Episódios de Para dar nome às coisas

S08EP324 - Para onde foi o seu frio na barriga?

06 de maio de 202631min
0:00 / 31:36

Só que como ser adulto é reconhecer nossas infantilidades e ir além delas, mais tarde eu olhei nos olhos dessa minha parte e disse o que eu falaria para uma criança: “só tem um jeito de ficar fácil e é se você tentar.” No dia seguinte, eu estava lá de novo, ainda ruim, mas um pouco mais humilde, e confessando pro professor: talvez você precise me explicar muitas vezes, porque eu nunca fiz luta e porque…bem…é… algo novo.

E cada vez que o meu ego tentava me apavorar e me fazer sair correndo, como quem aperta um alarme de incêndio, eu me repetia: “é assim mesmo. E você não precisa ser a protagonista que manda bem em tudo aqui.”

É justamente por isso que é difícil ter hobbie e experimentar novas coisas na vida adulta, porque as letras pequenas dessa experiência vão dizer: você vai ser ruim. Às vezes muito ruim. E se a gente deixar nosso instinto escolher, a gente vai viver uma vida de manutenção das coisas já testadas, porque quanto mais a gente vai envelhecendo, menos tolerante a gente fica para viver coisas que desafiam o nosso ego.

É por aí que vai o episódio dessa semana, cê vem?

identidade visual: @‌amandafogaca
texto: @‌natyops

MEU LIVRO: Medo de dar certo: Como o receio de não conseguir sustentar uma posição de sucesso pode paralisar você | Amazon.com.br

Apoie a nossa mesa de bar: https://apoia.se/paradarnomeascoisas

Participantes neste episódio1
N

Natália

Host
Assuntos7
  • Natureza Humana e Dualidade do SerA pressão da idealização em atletas · Simone Biles · A busca por ser humano em meio à fama
  • Hobbies como brincadeira adultaO medo de ser ruim em novas atividades · Mai Tai · A importância de aceitar a imperfeição
  • Superação e ResiliênciaA verdadeira definição de força · Sustentar o insustentável · Coragem de lidar com emoções
  • Gestão do EgoManutenção de atividades conhecidas · Evitar desafios que desafiam o ego · A vida adulta como um lugar de manutenção
  • Aprendizado com ErrosA sabedoria de quem dirige · Aprender com a experiência de ser ruim
  • Orgulho e humildadeDefinição de humildade por Monja Coen · Aceitação da realidade como ela é
  • Vira Casacas Podcast e ApoioFinanciamento coletivo · Parceria com editoras · Editora Record · Rosa dos Tempos · Fontanar · Astral · Sestante · Rapper Collins
Transcrição80 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

Oi, meu nome é Natália e esse é o tricentésimo vigésimo quarto episódio do Para Dar Nome às Coisas, um podcast que nasceu para ser uma mesa de bar na web daquelas que a gente senta e sente que não estamos sós, um lugar em que a gente pode ser do nosso próprio tamanho sem precisar esticar e nem se espremer.

Como é que você tá? Como é que estão as coisas pra você? Como é que tá o seu mundo dentro desse mundo? Como é que você tá? Hoje, gente, vou trazer um episódio que, pra mim, teve um efeito colateral de querer me fazer viver. Esse foi o efeito colateral que teve.

E o outro efeito colateral que teve foi de me fazer viver em paz ou ficar em paz com a minha própria pele, com a minha própria história, com as minhas próprias decisões. Então eu espero muito que, ao trazer esse episódio, esse efeito colateral se estenda aí para a sua história, para a sua vida, para o seu momento.

e que te faça olhar com um pouco mais de humildade. Humildade, eu gosto muito da definição da palavra de humildade, que eu ouvi uma vez pela Monja Coen, que ela disse que humildade é ver a realidade como ela é. E eu amo essa definição de humildade, porque sempre que a gente se defende...

do elogio, não sempre, né? Mas muitas vezes quando a gente está se defendendo do elogio ou da coisa boa, a gente está se defendendo da vida como ela é ou de como a gente é, né? Às vezes a pessoa está vendo o que a gente é e a gente está dizendo, não, não, não é isso. E isso não é humildade, porque humildade é ver a realidade como ela é. Mas antes, meus amigos de bar, eu queria fazer só um momento programa da Xuxa aqui.

