procuro evitar essa coisa da poesia culta, que você está se referindo a outras obras, como se você partisse do pressuposto de que o leitor tem que conhecer aquilo e não necessariamente tem que conhecer. Então, o meu desejo, ao falar de certas obras, ou musicais, ou visuais...

Sempre foi tentar ter esse olhar um pouco desarmado mesmo, como ver pela primeira vez. Tem um poema que é uma estatueta barroca, que é uma virgem com o Cristo no colo. Por exemplo, entre outros, é essa ideia, de chegar aquilo ali pela primeira vez e como observar com palavras, como fazer esse olhar.

através das palavras para aquele objeto, e para os sons em outros casos. Então foi isso, foi um exercício que começou a aparecer e se multiplicou. E você quer ler um desses poemas que faz uma referência ou às artes plásticas ou à relação com a música?

Ah, eu acho que eu posso ler o da Cora Coralina, que é um dos que eu mais curto dessa passagem. Cora Coralina. O caco do prato quebrado, azul pombinho, pendurado no pescoço, é para que ela não esqueça e que em casa não caiam na tentação do perdão.

Moleirona, buliçosa, inzoneira, menina desde sempre culpada. O canto do beco, do limo, da beira, da vida, a avenca, os doces, o milho e a terra. Que importa o caco do prato quebrado pendurado no pescoço? Um verso é uma louça inteira, azul pombinho e todas as cores mais. Tudo pertence à Ana. Beco, rio, quintal, praça.

Mundo, grão.

Eu estava ouvindo a Adriana lendo e pensando que... A poesia é música. Tem alguns versos que ela estava lendo que eu estava ficando com o som da sílaba muito mais do que com o sentido do que estava sendo dito, o que estava me encaminhando era... E aí o som me levava, como vocês sabem, como leitores de poesia.

E eu não escreveria se não existisse a música. Eu sou absolutamente... E quando eu percebi que o livro estava ficando denso, eu fiz uma playlist só de sambas. Está lá no meu Spotify, se vocês quiserem. Mergulhei nessa magia. Eu achei a playlist. Mergulhei nessa magia. Era tudo o que eu queria para este carnaval. Um samba enredo.

porque eu queria conseguir que o livro tivesse uma vibe mais alta, mais generosa. Então eu reviso meus livros todos obsessivamente por muito tempo, reescrevo, reorganizo, com música. E escolhendo o tom da música... O Romain, por exemplo, eu revisei o Romain ouvindo Elton John, porque eu queria uma pegada pop nele.

E até me lembro que, quando fiz um Vipassana, eu escutava a música dentro da minha cabeça o tempo inteiro. E fui falar com o mestre, com a professora, eu não consigo meditar porque minha cabeça ficou ouvindo música. Ela disse que ia escutar muito a música. Eu falei que ia escutar. Ela disse que estava condicionando sua mente a isso. Eu pensei que ia ser.

porque eu ficava ouvindo mesmo, você estava meditando e eu ficava ouvindo música. E é isso, a música, para mim, eu só termino meus poemas depois de eu ter lido eles em voz alta muitas vezes. E, às vezes, eu gravo, não para eu ouvir, mas porque eu sei que está acontecendo um registro e que isso me leva a ler em uma entonação específica. A minha versificação está muito condicionada ao som, tanto que...

A depender de quem lê os poemas, eles viram... Por exemplo, a Natasha Félix, maravilhosa. Quando a Natasha lê meus poemas, eles ganham um tom de música que eles têm, porque a Natasha tem essa pegada, eu falo que ela é a Beyoncé da poesia brasileira. Enfim.

Tem uma dimensão também que eu acho que... Tudo parece ser muito doce no que a gente está falando aqui, mas tem uma carga também de um reconhecimento dessa... Tudo bem, a gente citou aqui o Caetano, a gente sabe que essas cidades são construídas para serem destruídas. Eu acho que, de alguma maneira, a gente falou também dessa dimensão do que o humano destrói nessa conversa.

Mas me chama muito a atenção como nos livros de ambas tem essa dimensão dessa violência, de um reconhecimento desse lugar. Desde... Vou citar esse, Adriana, essa imagem, mas você pode pensar em outras, que é, por exemplo, daquele colar de dedos. Colar de dedos decepados. Então, quer dizer, você sustenta esses dedos decepados. Então tem uma dimensão ali que me interessa ouvir um pouquinho.

É intrínseco o colar de dedos decepados. Todos carregamos, na verdade, foi durante esse retiro de Vipassana. Em algum momento, um professor falou dessa divindade do panteão tibetano, que é uma figura que era um assassino antes de se tornar uma figura importante para os tibetanos, uma espécie de santo.