E mandar um beijo para as editoras que têm participado da nossa caixinha de livros surpresa. Se você não conhece ou não sabe o que é, o Parador Nomeas Coisas, o nosso podcast, tem um financiamento coletivo que é sustentado pelos ouvintes do podcast, que são pessoas que acreditam muito no nosso trabalho, que acreditam muito no que a gente faz aqui, no que a gente faz aqui.

e que apoiam financeiramente o nosso podcast. E aí tem duas faixas de recompensa, de R$10 e de R$25. E cada faixa de recompensa tem uma recompensa específica, mas nas duas faixas tem uma recompensa que chama caixinha de livro surpresa. Que é o quê, basicamente?

É uma parceria que o Para Dar Nome às Coisas tem com algumas editoras. Então, mensalmente, essas editoras nos enviam os lançamentos dos livros. Então, assim, livros que estão chegando na livraria naquele momento ou que ainda vão chegar. E aí elas mandam esses livros para a gente. E aí a gente...

gente faz um sorteio entre os ouvintes que apoiam nossa mesa de bar e manda esses livros junto com alguns brindes e tal. Às vezes também acontece de eu ler um livro, aí comprei um livro numa livraria, no Kindle, enfim, tô apaixonada por esse livro e aí eu vou lá, bato na porta dessa editora e falo, ah, vocês não querem participar da caixinha de livros? E aí eles mandam o livro e aí a gente acaba sorteando também.

E aí, tô usando esse momento, o beijo da Xuxa, pra mandar um beijo pras editoras que tão participando das nossas caixinhas nos últimos meses, que é a Editora Record, Rosa dos Tempos, Fontanar, Astral, Sestante e Rapper Collins, que mandaram títulos, livros muito legais, alguns deles.

Estou absolutamente apaixonada porque já comecei a ler, outros ainda vou começar e é muito legal. E isso também é um aviso para você que apoia a nossa mesa de bar lá no Apoia-se, para você ficar de olho no e-mail que você tem cadastrado lá no Apoia-se, porque é por meio desse e-mail que a gente avisa se você ganhou os livros e aí pede os seus dados. Combinado? Então tá bom, gente. Então vamos para o episódio. Espero muito que esse episódio faça sentido para você, mas que se não fizer, que ao menos te faça uma boa companhia. Boa audição!

Tempos atrás, eu assisti uma série no estilo documentário que conta a trajetória da ginasta Simone Biles, que foi considerada uma das atletas mais premiadas da história. E nos episódios dessa série, eles mostram a forma com que a mídia tratou a saída da Simone das Olímpiadas de 2021. Eu não sei se você lembra disso, mas em 2021, a Simone desistiu de participar das provas finais das Olimpíadas para cuidar da saúde mental dela. Ela que dominava a ginástica, ela que...

era a cara dessas Olimpíadas, inclusive, e isso a série mostra que a cara dela era o grande símbolo dessas Olimpíadas, o rosto dela estava em todos os banners, em todas as peças publicitárias, em todos os comerciais, então existia em cima dela uma expectativa pela atleta.

mas também o peso que essa atleta trazia para essas Olimpíadas. As pessoas queriam muito ver se ela ia ganhar mais uma medalha, se ela ia ser de novo essa recordista de medalhas nessas Olimpíadas. E é isso, o rosto dela estava em todos os lugares.

Mas ela toma essa decisão de sair das Olimpíadas, porque ela que dominava todos os movimentos, que dominava todos os saltos, que tinha vários saltos com o nome dela, começa a ter espécies de brancos, de apagões. Só que esses apagões não aconteciam só no solo.

eles aconteciam principalmente quando ela estava a muitos metros do chão, quando ela estava em movimento. Então ela estava ali no meio de uma acrobacia, ou ela estava no meio de um salto de cabeça para baixo, e de repente ela não sabia mais o que fazer com o corpo. Ela perdia a noção corporal, ela não sabia mais se ela tinha que girar o corpo, se ela tinha que abrir os braços, fechar as pernas, ela não sabia mais. E a gente não precisa fazer ginástica olímpica para saber que ter apagões a muitos metros do chão...

é flertar diretamente com a morte, né? Então ela estava correndo o risco muito sério ali de morrer, basicamente, ou de se lesionar muito seriamente, irreversivelmente. Então, naquele momento, ela decide se retirar. E naquele momento que ela decide se retirar, e que esse anúncio é feito para o mundo inteiro, as milhares de pessoas ali, de jornalistas, comentaristas, especialistas, a público geral, que estavam acompanhando todos os passos dela, se dividem.

E aí metade começa a questionar os motivos, né? Começam a especular os motivos pelos quais ela tomou aquela decisão. As pessoas não acreditam muito que é por causa da saúde mental, mas se é por causa da saúde mental, que história é essa, sabe? Metade das pessoas começa a questionar os motivos e questionar a importância dos motivos e começa a especular sobre o fim da carreira dela. E a outra metade de pessoas entende os motivos dela.

E no meio de tudo isso, inclusive sobre essas duas metades, em cima dessas duas metades de pessoas, tem uma pergunta que paira, que é, não era ela que desafiava a força da natureza? Como ela sucumbiu?

E aí, meus amigos de bar, num dos episódios mais fortes sobre esse assunto, quando a Simone Biles resgata, quando ela volta a essas lembranças, os produtores ali da série pedem para ela ler os comentários sobre ela naquele momento, né? Então pedem para que ela leia o que as pessoas estavam falando sobre ela naquele momento.

E eram coisas do tipo, ah, ela é fraca, ela é perdedora, ah, sabia que ela não era tudo isso assim, enfim. As pessoas vão, a Simone vai lendo em voz alta. E em dado momento, depois de ler esses comentários em voz alta, como resposta a essas pessoas, ela faz um desabafo que, mesmo eu tendo visto essa série há, acho que há um ano ou dois anos atrás, esse desabafo ainda tá no meu corpo.

Porque ela diz uma coisa muito forte, ela fala As pessoas te colocam em pedestais e eu só tô implorando pra ser humana.

Quando eu vi a Simone falando isso, falando sobre essa idealização que faz as pessoas colocarem ela em pedestais, eu fiquei por muito tempo pensando em como a idealização de fato é uma prisão.

em como a idealização te destitui de toda a sua humanidade. E fiquei pensando em como deve ser passar por isso, como deve ser não ter a oportunidade de desistir, de parar, de descansar, sem ser questionada ou sem ser reduzida a isso.

E eu acho que, embora todos nós já tenhamos vivido, muito provavelmente, algum momento como esse, em que a gente tomou uma decisão e a gente sabia que era essa a decisão que precisava ser tomada, e a gente sentiu que as pessoas olhavam pra gente como se a gente fosse, como se a gente estivesse, sei lá, comendo papel sulfite, assim.

completamente desequilibrado, embora eu ache que muitos de nós já passamos por isso, né, de tomar uma decisão e se sentir andando sozinho e no escuro por muito tempo, até chegar o momento em que as pessoas se convencem de que era a melhor decisão, porque isso às vezes demora, embora eu ache que muitos de nós se identifiquem em alguma medida com a Simone,

Eu acho que só é capaz de entender o tamanho, sabe? A proporção dessa violência que ela viveu, quem viveu algo parecido com ela e quem ocupava um lugar parecido com o que ela ocupou, sabe? E é por isso que eu me aproximo do que ela fala, num lugar bem menor.

Mas não consigo entender com profundidade o que ela diz. O que é essa idealização que destitui ela de toda a humanidade. Mas mesmo assim, meus amigos de bar, essa história me voltou quando eu vivi uma situação cotidiana e é ela que eu quero contar pra vocês agora.