E ele carregava, ele era um assassino feroz, e ele carregava no pescoço um colar com os dedos decepados de todas as vítimas que ele tinha matado. E nós carregamos também os nossos colares de dedos decepados, e na hora de escrever o poema me veio essa ideia de que alguns desses dedos, inclusive, são meus, alguns dos dedos são nossos mesmo.

Então, essa violência inerente à nossa existência, não se trata de excluí-la da vida, mas se trata de, talvez, entendê-la. Entender não apenas... Porque isso é bem complexo, mas o seu potencial libertário quando ela é compreendida. Porque eu acho que...

Tentar evitar a violência, ou seja, tentar chegar a uma pureza de existência não violenta, é impossível. Então, se você reconhece a existência da violência e o poder da violência, isso, sim, é transformador. Quando a gente fala de transcendência, por exemplo, essa força da violência é capaz de produzir muitas coisas, inclusive arte.

É o melhor dos casos. Agora eu fui uma mediadora extremamente egoísta, fiquei com vocês só para mim. Temos cinco minutos para responder as perguntas do público. Para a Adriana. Adriana, como o passar do tempo tem transformado seus pais em personagens seus? A pessoa não assinou o nome. Não tem problema.

Pois é, eu acho que eles sempre foram personagens, mas eles eram personagens mais difíceis de lidar quando estavam vivos, porque existia uma cerimônia, porque existia uma espécie de respeito a algo que estava ali materializado, algo físico.

E eu acho que depois que os pais da gente se vão, que eles morrem, eles entram... Hoje em dia, quando eu penso nos meus pais, eles têm uma idade um pouco indefinida, não sei muito bem nem quantos anos eles têm mais. Não é mais a idade que eles tinham ao morrer, é quando sonho com eles também, é uma idade, sei lá, talvez uns 30 e poucos, 40... Não, 30 e poucos anos não, porque eu não tinha nascido ainda. Mas, enfim.

Algo no meu imaginário que leva eles para um outro lugar. É um chavão dizer, mas aquilo que está em mim também, deles. E os momentos todos que a gente passa de tristeza, depois de raiva, depois de mágoa, depois chega um momento que você fala, nossa, deixa isso tudo para lá. A história de carregar os dedos decepados no pescoço.

E eu acho que por isso, vou falar uma coisa assim, ultra piegas e açucarada, mas é por isso que a última palavra desse livro aqui é amor. Por isso que eu quis terminar com essa palavra. Que, no final das contas, novos fora não sobramos nem mesmo nós, mas estão só à vista daqui, da beirada do nosso amor. Quer dizer, que bom que fique isso, se possível.

Nem sempre é possível. Nem sempre as relações entre pais e filhos permitem que isso fique. Mas, se puder ficar, que bom. Acho que essa é a ideia. Maravilha.

Wellington, desculpe, vou fazer uma... Wellington Furtado Ramos, professor da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, fez duas perguntas para a Júlia, mas vou fazer só uma por causa do tempo e também porque é outra coincidência, ou não, também uma pergunta sobre pai. Eu acho que é bonito a gente dar essa igualdade aqui.

Bom, curiosidade de leitor. Como é ser poeta, escrever poesia no convívio com seu pai, maior autoridade sobre Gregório de Matos e as poesias do século XVII e XVIII? A pré-ocupação é uma angústia da influência? De maneira alguma. Meu pai, Wellington, ele me educou dizendo duas frases recorrentemente. Só faça na sua vida as coisas que lhe deem prazer.

E a outra frase que meu pai já escreveu como dedicatória em 350 livros, quando eu me mudei para Portugal, a última frase que ele me disse, eu fico até com ouvida, quando eu estava indo entrar no avião foi divirta-se. Meu pai é uma autoridade nesses termos da literatura, mas ele é uma pessoa extremamente gentil, generosa, e sempre...

Cordial, meu pai nunca levantou a voz para mim. Eu não tenho memória do meu pai tendo levantado a voz para mim com 41 anos de idade. Eu sei que isso é uma dádiva. E ele... Na minha relação com ele, na escrita, ele me ensinou a escrever.

Claro, eu sou filha dele. Eu lembro que eu, criança, comecei a escrever contos. Eu tinha uns nove, dez anos de idade. E eu mostrava para ele e ele incentivava muito. E, quando eu não conseguia escrever, ele dizia para eu escrever sobre não conseguir escrever.

Eu nunca senti essa influência de uma maneira angustiada ou pesada, pelo contrário. E, ao mesmo tempo, acho que, como ele, ele é um intelectual muito radical, no sentido... Eu fui aluna na Letras, meu pai não é o mainstream dentro da Universidade de São Paulo. Ele é, pelo contrário, é aquele que pegou a formação mais canônica dentro da universidade e falou que não estava vendo direito.

Isso, na verdade, é assim. Ele virou o bolo, a forma do pudim, óbvio. Então, acho que não teria outra opção além de me sentir livre para fazer o que posso fazer. Então, eu responderia algo por aí. E eu li para ele os poemas sobre ele antes de publicar o livro. Eu tive mais do que um ok dele. Ele ficou muito emocionado.