Meses atrás, eu me inscrevi no Mai Tai. Eu nunca tinha feito luta. Na verdade, eu nunca tinha passado nem perto de um tatame. Mas eu achei que poderia ser uma boa experiência. Contei pra vocês ano passado, que ano passado eu coloquei como palavra pra me guiar no ano a palavra experiência. E uma das coisas que eu queria muito fazer era experimentar esportes novos. E aí isso tem a ver com esse propósito, com essa intenção em experimentar novas coisas.

E aí eu vi que tinha uma escola no meu bairro de luta e me inscrevi. E a primeira aula, meus amigos de bar, foi incrível. Foi tão incrível que eu tive certeza de que eu tinha encontrado uma atividade, um esporte, que me faria levantar às seis e meia da manhã feliz, sabe assim? Quando eu levantar às seis e meia da manhã, eu ia falar, cara, eu vou fazer maitai, incrível, vamos.

Mas mais do que isso, acho que pra além da felicidade em fazer a luta, eu comecei a achar que eu era boa. Não só porque eu peguei os golpes rápidos e porque eu entendi bem os chutes, porque eu fui, acho que respondendo ali de um jeito rápido. Mas porque o professor disse que eu era boa. E esse foi o erro.

Ele olhou para mim e falou, você está indo bem. Esse foi o erro. Porque daí veio a segunda aula. E quando veio a segunda aula, ela foi diferente da primeira em um aspecto. Porque agora eu não interagia só com o professor. Então, minha aula não era só com o professor.

eu teria de me juntar aos outros alunos. Teria que treinar junto com os outros alunos. E com 10 minutos de aula treinando com os outros alunos, eu que estava me achando ótima, vi o quanto eu era ruim. Eu defendia mal, eu avançava mais mal ainda, eu saí com um corte discreto na boca, porque eu segurei errado o aparador. O aparador é tipo um escudo de espuma, que você coloca no antebraço para se defender dos chutes ou dos socos.

E aí eu segurei errado o aparador. E aí a menina deu um chute. Um chute não, um chute, um soco, nem lembro mais. Eu bati com o meu próprio braço no meu próprio lábio. Eu tava boa nesse nível. E quando eu terminei a aula, assim, eu saí da aula e meu ego tava derrotado, assim. Completamente destruído, assim.

E porque meu ego tava destruído e derrotado, uma parte infantil minha, que habita em todos nós, apareceu ali, quando eu tava saindo da sala, dizendo, eu não vou mais, eu não vou mais passar esse tipo de humilhação, eu não vou passar mais esse tipo de vergonha, eu não vou mais. E como eu tava só humilhada mesmo pra dizer qualquer coisa, eu só olhei pra essa parte infantil minha esperneando e deixei ela espernear por vários dias, falando, daqui a pouco a gente conversa.

E aí

Só que aí, meus amigos de bar, o tempo passou. E como ser adulto é reconhecer as nossas infantilidades e ir além delas, mais tarde eu lembro que até o momento eu estava abrindo o carro, eu acho que tinha parado na padaria, não lembro, mas eu lembro da cena que eu estava abrindo o carro. E veio essa memória da aula, né? E veio aquela memória de, nossa, meu Deus do céu, achei que eu podia ser ruim, mas não tão ruim assim. E aí essa parte infantil dizendo, eu não vou mais, eu não vou mais.

E aí eu olhei nos olhos, como se estivesse olhando nos olhos dessa minha parte infantil e disse o que eu falaria para uma criança que é... Só tem um jeito de ficar fácil, Natália, que é se você continuar indo. E no dia seguinte eu estava lá de novo. Ainda ruim, mas um pouco mais humilde, né?

O bom de ser ruim, de perceber que você é ruim, porque você fica humilde. E confessando o professor também, falando, professor, talvez você precise me explicar muitas vezes, porque eu nunca fiz luta e porque é isso, é algo novo. Cada vez que o meu ego tentava me apavorar ali no meio dos golpes, tentando me fazer sair correndo e nunca mais voltar, ou falar que eu tive que mudar de casa para não ter que justificar o professor porque eu não fui mais, eu voltava para conversar com a minha parte infantil e dizia,

É assim mesmo. É assim que é. Continua. Tá tudo certo. Tá tudo dentro da normalidade. Você não precisa ser protagonista aqui. Você não precisa ser a boa zona aqui. Você não precisa ser a melhor da aula. É assim mesmo. Ou como disse um motorista que eu peguei Uber recentemente. Só leva a buzinada quem dirige. Tá certo.

É assim mesmo, só bate o carro quem dirige, tá certíssimo. Essa conversa com o motorista, aconteceu, eu tinha ido levar o carro no mecânico, e eu fui levar o carro no mecânico porque eu tinha me envolvido numa leve batida, foi realmente uma leve batida, mas aí acabou amassando meu carro, ralou um pouco e eu fui levar no mecânico. E aí precisava resolver umas outras coisas de barulho, aproveitei e deixei tudo lá.

Quando eu fui voltar pra casa, eu ia deixar o carro no mecânico e fui voltar pra casa. E peguei um Uber. E aí, eu conversando com o motorista e tal, e eu falei pra ele, nossa, você sabe, cara, eu tenho mais de 10 anos de direção, eu nunca tinha acontecido isso comigo, eu já tinha ralado, assim, um carro, mas desse jeito nunca. E, poxa, eu fiquei tão chateada comigo. Caramba, né, Natália? 10 anos de carta, você... Acontecer isso e tal.

E aí, ele virou pra mim e falou, fica tranquila, é assim mesmo. Só bate o carro, só arranha carro, só leva a buzinada quem dirige.

E eu achei de uma sabedoria, porque é isso. É verdade, é verdade. O único jeito de não ser ruim é não sair de casa. O único jeito de não levar a buzinada é não sair de casa. Só leva a buzinada quem dirige. Só é ruim quem tá ali dentro da sala de aula. Como diz Brené Brown, né? Eu quero aceitar a crítica de quem tá na arena junto comigo.

Mas essa situação, meus amigos de bar, me fez muito pensar por que é tão difícil ter hobby e experimentar coisas na vida adulta. Porque as letras pequenas dessas experiências, as letras pequenas do hobby novo, do esporte novo, da experiência nova, do sim que a gente nunca diz, mas começa a dizer, é que a gente vai ser ruim. As letras pequenas desse contrato estão dizendo que a gente vai ser ruim. Às vezes muito ruim.

Às vezes mais ruim do que a gente achou que poderia ser, sabe? E se a gente deixar o nosso instinto ou o nosso lado automático escolher, a gente vai viver uma vida de manutenção das coisas já testadas. Uma vida de manutenção do que a gente já faz. Porque quanto mais a gente vai envelhecendo, menos tolerante a gente fica pra viver coisas que desafiam o nosso ego.

possivelmente o trabalho vira esse lugar em que a gente topa o desafio, mas muito porque isso implica em outras coisas, tem a ver com grana, né? Então assim, ah, eu topo viver uma promoção porque tem a ver com dinheiro, vai me dar dinheiro vai me dar um reconhecimento vai me dar um reconhecimento, né? A gente já tá contando com esse reconhecimento, a gente já tá contando com esse status

Ah, eu aceito esse cargo novo porque isso vai me dar um outro lugar, né? Um lugar melhor, assim. O lugar fica nesse... O trabalho, na verdade, fica nesse lugar em que a gente topa o desafio porque se implica em outras coisas. E a vida pessoal vira esse lugar em que a gente deixa mais ou menos conhecido e previsível porque, ah, eu não sou obrigada, né? A fazer maitai e passar essa vergonha.

Eu não sou obrigada a, sei lá, levar buzinada. Eu não sou obrigada a me colocar nessa situação. Então, eu não vou. E aí, a vida vai virando, a vida adulta vai virando. Esse lugar de manutenção e de pouco frio na barriga.