Gente, vocês querem fazer palavras finais? Porque eu já estou no meu minuto final como mediadora. Só um agradecimento mesmo. Eu sempre fico comovida quando tem gente para escutar poesia, falar de poesia. Então, muito obrigada a vocês. Obrigada, Luciana e Júlia. Obrigada.

E antes de me despedir, eu queria passar para o quadro do 451MHz, que traz o melhor da literatura LGBTQIA+, de todos os tempos. LGBTQIA+, significa lésbicas, gays, bissexuais, trans, queer, intersexuais e assexuais. Nesse quadro, a gente convida autores e grandes leitores em geral para indicar os livros que foram marcantes, as leituras recentes e outras dicas literárias LGBTQIA+, imperdíveis para todos os leitores.

A dica de hoje é do Elvio Cotrim, que é professor de literatura e língua francesa da UF, a Universidade Federal Fluminense. O Elvio indicou para os ouvintes do 451 MHz o livro de poemas Onde Estão as Bombas, da Tatiana Pequeno, que foi publicado pela Macondo em 2019.

A Tatiana é uma das vozes mais importantes da poesia brasileira contemporânea. Uma mulher, lésbica, carioca, professora. Esse livro é uma prova do potencial explosivo da linguagem poética, e a Tatiana sabe fazer isso como ninguém. O que mais me fascina no trabalho dela é como a linguagem é ao mesmo tempo arma e ferida.

Os poemas dela atravessam várias questões como a violência contemporânea, a memória familiar, o desejo entre mulheres, com uma particularidade sintática que reconfiguram muito a nossa língua e, por conta disso, aquilo que diz. É um livro sobre o corpo como campo de batalha, mas não só isso também, o corpo como lugar de prazer.

É aquilo que uma voz lésbica pode dizer quando decide não pedir licença para existir em várias instâncias. Esse livro é importante porque no momento em que as mulheres ainda precisam nomear o perigo para sobreviver a eles, Onde Estão as Bombas nos lembra que a poesia também pode ser isso. Uma detonação cuidadosamente construída. Então essa foi a dica do Elvio Cotrim, Onde Estão as Bombas, da Tatiana Pequeno, que saiu em 2019 pela editora Macombo.

E agora aproveita que você está aí com o seu celular por perto e faz agora mesmo uma avaliação desse episódio e também do podcast. No Spotify e no Apple Podcasts, por exemplo, você pode dar cinco estrelas para o nosso programa e comentar o que achou desse episódio. É só clicar ali no ícone com as cinco estrelinhas e atribuir a sua avaliação.

Você também pode indicar agora mesmo o 451 MHz para outras pessoas. É só clicar no botão de compartilhamento e enviar por zap para as pessoas com quem você gosta de discutir temas literários. E não esquece de seguir a gente no Spotify, Apple Podcasts ou na sua plataforma preferida. Assim você pode receber notificações quando os episódios forem publicados.

E antes de dar tchau, eu queria agradecer aos nossos ouvintes entusiastas, que colaboram financeiramente para a realização do podcast. Teve um crescimento grande aí nas últimas semanas. Muito obrigado aos nossos novos ouvintes entusiastas. Então, muito obrigado a Alexandre Vidal Porto, Aloysio Beretta Jr., Ana Carla Dias Braga, Ana Cecília Andrade de Moraes Ventralbe.

André Viana, Antônio Prata, Arthur Petrola, Carlos Eduardo Lins da Silva, Daniela Falcone, Eliane Marta Teixeira Lopes, Flávio Francisco de Moraes, Guedesemani Silva, Giovanni Forassi, Gustavo Sanechal, Inácio Muzi Fonseca, Irene de Almeida Biazzoli, Leda Tatiana Fogueira Amaral.

Lorena Grise, Luciano Sobral, Lucimara Carvalho, Luiz Francisco Carvalho Filho, Luísa Franco, Marcelo Roseno de Oliveira, Margarida Sintra Gordinho, Matheus Cacique Moraes, Nancy Rodrigues Barbosa, Nilton Brigatti, Patrícia Rodrigues Sanches, Priscila Valverde Oliveira Vitorino, Ramon Limeira Cavalcante de Arruda, Regina Gomes Sodrer, Ricardo César Duarte, Rodrigo Bittar e Rogério Faria Tavares. Muito obrigado a todos os nossos ouvintes entusiastas.

É isso aí, chegamos ao final do episódio 194 do 451 MHz. O nosso próximo programa vai ao ar no dia 8 de maio, sexta que vem. O 451 MHz é uma produção da Associação 451. E eu sou o Paulo Vernet.

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#194 Querido diário - Júlia de Carvalho Hansen e Adriana Lisboa | Castnews Index — Castnews Index