E de pouca energia. E de poucas alegrias inesperadas. Porque é isso, né? Porque o ego vai sequestrando tudo. E tudo aquilo que vai me colocar num lugar menos conhecido. Menos familiar. E que eu sou menos bom. Eu nem testo. E eu acho que não tem nada de errado com isso. Nada mesmo. Absolutamente não tem. Mas.

Se você, meu amigo de bar, minha amiga de bar, tem se perguntado pra onde foi o seu frio na barriga, pra onde foi a surpresa, pra onde foi o inesperado, pra onde foi o... Nossa, que legal isso aqui! Eu acho que vale a pena olhar pra isso, sabe? Eu acho que a resposta talvez passe por aí.

Mas você deve estar se perguntando nesse momento por que eu contei a história da Simone Biles no começo desse episódio. E é porque, meus amigos de bar, como eu disse, provavelmente nem eu nem você sabemos o que deve ser a experiência de ser uma das atletas mais bem pagas e celebradas do mundo, tomando uma decisão que mexe com os ânimos do mundo inteiro. Mas eu acho que a gente sabe o que é estar preso numa idealização que rouba a nossa humanidade.

Eu acho que a gente sabe o que é isso que a Simone tá falando de tão me colocando num pedestal e eu tô só implorando pra ser humana. Eu acho que, em alguma medida, a gente sabe o que é tá preso numa idealização. E eu acho que a idealização que a gente conhece bem não é essa da Simone.

Eu acho que a idealização que a gente conhece bem. Não é aquela que vem de fora. Mas aquela que vem do nosso ego. Fazendo a gente olhar para a vida. E pensar que o lugar da tentativa. Do ser ruim. Do teste. Da brincadeira. Do espontâneo. Não cabe mais para a gente. Que agora a vida ficou séria. Então como a vida ficou séria. O lugar de quem testa. De quem erra. De quem cai. De quem bate o braço na boca. Porque estava distraído.

É o lugar da criança, não da gente. Então acho que a gente vai fazendo essa bifurcação em que o adulto, né, nós ficamos com as escolhas já testadas, com as escolhas mais seguras, e a criança fica com esse lugar do espontâneo, do leve, do alegre, assim. E aí...

eu acho que quando a gente cai nessa armadilha a vida vai ficando cada vez mais segura, né? E é isso que a nossa mente a nossa cabeça trabalha pra isso que ela trabalha pra nos deixar mais seguros e acho que ela é bem sucedida nisso, então a vida vai ficando mais segura, mas eu sinto que ela também vai ficando menor

Eu sinto que quando a gente vai cedendo a esse lugar do ego, da idealização, do tipo, nossa, agora que eu sou adulto, eu não posso mais me permitir ser ruim. E eu acho que a gente nem pensa nisso, né? Eu acho que é um pouco assim, eu sou tão bom no trabalho. Eu falei pra vocês, né? Que ano passado eu fui fazer aula de fit dance. E eu descobri como eu era ruim em fit dance. A pessoa falava, levanta o centavo.

Falava acendo, eu levantava. Era muito ruim. E começou a me dar um constrangimento real, assim, dessa situação, de ser tão ruim em algo. E eu lembro que eu saí dessa aula falando pra Deise, minha amiga, e eu falei assim, amiga, eu não lembrava que eu podia ser tão ruim em alguma coisa. E tem...

um tensionamento nesse lugar, porque na vida adulta, né, eu tô com 39, eu não sei com quantos anos você tá, mas eu acho que quando a gente passa dos 30, a gente já sabe mais ou menos aquilo que a gente é bom, a gente sabe mais ou menos aquilo que é ruim, e o nosso trabalho enquanto adulto, mesmo inconscientemente, é reforçar o que é bom e evitar o que é ruim. E aí é isso, aí vira uma manutenção desses lugares já conhecidos, esses lugares que a gente sempre vai, esses lugares que a gente sempre acessa, e esse lugar do...

do teste do que poderia ser bom, mas antes de ser bom vai ser ruim, a gente vai excluindo, né?

Por isso, meus amigos de bar, eu tenho olhado cada vez mais de perto pras minhas idealizações, pras minhas auto-idealizações, tô inventando essa palavra, e pras tentativas do meu ego de me deixar segura, que no fim das contas, me deixa segura, mas me protege do que poderia me fazer bem, sabe? Me protege das versões que eu poderia conhecer sobre mim se eu não tivesse tão preocupado em me manter só segura.

E o seguro é nesse lugar, não é uma segurança concreta, né? Porque eu não tô me colocando em risco. É só uma segurança que, no fim, quer proteger aquilo que eu penso sobre mim. É só uma segurança que, no fim, quer me proteger. De pensar que, às vezes, eu vou ser muito ruim mesmo. Que eu vou ser muito ruim. Que, ah, tudo bem, eu sou boa em um monte de coisa, mas eu não sou boa em tudo. E eu acho que é essa tentativa do ego de nos proteger dessa... Dessa certeza, né? De que a gente não é bom em tudo.

E eu tenho olhado cada vez mais de perto pra isso. Inclusive, recentemente, eu passei por uma situação muito ilustrativa, que eu acho que ela é muito boa. Eu tive que tomar uma decisão, gente, profissional, muito difícil. Assim, muito difícil mesmo. Daquelas que, mesmo quando você não tem insônia, você tem dificuldade pra dormir, sabe?

É, foi mais ou menos isso. Eu tava muito tensa com essa decisão. E eu sabia que essa decisão não poderia ser outra. Apesar dos desconfortos, eu sabia que essa decisão tinha que ser essa decisão. Mas saber que tinha que ser essa decisão não deixava ela mais fácil. Pelo contrário, ela tava muito difícil.

eu cheguei a essa decisão na sexta-feira, na sexta-feira passada, e eu só ia ter conversa com a pessoa na segunda-feira. Então eu passei sexta, sábado e domingo pensando nisso e tentando sustentar essa decisão em mim. E aí chegou a segunda-feira, essa decisão envolvia uma conversa, a gente marcou uma conversa por Zoom, eu disse o que eu precisava dizer, falei tudo que, né, as coisas que tinham me motivado a essa decisão e quando eu desliguei a câmera, quando a conversa acabou, eu fui pro banho e eu fui pro banho chorar.

literalmente. E eu sabia, naquele momento, quando eu tava chorando no banho, que o choro, que esse choro, era uma tentativa muito sábia do meu corpo de regular as emoções, de regular as minhas emoções, de liberar a tensão que eu tava sentindo há três dias.

Mas mesmo sabendo que era uma tentativa do meu corpo de regular as emoções, uma parte minha, que é a parte séria, sabe assim? Uma parte minha que é a parte adulta e que me idealiza muito, essa parte adulta minha que idealiza muito quem eu sou, começou a dizer, meu Deus, Natália, mas que coisa ridícula chorar no banho nessa altura do campeonato, sabe? Você tá com 39 anos, você não deveria chorar mais nessa altura do campeonato depois de uma conversa difícil.

E aí foi muito bonito, meus amigos de bar, que quando essa parte que idealiza muito quem eu sou se levantou criticando o meu choro, uma outra parte minha, muito sábia e muito mais tranquila, porque é tranquila na própria sabedoria, disse, você só tá chorando com 39 anos no banho porque é com 39 que você tem coragem de sustentar esse tipo de conversa.

Aos 20 não ia ter choro porque aos 20 você ia engolir esse incômodo. Você só tá chorando agora porque você sustentou essa conversa. Você só tá chorando agora porque esse é um jeito do seu corpo compensar a tensão, que você sustentou. Aos 20 você não passaria por isso porque aos 20 você não começaria essa conversa. Então a Natália que tá chorando no banho é a Natália que sustenta o incômodo de dizer.

E é aí que eu queria chegar. E é por isso que eu tô contando essa história. E é por isso que eu contei a história da Simone Biles também no começo do episódio. Porque quando a Simone Biles desiste das Olimpíadas pra cuidar da saúde mental, o que as pessoas estavam vendo na Simone Biles era fraqueza, era covardia, era...

desistência, era fragilidade, porque a gente idealiza a força. A gente idealiza a força como se força fosse passar por cima de tudo sem critério nenhum. A gente idealiza a força como se força fosse continuar a despeito de qualquer coisa, fosse passar por cima de tudo sem critério nenhum.

fosse nunca desistir. Quando, na verdade, força é poder sustentar a decisão de não sustentar mais o insustentável. E aí, por isso que eu trouxe essa história da Simone Biles pra essa situação cotidiana que é a aula de Maitai e que também é essa conversa. Porque quando a gente se idealiza, a gente exclui da conversa toda a nossa humanidade.

E a nossa humanidade, é quando a gente olha para a nossa humanidade, que a gente vê as nossas versões que vão para a aula sem saber exatamente o que fazer, porque afinal de contas está vivendo um esporte novo. A idealização que exclui da conversa, o choro depois de uma conversa difícil como uma forma de regular. A idealização, ela desenha uma forma e tenta a gente fazer caber nessa forma a todo custo.

E aí, eu acho que um bom jeito da gente perceber se a gente tá se idealizando ou não, é voltar pra essa fala da Simone Biles, sabe? E é transformar essa fala da Simone Biles em pergunta. E eu acho que uma forma de transformar a fala da Simone Biles em pergunta é quando a gente diz, será que as ideias que eu tenho sobre mim estão me permitindo que eu seja humano?

Será que as convicções que eu tenho sobre mim estão me permitindo que eu seja humano? É eu na aula de Mai Tai, tentando lidar com o meu ego o tempo todo de desistir daquilo, porque eu não sou boa. E aí eu me perguntando, será que a idealização que eu tenho sobre mim na aula de Mai Tai está me permitindo que eu seja humana?

É eu chorando no banho, me perguntando será que as ideias que eu tenho sobre mim, as idealizações que eu tenho sobre mim estão me permitindo que eu seja humana, que eu consiga lidar com essa conversa de um jeito humano, porque a Natália que eu idealizo é a Natália irredutível, inquebrável, a Natália forte o tempo todo, só que essa Natália não existe.

A única opção que eu tenho, ou a melhor opção que eu tenho, é olhar para quem eu sou e me perguntar, será que as ideias que eu tenho sobre mim, será que as formas com que eu me posiciono estão me permitindo que eu seja humano? E eu acho que nesse sentido a Simone Biles dá uma lição para a gente, porque quando o mundo inteiro está contra aquilo que você está fazendo, o único lugar que você pode se ancorar para não sustentar mais o insustentável, olhando para dentro, sabe? Esse é o único lugar em que é possível se ancorar.

É dentro de você. E eu acho que é isso que ela fez. E aí eu fico pensando que se a Simone Biles, né? Que teve que sustentar uma decisão tão difícil como essa. Lidando com o olhar do mundo inteiro. Literalmente do mundo inteiro. Ela me parece uma boa inspiração. Pra eu lidar com a minha aula de Mai Tai. E pra eu lidar com as conversas difíceis também.

É isso, gente. Espero que tenha feito sentido pra você. Espero que tenha te feito uma boa companhia. Se você gostou, se fez sentido pra você e você puder, quiser conseguir compartilhar esse episódio nas suas redes sociais, isso ajuda muito a gente a chegar em outros lugares. Se você puder também me contar como esse episódio chegou, eu vou ficar muito feliz. Agora, se você quiser ajudar a gente mesmo...

A impulsionar esse episódio. Para que ele chegue em outros lugares. Eu vou pedir para você deixar um emoji de ginasta. Aqui nos comentários. Tem um emoji no celular. Que é tipo uma menininha. Dando uma estrela. Uma estrelinha. Isso ajuda muito a gente chegar em outros lugares. Então é isso meus amigos de bar. Obrigada por terem me acompanhado até aqui. Obrigada por ter dividido seu tempo comigo. A gente se encontra na semana que vem. Um beijo nessa cara linda. E até mais.

E aí

S08EP324 - Para onde foi o seu frio na barriga? | Castnews Index — Castnews Index